Despedida
1 1967
Notas iniciais
Though we gotta say goodbye for the summer
Darling I promise you this
I'll send you all my love every day in a letter
Sealed with a kiss
Lilia não era de ficar quieta durante suas sessões de treinamento.
Não que ela fosse do tipo a fazer muito barulho, mas ela gostava de ter sua presença notada. Um lembrete educado de que Yakov deveria se apressar se ainda queria sair com ela. Ela podia conversar com outras patinadoras para passar o tempo, já que as garotas sempre têm algo para fofocar que não gira em torno de gelo ou sapatilhas. Ela ainda poderia comentar sobre o seu programa atual, com um simples aceno de apreciação ou um curto e grosso "Está feio." sobre sua sequência de passos. Houve até uma época em que Yakov patinava preguiçosamente de propósito para que pudesse pedir a ela para mostrar coreografia ideal, numa desculpa para patinarem juntos.
Mas hoje não havia nada. Apenas um olhar vago para a superfície vítrea e lisa do gelo como se ela estivesse imersa em pensamentos difíceis de afastar. Estes não pareciam muito agradáveis.
Quatro meses. Se passaram quatro meses desde a última vez em que tiveram uma conversa cara a cara.
Eles moravam na mesma cidade, tinham o mesmo círculo de amigos, não deveria haver motivos para aquilo. No entanto, entre trabalho, treinos e ensaios, encontrar tempo livre em seus horários era uma tarefa complicada agora. Eles costumavam sair mais quando ela estava na escola e até isso era difícil.
Finalmente, quando eles conseguem um dia vago, ela está quieta desse jeito. Feltsman tinha uma experiência ruim com Lilia em silêncio. Ela tendia a esconder problemas e dizer que está bem, que não era nada. Era estúpido e preocupante.
(Yakov também era assim, às vezes. Apenas mais uma coisa que eles tinham em comum.)
Treinador Andrei não demorou muito para liberá-lo da recapitulação do programa longo, especialmente depois de perceber a jovem dançarina nas arquibancadas. Havia poucas coisas que poderiam suavizar um antigo treinador como ele. Memórias de uma Lilia menor com franja e de um Yakov ainda adolescente brincando de pique no gelo faziam um bom trabalho.
— Vamos parar por hoje, Yakov. — Andrei chamou à borda da pista. — Vá com Baranovskaya, talvez ela saiba o que há de errado com seus pés.
Lilia reagiu, mesmo que não parecesse entender o que estava sendo dito e por que ela foi mencionada. Ela ainda sorria educadamente para o técnico enquanto se levantava de seu lugar, indo em direção a Yakov enquanto ele pegava seus protetores de patins.
Ele disse "Oi" e pediu um pouco mais de tempo para que ele pudesse trocar de roupa. Ela apenas assentiu. Sem fazer careta, sem suspiros dramáticos, nem mesmo uma sugestão de qual bailarina mimada eles iriam reclamar naquele dia. Isso era suspeito aos seus olhos.
Enquanto refletia sobre isso no vestiário, Yakov se perguntou se estava pensando demais. Lilia não era criança. Se ela quisesse apresentar uma imagem mais séria agora que estava trabalhando, ele não poderia fazer muito. Ela nunca foi uma menininha de escola risonha para começar.
Lilia sempre teve uma chama nos olhos, contudo. Um lampejo de perseverança revestido de teimosia que não a deixava sair de uma briga, não importava o quão perigosa ou tola soasse. Se ela quisesse algo, ela teria. Ser uma patinadora profissional por pura birra não estava na lista dela, infelizmente. Yakov se ressente de não tê-la conhecido antes dela ter investido muito no balé.
Aquela luz não estava lá hoje. Seus olhos só mostravam aquela incerteza distante típicas das mentes que estavam em qualquer lugar, menos no agora. As pessoas crescem, mas elas não devem parecer tão sombrias como a garota estava agora.
Como se isso não bastasse, Lilia decidiu que era um dia perfeito para fazer algo com o cabelo além do coque de sempre. Ela usava uma tiara de pano, as mechas escuras caindo livremente em ondas até a cintura. Considerando o quão confortável ela parecia, Yakov supôs que agora a usasse com frequência. Eles costumavam ver aquele cabelo solto uma vez por ano, no máximo. Ele quase sentia falta do coque.
Lembrar-se de penteados perdidos não o levaria a lugar algum, no final. Agora que eles já estavam deixando o estádio da CSKA para o ar ainda fresco de maio, ele ainda não sabia por que Lilia estava tão estranha. Hora de uma conversa de verdade.
— Aconteceu alguma coisa com você? — não valia a pena ficar dando voltas, ele sabia que não teria uma resposta imediata.
Lilia piscou algumas vezes, tentando se situar na conversa. Talvez ela não tenha sido a melhor em tentar parecer normal.
Como ele previu, ela evitaria o tópico.
— Não é nada. — foi a resposta despreocupada enquanto ela olhava para frente, para onde quer que estivessem indo.
Hoje era noite do cinema? Ou sorvete? Parecia ter se passado séculos desde a última vez que saíram juntos. Fosse o que fosse, ela estava grata por ter um pouco de ar fresco ao lado de Yakov. Ela pegaria qualquer coisa que lhe desse uma sensação de normalidade do tempo anterior à formatura.
Mesmo separados há algum tempo, há coisas que não mudam nem com semanas ou anos sem ver um ao outro. O talento de Yakov para notar suas mudanças de humor estava no ponto hoje, ele não pararia com um muito falso "Não é nada".
— Você parece distante. — ele disse indiferente, as mãos nos bolsos da jaqueta enquanto caminhavam pela calçada. — Você nunca perde a chance de se intrometer com a minha patinação e hoje você ficou quieta.
Ela não podia argumentar com aquilo. Seu habitual interesse artístico na patinação do rapaz foi deixado em segundo plano naquela tarde graças às ideias que a preocupavam. Lilia não era boa em mentir.
— Não é importante. — ela deu de ombros, esperando que ele esquecesse o assunto. — Deixa pra lá.
Seu erro foi dizer a ele para esquecer, porque agora Yakov definitivamente estava interessado.
— Minha opinião sobre "importante" é diferente da sua, às vezes. — ele listou mentalmente coisas que poderiam incomodá-la, desde trabalho até relacionamentos, apenas para um pensamento súbito fazê-lo franzir a testa. — É sobre o Yulian?
Isso ganhou uma reação mais animada, quando Lilia olhou para ele com fingido tédio.
— Por que você sempre assume que é um garoto? — ela perguntou em leve divertimento, uma sugestão de um sorriso em seus lábios. Não é como se Yakov sempre se desse bem com seus namorados, mas o mais recente tem tido mais dificuldade para conseguir sua aprovação.
Ele encolheu os ombros, secretamente aliviado por não ser esse o problema. Ele não estava com vontade de odiar Chesternev com razão real hoje.
— Foi apenas um palpite, mas se é isso, estou sempre pronto para falar mal do seu namorado.
Lilia apenas revirou os olhos, grata pela mudança no tom da conversa. Mas ela sabia que ele não iria deixar isso quieto tão facilmente.
— Não é ele. — ela admitiu, considerando suas próximas palavras. Era como se dizer em voz alta tornasse tudo mais real e ela não aprovava muito a situação. — Meu irmão vai para o Vietnã.
Yakov franziu a testa enquanto passava por uma lista mental dos filhos dos Baranovsky. Saber que o país deles estava realmente interferindo naquela guerra não era tão surpreendente, mas ele se perguntou qual irmão estava indo. Eles pareciam jovens demais para uma missão no exterior. Com Aleksandr ainda na Academia e Gavriil estabelecido em algum lugar em Krasnodar, até onde ele se lembrava, aquilo só os deixava com...
— Yegor? — ele perguntou referindo-se ao irmão mais velho de Lilia. Ela assentiu. — Eu não sabia que estávamos enviando tropas pra lá.
— Apenas alguns pilotos e conselheiros militares. Não é para ir a público. — ela nunca se preocupou em esconder coisas assim de Yakov, ele não era do tipo a espalhar segredos de Estado por aí.
Os Baranovskys estavam muito engajados na vida militar. Com um Polkovnik como pai, dois irmãos na marinha e outro nas forças aéreas, Lilia foi a única filha a seguir um caminho completamente diferente. Mas bailarinos são soldados à sua própria maneira. Ela só tinha um uniforme com mais babados.
No entanto, esta seria a primeira vez que um deles realmente iria trabalhar no exterior, em um verdadeiro conflito. Lilia era nova para essa sensação tensa e desconfortável de ver um familiar arriscando a vida.
— Você está preocupada? — era uma coisa estúpida para se perguntar, mas Yakov já tinha dito antes de se dar conta.
A garota não admitiria tão cedo, pelo visto.
— É uma grande oportunidade pra ele. — talvez se ela tentasse olhar pelo lado positivo, as coisas pareceriam menos problemáticas. Lilia estava agindo de forma egoísta por pensar assim, como se seus irmãos não devessem se colocar em perigo só por causa dela. Era o trabalho deles, de Yegor. Sua mãe disse nas cartas que ele parecia animado.
Ela deveria cuidar de seus próprios problemas e dançar como lhe mandavam. Foi ela que pediu essa vida.
— Isso não significa que você tem que encarar isso com um sorriso enorme. — foi a resposta empática do mais velho. — Você está com medo, é normal. Mas ele é um bom piloto. Vai ficar tudo bem.
Ela não comentou sobre isso e ele decidiu não acrescentar nada. Era como se Lilia estivesse de luto. Compreensível.
Ele queria animá-la, mas não sabia ao certo o que dizer. Balé e patinação não eram opções, esses encontros deveriam distrair, não estressá-los ainda mais. Pessoalmente, ele estava indo muito bem nessa temporada, mas não queria que tudo girasse ao seu redor.
Quando uma simples conversa com Lilia se tornou tão difícil, afinal?
— Vamos assistir a alguma coisa? — ela foi a primeira a quebrar o silêncio, enquanto eles inconscientemente chegavam no cinema.
— Se você quiser. — esse era o plano pra ser sincero, mas parecia que Lilia já havia se esquecido.
Ela assentiu, provavelmente sem motivação ou criatividade suficiente para pensar numa ideia melhor.
— Tudo bem. — ela olhou para os cartazes dos filmes exibidos, fazendo o seu melhor para lembrar qual era a última tendência. — O que tem de bom hoje?
— "Breves Encontros" tem Vladimir Vysotskiy no elenco. — ele respondeu recordando o que ouviu de seus companheiros de rinque. — É um romance.
Lilia detestava romances.
— Estou tentada. — ela disse sinceramente, cruzando os braços. — Tem algo pior?
Yakov sorriu com isso.
— O romance adolescente de Ilya Frez sobre balé?
A cara de repugnância que ela fez merecia um prêmio de atuação por si só.
— Só pode ser brincadeira.
— Se chama "Eu te amava". Algo como um estudante do colegial namorando uma garota da Vaganova. Irina disse que é bonitinho. — ele não estava animado com a perspectiva de assistir algo relacionado à dança com uma Lilia mal-humorada, mas seu estado aborrecido era muito melhor do que o deprimido.
— Parece o próprio inferno. — ela concluiu. — Eu aceito.
Ele sorriu mais abertamente agora.
— Sério?
— Sim. — ela assentiu, o canto da boca levantando levemente com a ideia. — Tomara que eu chore.
— É uma comédia, doida. — ele disse a empurrando levemente em direção à porta do estabelecimento.
Lilia comentou algo sobre seu senso de humor não ser normal e, por mais sombrio que aquilo soasse, era o mais próximo que Yakov estivera da "velha Lilia" naquele dia. Ela estava triste, em conflito e tentaria esconder enquanto pudesse. Se ela esquecesse mesmo que por pouco tempo, valeria a pena.
O filme foi bobo, mas não o suficiente para ser criticado o tanto que eles queriam.
Eles riram da ingenuidade e da vergonha alheia causada pelo protagonista masculino e de como eles representavam dançarinos como pessoas que caminham em sincronia perfeita mesmo fora de ensaios. Mas eles sorriram muito menos ao notar que os mesmos dançarinos amadurecem mais cedo do que as crianças normais e atrapalham suas relações por causa disso. Yakov sentia-se mais autoconsciente do que queria por simpatizar com um adolescente carente de atenção por uma bailarina.
Nenhum dos dois tocou nessa parte. Eles focaram nas cenas boas e fingiram que a maioria delas não fazia parte de suas vidas. Também arruinaria o doce do ponchiki coberto de açúcar se eles tentassem discutir como a realidade poderia ser amarga.
— Eu gostei do final aberto. — Yakov disse assim que eles deixaram o café com um saco de papel cheio de frituras recheadas e calóricas. Eles eram autorizados a bagunçar suas dietas de vez em quando e Lilia certamente merecia alguma comida de conforto. — Podemos pensar que eles acabam juntos.
— Eu não acredito nisso. — ela disse antes de colocar um dos doces na boca. Deus sabe o quanto ela ansiou por açúcar nos últimos meses. — Kolya é muito infantil para Nadia. Não funcionaria por muito tempo.
— Hum. — ele se ocupou com uma mordida na sua própria comida. Agora que era praticamente noite, aquilo teria que servir como jantar. — Talvez eles só precisem crescer um pouco. Aprender como fazer as coisas funcionarem.
Se a garota não estivesse tão interessada em terminar sua refeição, ela diria o quão irrealista aquilo era. Relacionamentos entre pessoas de diferentes indústrias eram difíceis, especialmente dentro das artes. Eles são movidos pela paixão e pela devoção plena que as pessoas normais simplesmente não entendem. Eles pertenciam aos seus semelhantes. Bailarinos, escritores, músicos... Atletas, também. O tipo esforçado.
Era uma das razões pelas quais sua amizade com Yakov persistia por tanto tempo. Eles entendiam as necessidades e limitações um do outro.
É também por isso que ele não insistiu na conversa sobre Yegor. Yakov sabia que suas preocupações eram mais sérias do que ela deixava à mostra. E agora que se lembrava de que realmente estava preocupada, Lilia não pôde conter pergunta mais idiota e aleatória de sua vida:
— Você ainda quer ter filhos?
Yakov desistiu completamente de seu ponchiki para olhar para ela com uma expressão muito confusa.
Que?
— Como a conversa chegou nisso? — Ele disse quase sem pensar. Do jeito que ela dizia, parecia que eles haviam sentado e discutido isso de uma maneira séria, planejando cada passo do futuro meticulosamente. A única ocasião em que eles tocaram no assunto foi como uma piada contada entre amigos, na qual a resposta de Yakov fora positiva. Será que se referia a isso?
Yakov também poderia fazer uma piada agora e dizer "Você quer me ajudar?" se ela não parecesse tão séria.
A garota abriu a boca para responder, apenas para fechá-la novamente por vergonha. Merda, será que ela podia simplesmente pegar um último ponchiki e fugir por mais um mês?
Mas ela já cavara seu túmulo e Yakov não a deixaria em paz depois de uma pergunta tão estranha. Melhor arcar com as consequências.
— ...Eu não acho que estou apta pra isso. — não era mentira, mas parecia mais uma meia verdade. — Eu tenho muito trabalho a fazer e crianças precisam de muita atenção... E tem guerras demais acontecendo...
O jovem patinador já tinha uma resposta para a primeira e segunda frase, mas teve que se conter para a terceira razão. Parecia a mais verdadeira delas, especialmente agora que sabia sobre o irmão dela.
Era frustrante, porque como ele poderia competir com isso? Não é como se ele pudesse dizer que é estúpido, não com Lilia temendo a perda de um membro da família nesse exato momento. E por que eles discutiriam por causa disso, para começar? Ele não tinha nada a ver com os futuros filhos de Lilia. Era um problema para aquele pianista chato que ela tinha como namorado ou qualquer cara com quem ela decidisse se casar.
Feltsman já podia sentir suas bochechas queimando de frustração, mesmo que ele não soubesse por causa de que ou quem. Não tinha por que aquilo o estar incomodando, mas estava. Só que não pagaria bem ficar bravo por nenhuma razão com Lilia, de todas as pessoas. Ela tinha preocupações reais e ele era seu amigo. Ele deveria ser útil.
Depois de suspirar profundamente e esmagar o saco de papel com um pouco mais de força do que o necessário, ele murmurou:
— Eu não posso te impedir de pensar assim...
— Você acha que eu sou idiota. — ela adivinhou sem ficar impressionada, fazendo um trabalho pobre em esconder seu descontentamento. Não é como se Lilia pudesse ficar com raiva disso, mas ela não podia evitar ficar contrariada.
— Não é isso! — ele contestou num segundo. Por Deus, eles estavam discutindo filmes há dois minutos. — Eu só acho que você não deveria fazer planos com algo tão horrível quanto uma guerra em mente. Quer dizer, qual é o sentido de viver com medo?
— Qual é o sentido de nutrir e dar amor a alguém apenas para tê-lo arrancado de você? — ela rebateu, parando de andar completamente. A essa altura eles estavam discutindo no meio da calçada sobre hipotéticos conflitos armados e crianças que não existem. — Homens vão para as linhas de frente, a maioria das mulheres fica pra trás e espera. Elas esperam por maridos, irmãos e filhos e rezam para que não morram.
— Não é sobre o medo de perder, mas sobre valorizar o amor enquanto ele vive. — ele tentou argumentar. — Nós não namoramos ou temos filhos com a certeza de que eles nunca irão embora. Fazemos porque queremos viver o momento.
Lilia queria gritar de raiva. Parecia mais digno do que chorar sem motivo. Viver o momento?! Ora, quem se casa feliz com a idea de que tudo aquilo pode acabar de uma hora pra outra? Que mãe fica em paz segurando o filho nos braços pensando que um dia não haveria nada mais a ser abraçado?
Ela queria dizer a Yakov que ele estava errado e bater na cabeça dele com uma maleta como Nadia fez no filme. Ele deveria concordar com ela porque eles sempre pensavam igual (...na maioria das vezes, para ser justo) e apoiavam um ao outro. Era o que amigos faziam.
Ela sabia que ele estava certo, mesmo que apenas um pouco. Ela sabia que fazer tudo temendo as consequências era totalmente inútil, como recusar um papel principal porque você tem medo de se machucar.
Mas se havia uma coisa que Lilia temia era ficar sozinha, mesmo que ela não fosse falar em voz alta nem por decreto. Sua vida sempre foi cheia de pessoas. Irmãos petulantes, colegas de classe, patinadores barulhentos, a platéia... Ela não estava acostumada ao silêncio total da solidão, muito menos depois que começou a ter mais amigos.
Se houvesse guerra...
A garota balançou a cabeça enquanto voltava a andar, agora com um pouco mais de velocidade e irritação.
— Eu vou pra casa. Parece que eu arruinei o passeio. — ela resmungou, não esperando por uma resposta.
— Lilia, espera... — o garoto reclamou enquanto corria um pouco para alcançá-la. Quantos anos ela tinha? 12? Não se deixava alguém falando sozinho assim! — Ei, faz semanas que a gente não se vê e eu não quero terminar isso com uma briga. Eu acho que você pensa o mesmo. Por favor, fica mais um pouco, assim eu posso me desculpar e temos menos uma dor de cabeça.
Yakov tomou uma boa decisão ao não tocá-la de qualquer maneira enquanto falava, pois do contrário ela lhe daria um tapa de verdade e as coisas só piorariam. Ele era do tipo que segurava seus ombros ou mãos enquanto pedia desculpas e Lilia definitivamente não estava com disposição para isso agora.
Mais uma vez, ele estava certo. Se ela estragasse tudo com Yakov agora, haveria outro problema desnecessário e Deus sabe quando eles iriam resolvê-lo. Ambos sabiam que não tinha sentido naquilo, mas ela estava tão estressada e qualquer coisinha era suficiente para irritá-la e também...
— ...Lilia? — Yakov soava um tanto desesperado agora, se a voz baixa e incerta já não fosse prova. — Você realmente tá brava comigo?
Ela respirou profundamente com os olhos fechados, esperando que isso acalmasse seus nervos. Deu certo. A moça parou de reclamar com rancor para apenas reclamar.
— Eu ainda estou chateada, mas não vou embora. — era uma maneira mais fria de dizer "Se você pode consertar isso, por favor faça, porque eu não sei como".
— Tudo bem. Podemos trabalhar com isso. — ele assentiu como se estivesse se assegurando das palavras. Ele gesticulou com a mão para eles continuarem a caminhada, esperando encontrar as palavras certas para dizer ao longo do caminho.
Eles andaram em silêncio por um tempo depois disso. Havia poucas pessoas nas ruas, mas não o suficiente para deixá-los preocupados com o toque de recolher. Com os cotovelos se esbarrando de vez em quando, Lilia se perguntou se ele se ofereceria para andarem de braços entrelaçados por mero cavalheirismo. Eles faziam isso de brincadeira quando saíam em grupos, cada menino com uma parceira. Às vezes ela ia com Anatoly, porque ele era gentil e não fazia mal desgrudar de Yakov de vez em quando.
Seus braços ainda estavam desvinculados quando ele começou numa voz baixa:
— Sinto muito se magoei você. Eu sei que você está preocupada com Yegor e tá com a cabeça cheia agora. — ele arriscou um olhar de lado, apenas para encontrá-la olhando para a calçada. — Eu deveria ter esperado até você estar mais calma antes de querer contestar.
— Está tudo bem. — ela disse aumentando o aperto em sua bolsa, considerando que ela não tinha certeza do que fazer com as mãos agora. Lilia não reclamaria de braços ligados nesse instante.
— Se há algo que você gostaria de dizer, vá em frente. Eu escuto.
Ela considerou seriamente pedir a mão dele desta vez. Mas ambos estavam pegajosos com açúcar e geléia, só tornaria a cena mais ridícula.
Mas ela queria a garantia. A confirmação de que Yakov estava ali bem ao seu lado. Esse é o ponto principal de seu pânico sobre Yegor: ela levou dezenove ingênuos anos de sua vida para perceber que as pessoas vão embora. Não repelidas por algo que ela fez ou disse, mas forçadas por poderes maiores. Guerras eram assim.
Foi preciso muito orgulho para admitir a próxima parte, mas ela ainda fez em uma voz quase inabalável:
— Se os americanos atacassem hoje, mandariam meu pai e meus irmãos primeiro. — seus olhos encontraram os dele agora, esperando que eles lhe dessem confiança para continuar. — Talvez minha mãe fosse, também. Ela não é do tipo que fica quieta enquanto o mundo desmorona. Se as coisas piorassem, mais homens seriam chamados. Eles levariam você, Yasha. O que restaria de mim?
O que seria de mim sem você?
Yakov queria poder se sentir lisonjeado por aparentemente ser uma prioridade mais alta nos interesses de Lilia do que Yulian Chesternev. Mas os dois sabiam a verdade: Yakov era um vencedor desde o início. Seria o mesmo se ele tivesse uma namorada. Havia muitas coisas unindo os dois para serem varridas por um novo relacionamento.
Mas vê-la com medo de um conceito tão surreal quanto perdê-lo em uma guerra era absurdo.
Ele aproveitou a oportunidade para segurar o pulso dela e, quando ela permitiu, entrelaçou seus dedos para conforto. O patinador secretamente sentia falta dos abraços, quando Lilia era mais baixa que ele e parecia uma boneca de porcelana a ser protegida. Grande tolice. A jovem dançarina podia lutar suas próprias batalhas e ganhar. Ao mesmo tempo, ela era uma das pessoas mais sensíveis que ele já conheceu.
— Você ficaria bem, eintlein. — as palavras foram ditas suavemente enquanto os dois andavam, as mãos ainda firmemente entrelaçadas e talvez um pouco sujas com os restos da sobremesa. — Você não precisa de ninguém para ser a forte, gentil e talentosa Lilia Baranovskaya que todos conhecem. — ele pensou por um momento antes de adicionar. — Se o Exército chamasse, você ainda não estaria livre de mim. Eu exigiria cartas.
— Cartas?
— Sim, de você. — ele sorriu para sua ligeira confusão. — Você escreveria pra mim, não?
A mais nova considerou o dito cenário. Lilia não era uma boa escritora. Anos trocando correspondências com sua família fizeram um trabalho ruim ensinando-na a colocar sentimentos e pensamentos num pedaço de papel. Ainda assim, se ela dependesse disso para conversar com Yakov, ela trabalharia para melhorar.
— ...Eu te escreveria toda semana. — ela respondeu em um sussurro, quase a confissão de um crime. — Todo dia, se eu pudesse. Alguém precisa lembrar você de voltar para casa em segurança.
— Eu não me machucaria.- ele brincou, continuando com aquele faz-de-conta mórbido em que eles se meteram. — Sabe quando os soldados carregam fotos como amuletos da sorte? Eu levaria aquela que Andrei tirou de você no rinque. Ela me protegeria.
Lilia fez uma careta ao se lembrar da dita imagem. Ela tinha 16, fora convencida a testar os novos patins que o clube comprara para uso público e foi pêga quase de surpresa pelo flash da câmera do treinador Andrei. Era nova e ele estava testando, foi a explicação dada. Ela não tinha muito direito de reclamar, considerando que usava seu gelo com uma liberdade que só perdia para os próprios atletas sem pagar nada. Para não dizer que ela era uma completa parasita, não era raro encontrá-la como professora assistente da turma infantil gratuitamente. Aguentar aquelas pestinhas era uma das provações para quem queria alguns minutos livres de gelo.
— Aquela em que eu estou com uma meia listrada ridícula? — ela perguntou cética. — Os outros soldados teriam lindas noivas em seus bolsos e você teria um fantoche barato.
— Você estava sorrindo. — Isso deveria ser explicação suficiente. É tão difícil conseguir um simples sorriso dela hoje em dia. — É motivo suficiente para se levantar e ir lutar contra os ianques.
Você é tão estranho, ela pensou. O que havia num sorriso? Yakov poderia ter coisas mais interessantes em garotas mais interessantes. Moças mais bonitas, com bochechas rosadas e mais cheias, menores e mais delicadas, com os cabelos loiros que ela sabia que ele preferia. Elas dariam um amuleto da sorte melhor, muito mais fácil de explicar do que o "Ela é apenas uma amiga" que ele teria que repetir no quartel.
Sua sanidade estava claramente sendo testada com esse devaneio sombrio, porque ela se surpreendeu ao continuar falando:
— O Bolshoi fez uma turnê durante a Guerra. Eu provavelmente dançaria por todo o país enquanto a OTAN invade o bloco oriental.
Yakov riu sem humor, não surpreendido nem um pouco pela política absurda do balé. Não era muito diferente dos esportes, afinal.
— O que irritaria mais: a sirene de ataque aéreo ou os chiliques de Ostroumova?
Lilia não pôde conter o sorriso malicioso que aquela frase pôs em seus lábios.
— Ostroumova é a própria sirene de ataque aéreo, Yasha.
Os dois riram juntos com aquilo, um som leve e livre que quase parecia alto demais para ser produzido à noite. As mãos unidas finalmente se separaram, mas a despreocupada conversa que logo se seguiu pareceu deixá-los mais próximos do que nunca. Não parecia que eles estiveram afastados por tantos meses, quase lembrava os velhos tempos. Era com isso que Yakov estava acostumado. Essa era a sensação de normalidade que Lilia esperava quando saíra de casa naquela tarde.
Por mais doente que fosse a ideia deles trocarem cartas durante uma guerra, com Yakov tendo uma fotografia amarrotada como companhia enquanto atirava em inimigos ocidentais e Lilia dançando para alegrar soldados e civis miseráveis, ela se sentiu melhor sabendo que não iriam imediatamente se separar. Haveria pelo menos uma pessoa que não a abandonaria, não importando o que o destino guardava para eles.
Por mais mórbido que soasse, ela era grata em saber que Yakov manteria sua promessa de amizade eterna até o fim do mundo. No final das contas, Lilia não conseguia ver um mundo sem Yakov Feltsman.
O tempo infelizmente voa e logo o casal se viu na esquina que levava ao prédio de Lilia. Suas colegas de apartamento deveriam estar se preparando para dormir agora, especialmente sabendo que o encontro não fora com Yulian. Yakov deixou de ser um bom tópico de fofocas em 1962.
— ...Então eu posso ir antes de embarcar para Kiev. — ele disse descomprometido, mas mentalmente tornando aquilo um evento que não deveria ser adiado. — Eu sinto falta de ver você dançando.
— Eu estou no corpo de baile, você não deveria perder seu tempo. — Lilia dispensou com um movimento da mão em descaso. Ela esperava conseguir um papel melhor para "Romeu e Julieta", mas parece que essa não seria a hora.
— A única coisa que eu perco é a minha paciência quando você fala assim. — não havia irritação real nas palavras. O Bolshoi era quem o provocava sem vergonha alguma escondendo Lilia dos holofotes.
Eles pararam à entrada do prédio, um silêncio confortável se instalando enquanto se preparavam para encerrar a noite.
— Obrigada por hoje. Eu realmente precisava disso. — Foi Lilia quem disse primeiro, os pés já no pequeno lance de escadas e um aceno leve com a mão. — Te vejo no domingo, Yasha.
Talvez tenha sido a estafa da semana o alcançando e o fazendo tomar decisões muito questionáveis, mas Yakov decidiu que precisava de uma última coisa para mandar aquele dia pelos ares.
— Eu não ganho um beijo?
Lilia, que já segurava a maçaneta da porta quando ele chamou, virou-se devagar e franziu as sobrancelhas.
— O que?
Mas que droga, Yakov, ela tem namorado! Tenha juízo!
Ele não escutou a única parte aparentemente funcional de seu cérebro, considerando que apenas sorriu de lado enquanto dava de ombros.
— Na guerra, quando os soldados estão partindo, eles recebem um último beijo como despedida.
Era isso. Ele perderia a amiga para não perder a piada. Uma piada de merda, ainda por cima. Impressionante atitude, Feltsman, você é um modelo invejável a ser seguido pela nova geração. Era ridículo, porque não havia como ele receber um beijo de Lilia naquela vida.
Bem, não um segundo beijo, pra ser específico.
Ou Lilia era uma pessoa muito compreensiva que via isso como uma tentativa patética de humor, ou ela era tão insana quanto ele. A última era a única explicação plausível para ela voltar a passos lentos e calculados até parar a centímetros de distância dele.
Talvez tenha sido o tempo em que eles ficaram sem se falar, ou Yakov tinha uma péssima memória para esses tipos de coisa, mas ele não se lembrava de ver aquele rosto com tantos detalhes. Desde as finas maçãs do rosto até os olhos verdes que cintilavam como o colar de turquesa que ele lhe dera na formatura. Na única vez em que estiveram tão próximos assim, ele estava mais interessado em beijá-la rapidamente antes que perdesse a coragem e a euforia do momento para prestar atenção a qualquer outra coisa. Ele finalmente se dera conta do que perdeu, agora.
E era particularmente assustador se dar conta de que mesmo Lilia não mudando nem um pouco, ela parecia ainda mais bonita naquela noite.
Ela poderia escolher entre um monte de respostas razoáveis para a brincadeirinha tosca. "Eu tenho um namorado." era bom, mas era de conhecimento comum. "Você é um idiota." deveria soar bem, mas não teria graça o suficiente. Ela gostava de um bom espetáculo, afinal de contas.
Assim, considerando que eles já não tinham noção de como amigos normais deveriam se comportar, ela escolheu a opção mais arriscada.
Lilia segurou seu braço e, achando divertido como ele prendeu a respiração ante a proximidade súbita, se curvou ligeiramente para sussurrar em seu ouvido:
— Vou deixar guardado pra quando você voltar. — o rubor em suas bochechas não podia ser evitado, por mais que ela estivesse sorrindo, mas esperançosamente a escuridão esconderia essa pequena fraqueza. — Como recompensa por defender o nosso país.
A tensão nos ombros dele se dissipou enquanto a dançarina se afastava, não se atrevendo a olhar para trás e atestar o estrago de sua performance. Ela estava ficando com sono demais pra isso.
Yakov teve um vislumbre de brilhantes olhos verdes olhando para ele através do vidro da porta suja antes de finalmente ficar sozinho na fria noite moscovita. O que ela estava pensando? O que aquilo significava? Entre a provocação inofensiva e a promessa de algo mais, ele não tinha certeza se ainda estavam falando a mesma língua.
O rapaz foi embora com a consciência de que aquilo foi apenas mais um dia normal, com um passeio normal e com a mesma Lilia que ele conhecia. Eles eram os mesmos, nada mudara naquela amizade. Ainda assim, ele não podia afastar a ideia de que mesmo sem nenhum beijo trocado, eles ainda se despediram de alguma coisa naquela noite.
Ele não sabia dizer o que era, mas permaneceria otimista para os rumos daquela guerra, contanto que tivesse Lilia por perto.
I don't want to say goodbye for the summer
Knowing the love we'll miss
Oh let us make a pledge to meet in September
And seal it with a kiss
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