Despertados
8 O Porão
Notas iniciais
CAPÍTULO 08 — O PORÃO
–Mônica!- o chamado me obrigou a abrir os olhos, era Magali! -Esqueceu de por o celular pra despertar, é?
–O quê?
–Você tem quinze minutos pra se arrumar, as aulas vão começar daqui a pouco!
–Ah, é verdade! Obrigada!
Me levantei olhando em volta, ainda não estava acostumada com o novo ambiente. Peguei o uniforme do colégio dentro do pequeno armário, estava indo para o banheiro quando percebi que a cama de Dora estava vazia, imediatamente o sonho voltou a minha mente espalhando calafrios pelo corpo todo.
–Você sabe onde está a Dora?
–Não! Ela deve ter acordado junto com a Denise!- Magali penteava o rabo de cavalo em frente ao espelho.
–Eu precisava falar com ela!
–Sobre o quê? Vocês se conheceram ontem!
–Nada importante! Vou tomar banho!
Eu não tinha dúvida de que Dora realmente havia entrado no meu sonho, quando meu teste de ontem tinha acabado eu não sabia bem o que o olhar daqueles homens estranhos significava, mas agora estava claro, eles estavam com receio de me manter no colégio. Eles iam me expulsar se eu não resolvesse meu problema de com a telecinese.
Uma ideia surgiu na minha cabeça, talvez eu pudesse contornar aquela situação. Saí do banheiro sem nem ter tomado banho, precisava falar com Cebola o mais rápido possível.
–Mônica? Aonde você vai?
–Tenho que falar com uma pessoa, urgente! Te vejo na sala!
Corri pelos corredores até chegar a ala dos dormitórios masculinos, no jantar de ontem Cebola havia me dito que estava no quarto vinte e dois, chegando lá bati algumas vezes na porta até um dos colegas de quarto dele abrir, um garoto de cabelos loiros e cacheados.
–Bom dia, preciso falar com o Cebola! Ele está?
–Está sim, só um minuto.... CEBOLA, TEM UMA GAROTA AQUI NA PORTA!- não sei como os alunos das portas ao lado não saíram para ver quem estava berrando.
Alguns segundos depois Cebola estava na porta, visivelmente surpreso porque já era quase hora das aulas começarem, ele tinha acabado de sair do banho visto que estava com o cabelo molhado e uma toalha apoiada nos ombros.
–Oi, veio trazer um café pra mim? Por que eu acordei em cima da hora, tô numa correria!
–Desculpa aparecer assim mas preciso da sua ajuda! Acho que o café vai ficar pra depois, aliás a primeira aula também!
–O negócio deve ser sério! Pra onde nós vamos então?
–Não sei! Precisa ser um lugar vazio! Você conhece algum?
–Eu não, mas tem uma pessoa aqui que deve conhecer! CASCÃO!
–Que foi?- a voz do Cascão nem parecia tão distante a ponto do Cebola ter que gritar.
–Preciso que você banque o guia turístico pra mim e uma amiga!
–Quando?
–Agora!
–Já vou!- A voz do Cascão soou totalmente despreocupada, estudos não devia ser o forte dele.
Saímos pelo corredor enquanto os outros alunos corriam para as salas de aula, eu estava incomodada, todas as pessoas no corredor olhavam para mim enquanto passavam, só depois percebi que além de eu ser a única aluna sem uniforme eu ainda estava vestida com meu pijama com estampa de carneiros. Poucas vezes fiquei tão envergonhada.
Estávamos prestes a sair da horda de adolescentes quando esbarrei em um deles.
–Mônica! O que você está fazendo aqui? Eu te procurei por um tempão?- Magali parecia cansada e irritada.
–Magali, não dá tempo de explicar, eu tenho que resolver uma coisa importante demais pra deixar pra depois!
–Tem a ver com o seu dom não é?
–QUÊ?- eu ainda não sabia qual era o dom dela, talvez fosse telepatia.
–Eu não sou boba colega, desde o dia em que você explodiu aquele corredor eu soube que as coisas não vão bem pra você! O diretor tem o costume de se livrar de alunos que são considerados forte demais, só pra não manchar a reputação do HFA.
–Sim, eu fiquei sabendo, é por isso que eu tenho que tomar uma atitude! Se alguém perguntar de mim....
–Desencana Mônica, eu vou com vocês!
–É melhor não!
–Vamos logo!- disse ela abrindo espaço entre os garotos, a seguimos apesar de ser Cascão quem sabia o caminho certo.
Cascão nos levou até o porão do colégio, ele disse que havia vasculhado o lugar inteiro em forma de mariposa à dois dias atrás, procurei nem pensar nas razões dele para fazer aquilo.
O porão era enorme como um estádio, colunas com largura de sequoias sustentavam todos os andares à cima do teto de concreto cru, além de aparar centenas de caixas e objetos esquecidos. Cascão encontrara o interruptor, as luzes revelaram teias de aranha no teto e partículas de poeira no ar, fomos até o centro do porão onde ainda havia espaço livre.
–Então, qual é o motivo de tanta discrição?- Cebola perguntou .
Cascão estampava na cara a curiosidade, eu ainda não o conhecia o bastante, mas eu não podia mandar ele sair depois de ter me ajudado,precisava dar à ele um voto de confiança.
–Fiquei sabendo que hoje vai acontecer outra prova, mas só porque o diretor e outros caras estão desconfiados de mim. Eu preciso treinar agora mesmo, senão eu posso perder o controle e ser expulsa do colégio!
–Perder o controle! Por que? Você é tipo uma bomba relógio?- Cascão perguntou com um tom mais sério.
–É mais ou menos isso Cascão, mas nós podemos ensina-la a conter isso.- Cebola respondeu em meu lugar. -Mas se você preferir, pode sair e voltar pro quarto, desde que não conte pra ninguém sobre isso!- eu concordei com Cebola e olhei fixamente para Cascão esperando a resposta dele.
–Relaxa Cebola, eu só fiquei surpreso. Okay, acho melhor ficar com vocês do que dormir na aula de história. Qual é o plano?
–Esse é o problema, não temos um plano!- Cebola falou.
–Como assim? você não disse que podia me treinar?- agora era nele em quem fixei os olhos.
–Você nunca vai conseguir aprender a se controlar em um dia Mônica. Eu demorei semanas pra perder o medo de usar a invisibilidade.
–Eu também demorei muito tempo pra me acostumar!- Magali afirmou.
–Eu também!- Cascão sublinhou.
–Então o que eu devo fazer?- perguntei aos três.
–Acho que você vai ter que encarar a nova prova!- Cascão sugeriu.
–Talvez se você fingir que está doente!- Cebola sabia que a ideia era péssima então revirou os olhos -Esquece!
–Eu acho que posso dar um jeito de cancelar esse teste!- Magali parecia estar desenhando seu plano mentalmente.
–Tem certeza?
–Mônica, eu consegui forjar o seu teste de ontem manipulando o vento pra fazer você vencer. Então sim, tenho certeza!
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