Designium
14 Pesadelo
Notas iniciais
Pesadelo
Se Theodorus William Hancott III tivesse crescido num lar normal indubitavelmente teria sido diagnosticado com uma serie de deficiências físicas e mentais graves.Talvez os melhores psiquiatras somados ao carinho de uma família dedicada pudessem ter minorado seu sofrimento.Mas não foi assim que aconteceu...
O segundo chute acertou na sua barriga e Theodorus sentiu as fezes escorrendo pela perna.Estava deitado numa poça suja,atrás do trailer onde morava com o seu pai.Não sabia por que aquele era o lugar escolhido mas o pai sempre o arrastava até ali. Theodorus William Hancott II era um homem mau.Algumas pessoas costumam pensar que o mundo é feito de tons cinzentos.Elas estão erradas.A cada geração nasce uma criança pura em algum lugar isolado como o Nepal,o interior da Índia ou as selvas de Bornéu.Também nascem monstros como ele e esses,com tristeza vos digo,são infinitamente mais comuns.
Theodorus apertou os joelhos contra o peito e fez força para ignorar a dor na barriga.Uma de suas costelas estava quebrada entretanto isso não era algo que ele fosse capaz de entender ou tratar.Chovia forte,fazia frio e o pai,mais drogado e violento do que nunca,o colocara para fora.Tentou se enrolar mais na lona manchada de barro que fazia as vezes de travesseiro e cobertor.O mundo era um caleidoscópio no qual os fragmentos se alteravam antes que fosse capaz de os absorver.Chorou por muito tempo até que o sono se apiedasse e o envolvesse. O assoalho,afundado e tomado pelo mofo,ecoou com um baque forte e depois,muito lentamente,um liquido quente e viscoso escorreu sobre seu rosto.
Ódio.Vinha se acumulando,girando e girando,se reunindo em pensamentos envenenados que o obcecavam.Tinha sido estuprado pela primeira vez dias depois de chegar,as drogas e os choques deixavam-no num estado muito próximo a catatonia o que tornou tudo ainda pior.Sentira sua carne se rasgando,o sangue escorrendo,os rostos sem forma se alternando sobre si,a ânsia de vomito vindo em ondas...Aconteceu muitas vezes depois mas nesse ínterim desenvolvera uma defesa:odiar.Tudo.Todos.O tempo todo.
Hoje era o centésimo quadragésimo quinto dia de tratamento de uma criança que perdera o nome de Theodorus há muito.Não sabia mais onde vivera,o que fizera ou o que existia no mundo além das grades e das parcas árvores banhadas por um sol raivoso.Odiava com a intensidade que só uma criança de mente e mundo estreitos é capaz.Não havia um alvo,tudo era alvo.
Toda uma vida de desgraça e sofrimento justificam no final o monstro que surge?Como podemos ter certeza que cortados e feridos não procuraremos refúgio na escuridão?
Criança,órfão,vitima, abandonado,torturado...nenhum destes nomes lhe cabia mais.Dedicara incontáveis dias desejando que a árvore depois da grade morresse.Não deu certo e isso o frustrou de tal forma que atirou muitas vezes a testa contra o metal indiferente arrancando os poucos cabelos.A porta de sua cela,jaula,foi aberta e um uniforme entrou.Viu-entendeu a forma como o pé foi para trás,as mãos se erguendo,os olhos...Gostou daquilo.Gostou ainda mais do cheiro.O uniforme foi embora.Passou a desejar que a grama e as flores morressem.
No ducentésimo septuagésimo oitavo dia houve uma rebelião.Essa imagem não vos parecera estranha se tiverdes em mente uma penitenciaria ou um sanatório para os moderadamente insanos,onde psicóticos e esquizofrênicos se misturam de forma explosiva,porém deveria vos chocar pois os internos da Casa de Repouso Eve-Andrew dividiam-se em lobotomizados,comatosos,autistas de nível extremo e mal formados.A maioria raspava raramente a realidade e retornava para mundos de delírio.
A rebelião não tinha o propósito de subjugar os guardas e vingar o hediondo passado do lugar.Como ratos num navio em chamas buscavam a fuga em desespero.Algo de suas naturezas animais os impulsionava para longe.
O tenente Morollan parou a poucos passos da porta aberta e ficou alguns minutos a observar o saguão envolto em sombras.Tinha chegado àquele canto remoto da Inglaterra muitos anos antes mas ainda conservava em seu íntimo toda a sua educação irlandesa.Deixava um copo de leite na janela dos fundos,como sua avó o ensinara,para garantir que os pisei e os brownies lhe fossem favoráveis e com sua presença afastassem o azar.Nunca vira nenhum dos espíritos para os quais fazia oferendas e,considerando sua vida como um todo,seria difícil dizer que fora especialmente abençoado pela sorte.Contudo a crença o permitira estar preparado e a intuição dizia que sua hora havia chegado.
Achou três trevos e os trançou com cuidado colocando no bolso sobre o coração.Os guerreiros celtas usavam aquele símbolo durante as batalhas para indicar seu destemor diante do que a Roda lhes trouxesse.
Atravessou o saguão e se sentiu satisfeito ao observar que a arma destravada em suas mãos se mantinha firme.Não precisou andar muito.Após a grande sala de entrada passou por um corredor estreito que o levou ao refeitório.A criatura estava acocorada sobre uma caixa torácica aberta mas se levantou assim que entrou.Sua pele era vermelho-sangue repleta de escarificações e os olhos negros poços de aspecto liquido e borbulhante.Sem excitar fez mira e atirou.Acertou no ombro ao invés da cabeça e a criatura cambaleou e rugiu.Apontou novamente,certo de que dessa vez acertaria, pôs o dedo no gatilho e foi atingido por um vaso na nuca.
Pesadelo observava o segundo.Assim como o primeiro não tinha o cheiro.O cheiro que lhe deixava forte e sem ele viu-se excitando da mesma forma que um animal diante de algo novo e inesperado.
– Argh!Sempre detestei violência física,bom,pelo menos praticá-la.Olá Theodorus!Ah,tenho certeza que esse nome não se adéqua mais.O nome que seu gordo e repulsivo pai biológico lhe deu com certeza também não servirá.Certamente que poderemos pensar em algo depois.Oh!Estou tagarelando aqui e deixei as boas maneiras de lado. — Deu dois passos largos,o sorriso aberto e convidativo,os olhos verdes cintilando divertidos. — Meu nome é Dr.Alec Demian e tomarei conta de você daqui por diante.
–Você teve sorte,vai ser fácil tratar esse *machucado*.
–Obrigado por isso...e por ficar aqui comigo.
As duas mulheres conversavam num quarto surpreendentemente acolhedor, levando em conta que se encontravam num abrigo de partisans sob a terra. Duas camas preenchiam os extremos do cômodo assim como uma penteadeira, mesas, cadeiras, tapetes, cortinas e uma profusão de objetos que estavam ali exclusivamente para tornar mais agradável às duas o que de outra forma seria um retângulo de pedra e terra batida.
Uma tinha 1,90m,cabelos e olhos mel e a pele de tal forma pálida que sugeria há muito estar distante do Sol.Não era de forma alguma bonita,o queixo quadrado e o nariz longo juntamente com a altura e magreza inusitadas davam-lhe uma aparência masculina que de todo contrastava com seus modos dóceis e gentis.A outra,que agora movimentava o pulso com uma expressão de alívio e espanto,possuía cabelos negros não muito longos e olhos escuros intensos.Algumas rugas marcavam seu rosto revelando as desventuras pelas quais passara recentemente.
–Esse é seu poder?Curar as pessoas?
–É sim.Ele diz que herdei do meu pai, mas ao contrário dele, cuja natureza egoísta só permite curar a sí mesmo,meu poder funciona apenas nos outros. Ele vai querer vê-la hoje...ah,eu não devia falar nada mas estou tão empolgada!Com você aqui vamos poder ajudar tantas pessoas...
Depois que a mulher alta saiu (Sarene,lembre-se do nome de cada um deles e não se engane,ela é um deles), Arcady dedicou algum tempo pensando o quão ferrada estava.Presa numa caverna com monstros,psicopatas...dividindo o "quarto" com uma louca que achava trabalhar para os mocinhos.(viu o rosto dela quando disse que estava empolgada? Parecia é morta).Consideraria sua Sorte uma desgraça se não fosse por Adrian.
A lembrança de como estava antes de conhecê-lo era muito nítida ainda,afinal fazia somente oito dias,e não era uma lembrança agradável. Havia fugido do pesadelo frio que sua vida era em Londres sem olhar para trás e ido para a França acreditando que mais sol,paisagens verdes e uma vida pacata seriam o bastante para espantar todo o desespero que vinha acumulando.
Não foram.Toda aquela cor e pureza só serviam para acentuar que havia algo errado dentro de si. Procurara varias escolas e exibira seus desenhos esperando conseguir um trabalho como professora. Fora rejeitada em todas.Não era de surpreender,sempre fora muito sincera e sua arte deixava muito evidente a tragédia que lhe corroia a alma.Nunca fizera nada de importante em toda a sua vida, nunca se sentira parte de nada.O dinheiro foi acabando,a esperança de recomeçar a abandonou...
Decidiu que chegara o momento: queimou todos os seus trabalhos,desceu para pagar a conta da pensão em que estava hospedada...o que a machucou ainda mais pois a gentil e falante proprietária a recebeu com silêncio e hostilidade.(Pobre Arcady,nem era mais capaz de enxergar através das grossas lentes de tristeza que vinha usando,Madame Clermont pensava nos inquilinos como filhos e o que mais desejava era preparar-lhe refeições e a consolar por quaisquer que fossem os problemas que evidentemente incomodavam a fria e delicada inglesa).
Deixou uma carta explicando suas intenções,já ouvira falar de casos em que um inocente era acusado e não suportaria ser mais uma causa de dor,deu-se um tempo para lágrimas que não vieram e saiu para se matar.
Entrou no salão mais assustada do que jamais estivera.Era esperta o bastante para saber que não a sequestraram com tantas baixas apenas para matá-la. O pensamento não a consolava.O medo não se desfaz com argumentos racionais ainda mais diante do quadro que se descortinava a sua frente: duas dúzias "deles" conversavam, gesticulavam e gritavam entre os pilares simples de pedra banhados por uma horrível luz vermelha.Próximos um ser andrógino nu, a pele similar a barro coberta de pus,armas enterradas profundamente no corpo,conversava com um homem com agitadas cobras no lugar dos braços e pupilas verticais.Sentiu a pressão caindo e,afastando-se alguns passos da porta,se encolheu abraçando os joelhos.
Captou palavras perdidas no vozerio "congelados", "Big Ben", "aeroporto", "Vegger", mas estava tão faminta e tonta que não lhes prestou atenção.Quando uma mão pousou no seu braço não foi capaz de se conter e soltou um grito, se encolhendo contra a pedra como se esperasse atravessá-la.
–Minha querida!O que está fazendo nesse canto escuro? Oh,não importa,ele a está esperando.
Sarene quase a arrastou pelo salão silencioso em direção a uma mesa repleta de comida.Notou que não estavam sozinhas como a principio pensara.Próximos a uma das quatro lareiras o homem sem rosto apoiava as duas mãos nos ombros de uma criatura de pele vermelha.Esse ser,mesmo estando de costas,gerava uma aura tão intensa de medo que seus joelhos dobraram.Por sorte havia chegado até a cadeira.Subitamente a iluminação mudou para um tom normal e ela sentiu como se um grande fardo deixasse de pesar sobre si. Pelo canto dos olhos percebeu um manto se aproximando da cadeira a sua frente. Sarene, que mexia no seu cabelo, sussurrou numa voz bem diferente da habitual:
–Você acha que é melhor que nós porque é bonita? — Então virou as costas e foi embora, deixando Arcady aturdida.
– Por favor, coma. Foi feito para você.
A voz era tão suave e gentil que Arcady levantou os olhos do seu prato.E ficou paralisada.Aquele não-rosto agia como uma sanguessuga grudando no seu,a tornando incapaz de pensar...
–Me desculpe. — Inclinou a cabeça e puxou o manto escuro de forma que o capuz cobrisse o rosto. — Minha intenção não era assustá-la. Coma a vontade,temos muito o que conversar. — Percebendo que Arcady ainda titubeava, ele arregaçou as mangas e começou a se servir. Ela hesitou mais um pouco e então, vendo que ele comia e que não ganharia nada agindo como uma criança, se pôs a comer.
– Pois bem. Senhorita Glass, gostaria de lhe dar algumas informações a meu respeito e dos meus propósitos, mas antes de tudo quero me desculpar: lamento muito ter separado você do seu amor. Alguém que eu amava também foi tirado de mim e sei como isso é doloroso.
A voz dele era tão plena de compaixão que Arcady quase se pegou agradecendo e falando do quanto Adrian lhe fazia falta “Sua estúpida! Ele que separou vocês!” porém se conteve e permaneceu em silêncio.
– Meu nome é Alec Demian. Antes de manifestar meus poderes trabalhava como geneticista para um laboratório privado. Estudávamos anomalias congênitas,tanto com o intuito de impedir que doenças fossem transmitidas dos pais para o feto como para localizar os genes responsáveis por características desejáveis. Quando a caça aos SD se intensificou, o laboratório foi estatizado e o senador Belford assumiu o controle. A principio seu propósito eram impedir que o gene SD fosse transmitido, o que me parecia razoável. Acreditava, e ainda acredito, que a coexistência nunca seria pacífica, então porque não poupar crianças de serem perseguidas por algo que nunca escolheram? Tudo mudou quando o filho do senador nasceu. Ele veio até mim furioso e disse que a supressão de genes não interessava mais, todos eles deveriam ser exterminados, não descansaria enquanto as "aberrações" estivessem infectando o mundo. Precisei fugir logo depois e demorei anos para descobrir que ele tivera um filho especialmente deformado, dera essa criança para um homem violento e por fim a internara num manicômio onde era torturada e violentada.
Uma lágrima caiu com um "ploc!" audível sobre o garfo abandonado de Arcady mas ele não se deteve:
– Sim! Não negarei que tenho interesse no seu poder, contudo quero ainda mais que seu coração esteja conosco! Precisamos de um lugar que seja nosso, onde possamos viver sem medo, onde crianças não sejam usadas como cobaias. Com você e seu namorado, eu tenho certeza que poderia sintetizar...
–Adrian?O que ele tem haver com isso?
Pela primeira vez ele pareceu hesitar.
–...Seu namorado, embora eu creia que ele não sabe disso, também é um SD. Durante minhas viagens encontrei inúmeros poderes, e o dele é especialmente raro. Ele é um Adaptador, é capaz de fazer dois poderes funcionarem como um. Sinceramente não sei o que isso significa na prática, mas com os cromossomos dele...
–Senhor! — a mulher gorda com o rosto de uma boneca se aproximou esbaforida.
–Eu avisei que não queria ser interrompido, Mary Ann. -toda a suavidade se fora da sua voz e ele conseguiu transformar a frase numa ameaça.
–Sim senhor.É que eu detectei um poder fora da escala no...
–Chega! Arcady,sinto que tenhamos que interromper a nossa conversa, leve esse envelope.Talvez ele a ajude a se decidir. Espero que Adrian se junte a nós em breve, mandei alguns dos meus melhores homens para trazê-lo em segurança.
Não era possível saber se era dia ou noite ali, mas Arcady se sentia muito cansada. Já estava com a cabeça no travesseiro quando se lembrou do envelope. Sentou-se na cama,acendeu uma vela, parecia não haver energia elétrica, e rasgou o papel com cuidado. Separados por clipes grossos maços de fotos...um homem bonito de cabelos negros olhava em volta cheio de raiva, corpos se acumulavam as centenas ao seu redor...um homem negro,alto e de óculos um pouco familiar se esgueirava nas sombras,depois ele e uma mulher muito bonita,depois essa mulher observando um prédio pegando fogo... Centenas de fotos de fotos,corpos em muitas. Arcady decidiu que era demais por um dia. Soprou a vela e horas depois ainda se revirava no escuro.
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