Deslizes
20 Adeus
Adeus
28 de Junho
Pansy
Estava na minha cama há horas e mesmo assim o sono não conseguia me encontrar. Semanas haviam se passado desde que eu conversara com o ruivo pela última vez e sua frase ainda retumbava no meu subconsciente, de vez em quando voltando à minha mente e me deixando totalmente desorientada.
Acho que você precisa decidir seu lado, Pansy.
Meses atrás, eu poderia ter ignorado tais palavras na minha vida com facilidade e sucesso, mas eu não tinha mais essa capacidade. Não depois de tudo o que eu havia passado durante o ano. E por mais que eu quisesse, eu não conseguia deixar a ideia de lado e finalmente dormir, o cansaço me consumia e eu apenas fitava o pano verde escuro do dossel da minha cama.
Poderia tomar um lado na guerra? Eu evitava essa pergunta a todo custo, mas realmente já estava chegando um momento crítico, um momento que eu teria que decidir de que lado eu lutaria, se tivesse que lutar. Eu sabia que um dia eu teria que fazer minha escolha, mesmo que minha preferência fosse a neutralidade. Sempre fora.
Infelizmente a neutralidade já não era uma opção viável.
E para melhorar minha situação, eu não tive contato com Ronald Weasley por semanas. Nem um pouco, nem um minuto sequer. Mesmo que eu tivesse aulas em comum com a Grifinória, ele sempre se sentava longe, e eu me esforçava para focar minha atenção nas poções de Snape em vez de me virar para trás e tentar algum gesto imbecil. Parte do meu orgulho era responsável por isso.
Meus pensamentos foram cortados quando a porta se abriu, revelando que minhas companheiras de dormitório haviam chegado. Fiquei quieta, apenas esperando que elas se arrumassem para deitar. A cortina do dossel estava quase toda fechada e isso ajudava com que eu passasse despercebida.
– Acho que Hogwarts irá sucumbir...
A frase fez um efeito estranho no meu corpo e eu apurei meus ouvidos, tentando captar algo mais da conversa. Não sabia quem havia falado, mas sabia que as meninas tinham conhecimento de muitas coisas que eu não tinha. Ter pais Comensais e apoiar isso poderia ter seus pontos positivos.
O que eu estava pensando?
– Acho muito difícil Hogwarts sucumbir enquanto Dumbledore for o diretor.
Relaxei no mesmo segundo. Tínhamos Dumbledore, e Hogwarts sempre estaria segura, ponto final.
– Não seja ridícula. O diretor não está petrificado em Hogwarts, algum dia ele terá que sair do castelo.
Não entendi o que as meninas estavam conversando, mas algo me dizia que elas sabiam de um fato que eu não tinha conhecimento, estavam muito convictas no que falavam e conversavam como se esse fosse um assunto do dia-a-dia. Remexi-me inquieta com esse pensamento e fechei os olhos, suspirando.
Comecei a ficar aflita com a possibilidade de ter tomado uma decisão errada e ignorado tudo o que se passava à minha volta. E se minha decisão fosse crucial para minha sobrevivência na guerra?
– Vamos dormir, o dia hoje foi cheio.
Agradeci mentalmente por isso. Já não bastavam as minhas preocupações, eu não precisava de três garotas conversando assuntos sobre a guerra no quarto. Tentei me concentrar em meu sono inexistente, buscando-o meio forçadamente.
Foi quando eu escutei o barulho.
Isso não era normal, todo o castelo devia estar dormindo naquele momento. Pirraça não faria algo tão barulhento nem se quisesse matar Filch de raiva. De repente meu corpo se eletrizou, e eu sabia que depois do estrondo, eu nunca conseguiria dormir.
– O que foi isso?
Perguntei sem conseguir me conter, abrindo a cortina do dossel da cama. As meninas estavam sentadas na cama e me fitavam com o mesmo temor nos olhos.
– Não sei... pode ser alguém fazendo feitiços nos corredores.
Eu realmente gostaria de acreditar no que Bulstrode estava nos falando, mas nem a garota parecia acreditar.
– Eu vou ver o que está acontecendo.
Disse sem pensar, pegando minha varinha, pulando da cama rapidamente e saindo descalça do quarto e apenas de pijama. As garotas me seguiram, e no momento em que desci as escadas até o dormitório da Sonserina, eu vi que não fomos apenas nós a escutar o barulho, e a termos a ideia de investigar sua origem.
Os alunos se amontoavam na porta que dava para o corredor do castelo, outros apenas estavam sentados nas poltronas e olhando para o chão com uma fisionomia sonolenta e preocupada. As meninas se juntaram a Nott e Blaise, mas eu não as segui, queria saber a todo custo o que estava acontecendo pelo castelo de Hogwarts.
Segui em direção à porta, enfiando-me na multidão de alunos curiosos e acotovelando alguns para abrir passagem. A porta estava fechada, os alunos olhavam assustados para mim, como se esperassem uma reação da minha parte.
– Não vai abrir a porta?
Eu franzi o cenho e olhei para o sonserino do terceiro ano. Depois de alguns segundos de pensamentos lentos, lembrei-me de que eu era monitora da Sonserina e tinha passe livre para andar pelos corredores do castelo na parte da noite.
Virei-me para trás e procurei por Draco, mas não consegui achá-lo por perto. Estaria com Crabbe e Goyle? Um novo barulho fez meus sentidos se alarmarem, eu engoli em seco e virei-me para o aluno do terceiro ano novamente.
– Fique aqui e não deixe nenhum aluno sair. Se encontrar Malfoy, peça para que ele saia do dormitório e me procure. Eu vou ver o que está acontecendo.
Ele apenas assentiu e eu respirei fundo, girando a maçaneta da porta pesada e enfiando com cuidado a cabeça para fora do dormitório. O corredor das Masmorras estava vazio, como de costume. Olhei para o menino e ele sorriu para mim, me encorajando. Saí completamente do dormitório e fechei a porta, começando a caminhar com cuidado pelo corredor frio.
Ao sair das Masmorras, senti uma onda de eletricidade no castelo e percebi que algo estava errado. Um vulto passou ao meu lado e eu me virei, assustada. Era um professor de Hogwarts. Quem era, eu não poderia falar com convicção, passou rápido demais para que eu conseguisse descobrir sua identidade.
Continuei andando e cheguei perto do corredor onde ficava a Torre de Astronomia. Foi quando eu escutei a risada mais maldosa que eu havia escutado em toda a minha vida.
Estaquei, meu coração se acelerando em um segundo. Minhas mãos apertaram com força a varinha que estava no meu bolso e eu as senti escorregadias e geladas. O que era aquilo?
Consegui enxergar um vulto no final do corredor, andava depressa e em minha direção. Encolhi-me no corredor, ficando atrás de uma armadura grande. Era uma mulher, e parecia puxar alguém com ela.
Quando ela se aproximou o suficiente para que eu conseguisse enxergar com clareza, meu sangue gelou. Eu a conhecia. Seu nome era Bellatrix Lestrange. Aproximava-se com passos apressados e... empolgados?
Encolhi-me mais um pouco quando eu vi quem puxava. Draco estava fitando o chão, mas seguia o mesmo ritmo da mulher e parecia em choque. Era sensato tentar algo? Minha mão segurou com mais força a varinha quando ela passou perto da armadura, mas ela não me viu, apenas jogou Draco para frente e o garoto continuou andando.
Bellatrix apontou para o teto e um fio de luz roxa saiu da ponta de sua varinha, atingindo alguns quadros que estavam nas paredes, fazendo as pessoas que estavam pintadas saírem correndo, deixando apenas molduras douradas e fundos negros. Engoli em seco quando ela voltou a andar.
– Ele está morto! – ela soltou uma risada mais maléfica do que a anterior. – O velho está morto!
Voltou a andar, disparando feitiços pelos corredores, fazendo pedaços de pedras das estátuas caírem pelo chão, archotes apagarem e vidros de janelas quebrarem.
– Dumbledore está morto!
Sua risada ecoou pelo corredor quando ela virou, saindo da minha linha de visão. Senti um arrepio no meu corpo, não por Bellatrix, mas pelo que eu havia escutado dela. Dumbledore estava morto? Isso não podia ser verdade...
Comecei a sentir um enjôo estranho, como se alguém tivesse me dado uma poção muito ruim para beber. Meu estômago embrulhava e eu respirei fundo, tentando me acalmar. Um barulho de passos vindo em minha direção me despertou novamente e eu me esqueci do que sentia para olhar para o lado.
McGonagall andava apressadamente pelo corredor com o pequeno Flitwick em seus calcanhares, praticamente correndo para acompanhar os passos mais longos da professora de Transfiguração.
Ele conseguiu ver onde eu estava e se virou para mim ofegante e assustado.
– O que está fazendo fora do dormitório, garota?
Não respondi, apenas olhei para McGonagall, que parecia tão aflita quanto o professor de Feitiços. Ela virou-se para mim.
– Volte para o dormitório. Há Comensais da Morte em Hogwarts.
Mordi meus lábios e assenti. Ela pegou o ombro de Flitwick e puxou o professor novamente para recomeçarem a andar, com as varinhas em mãos e expressões tristes e determinadas. Engoli em seco, sentindo minha garganta arder por causa da respiração rápida e descompassada.
Não pensei muito, virei-me para o lado oposto do corredor e comecei a correr, torcendo para que não encontrasse mais ninguém pelo caminho. Já bastava Bellatrix Lestrange gritando para mim que o diretor de Hogwarts estava morto, ver Comensais andando pelos corredores não seria algo tranquilo no momento.
Cheguei até as Masmorras em menos de cinco minutos e rezei a Merlin que o menino do terceiro ano estivesse me escutado e não tivesse deixado ninguém sair dos dormitórios, mas já era tarde. Os corredores estavam cheios de estudantes com varinhas apontadas para todos os lados, alguns andando em grupos, outros correndo corajosamente sozinhos.
Encontrei Blaise e Nott andando na minha direção e parei, sentindo pela primeira vez o chão gelado de pedras do lugar. Eu nem havia percebido que estava com muito frio. Para falar a verdade, eu sentia apenas o suor gelado escorrer pelas minhas costas.
– Onde estão todos? – perguntei.
Meus lábios tremiam por causa da temperatura baixa. Blaise pegou meu braço levemente, me conduzindo para o outro lado do corredor, para onde todos os alunos andavam.
– Ele está lá embaixo, Pansy. Todos estão indo para lá.
Não entendi de imediato o que ele quis me dizer, apenas o segui, saindo novamente das Masmorras e olhando para os lados. Massas de alunos caminhavam apressadamente pelos corredores, alguns com lágrimas nos olhos, outros brancos feitos cera.
Reconheci alguns alunos da Corvinal e da Lufa-Lufa andando pelo corredor, e percebi que a notícia, que eu me perguntava se era verdadeira, já havia se espalhado pelo castelo.
Saí para o jardim de Hogwarts por uma porta lateral. O ar gelado me engolfou no mesmo momento e eu consegui avistar uma massa de alunos parados. Meus olhos correram pelo ambiente procurando desesperadamente pelo ruivo, mas ele não estava por perto.
Blaise e Nott já não estavam do meu lado. Eu estava só. Não tive escolha, engoli em seco e comecei a andar em direção à roda que se formava, temendo encontrar o que eu não queria ver. O que eu evitava a todo custo ver.
Porque quando eu visse, eu teria certeza de que era verdade.
Parei, chegando perto dos alunos e abrindo espaço com as mãos. A multidão se formava atrás de mim quando eu consegui alcançar o centro. Foi quando eu vi o corpo.
Dumbledore estava com a boca parcialmente aberta, como se antes de morrer estivesse falando calmamente com alguém. Os olhos estavam fechados, e mesmo que estivesse morto, ele parecia tranquilo. Ao contrário da pessoa que estava ajoelhada ao seu lado. Potter olhava para o diretor como se esse fosse irreal. Os olhos verdes estavam marejados, e a pele estava mais branca do que o normal. Ele parecia em choque demais para perceber que estava cercado por todos os professores e estudantes de Hogwarts.
Meus olhos correram à minha volta. Granger estava atrás de Potter, uma mão dela estava apoiada em seu ombro, tentando em vão dar apoio ao amigo, uma força que nem mesmo ela possuía. O ruivo estava logo atrás, olhando fixamente para onde todos olhavam. Não demorei muito tempo o observando, meus olhos voltaram a fitar novamente o corpo sem vida do diretor.
As lágrimas começaram a descer automaticamente, molhando meu rosto e embaçando minha visão. O frio já não era mais problema, minha decisão sobre a guerra já não era mais problema, os estudos já não eram mais problemas.
Dumbledore estava morto.
[...]
Rony
Eu conseguia sentir de longe a tristeza que todos sentiam. Ninguém tinha palavras para o que havia acontecido. Hermione tentava em vão retirar Harry de perto do corpo de Dumbledore, mas ela nunca conseguiria obter sucesso com isso.
Estávamos petrificados, como se alguém tivesse lançado um feitiço para imobilização em massa. Alguns alunos estavam de pijamas, outros tinham tido tempo de colocar um roupão mais grosso por cima das roupas de dormir. Eu estava vestido com roupas normais, igual Hermione. Estávamos esperando por Harry quando aconteceu. Ele estava imundo, mas ninguém havia percebido isso.
Eu conseguia ver de longe uma fumaça perto da Floresta Proibida, alguns professores haviam corrido diretamente para lá, seguindo Comensais da Morte. Mas eu estava focado demais na cena à minha frente para tentar descobrir o que estava pegando fogo.
Corri novamente meus olhos pelas pessoas e vi Pansy perto de um aluno da Lufa-Lufa. Estava chorando, e eu nunca havia visto um choro tão triste e sincero em seu rosto desde que eu tinha a conhecido.
A minha vontade era de cruzar o círculo e ir em direção a ela, pegando-a em meus braços e confortando-a, dizendo para Pansy que tudo ficaria bem e que ela não precisava se preocupar.
Mas Harry e Hermione precisavam mais de mim nesse momento.
E eu estaria mentindo. Depois da morte de Dumbledore, muita coisa iria mudar. E nada ficaria bem.
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