Desejos libertos
2 A isca
Notas iniciais
Já era começo da noite, o meu cabriolé* estava parado um pouco afastado do antro de ópio**, do outro lado da rua. Num beco perto, eu e Sebastian olhávamos a movimentação de homens entrando no prédio de tijolinhos vermelhos, era muito grande para servir apenas de local para as pessoas se drogarem, parecia haver muitos cômodos.
_ Estou indo, fique no cabriolé, qualquer coisa você está esperando o seu patrão que está lá dentro — não deixava de ser verdade.
Sebastian olhou para mim e fez sinal para que eu prosseguisse.
Caminhei pela calçada, mal conseguindo carregar uma cesta, até a entrada onde um brutamontes guardava a porta, parei na sua frente e ele se limitou a baixar o olhos na minha direção.
Sorri o meu melhor sorriso.
_ Quer comprar uma maçã, senhor?
Ele olhou para mim e eu abri mais o meu sorriso encolhendo os ombros um pouquinho. Eu odeio sorrir mas há horas em que é necessário.
_ É baratinho, apenas cinco pennies. Veja — estendi uma fruta vermelha e suculenta — para ajudar um pobre garoto sozinho no mundo — pisquei meus olhos.
Eu sabia o que ele estava vendo: um garoto franzino, de cabelos azul escuro levemente despenteado, com um tapa olho medicinal que um dia já havia sido branco mas agora estava encardido; uma camisa ajustada no corpo por estar pequena demais aberta até o terceiro botão de tecido tão gasto que estava semi transparente, calças de tecido grosseiro curtas demais e desfiadas na barra por causa do tempo de uso. Minha aparência, que eu sabia ser frágil, junto com o fato de eu estar sozinho à noite e ainda ter dito que não tinha ninguém no mundo: era demais. Isso era quase um convite.
O homem pegou a maçã da minha mão e a mordeu ruidosamente, jogou uma moeda que eu peguei no ar.
_ Está com fome, garoto?
Eu abaixei o rosto como se estivesse envergonhado.
_ Um pouco. Não comi nada hoje.
O homem fez um barulho que eu acho que foi uma risada.
_ Espere aí, vou chamar o meu chefe. Ele é um homem muito bom. Tenho certeza que vai te ajudar.
_ Hai — concordei estampando um sorriso no rosto.
"Idiota! Esse já está no papo." Pensei enquanto via ele dar as costas para mim e entrar no prédio.
Depois de alguns minutos ele voltou com outro homem, este melhor vestido e de aparência distinta: decadência disfarçada em veludo e brocado.
_ Ora, que jovem mais bonito. Está com fome, filho? — ele pôs a mão no topo da minha cabeça e eu tive vontade de arrancá-la do braço, mas me contive: a encenação ainda não havia acabado.
_ Sim senhor.
Ele deu uma risada franca e amistosa, fácil de enganar os ingênuos e olhou de modo significativo para o leão de chácara ao seu lado.
_Então venha. Entre que eu vou cuidar de você.
Adentrei a construção carregando a cesta de maçãs pelas duas mãos e com o "patrão" ao meu lado, sua mão estava no meu ombro e apertava levemente; não era um toque amistoso e sim de domínio.
Lá dentro havia uma sala grande com vários sofás e poltronas, alguns homens estavam bebendo e fumando seus charutos, não havia mulheres.
Passei direto por eles bem consciente dos olhares sobre mim, acompanhando os meus passos. Pensei que ele fosse me levar à cozinha mas virei em um corredor e cheguei à uma antessala, havia uma mesa com alguns sanduíches e bebidas, o homem me deu um e eu o levei a boca, até que estava bom. Quando terminei ele disse:
_Não quer mais um? Pode pegar.
Neguei com a cabeça.
_Melhor não. Encher muito o estômago que já está acostumado a ficar vazio pode fazer mal — menti.
Ele sorriu, um sorriso vazio.
_ Meu colega me disse que você é sozinho…Órfão?
_Sim. Meus pais morreram há tempos. Vivo só.
_ Que pena não é? — ele fez uma cara triste mas eu pude ver os olhos brilhando, mas então ele mudou a expressão rápido.
_ Venha. Quero te mostrar uma coisa.
O segui para a próxima sala, a porta dupla era enorme e parecia pesada mas ele a abriu com facilidade assim que entrei, senti um cheiro muito doce, enjoativo e sufocante, dei uma tossida e ele olhou para mim, me recompus.
A sala parecia vazia e estava na penumbra, pesadas cortinas de veludo vinho impediam que qualquer luminosidade pudesse passar pela janela. O cheiro estava mais forte, me sufocando; corri os olhos pelo ambiente: era uma sala pequena e em todos os cantos havia incensários, desses usados em missas, de onde se desprendia finos rolos de fumaça branca: era ela que tinha esse cheiro sufocante. Eu conhecia o que era: ópio. Por que eles queimavam tanto e daquele jeito? Normalmente a droga era consumida individualmente.
"Pessoas tolas que desperdiçam a vida com essas substâncias". O pensamento passou rápido pela minha cabeça para logo depois fugir. Estava começando a ficar difícil respirar e pensar direito.
Senti minhas pernas bambearem e meu raciocínio ficar lento, tentei virar e sair da sala rápido mas a droga já tinha tomado conta da minha mente. Não consegui nem chegar até a porta, meus joelhos cederam e desmaiei antes mesmo de cair no chão, perdido numa espiral negra de confusão
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