Notas iniciais
"Eu sabia o que ele estava vendo: um garoto franzino, de cabelos azul escuro levemente despenteado, com um tapa olho medicinal que um dia já havia sido branco mas agora estava encardido; uma camisa ajustada no corpo por estar pequena demais e semi transparente, calças de tecido grosseiro curtas demais e desfiadas na barra por causa do tempo de uso. Minha aparência, que eu sabia ser frágil, junto com o fato de eu estar sozinho à noite e ainda ter dito que não tinha ninguém no mundo: era demais. Isso era quase um convite".

Já era começo da noite, o meu cabriolé* estava parado um pouco afastado do antro de ópio**, do outro lado da rua. Num beco perto, eu e Sebastian olhávamos a movimentação de homens entrando no prédio de tijolinhos vermelhos, era muito grande para servir apenas de local para as pessoas se drogarem, parecia haver muitos cômodos.

_ Estou indo, fique no cabriolé, qualquer coisa você está esperando o seu patrão que está lá dentro — não deixava de ser verdade.

Sebastian olhou para mim e fez sinal para que eu prosseguisse.

Caminhei pela calçada, mal conseguindo carregar uma cesta, até a entrada onde um brutamontes guardava a porta, parei na sua frente e ele se limitou a baixar o olhos na minha direção.

Sorri o meu melhor sorriso.

_ Quer comprar uma maçã, senhor?

Ele olhou para mim e eu abri mais o meu sorriso encolhendo os ombros um pouquinho. Eu odeio sorrir mas há horas em que é necessário.

_ É baratinho, apenas cinco pennies. Veja — estendi uma fruta vermelha e suculenta — para ajudar um pobre garoto sozinho no mundo — pisquei meus olhos.

Eu sabia o que ele estava vendo: um garoto franzino, de cabelos azul escuro levemente despenteado, com um tapa olho medicinal que um dia já havia sido branco mas agora estava encardido; uma camisa ajustada no corpo por estar pequena demais aberta até o terceiro botão de tecido tão gasto que estava semi transparente, calças de tecido grosseiro curtas demais e desfiadas na barra por causa do tempo de uso. Minha aparência, que eu sabia ser frágil, junto com o fato de eu estar sozinho à noite e ainda ter dito que não tinha ninguém no mundo: era demais. Isso era quase um convite.

O homem pegou a maçã da minha mão e a mordeu ruidosamente, jogou uma moeda que eu peguei no ar.

_ Está com fome, garoto?

Eu abaixei o rosto como se estivesse envergonhado.

_ Um pouco. Não comi nada hoje.

O homem fez um barulho que eu acho que foi uma risada.

_ Espere aí, vou chamar o meu chefe. Ele é um homem muito bom. Tenho certeza que vai te ajudar.

_ Hai — concordei estampando um sorriso no rosto.

"Idiota! Esse já está no papo." Pensei enquanto via ele dar as costas para mim e entrar no prédio.

Depois de alguns minutos ele voltou com outro homem, este melhor vestido e de aparência distinta: decadência disfarçada em veludo e brocado.

_ Ora, que jovem mais bonito. Está com fome, filho? — ele pôs a mão no topo da minha cabeça e eu tive vontade de arrancá-la do braço, mas me contive: a encenação ainda não havia acabado.

_ Sim senhor.

Ele deu uma risada franca e amistosa, fácil de enganar os ingênuos e olhou de modo significativo para o leão de chácara ao seu lado.

_Então venha. Entre que eu vou cuidar de você.

Adentrei a construção carregando a cesta de maçãs pelas duas mãos e com o "patrão" ao meu lado, sua mão estava no meu ombro e apertava levemente; não era um toque amistoso e sim de domínio.

Lá dentro havia uma sala grande com vários sofás e poltronas, alguns homens estavam bebendo e fumando seus charutos, não havia mulheres.

Passei direto por eles bem consciente dos olhares sobre mim, acompanhando os meus passos. Pensei que ele fosse me levar à cozinha mas virei em um corredor e cheguei à uma antessala, havia uma mesa com alguns sanduíches e bebidas, o homem me deu um e eu o levei a boca, até que estava bom. Quando terminei ele disse:

_Não quer mais um? Pode pegar.

Neguei com a cabeça.

_Melhor não. Encher muito o estômago que já está acostumado a ficar vazio pode fazer mal — menti.

Ele sorriu, um sorriso vazio.

_ Meu colega me disse que você é sozinho…Órfão?

_Sim. Meus pais morreram há tempos. Vivo só.

_ Que pena não é? — ele fez uma cara triste mas eu pude ver os olhos brilhando, mas então ele mudou a expressão rápido.

_ Venha. Quero te mostrar uma coisa.

O segui para a próxima sala, a porta dupla era enorme e parecia pesada mas ele a abriu com facilidade assim que entrei, senti um cheiro muito doce, enjoativo e sufocante, dei uma tossida e ele olhou para mim, me recompus.

A sala parecia vazia e estava na penumbra, pesadas cortinas de veludo vinho impediam que qualquer luminosidade pudesse passar pela janela. O cheiro estava mais forte, me sufocando; corri os olhos pelo ambiente: era uma sala pequena e em todos os cantos havia incensários, desses usados em missas, de onde se desprendia finos rolos de fumaça branca: era ela que tinha esse cheiro sufocante. Eu conhecia o que era: ópio. Por que eles queimavam tanto e daquele jeito? Normalmente a droga era consumida individualmente.

"Pessoas tolas que desperdiçam a vida com essas substâncias". O pensamento passou rápido pela minha cabeça para logo depois fugir. Estava começando a ficar difícil respirar e pensar direito.

Senti minhas pernas bambearem e meu raciocínio ficar lento, tentei virar e sair da sala rápido mas a droga já tinha tomado conta da minha mente. Não consegui nem chegar até a porta, meus joelhos cederam e desmaiei antes mesmo de cair no chão, perdido numa espiral negra de confusão

Notas finais
O que vai acontecer com Ciel? O que acontece com os meninos sequestrados? Espero que tenham gostado e o próximo capítulo promete ser tenso. *Cabriolé - carruagem leve, de duas rodas, para um só cavalo. ** Antro de ópio - locais onde pessoas iam para usar ópio. Muito comum na Inglaterra vitoriana.