Designium
8 Rock
Notas iniciais
Salize o havia chamado. O que ele haveria de querer agora?Não podia ser apresentar a novata,por que todos da resistência haviam presenciado a sua fria chegada. Em outros túneis que as águas turvas do esgoto passavam no centro,dando estreitas calçadas para a sua passagem,Rock presenciou a mal cheirosa corrente d'água parar aos poucos ate se solidificar em gelo. Não ficou nivelada como nos lagos que já vira congelado,e em muitos pontos via ondulações e cristas acima da camada de gelo. Não haviam tido tempo de se nivelar pois acontecera num átimo, devia ser assim que Boobba via as coisas sem a parte do frio- quando parava o tempo.
Virou-se para Ted que ainda “lambia as suas feridas” do treino com Salize e viu compreensão nos seus olhos castanhos. Ele percebia as coisas rápido,como no dia no lixão que agiu depressa quando o EEM chegaram.
– Para cima! — Exortou Ted.
Os dois seguiram a estreita calçada desse lado,por que havia em ambas as margens do esgoto “calçadas" ,e alguns momentos alcançaram uma abertura a esquerda e subiram a escada que nela havia. A subida era num túnel,tudo ali basicamente eram túneis malcheirosos como tentara explicar ao novato que corria a sua frente.
Alcançaram o andar superior e seguiram para o lado onde era feito as reuniões da resistência.
Enquanto corriam em ambos os lados haviam aberturas que levavam a corredores que por si mesmo ligavam a outros corredores. Ao passarem pela segunda abertura no flanco esquerdo Rock percebeu a presença fria mais forte e parou de correr assim como seu companheiro. E lá estava a novata ,miúda e aparentemente constrangida pela situação. Era conduzida por Aedan, que tinha uma aparência cansada,enquanto mancava. Loued com seus óculos escuros era indecifrável mas não havia uma sugestão de piada trocista em seus lábios como era o seu habitual.
Até mesmo o gigante e roliço Goorg andava cabisbaixo, o que era estranho já que o abaixo dele era acima de todos. “Tão poucos”, pensou Rock “devem ter se separado por precaução". Afinal Salize era a reencarnação da precaução e se não seguissem as suas normas a resistência não haveria durado tanto tempo.
– Bem vindos de volta — disse Rock.
Ninguém devolveu o cumprimento e passaram por ele direto.
– Você é bem popular aqui- exclamou Ted quando os recém chegados haviam se distanciado um pouco.
– Alguma coisa aconteceu — soltou Rock pensativo.
Parou onde estava, depois daquela recepção não desejava mais seguir o aglomerado de mutantes que se dirigiam curiosos para a sala de reuniões.
– Você não vêm?- perguntou Ted. Rock meneou a cabeça.
Depois daquilo foi para o corredor de seu dormitório,sentado ao chão encostado na parede. Dispensara Ted,alegando estar cansado. Alguma coisa realmente ruim havia acontecido,e não deveria se abalar com tais “novidades" . No entanto cada noticia ruim era mais um prego para o caixão deles,e de seus devaneios de viver sem se esconder ou ter medo.
Medo,um sabor ruim na boca do estômago. Arquejos e corridas desenfreadas ilustrava bem isso em seus sonhos. Odiava se sentir assim, havia feito uma pseudo- característica pra enfrentar tudo isso e todo dia apresentava a pantomima a todos que nunca haviam percebido a farsa que era a sua coragem.
Menos Salize,não conseguia esconder nada do sinistro careca. Mas por algum motivo que não compreendia ele nunca havia revelado o seu segredo para ninguém.
Horas mais tarde,já em sua beliche Ted chegara e se deitou silencioso na cama de baixo a Rock sem dizer nada. Queria saber a extensão das coisas que haviam acontecido ao grupo de Aedan mas tinha medo de perguntar,por isso manteve-se calado grato por Ted entender o seu espaço. Na maior parte do tempo que passavam juntos eles brincavam e competiam como crianças,mas alem disso eles se entendiam bem mais do que no começo,e havia ali um laço forte de amizade.
E agora Salize o chamava. Sabia o quão irritadiço ele ficava com atrasos,aliás havia um tempo que Rock não o via sem estar de mal humor. Bateu na porta da sala de reuniões,mesmo que pudesse ultrapassá-la era bom agir dentro das normas com o chefe.
– Entre Rock. Soou a voz roufenha de seu líder.
Ele adentrou na sala parcamente iluminada por pequenas lamparinas alçadas nas paredes. E Salize estava como de costume atrás de sua mesa com papeis e mais papeis. Possuía uma memória incomum para guardar informações,mas precaução nunca era demais para o líder da resistência de SDS.
– Mandou me chamar chefia?- perguntou Rock assumindo o seu pseudônimo como colocaria uma máscara de Halloween.
Salize ficou quieto observando-o,não havia ira agora em sua expressão. Estava incomumente sereno.
– Não há ninguém aqui Rock,você não precisa fingir nada- disse o homem sinalizando a cadeira a sua frente.
O garoto fez como ordenado,silenciosamente consciente do quão desconfortável era ter seu segredo tão absurdamente revelado. Não gostava do seu próprio eu,viver do jeito que mostrava aos outros era tão bem mais leve. Sua face adquiriu a mais irritante tonalidade de rubor quando se deu conta que o homem a frente estava ouvindo tudo o que ele pensara.
– Não é minha intenção ser inconveniente e evasivo em sua privacidade,entenda,é que em suma isso se tornou tão natural pra mim quanto falar. — o homem acenou vagamente como que dispersando todos esses assuntos. — Tenho uma missão pra você ...em outro lugar.
– Sim senhor.Rock respondeu,ele mesmo agora. Podia e devia as vezes se lembrar de quem era.
– Ah,Ted pode ir comigo?
– Receio que não. — respondeu Salize com sua face tão neutra como desde que ele entrara,a mesma que ele se lembrava desde a primeira vez que o viu. Mas diferente de Rock ele não parecia se esconder nessa personalidade. “Isto" era o Salize mesmo.
Perguntar o porquê não parecia muito inteligente, o homem a frente revirou os olhos.
– Eu estou separando por habilidades apenas Rock,as suas condiz onde as de Ted não se aplicam.
– Entendi, senhor. Soltou meio fraco demais ,não podia esconder a sua frustração,não de Salize. — e o que eu farei exatamente senhor?
– Precisamos de mais olhos La fora — disse seu chefe . — Sondar os perigos antes de cada passo. Sinto como se estivéssemos sendo conduzidos para todo esse caos. Guiados cegamente ao abismo. — ele parecia frustrado. — isso- o careca esboçou um sorriso sem qualquer evidência de humor — estou frustrado Rock.
– Perdão senhor. — disse Rock sem jeito.
Novamente Salize gesticulou com as mãos pondo o assunto de lado. Rock devia mesmo aprender a controlar os seus pensamentos. Alguma coisa se moveu na visão periférica dele mas não quis parecer não estar prestando atenção em Salize. O chefe abriu uma gaveta pegando mais papeis,e Rock aproveitou a oportunidade. Virou para onde havia percebido algum movimento e chocou-se com o que viu.
Um rosto brotava da parede da mesma cor acinzentada e aparentemente da mesma textura que compunha aqueles tijolos. Estavam sendo espionados. Levantou -se da cadeira sobressaltando Salize,não se incomodou com modos dessa vez e saiu disparado para a direção daquela figura incomum focando o seu poder saltou na parede e o rosto submergiu como se nadasse pela superfície do concreto.
Tudo era escuro no interior da parede mas não havia nada lá,alguma coisa sem forma definida parecia ter submergido para baixo,rock concentrou e desceu também com tudo ficando desmaterializado ao seu redor. Até que de alguma forma chegou ao fim da descida quando ultrapassou como um espectro o fim daquilo e caindo de cara em uma daquelas calçadas que margeavam os esgotos.
“Pelo menos não cai nessas águas nojentas" , pensara Rock. Depois da novata se encontrar com Salize o frio ali diminuiu e a corrente de águas malcheirosas voltou com toda a sua força ao seu fluxo natural. Apoiando nos seus braços ele se ergueu, ao seu redor nada daquilo que havia visto na sala de reuniões estava ali . Se isto tudo fosse coisa da cabeça dele ,Rock receberia uma reprimenda daquelas quando subisse.
"Tenho certeza do que vi", ele disse para si mesmo,voltando a olhar para qualquer parte do mal iluminado túnel que ele estava.
– Droga- ele exclamou chutando uma latinha que estava próximo para as escuras águas ao seu lado.
Resignado, seguiu o caminho a frente procurando pela primeira entrada onde se encontraria as escadas. E parou como se estivesse sido congelado pela novata. Do teto como numa espiral um corpo emergiu de cabeça pra baixo. Era como um nascimento monstruoso e distorcido de uma planta. O corpo dessa vez tinha a cor do lodo que pintava tudo ali naqueles túneis,mas dessa vez pode perceber melhor as formas daquela criatura. Era uma mulher,seus rosto e formas deixavam claro isso.
O rosto e cabelos seriam bonitos se não fossem feitos da mesma matéria dos túneis (seus cabelos permaneciam grudados as suas costas rígidos por ser de material tão resistente),e tinha- reparou Rock consternado- um belo par de seios,que infelizmente assim como todo o seu corpo eram da mesma cor e matéria do túnel.
– Você ai! — disse Rock ao mesmo tempo aliviado e irritado. — pare onde está agora.
A garota riu lá do alto infantilmente,e isso só fez Rock ficar mais bravo.
Ouviu passos e além dele vinha silhuetas de muitas formas. Ele ficou pálido de medo,aquilo era na certa uma emboscada dos EEM e ele fora atraído ridiculamente fácil pra lá. Suas pernas tremeram mas ele não saiu do lugar. Ainda naquela noite sonhara com as perseguições e acordara com as roupas encharcadas de suor. E como se invocada pelas lembranças novas gotas já aderiam aos seu rosto. "Fui burro pra chegar aqui, mas não vou voltar correndo como um bebê” pensou enfurecido.
– Vão embora, seus malditos! Ele gritou e correu com os punhos fechados de encontro as formas que chegavam mais perto. “Ted riria de mim se estivesse aqui” ele pensou ,tentando afugentar os inimigos com nada mais do que a minha própria “coragem". Ou não ,apesar de estar pouco tempo ali,Ted já o compreendia melhor do que os demais,menos do que Salize,mas ainda assim o compreendia muito bem. E saberia do sacrifício que tinha sido pra Rock atravessar aquele túnel contra os inimigos que lhe tanto enchiam de pavor.
Os metros diminuíam entre ele e os invasores mas a pouca iluminação pouco ajudava pra distinguir suas formas,e seria melhor assim sem ter que encarar de fato os seus inimigos,pensou aliviado. Ao seu lado tudo mergulhava na mais profunda escuridão salvo por algumas lamparinas que de tão raras e tão fracas no túnel contribuíram para a sua cegueira tão grata.
Ainda mais perto agora, Rock ofegava. Não sabia bem o que faria quando os alcançasse mas faria algo. A sua direita alguma,coisa emergiu da escuridão e uma pessoas grande e muito forte o segurou. Ele usou seu poder pra se libertar,trespassando o braço que o segurava quando percebeu quem havia segurado.
– Black?
O grandalhão fez sinal de não com os dedos e depois pediu com gestos pra ele ficar onde estava. Rock não entendia,eles estavam,sendo atacados e no entanto Black pedia pra ele não fazer nada. Deviam estar poupando-o como sempre,não seria assim dessa vez. Voltou a correr na direção dos invasores,ele era um homem e podia tanto como qualquer um. Viu uma luz a esquerda quase o cegando,e quente demais para o seu gosto. Só teve tempo para usar seu poder e desmaterializar antes de ouvir uma explosão. Olhando a sua direita viu um rombo na parede e compreendeu tudo quando tornou a olhar a esquerda. Tyra.
– Você tentou me queimar!- ele disse olhando abismado para a sensual e mortal garota.
– Apenas tentei te parar. — respondeu ela sem nenhum ressentimento na voz.
– É assim que vocês dão as boas vindas? — perguntou uma voz de garoto que vinha das formas escuras a frente. Quando chegou perto o suficiente de Rock as chamas da recém explosão de Tyra iluminou dezenas de rostos idênticos. Todos de um adolescente ruivo cheio de sardas, estava escuro demais pra descobrir a cor de seus olhos mas não parecia haver raiva neles quando outro daqueles garotos (ou o mesmo) retornou a falar.
– Já fui pior recebido,posso lidar com isso. — desculpe ,é Patrick né?- perguntou Tyra da outra margem do esgoto.
– Sem problemas. — Respondeu o garoto rodeado de cópias.
– Eu quase fui frito e você se desculpa com ele?- perguntou Rock a Tyra, assumindo o seu papel como todos esperavam dele.
O túnel ressoou de gargalhadas e uma risada infantil voltou a ser ouvida lá em cima da garota que se unia a matéria. Dessa vez ela se liberou da consistência do túnel caindo graciosamente na "calçada” que Tyra estava.
– E você deve ser Lindsay? -perguntou polidamente Tyra.
– Isso mesmo- respondeu a garota com certa astúcia. Rock reparou que quando ela se separava da matéria ela era uma garota comum : cabelos castanhos ate o meio das costas- dessa vez eles se moviam ao menor movimento da garota — pele clara e corpo cheio de curvas.- Salize não avisou sobre a nossa vinda?- ela voltou a falar e sua voz era em parte um canto .
– Receio que não a todos,nos desculpe — respondeu Tyra olhando descaradamente para Rock que entendeu a deixa para o seu personagem.
– Prometo não atacar mais vocês,me desculpem. Todos riram novamente,a garota, Lindsay ou seja como for que se chamasse sorria belamente. Rock desviou o olhar pra não fazer um verdadeiro papel de bobo,já dera o suficiente a eles. Bastava seguir o aglomerado de pessoas agora e logo estaria em seu dormitório. Não que isso fosse lhe trazer conforto.
Esses reforços,ele queria que fossem o suficientes para que as mortes parassem. E enquanto não fossem ele continuaria ali ,mostrando como era feliz e pouco se importava com os perigos. Tentando em vão dar um pouco de esperança para eles. Uma fagulha de esperança em meio a tanta escuridão que cercava.
Fale com o autor