Desejos libertos
43 A festa - Parte 1
Notas iniciais
Eu não acreditava que estava nessa situação novamente. De novo não!
Atravessava os corredores do palácio, coberto por uma longa capa negra que ia da cabeça aos pés, mesmo assim, não escondia o enorme volume em torno das minhas pernas. Bufava e resmungava baixo conforme tentava andar o mais rápido possível, sem me enroscar naquelas inúmeras camadas de saias.
—Eu disse que não queria mais me vestir de mulher — reclamei em voz baixa, a última coisa que eu queria era chamar a atenção para mim.
—Sim — Sebastian concordou, olhando para frente ao longo do enorme corredor do palácio, ladeado à esquerda por janelas altas.
—Odeio isso e ainda vou ter que aparecer em público vestido assim! De novo! — reclamei mais. Estava furioso.
Aquele vestido me esquentava as pernas e me apertava na cintura e peito.
“Maldito espartilho!” — pensei. Sebastian o havia apertado ainda mais e, mesmo que eu não quisesse, estava ofegante.
—Acalme-se, Jovem amo, está tudo bem, ninguém conseguirá reconhecê-lo — Sebastian falou calmamente, mas eu o conhecia muito bem, e percebi o tom de divertimento na voz.
Bufei irritado; uma dorzinha de cabeça, fina e chata, latejava nas minhas têmporas e eu sentia dificuldades em respirar.
—Claro que ninguém vai me reconhecer. Afinal você nunca está me acompanhando, não é? — ironizei — Com certeza vão achar que o cão está acompanhando outro dono.
Olhei de canto de olho para ele e vi que havia franzido um pouco as sobrancelhas, numa expressão de falsa tristeza.
—Que cruel, mestre! Seu comentário foi maldoso demais, até porque não sou um cachorro. Pelo que eu saiba o cão é o senhor, o Cão da rainha. — Sebastian ajeitava os punhos do fraque novo, de um modelo mais luxuoso, comprado especialmente para esse maldito baile.
—Não é, mas tem o nome de um — falei mal humorado — Sabe que eu odeio me vestir assim.
Era uma das coisas que eu mais odiei fazer. E cá estou eu novamente, tentando respirar nesse espartilho muito apertado, sentindo meus pulmões chiarem perigosamente, só faltava eu ter uma crise de asma. Ter que enfrentar um baile detestável e o assédio mais detestável ainda daquele loiro. Tudo isso enfiado nesse vestido ainda mais revelador que aquele rosa.
—Mas você fica tão bem assim, Jovem amo. Está uma senhorita adorável — Sebastian falou sorrindo e eu o fuzilei com o olhar.
—Cale a boca, Sebastian. Isso é vergonhoso! — havíamos chegado ao hall de entrada do palácio e eu segurava a saia, erguendo a barra para não cair: aquele monte de saias estava me atrapalhando! Não sei como as mulheres conseguiam.
—Mas não estou fazendo nada, estou apenas dando minha opinião. Você fica ótimo vestido de mulher e, se não me engano, da última vez que se vestiu, parecia muito à vontade com aquele corpete de seda azul — falou solene, como se realmente estivesse falando algo sério.
Corei muito, terrivelmente, mas engoli em seco, tentando me controlar. Saímos para o hall externo do palácio.
—Sei... — falei, pensando em alguma resposta à altura do comentário vergonhoso dele. Ergui um pouco a saia para entrar na carruagem, a qual Sebastian mantinha a porta aberta com uma mão enquanto a outra era estendida para me apoiar na subida — Quer que eu me comporte no baile do mesmo jeito que da última vez que usei roupa feminina? Tenho certeza que o visconde vai adorar! — provoquei com um sorriso torto ao entrar na carruagem negra com estofados em couro cor de vinho. Me sentei.
—Você não é nem louco de fazer algo assim, bocchan. Nem louco! — Sebastian segurou o meu pulso e me puxou para o que seria um beijo, se eu não tivesse colocado dois dedos sobre os seus lábios, impedindo o avanço.
—Então não fique falando que fico bem usando vestidos. — falei querendo mostrar seriedade, mas o ciúme do Sebastian amolecia e aquecia o meu coração e, no final das contas, a minha voz mostrou isso.
—Perfeitamente. Eu não digo. Mas esse tom cai bem em você! — falou sorrindo e fechou a porta.
—Maldito!! — xinguei e tenho certeza que ele ouviu pois me pareceu rir enquanto tomava lugar no banco do condutor.
Maldita hora também quando, dias atrás, Sebastian havia me perguntado sobre como seria o vestido e eu, depois de uma longa discussão, em que Sebastian rebatia todas as opções de roupas que eu falava, fiquei muito irritado e minha paciência, que já não é muito grande, acabou-se por completo. Terminou comigo dizendo que ele mesmo poderia escolher o modelo e a cor que quisesse. Eu devia ter desconfiado daquele sorriso demoníaco, na verdade eu desconfiei, mas já não havia o que fazer, não diante do tanto de vezes que ele havia me dito que aqueles vestidos ou eram de criança ou de idosas. Eu fiz apenas uma exigência: que não fosse revelador demais.
Besteira, quando dias depois, vi o vestido pronto, quase tive um ataque: era justo na parte do corpete, com os ombros à mostra e alguns bordados em pedrarias; descia justo até um pouco abaixo do quadril, onde se abria numa saia longa e volumosa, feita de um tecido diáfano. Tudo rosa escuro. Eu não gostei da cor nem um pouco, era mais escura que o vestido anterior, mas a cor, junto com o modelo, tornava o vestido chamativo demais. Olhei furioso para ele ao que me respondeu, petulante, que se o objetivo era seduzir sem perder a aparência juvenil e delicada, nada melhor do que aquele tom. Bufei e joguei o vestido de novo na caixa do ateliê de costura. E dali ele só saiu hoje quando, infelizmente, tive que usá-lo.
Me acomodei no banco, tirando a capa e a jogando de lado, tendo um pouco de dificuldade, pois o tecido fino da saia escorregava no couro liso demais. Me senti solitário, da outra vez que tive que passar por isso, eu tinha companhia: Madame Red estava comigo, não que ela tivesse ficado ao meu lado o tempo todo, já que havia preferido ficar flertando com os outros nobres, mas estava por ali pelo menos. Se bem que eu estaria com Sebastian ao meu lado, ele nem estaria como um serviçal pois para todos os efeitos, Ciel não pôde comparecer e Sebastian havia sido incumbido de representá-lo. Pensei mais uma vez na minha tia, a lembrança dela veio vívida demais na minha memória e eu senti um aperto ruim no peito. Toda a lembrança do Jack Estripador, a tentativa de me matar e a posterior morte dela pelo Grell vieram à minha mente. Senti meu estômago se apertar na sensação já bem conhecida de enjôo e cheguei à conclusão que viagens de carruagem me deixavam doente. Ou talvez fosse tudo resultado do meu estado mental.
Respirei fundo e me mantive altivo. Eu era um Phantomhive e não iria ficar melancólico e chorando pelos cantos a cada vez que lembrasse de algo ruim.
Cerca de uma hora depois, paramos na frente da mansão do visconde de Druitt. Olhei pela janela, afastando a cortina, não acreditava que ele estava fazendo esse tipo de festa em plena capital do reino. Era muita cara de pau. Suspirei e fechei a cortina, ajeitei minhas luvas e joguei os longos cabelos da peruca no mesmo tom do meu cabelo para trás, estavam soltos, apernas com um arranjo de fita e flores de seda prendendo uma mecha.
Senti a carruagem erguer-se um pouco pela perda de peso Sebastian desceu, e logo a porta era aberta.
—Pronto? — perguntou, sorridente e solícito, estendendo a mão enluvada imaculadamente branca para mim.
—Não. Mas adianta de alguma coisa? — respondi e segurei a mão, descendo do veículo. O cavalo bateu as patas no chão de pedra, impaciente e Sebastian desviou a atenção para o animal.
—O que ele tem? — perguntei.
—Não sei, talvez tenha se assustado com algo — respondeu, mas não me convenceu. A expressão preocupada era nítida no rosto dele.
—Percebeu algo? Diga logo!
—Não. Não é nada. Ainda tenho que ter certeza. — comentou ainda olhando em torno de nós, atento à qualquer ameaça. Mas tudo estava calmo, ou aparentemente calmo. Sebastian baixou os olhos para mim, numa comunicação muda, como se tentasse me tranquilizar com o olhar.
O cavalariço logo surgiu do lado do Sebastian que acenou com a cabeça em concordância permitindo que ele levasse a carruagem para a parte de trás da mansão, onde ficaria com as outras carruagens.
Me virei para a entrada da mansão: dez degraus nos separavam das pesadas portas brancas que, no momento, estavam abertas revelando o interior amplamente iluminado com uma luz amarelada e dois empregados parados à postos para receber os convidados.
Havíamos decidido que o melhor seria chegarmos algum tempo depois do início da festa, contando com o fato de que, provavelmente o salão já estaria razoavelmente cheio e eu passaria pelo menos um pouco desapercebido. Com certeza assim que o visconde me visse, eu já não teria mais paz e toda a investigação ficaria a cargo do Sebastian.
Virei meu rosto para o Sebastian e ele ainda me olhava, corei um pouco com aquele olhar, então Sebastian sorriu.
—A senhorita está muito bem, senhorita Lucy. Diria que está linda! — falou num tom sóbrio e distante, mas com aquele sorrisinho típico dele.
Fechei meu cenho e ele fez uma expressão de “você agora é uma dama!”, bufei e deixei meus ombros caírem, desanimado; só para ser quase esmagado pelo espartilho que me obrigava a manter a pose altiva.
—Muito obrigada, senhor Michaelis. — respondi acenando de forma leve e graciosa para o mordomo. Sebastian sorriu mais e me ofereceu o braço o qual enrosquei o meu e caminhamos até a entrada da mansão.
Sebastian entregou os convites junto com a carta do conde Ciel Phantomhive, onde pedia desculpas por não poder comparecer à festa tão importante e desejada e pedindo para que o visconde aceitasse a representação da sua pessoa pelo Sebastian.
—Senhorita Whitehill, senhor Michaelis, eu lhes dou as boas-vindas em nome do Visconde de Druitt. Aproveitem a festa — o empregado fez uma mesura leve e sorriu um pouco.
Acenei com a cabeça para ele e entrei no amplo salão fartamente iluminado, estava decorado em tons violeta e prata esbranquiçado, pessoas circulavam por ali: mulheres jovens, muito bem arrumadas e homens elegantes conversavam animados ao som da pequena orquestra que tocava em algum dos cômodos, provavelmente no salão mesmo, embora este mesmo ainda estivesse fechado de modo que os convidados conversavam um pouco, mas a maioria permanecia em silêncio, em pequenos grupos, normalmente de homens ou de mulheres. Alguns garçons circulavam, vestidos com meio-fraque* cinza chumbo e preto, serviam flutes** com champagne rosada e borbulhante.
Caminhei entre os convidados, dando uma repassada visual nas pessoas, Druitt tinha razão: eu era jovem demais para estar ali, e chamava muita atenção. Calculei mais ou menos a idade dos convidados: em torno dos dezessete aos vinte anos, no máximo. Caminhei, me aproximando de uma das janelas, era um lugar um pouco vazio e me dava uma visão ótima da porta de entrada, assim eu poderia ver quem chegava no salão. Sebastian ficou ao meu lado e negou a taça de champagne quando o garçom se aproximou, estendi a minha mão e alcancei o pedestal finíssimo de cristal, levei a taça aos lábios provando a bebida doce demais para ser apenas champagne. Franzi o cenho.
—Qual a safra dessa champagne? — perguntei ao garçom.
—Esta é de 1860, uma safra rara importada da França — respondeu cortês e eu assenti com a cabeça, dispensando-o.
Aquela champagne, sendo de uma safra já com alguns anos assim, devia ser bem cara. Tomei mais um gole e realmente estranhei o sabor doce, mas ela desceu macia.
O anfitrião da festa ainda não havia descido pelas longas escadas que ficavam bem no meio do hall, de modo que eu respirei um pouco aliviado, ainda teria mais um tempo sem o visconde tentando me apalpar. Corri os olhos pelas pessoas, mais uma vez, prestando atenção em tudo. Olhei em volta, me perguntando por que o salão não estava aberto, isso poderia ser considerado falta de educação deixar os convidados de pé, confinados no hall, porém ninguém ali parecia estar irritado ou contrariado. Aliás estavam calmos, calmos demais, e notei em alguns um olhar meio perdido. Prestei atenção na decoração do lugar e algo chamou a minha atenção.
—Sebastian, se normalmente o visconde usa o branco e o dourado, por que a decoração da festa é em tons violeta? — perguntei e Sebastian acompanhou o meu olhar.
—Não sei, bocchan. Talvez seja uma festa temática, lembre-se, essa não é uma festa comum. Não procure coerência. — falou analisando o local, o semblante muito sério. Ele estava escondendo algo, ou pelo menos desconfiando.
Suspirei, ou tentei suspirar, aquele espartilho estava me apertando tanto que meus pulmões chiavam. Estava com receio de ter uma crise de asma no meio daquela festa. Sebastian olhou para mim, preocupado, mas não conseguiu falar nada pois nesse momento a música cessou e a figura loira do visconde de Druitt apareceu no topo da escada.
—Oooohhh, que lindos passarinhos temos nessa noite — falou, teatralmente, com uma mão ao peito — É com imenso prazer que agradeço a presença de todos vocês, meus amigos mais queridos, nessa humilde festa. É uma alegria gigantesca para mim. Que vocês se divirtam, dancem, riam e bebam pois nossas festas não têm limite! — Druitt ergueu uma taça nas mãos num brinde coletivo e todos os convidados que o olhavam do hall ergueram as taças em resposta, vários aplausos se seguiram, enquanto pombas brancas eram soltas e uma chuva de papel colorido caía sobre nós, um perfume doce inundou o ambiente e algo estalou na minha mente, peguei um dos papéis nas mãos: era uma pequena flor, violeta e branca. Era dali que se desprendia o perfume.
“Onde eu já senti esse cheiro? Ele me parece tão familiar…” — pensei, fazendo o papel perfumado dançar nos meus dedos.
Estava distraído, tentando puxar pela memória, onde eu havia já sentido o perfume quando sinto Sebastian tocar meu ombro, chamando a atenção para o loiro que começou a descer as escadas enquanto as portas do salão de festas iam sendo abertas.
Até aí nada de demais, nem foi um grande discurso de abertura de festa. Um pouco espalhafatoso na parte das pombas e flores de papel voando mas nada fora dos padrões de gosto duvidoso do visconde. Ajeitei meu vestido e enrosquei meu braço no do Sebastian, me dirigindo às enormes portas duplas que davam para o salão propriamente dito.
—Senhorita — a criada me parou na porta — Por favor, fique nas mesas à direita do salão.
Acenei com a cabeça e puxei Sebastian para lá, corri os olhos pelo salão, verificando que ainda havia uma mesa completamente vazia. Porém, fui impedido ao sentir certa resistência no Sebastian me acompanhar, olhei na direção e vi que a mesma criada o segurava delicadamente pelo punho do fraque.
—Desculpe, o senhor deve ir para a esquerda — falou educadamente, apontando com a mão para a direção que Sebastian deveria ir.
—O quê? — perguntei.
—É a primeira vez no baile do senhor Druitt? — sorriu complacente e assim que eu concordei com a cabeça, ela explicou pacientemente.
—Nos bailes do senhor Druitt, os cavalheiros não se sentam com as damas, é uma regra.
—Mas eu vim acompanhada, não tem sentido eu ficar separada do meu acompanhante — teimei, tomando todo o cuidado do mundo para falar tudo no feminino e não cometer a gafe de me denunciar como homem.
A criada ia abrir a boca para falar algo quando o cheiro doce atinge em cheio meu nariz, espirro e sinto meu pulmão reclamar contra aquele odor. Segundos depois uma mão toma a minha.
—Oooh…. esses cabelos, essa pele branca… tenho certeza que é a prima do meu querido conde Phantomhive — era a voz do visconde.
Disfarço o tremor que percorre minha coluna e forço um sorriso doce e encantador. Ele agora está na minha frente, sorrindo pervertidamente, ainda segurando minha mão, erguendo-a em direção àqueles lábios úmidos. Contenho meu asco e sorrio.
—Sou Lucy Whitehill — o cumprimentei inclinando a cabeça um pouquinho para o lado e flexionando um pouco meus joelhos.
O visconde sorriu mais ainda e beijou minha mão. Agradeci mentalmente por estar usando luvas que iam até a altura dos meus cotovelos.
—Onde está o conde? — perguntou olhando para os lados e dando de cara com um Sebastian nada amistoso. Fiz um sinal para que ele melhorasse a expressão mas nem precisava, ele rapidamente se recompôs. Sorriu e cumprimentou polidamente.
—Venho em nome do conde Phantomhive, infelizmente ele adoeceu e não pôde comparecer à essa festa que esperou com tanta ansiedade. Ordenou-me que lhe pedisse desculpas e que aceitasse minha presença, mesmo não sendo à altura de um nobre como ele, como uma espécie de voto de confiança. Afinal, o pequeno amo quer muito ter uma nova chance de jogar com o visconde.
Sebastian fez uma pequena mesura, havia falado exatamente o texto ensaiado por nós no quarto. Eu sabia que ele gostou tanto de falar essas palavras como eu havia adorado ter-me apertado nesse vestido e não pude deixar de me sentir um pouco vingado.
—Sim, sim. Acredito que possa relevar isso. Mas ele poderia ter vindo assim mesmo. Poderia deixá-lo descansando nos meus aposentos — falou ousadamente e eu o xinguei mentalmente.
Sebastian se endireitou, o fraque dele nem ao menos havia saído do lugar, estava impecável como sempre. Sua expressão era séria, dando a impressão de que meu estado de saúde era grave. Tudo encenação.
—Talvez o senhor possa ir vê-lo amanhã. Tenho certeza que o jovem amo adoraria sua presença.
Arregalei meus olhos para o mordomo.
“Ele está louco ou o quê?” — pensei — “Vou matá-lo!”
“O que raios o Sebastian está planejando??? Sem ao menos me consultar? Ele esqueceu quem é o mestre?”
Queria ter dito alguma coisa porém nem tive tempo de me recompor do susto, o visconde abriu um enorme sorriso.
—Seria fantástico. Uma tarde inteira no quarto com aquele pequeno rouxinol. Garanto que ele iria se sentir muito melhor. — comentou, mexendo no cabelo loiro, jogando a franja para trás.
Bufei com a atitude pretensiosa. Ledo engano o dele, achar que eu iria cair nos encantos de um sedutor barato como ele.
Sebastian sorriu e eu vi um lampejo avermelhado brilhar nos seus olhos que, nesse momento, estavam fixos no visconde.
—Tenho certeza que sim. Ele está muito abatido com o sarampo que cobre o corpo tão franzino — comentou calmamente.
O visconde engasgou com o champagne que estava bebendo.
—Sarampo??! Ah, céus, eu nunca tive sarampo… aquelas manchas vermelhas, coceira, aargh… Talvez eu espere alguns dias para vê-lo — fez uma cara estranha, tentando conter a expressão de medo da doença e eu quis rir. Quis não, eu ri, cobrindo minha boca com a mão. Um riso baixo.
Sebastian também conteve o riso.
—Certamente. — respondeu educado.
—A senhorita também teve contato com o conde? — perguntou para mim.
—Claro. Eu abracei e dei um beijo no rosto do meu querido primo, pois eu já tive na infância . Pobrezinho!! Está coberto de manchas… — comentei lamentando por fora e rindo por dentro.
O visconde tratou de dar alguns passos para longe de mim, encolhendo os braços junto ao peito, como se tivesse visto a Pestilência em pessoa.
—Ah sim… bem, depois eu virei falar mais com a senhorita… — se desculpou rapidamente e se afastou mais rápido ainda.
Dei uma risada baixa, ele era tão patético! Me encaminhei para a mesa junto com o Sebastian, apenas para ser impedido novamente.
—Lados separados, por favor. — a criada orientou e eu dei um olhar de despedida para o Sebastian.
Fui para a mesa que a esta altura já não estava mais vazia: três moças ocupavam as cadeiras de espaldar alto e braços de madeira recoberta por uma fina camada dourada, dispostas em torno da mesa grande e redonda. Caberia mais de quatro pessoas em torno daquela mesa mas todas tinham apenas quatro cadeiras.
Olhei para trás e vi Sebastian correr os olhos pelo salão, o cenho levemente franzido, ele não estava somente observando o movimento das pessoas, estava procurando algo, desde que estávamos lá fora, ele procurava algo.
“Por que não me disse o que era?” — pensei levemente preocupado. Estava atento também a tudo, aquilo ali não era uma festa para a qual eu havia ido me divertir é claro, e era meu dever permanecer completamente atento e vigilante para qualquer indício suspeito. Mas até agora a única coisa mais suspeita que eu havia visto era o mau gosto do visconde com aquela decoração horrorosa e aquele cheiro doce e enjoativo que se espalhava pelo salão.
Caminhei até a mesa, sentindo meu peito chiar, meus pulmões reclamando pelo aperto do espartilho e pelo cheiro. Eu sabia o que estava se aproximando: um tremenda crise de asma. Mas eu tinha que me controlar, não podia simplesmente sair dali e perder a chance de obter respostas.
—Boa noite — cumprimentei docemente as moças da mesa, dando um sorriso angelical — Poderia me juntar à vocês?
A morena com o cabelo trançado e flores brancas enfeitando me olhou, deu um breve sorriso.
—Claro — piscou os olhos azuis e mostrou a cadeira vazia.
—Obrigada — me sentei no local e pousei ambas as mãos juntas no meu colo. As outras duas moças, uma com cabelo cor de caramelo e uma loira conversavam alegremente e só notaram a minha presença minutos depois. A quase ruiva olhou para mim e sorriu.
—Primeira vez nas festas do círculo?
“Que círculo?” — foi a primeira coisa que eu pensei, mas ao invés de perguntar eu apenas fiz uma expressão simpática.
—Sim, é a primeira vez. Estou muito ansiosa — falei entrelaçando as mãos junto ao peito e continuei, modulando a voz para que parecesse a de uma garotinha animada.
—Vocês já participaram de outras? O que vai acontecer?
A morena provou da taça de champagne.
—Eu já participei de várias. Fique tranquila, você vai amar. Apesar de parecer bem nova para isso.
—Há cavalheiros que preferem o tipo dela, Rosalyn — interveio a loira e então ela sorriu para mim — Prazer, meu nome é Anna.
—Me chamo Lucy — respondi dando um sorriso tímido ao que a terceira falou.
—Ah não, aqui não é lugar para timidez. Mas por enquanto até que pode ser charmoso afinal, pervertidos que gostam de garotinhas tímidas é o que mais tem nesse salão hoje.
Fiquei pasmo, tanto com o que a loira havia falado, como pelo jeito que havia falado, assim, de modo tão descarado, como se não fosse nada.
—Mas — me fiz de tímida — O que devo esperar? Eu não sei exatamente… — dei uma piscada mais lenta e cobri parte do rosto com a mão.
A loira tomou a frente novamente. Mexeu no cabelo de fios lisos e corte reto.
—Essa primeira parte é só para nós vermos e sermos vistas. Os cavalheiros irão rodar o salão, vendo qual dama mais o agrada, provavelmente a tirará para dançar mas, mesmo assim, isso não quer dizer nada. Você poderá dançar com quantos quiser — ela sorriu, os dentes muito brancos e se inclinou para mim, segredando com a mão em concha perto da boca — Porém, em torno das vinte e três horas, começa a segunda parte da festa e então as coisas ficarão muito melhores. Nosso anfitrião nos presenteará com o mais dessa fragrância enebriante. Ela nos estimulará nos jogos que se seguirão. E então algum cavalheiro irá nos escolher. Será ótimo!
Estava inclinado para ela , tentando ouvi-la melhor, e a olhei percebendo então que seu olhar estava embaçado, como se ela não estivesse tão lúcida assim. O que era de se estranhar pois ela falava eloquentemente. Me endireitei na cadeira.
—Mal posso esperar para ver quem irá me escolher — corei um pouco — E esse perfume, o que é? Você disse que ele ia fazer o quê mesmo?
—É quase uma essência divina — falou sonhadora — Apenas o visconde e seu amigo possuem esse perfume. Ele nos estimula e nos dá energia para os jogos. Isso que você sente, é apenas uma amostra fraca e pálida do que será lançado sobre nós quando der meia-noite.
“Amostra fraca e pálida?” — pensei nauseado. Eu não ia aguentar mais daquele cheiro. Procurei pelo Sebastian com os olhos e o vi numa das paredes, parecia estar ali apenas para passar o tempo, tinha uma taça na mão mas eu percebia que apenas fingia beber.
“Um demônio que não bebe…” — pensei dando um sorriso de lado e o vi procurar algo ao longo da parede, se detendo perto da saída de ar, pareceu examinar algo mas logo perdeu o interesse e foi para perto da mesa em que eu achei que estaria sentado.
—Amigo do visconde? Quem é? — perguntei voltando ao meu interrogatório disfarçado de conversa entre amigas.
—Eu não sei. Ninguém realmente o conhece. Mas ele é irresistível. Tão misterioso e atraente… adoraria ser a eleita numa das festas. Mas ele nunca sequer olhou para mim… — lamentou, baixando um pouco a cabeça.
Fiquei alguns segundos raciocinando, esse amigo misterioso não poderia ser nenhum daqueles que estavam com o visconde no Clube Masculino, ou talvez o gosto dessa moça seja tão ruim quanto o do visconde.
Queria ainda ter perguntado mais coisas porém nesse momento os músicos começaram a tocar outra música, num volume mais alto. Alguns convidados caminharam, indo até as mesas do nosso lado e tiraram algumas moças para dançar, logo os casais estavam no meio do salão, valsando leves e ágeis pelo chão de madeira clara e tão encerada que refletia a luminosidade dos candelabros.
Me mantive quieto, tudo o que eu não queria era chamar a atenção, mas eu estava na parte mais exposta da mesa, a mais próxima do salão. Vi quando Sebastian cruzou o local, caminhando ágil e elegante como um gato, algumas mechas do cabelo balançando conforme ele se movia. Não queria que ele tirasse dama nenhuma para dançar, não queria que ele tocasse em mais ninguém, mesmo que respeitosamente, mas isso era um luxo que eu não podia me dar; tanto que, minutos depois, Sebastian valsava pelo salão com uma loira muito bonita, metida num vestido azul claro, tão diáfano que parecia que vestia algum pedaço do céu. Baixei meus olhos, o ciúme surgindo como um soco no estômago. Sabia que não era nada demais, Sebastian estava investigando, tentando descobrir novas informações com a loira assim como eu também, enquanto conversava com as moças ao meu lado. Mas como se faz para calar o coração?
Peguei a taça de champagne e tomei um grande gole pela primeira vez, esvaziando-a mais da metade, ela desceu macia pela minha garganta, devolvi-a à mesa ainda de cabeça baixa quando ouço uma voz próxima de mim.
—Veja que sorte! Uma dama da minha idade! — falou o estranho e a primeira coisa que eu notei foi que a voz era jovem demais para ser de um adulto, a segunda coisa que notei foram os sapatos pretos envernizados, fechados com um laço de fita, subi meus olhos, percorrendo o rapaz à minha frente até olhar o cabelo liso e loiro, um pouco desfiado. Os olhos eram azuis, de um tom diferente do meu, eram claros, quase cristalino e ele mantinha um sorriso sarcástico e um pouco perturbador nos lábios.
—Gostaria de dançar? — estendeu a mão para mim e eu ainda fiquei muitos segundos olhando para o garoto, devia ter mais ou menos a minha idade e apenas quando ele diminuiu um pouco o sorriso, obviamente acreditando que eu negaria a dança, é que eu percebi que estava o encarando, segurei na mão fria e úmida.
—Claro — falei, cuidando para que minha voz soasse feminina. Me levantei e fui conduzido até o meio dos dançarinos. Ele pousou a mão na minha cintura e me puxou um pouco, ainda mantendo um espaço respeitoso entre nós, segurou minha mão direita e me olhou nos olhos, pisquei docemente e dei um sorriso suave, que foi correspondido por um meio de lado.
Logo, era eu dançando entre os outros casais, sendo conduzido como uma dama que eu não era. Olhei em volta, desconfortável, muitos outros casais dançando à nossa volta, vi a ponta do fraque do Sebastian, ele estava ainda com a loira, mesmo que algumas pessoas tenham trocado de par durante a dança.
—Está com medo? — o loiro perguntou, desviando minha atenção do Sebastian.
Olhei para ele.
—Ah, não. Por que?
—Está tremendo. — ele sorriu e só então eu percebi que estava com as mãos trêmulas, respirei fundo.
—Só estou um pouco nervosa. Meu primeiro baile — expliquei, na verdade eu tremia por conta da asma me oprimindo.
—Claro. Eu nunca a havia visto em Londres. Qual seu nome? — me perguntou baixinho, se movendo junto comigo, ao contrário de mim, ele não dançava mal, mas eu odiava dançar e odiava estar com ele ali, queria ficar sentado, olhando o movimento.
—Lucy Whitehill — dei um sorriso tímido — E o seu? — ergui meus olhos para ele.
“Ainda por cima, isso: ele é alguns centímetros mais alto que eu!” — pensei irritado.
—Alois. Alois Trancy. A senhorita é parente do conde Phantomhive? — perguntou interessado, soltando a mão da minha cintura e dando impulso para que eu girasse. Minha mente estalou com o perigo: eu nunca havia visto esse garoto, nunca havia ouvido o nome dele, então como ele sabia o meu nome?
Olhei para ele, disfarçando o olhar desconfiado.
—Sim, sou prima dele. O conhece? — dei o giro mal feito, pois tropecei na anágua e voltei a segurar a mão do Alois.
Ele sorria e seus olhos me diziam que ele era muito inteligente.
—Só de nome.
—Então como sabe que sou parente dele?
—A descrição da aparência dele coincide com a sua. Eu queria conhecê-lo — sorriu e deu uma piscadinha.
—Por que? — sorrio, curioso.
—Somos jovens, somos condes, ricos… temos muito em comum, poderíamos ser amigos — falou e eu percebi que o passo havia saído um pouco do ritmo, sinal que ele estava nervoso, ou mentindo — Fora que temos mais uma coisa em comum: nossos mordomos.
Arregalei meus olhos, sem conseguir conter a surpresa. Além de me conhecer, ele também conhecia Sebastian.
—E qual a importância dos mordomos? — falei como se fosse absurdo alguém dar importância a isso, mas minha risada saiu um pouco nervosa.
Alois abriu um pouco mais o sorriso.
—Ele parece ser muito próximo do mordomo e eu quero fazer o mesmo com o meu.
Fiquei em silêncio, desviando o olhar para qualquer outro lugar, tentando conter o rubor que tomou conta das minhas bochechas. Senti o cheiro doce se intensificar e olhei para o lado, o visconde dançava próximo à mim, com uma morena de vestido lilás, ela parecia muito feliz por estar sendo conduzida por ele, virei o rosto para o outro lado e dei de cara com Alois, seu rosto perto demais de mim.
—Você poderia me ajudar, não? — seu sorriso era afiado.
—C-com o que?
—Quero fazer ciúme no Claude. Quero que ele tenha medo de me perder. — confessou — Olhe — sinalizou com o rosto para um local onde um homem ainda mais alto que Sebastian estava parado, tinha os cabelos pretos repicados e mesmo da onde estávamos, eu podia ver os olhos dourados e frios dele, olhando desinteressadamente para todos — Aquele é o Claude. É ele quem eu quero.
Desviei os olhos do mordomo para o garoto.
—Por que está falando isso para uma dama como eu? — falei verdadeiramente incomodado.
Ele sorriu e me puxou um pouco pela cintura.
—Porque você poderia me ajudar. Quero fazer ciúme nele.
Dei um passo pra trás, voltando a aumentar a distância entre nós.
—Isso é indecoroso! Sou uma dama de respeito.
—Ora, ninguém que participa dessas festas do visconde é muito de respeito — falou sorrindo — Mas acalme-se, se não percebeu, eu não me interesso por meninas, mas Claude não precisa saber disso. Quero apenas que ele me note… — seu sorriso diminuiu um pouco ao dizer isso.
Olhei para o garoto, me perguntando o que raios ele tinha na cabeça para falar isso para mim. Ele tinha um ar arrogante e prepotente mas no fundo dos seus olhos muito azuis eu podia ver a ânsia em ser amado e o desespero de quem já havia conhecido o que era dor de verdade. Bufei, rolando os olhos e vi o mordomo dele olhando diretamente para nós.
—Talvez ele não seja indiferente à você. Já conversou isso com ele?
—Acredite, de todos os sentimentos que Claude pode ter por mim, amor não está entre eles.
—Talvez ele prefira mulheres… — ponderei seguindo os passos da dança. Estava chegando o momento em que os casais trocavam de par.
—Acho que ele gosta de qualquer um. Menos de mim. — murmurou com tristeza na voz — Estamos bem na linha de visão ele. Você vai me ajudar, não é?
Estávamos dando mais um giro e quando ele me puxou para ele foi mais forte, me segurou junto dele e lambeu meu pescoço.
A primeira coisa que senti foi surpresa pela ousadia, em seguida veio a vergonha e depois a raiva que ferveu em mim. O empurrei forte mas ele me puxou novamente, ainda dançando, o que me fez ficar com ainda mais raiva.
Espalmei as mãos no peito dele, tentando ganhar espaço pra poder dar um tapa bem dado no rosto daquele loiro atrevido. Quando somos interrompidos, achei que talvez fosse o Sebastian mas não, era bem pior.
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