Desejos libertos
21 O acidente
Notas iniciais
Eu corria rápido, o mais rápido que minhas pernas conseguiam, os saltos dos sapatos faziam barulho no chão de cimento bruto e ecoavam pelo ambiente fechado. Sebastian vinha logo atrás mas é claro que ele corria como se não estivesse fazendo esforço nenhum.
Estávamos nos galpões da alfândega no porto de Londres, mais uma vez resolvendo um caso para a rainha. Dessa vez era uma investigação sobre contrabando de pedras preciosas, o bando já tinha sido descoberto e a carga recuperada mas os integrantes resolveram tentar fugir na hora em que eu e Sebastian o abordamos. Era um bando pequeno — três pessoas — com certeza os outros estavam bem escondidos e nessa altura já tinham abandonado os comparsas.
Eles se separaram, dois indo por um corredor e o outro correndo entre as enormes caixas de madeira. Era um galpão gigante, mal iluminado, cheio de enormes caixas de madeira empilhadas, com grossas correntes e ganchos de ferro que eram utilizados para o transporte das cargas para os navios, pendendo dos madeirames do teto. O homem virou à esquerda e os outros dois seguiram em frente.
_Siga-os Sebastian. Eu vou atrás desse aqui — avisei o mordomo logo atrás de mim, empunhei minha arma, tirando-a do coldre atrás da minha cintura. Estávamos disfarçados, eu, com uma roupa comum para um garoto pobre da minha idade: calças marrons de tecido grosseiro, sapatos velhos e uma camisa verde bem claro, Sebastian não estava muito diferente: calças cinzas, camisa branca e um casaco marrom escuro.
_Tem certeza, Jovem amo? — perguntou preocupado — Podemos imobilizar este e depois eu alcanço os outros.
_Não. Vá atrás deles logo, antes que fujam de vez. Eu dou conta.
Virei as costas e comecei a perseguir o contrabandista que agora já ía bem na frente. Ia ser difícil vencer a distância que ele tomava. Olhei de relance para trás — Sebastian ainda estava parado, obviamente indeciso.
_Vai logo Sebastian. Capture os outros dois. É uma ordem — puxei meu tapa-olho mas nem dei muito tempo, logo virei novamente, correndo mais o rápido que podia.
Lá na frente, o homem virou para a direita e eu o segui. Meus pulmões ardiam pelo esforço que, obviamente, meu corpo não estava acostumado.
“Burro!” — o homem virou num corredor estreito e sem saída. Sorri vitorioso e caminhei triunfante, encurralando o bandido no fundo do corredor. Espantosamente, ele não estava armado mas, mesmo assim, era muito mais alto e mais forte do que eu — mirei a arma na sua cabeça.
_Acabou — anunciei.
Ele levantou as mãos.
_Eu me rendo.
Eu ri na cara dele.
_Se rende? Não há rendição comigo.
O maldito havia assassinado várias pessoas como queima de arquivo. Muitas eram inocentes, algumas até crianças — apenas estavam no lugar e hora errada.
Firmei a mira e ele engoliu em seco. Sebastian devia estar longe mas não o suficiente, eu conseguia ouvir os gritos dos companheiros do homem à minha frente.
_Seus amigos já estão tendo a recompensa dos atos. Preparado para receber a sua?
Não digo que isso é algo que eu procure, preferia viver a minha vida em paz. Mas não posso mentir que eu me sinto bem quando dou cabo nesses crápulas. De qualquer modo, paz é algo que não existe, assim como a bondade e a felicidade. Algo fugidio brilhou no fundo da minha mente: “Isso é mentira — você é feliz com Sebastian” — assim como o pensamento veio, foi embora rápido. O momento exigia atenção.
Coloquei o dedo no gatilho e percebi que o homem elevou os olhos para cima, não prestei muita atenção. Ele deu uma risadinha baixa e chutou uma pilha de caixas, puxando ao mesmo tempo uma longa corrente presa no teto.
_Imprestável — puxei o gatilho e a arma disparou.
As caixas balançaram com o golpe de instantes atrás e ouvi o barulho dos elos da corrente. Algo aconteceu então. Senti uma pancada na lateral da cabeça e uma dor lancinante se espalhou pela minha cabeça e rosto.
Levei a mão ao rosto, tentando clarear as ideias, o homem estava caído agora, sentando molemente no chão com as costas apoiadas na parede, um buraco no meio da sua testa escorria um fluxo constante de sangue. Cambaleei, tonto. Uma sensação de enjôo tomou conta do meu estômago e então eu caí de joelhos e logo depois, deitei no chão.
“Sebastian” — chamei em pensamento e então desmaiei.
****
Abri meus olhos e a luz inundou meus olhos, pisquei algumas vezes, tentando me acostumar àquela claridade cegante.
Levei minha mão à testa e tateei a faixa de gaze que envolvia minha cabeça.
Tentei abrir os olhos mais uma vez, fixando a visão e me assustei.
À minha frente, um homem me encarava: parecia preocupado, os olhos estavam um pouco apertados e as sobrancelhas estavam juntas, os lábios fechados se abriram minimante num sorriso quando foquei meus olhos nele.
_Que bom que acordou, Jovem amo. Como se sente?
Percebi que uma das minhas mãos era mantida segura entre as mãos do homem. Puxei-a rápido. “Que intimidade era essa?”- pensei contrariado.
O homem esperava minha resposta.
_Acho que bem — ele não pareceu perceber a brusquidão que eu tinha tirado minha mão da dele. Passou a mão pela minha cabeça, acariciando a lateral que não doía.
_Ótimo. Vou chamar o médico, avisar que você acordou.
Ele saiu rápido do cômodo. Corri os olhos pelo ambiente: parecia um quarto de hospital, havia outras camas ao lado da minha, grandes janelas estavam abertas e por elas entrava uma brisa fresca e a luminosidade que feriu os meus olhos.
A lateral da minha cabeça doía e latejava. Minha boca estava seca, olhei para o lado, desejoso de um copo de água da jarra que estava pousada na mesa entre a minha cama e a do lado. Fechei os olhos por um momento.
Logo ouvi o barulho da porta sendo aberta. Um senhor vestido de branco entrou acompanhado pelo outro que tinha acabado de sair.
_Como se sente, meu jovem? — me perguntou, puxando minha pálpebra esquerda para cima para examinar meus olhos.
_Acho que bem — repedi a resposta. Quando o médico foi puxar a pálpebra direita, percebi que ela estava coberta e o outro homem pousou delicadamente a mão no antebraço do médico.
_Melhor não, doutor. Ele é cego desse olho — comentou e o médico abriu um pouco mais os olhos numa expressão de “Ah, sim”.
“Eu sou cego de um olho?” — pensei em dúvida — “Tenho certeza que não”.
O médico pegou uma prancheta que estava presa aos pés da minha cama e tirou uma caneta do bolso.
_Você se lembra o que aconteceu com você?
Forcei a memória.
_Acho que bati a cabeça — Não sei se lembrei disso ou deduzi por causa da dor.
Devo ter acertado a resposta pois ele balançou a cabeça afirmativamente.
_Farei algumas perguntas. Tudo bem?
_Sim.
_Qual o seu nome?
_Ciel Phantomhive.
O médico anotava alguma coisa na prancheta e nem levantava os olhos para mim. “Que tolice! É claro que eu estava bem”.
_Quantos anos tem?
Rolei meus olhos nas órbitas — “Quantos anos parece que eu tenho?”
_Dez — respondi.
O médico e o homem se entreolharam, depois o médico pigarreou e o outro me encarou.
_Sabe que dia é hoje? — o doutor continuou com o interrogatório. Não gostei da troca de olhares daqueles dois, nem do jeito que o outro me olhava agora.
_É claro que eu sei. Hoje é catorze de dezembro. Meu aniversário de dez anos. Onde estão meus pais?
Agora o homem me olhava espantado, os olhos e a boca muito abertos. O médico olhou de relance para ele e depois para mim.
_Tem certeza, conde?
_Eu não sou conde ainda. Esse é o título do meu pai, Vicent. Onde ele está? — olhei para a porta e novamente para o medido — Nós vamos ter uma festa hoje à noite. Tenho que sair daqui — expliquei.
Puxei os lençóis para o lado e joguei minhas pernas pela lateral da cama, me preparando para pular no chão. O homem me segurou.
_Tire suas mãos de mim — o empurrei — Quem é você?
Acho que eu disse algo errado — o homem olhou para mim como se eu tivesse batido nele — estava chocado.
_Calma, senhor Michaelis. Deve ser por causa da pancada — o médico falou colocando a mão sobre o ombro do homem.
“Quem é senhor Michaelis? Eu deveria conhecê-lo?” — pensei confuso. Forcei a minha mente, encarando o tal de senhor Michaelis, procurando a imagem dele… Talvez algum amigo do papai… Algumas vezes o papai recebia alguns amigos lá em casa. Mas por que ele estava ali? Onde estavam os meus pais?”
“E se eu tinha batido da cabeça, por que a tia Angelina não me atendeu? É sempre ela que cuida de mim quando eu fico doente”.
_Venha senhor Michaelis. Vamos conversar lá fora.
O médico praticamente arrastou o outro homem que parecia estar paralizado para fora do quarto.
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