De repente os médicos e enfermeiros começaram a entrar em um ritmo frenético.

A mão de minha esposa caiu inerte ao lado do próprio corpo quando fui agarrado por meus ombros. Só fui perceber o que estava acontecendo quando o enfermeiro me colocou para fora da sala de cirurgia e fechou a porta.

Ele tentara me dizer algo, mas por algum motivo eu não conseguia ouvir nada. Acho que fora por causa do maldito barulho daquela máquina de batimento cardíaco.

Naquele momento eu rezei para que aquela coisa tivesse quebrado e que aquele barulho indicando o fim dos batimentos fosse um terrível engano... pedi com todas as minhas forças para que Deus não me tirasse minha mulher e meus filhos.

Eu não podia perde-los também. Não agora que tudo começara a dar certo, então esperei aflito do lado de fora. Andando de um lado para o outro a ponto de quase fazer um buraco fundo no chão.

Se passaram alguns minutos que mais me pareceram uma eternidade.

Mas minhas preces não foram o suficiente.

Nunca era.

Mais uma vez eu tinha me enganado achando que tudo seria diferente dessa vez.

Um som ensurdecedor tomou conta de meus ouvidos assim que o médico me dissera que lamentava minha perda.

Eu jamais abraçaria minha mulher novamente ou sequer pegaria meus filhos ao menos uma vez. Eu nem sequer conseguira olhar para o rostinho de cada um deles.

Nós sabíamos que o parto poderia ser difícil, mas eu tinha esperanças que mais uma vez ela seria forte.

Completamente zonzo, comecei a andar por aquele corredor frio.

Congelei ao chegar na sala de espera, onde nossos amigos e familiares esperavam uma notícia.

Ver meu sogro sentado, claramente nervoso fez minha garganta se fechar.

Eu não conseguiria dar aquela noticia a ele, por isso, tomei outro caminho para o lado de fora.

Sabia que era minha responsabilidade dar uma resposta a eles, mas eu não tinha psicológico para isso.

Não sei quanto tempo se passou até que eu chegasse até o parque.

O céu desabava em cima de mim numa quente chuva de outono.

Tudo parecia sem cor.

Tudo parecia ser insuficiente.

Cai sentado em baixo de nossa arvore.

As roupas encharcadas.

Meu coração apertado.

Minha mente em frangalhos.

Eu não sabia o que fazer, nem para onde ir.

Respirar já não parecia certo.

Pensar parecia ser pecado.

Nada parecia ser verdade... naquele instante, felicidade mais me pareceu uma ilusão criada pela humanidade para ficar fácil, mais suportável de sobrevivermos. Tristeza e decepção pareciam ser a única coisa real.

Minhas lagrimas se misturam com o lamento das nuvens. Era como se elas sentissem meu desespero.

Não podia ser verdade.

Por mais que eu não tivesse uma religião, sempre acreditei fielmente em Deus, mas nesse momento, minha fé estava tão inteira como minha capacidade mental. Não bastou me tirar meu tio e meu irmão... Ele tinha que levar minha esposa e meus filhos também.

Tentei me levantar, mas falhei e cai de joelhos em meio ao vazio do parque.

Todo aquele espaço... todo aquele ar começou a me deixar tonto.

Eu não tinha uma crise de pânico a anos, mas nesse momento deixei o pânico e o medo me dominar, acompanhados do desespero.

Cansado de segurar, chorei desesperadamente. Meu corpo tremia em meio aos soluços.

— POR QUE VOCÊ ME ODEIA? – Gritei para os céus – Por que...?

Era como se eu sentisse meu coração rachar... deixando cair os pedaços como as folhas secas das arvores que me cercavam.

Minhas unhas ficaram sujas de terra quando tentei arrancar a grama do chão

Eu sempre desejei poder constituir a minha família e agora que eu tinha sentido o gostinho, que eu tinha chegado tão perto de conseguir... me foi tirado tudo de uma hora para outra por um adolescente idiota.

Mas eu já devia estar a costumado. Sempre fora assim... sempre experimentando pitadas de felicidades que antecediam a dor.

Eu era o idiota por ainda ter esperanças.

Não existiam palavras para descrever a minha dor.

Com dificuldade, me levantei e então gritei com toda a minha força, deixando-a se esvair de meu corpo.

Já não sentia o retumbar em meu peito.

Em um completo estado de torpor voltei a caminhar.

Já não me importava com nada, mas alguém tinha que avisar o que tinha acontecido.

Eu me arrastava de volta ao hospital.

Minha mente estava tão longe que sequer me dei ao trabalho de olhar a rua.

Lentamente olhei para o lado ao ouvir um som de buzina. Duas fortes luzes vinham rapidamente em minha direção.

Não sei dizer o que houve comigo naquele momento. Eu juro que tentei correr... ou simplesmente sair dali, mas meu corpo deixou de me obedecer. Mas para ser sincero ficar ali, parado me pareceu a única coisa correta em meio a toda essa turbulência que eu chamava de vida, mas ainda assim eu tentei me mover mais uma única vez, mas falhei novamente.

Então fiz a única coisa que meu corpo me permitiu. Fechei meus olhos e lembrei de cada momento, cada sensação que passei ao lado daquela que eu amei. Lembrei da primeira vez que a vi no corredor do colégio, quando ela me perguntou algo idiota e fiquei embasbacado por seu sorriso; de nossas provocações depois que ficamos amigos, pois irritar um ao outro era simplesmente divertido; do nosso primeiro beijo, algo que eu ansiei por tanto tempo e quando finalmente consegui fora incrivelmente perfeito. Lembrei de como foi reencontra-la depois de anos e de me apaixonar por ela novamente sem saber que já nos conhecíamos, da primeira vez que a levei para cama (ou que ela me levara), não tinha como esquecer aquilo, ela fora capaz de me fazer sentir coisas inexplicáveis e lembrei da sensação, da felicidade que senti quando ela me dissera que eu seria pai de duas crianças.

Mas também me lembrei de cada momento com aqueles que estiveram ao meu lado em cada momento: Amigos, irmãos, primos e meu verdadeiro pai.

Uma última vez, me permiti sorrir com essas lembranças antes que tudo chegasse ao seu trágico e patético fim...

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