Notas iniciais
Olá, queridos leitores, Obrigada a todos que se interessaram a ler a história. Antes de tudo, esclareço que nada sei de direito, constituição americana, direitos civis, criminais, etc. Tudo que escrevo é meramente fantasia e vem do meu leigo e pouco conhecimento de mundo. Então, peço que encarem o que escrevo como simplesmente fantasia de uma autora desvairada, porque não sei se há alguma verdade aqui ou se não há verdade alguma. Beijos a todos que se arriscarem a ler e boa leitura! Sion

Fatalista e fatal

Capítulo 1

O quarto do hospital estava silencioso; somente o barulho do aparelho que media os batimentos cardíacos do paciente e a conversa baixa dos médicos que examinavam o jovem deitado na cama.

– Foi algo muito violento... – o médico falou enquanto a enfermeira escrevia no prontuário – Porém sem nenhuma lesão mais grave, que bom que ele reagiu bem.

– Alguma contaminação?

– Nenhuma. Todos os exames deram negativos; ele está bem apesar de todo o trauma. Precisará de tratamento psicológico com certeza.

– Solicitei ao diretor que ele seja transferido imediatamente.

– Parece que isso não será necessário, há indícios que teremos reviravolta nesse caso; a defensoria pública foi afastada, uma agência de direito entrou no caso.

– Bem, minha tarefa é fazer que ele sobreviva. – respondeu a mulher – Ele é nosso colega, você sabe, não é?

– Médico?

– Sim, pediatra do hospital Ross.

– E daí? Se for mesmo um assassino...

A enfermeira mirou o rosto machucado do rapaz na cama.

– Ele não tem cara de assassino...

– E desde quando assassino tem cara, Diane? – riu o médico.

– É, você tem razão. A única coisa que temos a fazer é mantê-lo vivo e aguardar a investigação sobre o que aconteceu...

– Por quê?

– Ouvi rumores de que ele não deveria estar no presídio, que a transferência foi uma falsificação e que as câmeras de segurança foram violadas.

O médico mirou o rosto da colega, seus olhos verdes deixaram transparecer preocupação.

– Nossa! Mais um caso de corrupção em nossa maravilhosa polícia. Mas não tendo o motivo de alguém querer matar um pediatra, o que será que ele sabe?

– Não tenho idéia, mas isso que aconteceu não foi apenas uma briga entre marginais como se comentou. Mesmo porque, ele foi atacado na cela e seu exame toxicológico aponta para uma possível ingestão de sedativos...

– Será?

– Ele ainda não é um condenado, deveria ficar sozinho na cela, como os outros detentos entraram?

– Estranho realmente – o médico deu de ombro nervoso – Mas... será?

– Bem, não sei e nem quero saber, isso é com a corregedoria, espero que eles não demorem muito tempo investigando o caso.

– Eu também. É melhor ir almoçar.

Os dois deixaram o quarto do rapaz que dormia, fecharam a porta; do lado de fora um policial vigiava em alerta.

–-Desejos Vitais---

Um mês após os acontecimentos do presídio:

No centro da cidade, Shun entrava num elegante prédio, onde ficava o escritório de advocacia do seu irmão. O psicanalista vez por outra ajudava a agência em algum caso, embora, soubesse agora que teria pouco tempo para isso. Além de receber uma promoção no departamento de polícia onde trabalhava, ainda precisava concluir o curso de direito em Harvard, mudando-se, provavelmente, para Boston, cidade vizinha, até o final do ano.

– Bom dia! – cumprimentou alegremente a secretária, antes de entrar na sala que dividia com o amigo, deixando o terno sobre a cadeira de couro que ocupava e jogando a pasta sobre a mesma.

– Bom dia, Shun. – respondeu Hyoga – Alguma novidade sobre o caso Salwenn*?

– Mesmo se tiver, sabe que não posso falar, advogado. – disse Shun começando a enrolar a camisa branca que vestia — Na verdade tenho que dizer uma coisa importante a você e ao Ikki... – declarou o mais jovem.

Hyoga parou o que fazia, pois até então estava escrevendo algo num papel; ergueu os olhos para o amigo, tirando os óculos.

– O que foi?

– Não poderei mais ajudá-los nesse caso, a polícia designou que a corregedoria acompanhasse o acontecido ao réu, e foi solicitado que eu fizesse parte das investigações.

– Você?

– Bem, eu sou policial, não sou? Além do mais, fui indicado para trabalhar como corregedor especial nesse caso e isso, por ética, me afasta do caso Salwenn aqui na firma.

– Sei disso, mas o Ikki não ficará feliz, acho que deve conversar com seu irmão; ele nunca concordou com essa profissão...

– Sou bem grandinho para que o Ikki decida o que faço da minha vida. – reclamou Shun – Bem, é minha profissão quem paga meus estudos...

– Por que quer, o Ikki...

– Hyoga, você já percebeu que de dez palavras que você fala, nove são Ikki? – provocou o mais novo rindo.

O russo corou, e Shun baixou a cabeça, envergonhado com o tom com que fez a observação.

– Só estou preocupado com você. – volveu o loiro – Desculpe...

– Desculpe você, Hyoga, eu... – suspirou – Bem, vamos trabalhar, ok? Serão meus últimos relatórios para essa agência. Procurem outro pra explorar! – sorriu tentando descontrair.

– Ok. Parece que o tal médico sai hoje...

– Isso é bom... – Shun suspirou e se concentrou nos autos com caso Salwenn, coisa que passaria a tarde fazendo, já que seu trabalho como estagiário na corregedoria de polícia era apenas as terças e quintas e seu pouco tempo livre era dedicado a ajudar o irmão e o amigo na firma de advocacia. Contudo, com a “promoção”, sabia que aquilo iria mudar, não teria mais tempo para os amores de sua vida.

Mirou à tarde que começava na agitada cidade de Cambridge, e depois o relógio; sabia que o irmão tinha uma missão importante naquela tarde e rezava para que tudo desse certo. Desde que deixaram o Japão para morar naquele lugar, agraciados pela bolsa de estudo que Ikki recebera por ser um brilhante aluno, Shun tentava se adaptar. A selva urbana não era bem o seu habitat, e mesmo já se passando mais de seis anos, se sentia meio deslocado. Por sorte, fizera alguns amigos, como Hyoga, logo que chegara e isso aliviou um pouco a pressão de ser um rosto novo numa terra estranha. Contudo, a passagem dos anos levou alguns problemas, mas acabou trazendo novos, talvez, piores.

Tentou se concentrar nos papéis que lia, não era hora de ficar pensando em seus sentimentos confusos. Precisa trabalhar.

–---amor e morte------

Ikki recebeu o crachá com a permissão para entrar no quarto do hospital, saiu pelo corredor até chegar ao local onde estava seu cliente. Abriu a porta. Seu coração falhou e voltou a bater acelerado numa mistura de alívio e angústia. Alívio por ele estar finalmente recuperado, angústia ao ver os machucados em seu rosto que ainda levaria certo tempo até desaparecer.

– Olá, advogado... – a voz calma permanecia igual, sem nenhum resquício de amargura.

Durante todos aqueles dias, não pôde visitar o médico. Ele passara algum tempo em coma, mas se recuperou, para surpresa de todos, muito bem, sem nenhuma seqüela, entretanto, seu estado inspirava cuidados, e ele passara algum tempo na UTI até ser transferido para aquele quarto. Agora, já estava bem o suficiente para deixar o hospital e, se tudo desse certo, a prisão.

Aproximou-se da cama e apertou-lhe a mão.

– Deus, Shaka! O que fizeram com você...?

– Nada que não esperasse... – respondeu o loiro – Está tudo bem, vou me recuperar, eu mais que ninguém sei. – disse indiferente – Você está aqui há muito tempo?

– Não. Precisei de uma ordem judicial para vê-lo. Seu caso está sendo investigado pela corregedoria. Me diz o que aconteceu?

– Uma briga. – declarou o loiro indiferente e mudou de assunto – Quanto tempo fiquei aqui?

– Mais de um mês.

– Hum... Férias! – sorriu tranquilamente.

Ikki sorriu também, mirando o rosto do jovem médico; sentia-se angustiado, mas aliviado com a notícia que lhe daria.

– Sim, Shaka, sua fiança foi paga, você deve sair até o final da tarde.

O advogado esperava uma reação de alívio e felicidade que não viu no paciente, pelo contrário, Shaka franziu as sobrancelhas e mostrou-se preocupado.

– Não poderia ser amanhã?

– Por quê?

– Tenho que voltar à detenção... – declarou tranquilamente.

Agora foi a vez de o moreno franzir a testa.

– Por que gostaria de voltar aquele inferno? Veja o que fizeram com você!

– Preciso acertar algumas contas, antes de estar livre.

A voz do loiro não demonstrava raiva, nervosismo ou medo; era totalmente indiferente. Ikki bufou, irritado.

– Escuta, loiro, chega dos seus caprichos! – o advogado se esqueceu do profissionalismo e falava como se fosse a uma criança travessa – Você sairá até o final do dia comigo por aquela porta; não há contas a acertar, você não é um marginal!

Os olhos azul céu se voltaram para o moreno, que engoliu em seco, vendo o as escoriações que ainda o cercavam, deixando a pele em volta com um aspecto azulado.

– Doutor, desculpe-me, mas preciso voltar. – disse Shaka placidamente – Obrigado pela preocupação, mas garanto que isso não acontecerá novamente.

Ikki resignou-se, há três meses cuidava daquele caso, e já sabia o quanto o cliente poderia ser obstinado e teimoso.

– Não posso me intrometer na decisão do juiz. – respondeu contrafeito – Mas se você fizer alguma merda, eu...

– Eu prometo que não farei nada. – cortou o loiro – Mas preciso voltar lá.

Ikki suspirou resignado, afastou-se com as mãos nos bolsos.

– Você está bem? – perguntou, desviando o olhar.

O cliente deixou escapar um sorriso amargo.

– Vou sobreviver, doutor Amamiya...

– Bom, voltarei mais tarde para buscá-lo.

– Obrigado.

O advogado saiu; devolveu o crachá e se dirigiu ao seu carro; aquele caso ainda acabaria com sua sanidade.

–“Olá, sou Ikki Amamiya seu advogado” — estendeu a mão. O loiro mirou a mão estendida e o rosto do advogado antes de aceitar o cumprimento.

– “Outro para não acreditar em mim?” – perguntou a voz blasé – “Por que a defensoria pública insiste em me mandar um novo advogado a cada dia?”

–“Talvez, porque nenhum queira de fato esse caso, mas eu não sou da defensoria pública,” – Ikki jogou um cartão para o detento – “Minha firma é particular e nos interessamos em seu caso, mas propriamente, na sua versão do caso...”

Os olhos azuis se voltaram para o jovem a sua frente.

– “Alguém que acredita em mim?

–“Sim, ao menos pretendo acreditar, mas você tem que me contar com detalhes tudo que aconteceu.”

–“Por que a defensoria pública se retirou do caso?” – Shaka desconfiou.

–“Eles acham que cometeram um erro ao trancá-lo aqui e não querem arcar com o ônus disso...”

–“Que ótimo!” – riu o loiro – “Eles acabaram com minha vida, eles tiraram tudo de mim e agora acham que cometeram um erro?”

–“Eu sinto muito por todas as suas perdas...”

– “Sei que não sente nada, advogados não são humanos...” – declarou Shaka com desprezo –“Qual o real interesse de sua firma no meu caso, doutor Amamiya?”

Ikki cruzou os braços sobre a mesa e encarou o médico seriamente.

– “Doutor Phalke, temos interesse em processar o estado caso consigamos provar sua inocência...”

–“Hum, interessante.” – Shaka ponderou sem esconder a ironia – “Em quanto?”

–“Cinco milhões...”

Os olhos azuis do indiano tremeram e ele lutou contra a emoção que tentava dominá-lo.

–“É isso que valem duas vidas?” – perguntou revoltado – “É isso que vale minha vida destruída e a vida do homem que foi morto?”

–“Compreendo sua dor...”

–“Não, você não compreende! Você é como todos os outros, você quer dinheiro e só isso!” – cuspiu o prisioneiro.

–“Bem, estou aqui para ajudar, mas se não quiser, deixo que escolha quem deseje que o defenda!” – Ikki se ergueu irritado – “Passar bem, doutor Phalke!”

O advogado sairia, mas a voz do prisioneiro o deteve.

–“Vejo que ao menos o senhor sabe ser verdadeiro...” – ele disse – “Talvez, eu possa aceitar sua ajuda...”

Ikki sorriu, incrédulo, aquilo era sério? Aquele rapaz ainda achava que estava lhe fazendo um favor?

Resignado, o advogado voltou a se sentar.

– “Primeiro, preciso saber tudo que aconteceu naquela noite...”

–“Já contei essa história centenas de vezes...eu não suporto mais...”

–“É necessário...”

–“Eu sei...” – Shaka apoiou a cabeça entre as mãos. Estava realmente cansado dos interrogatórios, cansado de não ter tempo para extravasar a sua dor, para vivenciá-la e mesmo chorar; lembrou-se que ainda não chorara desde que tudo aconteceu, estava seco, letárgico, e agora aquele homem pedia para que repetisse tudo? Não conseguiria.

Ikki observou as mãos trêmulas do loiro que apoiavam a cabeça se afundando nos fios trigueiros. Sentiu-se como o insensível que ele julgava e resolveu deixar o interrogatório para outro dia.

– “Tudo bem, façamos um trato,” – começou e Shaka ergueu os olhos para mirá-lo – “Quando conseguir seu Habeas corpus, você me conta tudo, por enquanto, me conformarei com os autos, certo?”

O loiro assentiu com a cabeça, e ele se ergueu, caminhando para a saída.

– “Doutor Amamiya?”

Virou-se e mirou o cliente nos olhos, sem nada dizer.

– “Obrigado”.

Fez um aceno de cabeça e saiu.

Ikki chegou à firma; adentrou a sala que geralmente dividia com Hyoga e Shun, mas naquele momento, o irmão não estava. Aproximou-se do loiro e o beijou nos lábios, embora soubesse que o russo não gostava muito que fizesse isso no escritório, todo metido a certinho como era.

– Onde esteve? Tentei telefonar pra você. – reclamou o loiro.

– Estava no hospital...

– Hospital? Aconteceu alguma coisa? – Hyoga perguntou preocupado.

– Não aconteceu nada, o Shaka está bem, ele receberá alta e então poderemos tirá-lo de lá.

– Como ele está, digo, psicologicamente? – o russo pareceu preocupado.

Ikki se sentou e esticou os pés em cima da mesa, cruzando os braços atrás da cabeça.

– Hyoga, eu nunca conheci ninguém tão calmo numa situação tão desesperadora. Ele parecia alguém que... que foi a um restaurante, não gostou da comida e estava esperando para pagar e sair. Não parece uma pessoa que foi tão brutalmente espancado e que ficou em coma...

– Nossa! – o russo exclamou surpreso – De que seita ele é, hein? – riu.

– Você deveria perguntar de que planeta ele é, porque eu ainda não sei. – o moreno passou as mãos nos cabelos – Eu realmente gostaria de entendê-lo, mas ele se recusa a falar. Isso me intriga, e me faz pensar se não estou, na verdade, tentando inocentar um psicopata.

– Se quiser posso assumir esse caso pra você... – Hyoga se ergueu e deu a volta, ficando atrás do moreno, massageando seus ombros – Parece cansado.

– E estou... – Ikki suspirou com a gostosa massagem que recebia – Mas você sabe formas melhores de me relaxar, não?

– Vamos jantar em minha casa, hoje? – o loiro sugeriu beijando de leve a testa do namorado – Peço comida chinesa...E esquecemos todos os psicopatas que nos assombram...

Ikki sorriu, mirando os olhos do amante.

– Hum... tentador... – O puxou pela gravata e o beijou; nesse momento, Shun entrava pela porta do escritório.

O mais jovem ficou mirando a cena sem jeito, não sabia se voltava por onde entrou ou, já que flagrou mesmo, permanecia no local. Ruborizou continuando parado. Demorou um pouco até o casal se dar conta de sua presença. Hyoga se afastou embaraçado, limpando os lábios molhado; fitou a expressão incomodada do amigo.

– Desculpe, Shun... – pediu sem jeito. Ikki nem isso fez.

– Ah, Não precisa se desculpar! – riu o virginiano tentando esconder seu real estado de espírito – Como se eu não soubesse o que vocês andam fazendo?

A descontração forçada do irmão levou uma ruga à testa de Ikki; todavia, o mais velho estava cansado demais para perguntar o que havia com ele. Aquele caso lhe tirava toda e qualquer energia. Arrumou suas coisas e se ergueu.

– Estou indo pra casa; vou tomar um banho e descansar um pouco. – disse, beijou o namorado – Encontro você mais tarde.

– Ok, e não se atrase, doutor Amamiya... – o russo respondeu sorrindo.

O Amamiya mais velho se aproximou do irmão e afagou seus cabelos.

– Você está bem, Shun?

– Estou ótimo, irmão! – sorriu. Não gostava quando via Ikki com aquela expressão preocupada. Hyoga trocou um olhar com o amigo, fazendo uma pergunta muda, mas o olhar de Shun informou que não era o momento de comentar nada com Ikki.

– Tudo bem, amanhã conversamos, quero rever algumas fitas que a polícia me cedeu, ainda hoje. Tchau...

– Tchau, Ikki. – o mais velho dos Amamiya saiu, e Hyoga cruzou os braços mirando o psicólogo.

– Por que está evitando contar a ele que vai trabalhar como corregedor do caso em que ele está mais empenhado?

– Ah, Hyoga, você sabe o quanto o Ikki implicou desde que comecei na polícia, bem... Ele está focado no caso Salwenn e não quero perturbá-lo com isso agora...

– É só isso mesmo, Shun? – os olhos azuis e frios de Hyoga espreitaram detalhadamente o amigo que corou; ele o conhecia muito bem, sabia quando Shun mentia.

– É só isso, bem, agora preciso trabalhar, e... – Shun se interrompeu e engoliu em seco quando o amigo o segurou pelo braço.

– Ainda sou seu melhor amigo, Shun, não se esqueça disso só porque me envolvi com seu irmão...

O mais jovem corou.

– Uma coisa nada tem a ver com a outra... – desviou o olhar.

– Então por que sinto que se afastou de mim nos últimos tempos?

– Não fui eu quem se afastou de você, e sim você de mim. – Shun libertou o próprio braço – De uma hora para outra o Ikki passou a ser o ar que você respira e eu...

– O que tem você? – indagou surpreso.

– Eu passei a ser... Ninguém pra você, Hyoga, ninguém. – o mais jovem se afastaria, sentia-se envergonhado por ter confessado seus sentimentos daquela forma; não gostava de cobranças, e Hyoga não lhe devia nada, não era justo.

O russo voltou a puxá-lo pra si, agora o segurando pelos cotovelos.

– Shun, que bobagem é essa? O que sinto por você não mudou. – falou angustiado com a mágoa que via nos olhos do amigo.

– Eu sei. Hyoga, me desculpe, não deveria ter dito isso. Eu sinto muito...

O mais jovem baixou a cabeça, muito constrangido, e o loiro não soube o que dizer. Afastou-se apenas e voltou para sua mesa com uma ruga de preocupação na testa. Não queria magoar Shun, o amigo era muito importante para ele e nunca cogitou que seu envolvimento com Ikki o incomodasse.

Ficaram trabalhando em silêncio. Ambos acharam melhor ignorar o ocorrido e fingir que tudo estava exatamente bem entre eles.

–---Desejos Vitais---

No dia seguinte, Shun chegou cedo ao prédio da corregedoria, cumprimentou os colegas e foi examinar os laudos sobre o acidente no presídio. Como investigador forense cabia a ele e alguns colegas coletarem dados e traçar perfis para o departamento, e agora também, para a corregedoria.

Ele e Shiryu visitaram o presídio, tiraram algumas fotos e recolheram material para análise. Ambos perceberam que os funcionários da unidade não estavam felizes com a presença da corregedoria, e isso poderia atrapalhar as investigações. A maioria dos guardas e funcionário responderam ao interrogatório com monossílabas, e os dois agentes perceberam que aquele caso não seria fácil.

– Tudo é muito estranho. – disse Shiryu quando já estavam na sala que dividiam no prédio da corregedoria de Boston – Ele não deveria estar num presídio, quem deu a ordem de transferência?

– É isso que estamos tentando descobrir. Essa ordem nunca existiu. – observou Shun examinado a papelada.

– Acha que foi uma tentativa de homicídio?

– Estou tentando a achar que sim. – o mais jovem mirou o amigo sério.

– Mas, não seria mais fácil matá-lo de vez que espancá-lo e esperar que ele sangrasse até a morte?

– Bem, ou isso foi uma forma de despistar, ou os agressores acharam que matá-lo seria pouco... – Shun respondeu friamente, mas se sentiu mal ao pensar no ocorrido. Um horror!

Shiryu sorriu.

– Você é um prodígio, Shun!

– Tenho vinte e quatro anos! – riu – Não sou tão novo para ser um prodígio.

– Não seja tão modesto. – piscou Shiryu, o mais jovem corou, balançou a cabeça e ocupou sua mesa, indo para o computador checar sua caixa de e-mails.

O sorriso que apareceu em seus lábios formosos chamou a atenção do amigo.

– Boas notícias?

– Mensagens... – explicou sem jeito.

Shiryu assentiu com a cabeça e se afastou, discreto, para que o colega lesse mais comodamente o que lhe escreveram.

“São 02h00min da manhã, estou pensando em como gostaria que estivesse aqui... Te amo...”

“Você deve estar dormindo agora; mas sabe que tenho insônia, e em minha vigília eu não consigo te esquecer...”

“Sei que você só verá essas mensagens as 10h00min da manhã, mesmo assim estou enviando para sue MSN off-line... Te amo, te amo...”

Shun riu e pegou o celular, discando o número.

– Oi... – disse divertido – Bom dia, obrigado por pensar em mim durante sua insônia.

– Oi, amor...

O executivo estava no meio de uma reunião; corou e pediu um minuto aos colegas, se afastando em direção a janela.

– Como você está? Dormiu bem?

– Dormi sim, e gostaria que você tivesse dormido também.

– Ah, sabe que minha insônia é patológica! – riu o loiro – Podemos jantar hoje à noite?

– Podemos sim, me pega as oito no escritório?

– Ok...

– Beijos... – Shun sussurrou.

O executivo sorriu do outro lado da linha.

– Shun, eu te amo...

O mais jovem suspirou, sem deixar o sorriso que levava nos lábios.

– Eu também...

O jovem empresário desligou o telefone, quando virou-se para a imensa mesa de reunião, percebeu que todos o olhavam. Corou sem jeito, coçando os cabelos loiros e repicados.

– Podemos continuar?

–-amor e morte------

O policial responsável pelo detento assinou o pedido de transferência do mesmo para voltar à cela da detenção. No banheiro da enfermaria, Shaka vestia o uniforme laranja.

“Vou tirá-lo desse lugar ainda hoje...”

A voz do jovem advogado invadiu sua mente.

“Não, Ikki, ainda não...” Pensou e escutou as batidas impacientes do policial.

– Vamos, loirinho, não tenho a vida toda! – rosnou o homem.

Resignado, Shaka o seguiu pelo extenso corredor que levava a prisão.

– Fui informado que deveria levá-lo para uma cela especial, já que sua permanência aqui é temporária... – continuou o homem.

– Sim, mas primeiro preciso comer alguma coisa no refeitório.

O policial olhou-o de lado, estranhando a forma pausada e fria que o detento falava. Ele tinha certeza que no refeitório estariam todos os agressores do loiro, não entendia por que ele queria ir para aquele local se poderia comer na cela? Bem, ele nunca entendera aquele detento sempre tão zen.

– Fala a verdade, o que você quer fazer no refeitório? – insistiu o jovem policial Ângelo Salvatore.

– Encontrar velhos amigos. – respondeu Shaka tranquilamente, continuando a caminhar.

Chegaram ao amplo refeitório cheio de prisioneiros. Shaka mirou o local, procurando com seus olhos de lince todos os seus agressores. Como uma gangue, eles ocupavam a mesma mesa e fizeram sinal quando o viram. O chefe do bando, um homem alto e corpulento que era chamado de Manilla se ergue e sorriu para ele, lhe lançando um beijinho.

– Estávamos com saudade, loirinha...

Shaka sorriu também, se afastou em direção a fila da refeição, sendo seguido de perto por Ângelo que segurava seu cassetete, num claro aviso de que não aceitaria desordem por ali. Shaka cujo rosto ainda possuía algumas marcas da agressão sofrida mirou as panelas borbulhantes que se seguia dentro da cozinha e também alguns rodos e vassouras, enquanto esperava, tranquilamente, Manilla se aproximar.

– Estávamos com saudade, amor... – repetiu o homem se aproximando dele, os demais detentos riram – Vejo que gostou tanto do nosso tratamento especial que resolveu voltar!

– Sem confusão, detento! – reclamou Ângelo – Estou encarregado da proteção dele e se tentar alguma coisa...

– Não, não, senhor policial! – disse o condenado – Não tentaremos nada, nada mesmo, tudo que queremos é dar as boas vindas a nossa querida loirinha... – falou o grandalhão e mostrou a mão para o médico – Ainda não esqueci que quebrou meus dedos, boneca!

Shaka estreitou os olhos, permanecia parado, mirando a cozinha. O bandido se aproximou mais dele.

– O que fizemos ainda é pouco, mas vejo que gostou tanto que quis voltar, não é princesa?

– Eu só preciso de uma informação. Por isso voltei e você terá que me dar o que quero se não quiser morrer. – disse Shaka entre dentes.

O marginal riu alto, mas deu um passo pra trás, o gesso em seus dedos lhe diziam para não brincar com aquele nanico.

– Você acha mesmo que tem condições de me ameaçar? Já está curado e quer outra, é isso? – grunhiu Manilla.

Shaka apenas o encarou nos olhos.

– Eu preciso só de um nome. – disse paciente – Só preciso saber o nome de quem mandou que fizesse aquilo comigo...

– Ninguém mandou, fiz por prazer! – o marginal lhe soltou um beijinho debochado.

– Eu vou matá-lo ou lhe causar lesões tão sérias que você vai se arrepender de não colaborar. – a voz do médico não se alterava e isso deixava o bandido ainda mais nervoso.

– Eu vou acabar com você! – bradou o marginal, fazendo um gesto e chamando a gangue, para depois puxar o ombro do médico.

Tudo aconteceu muito rápido, agilmente, o loiro pegou uma panela cheia de óleo fervente atrás do balcão e jogou no rosto do adversário que caiu de joelhos urrando de dor; em seguida o chutou, derrubando o corpulento Marcos Manilla. Enquanto o homem urrava, Shaka o imobilizou pelo pescoço e sussurrou algo em seu ouvido:

“Ou me diz quem mandou você fazer aquilo comigo ou eu quebro seu pescoço?” Entretanto, o loiro não teve tempo de ouvir a resposta de Manilla. O restante da gangue foi para cima dele enquanto os outros detentos se erguiam dos bancos para apreciar o show, gritando e urrando como animais que eram. O médico libertou o marginal e saltou sobre o balcão, se armando com uma vassoura, desenroscando-a e ficando apenas com o cabo. Uma sucessão de golpes com o pedaço de pau e mais dois capangas do grupo de Manilla estavam no chão. Os policiais presentes nada faziam, estavam mesmo disposto a deixar o médico dar uma lição em seus agressores, pois sabiam o quanto a agressão fora traiçoeira e covarde. Shaka não teve piedade nem do sangue que arrancava dos corpos dos marginais e nem dos dentes que cada golpe da madeira, aliada aos seus punhos e pés provocavam.

Em fim os policiais acharam que já haviam visto demais. Tocaram o apito chamando reforços. O loiro foi imobilizado, enquanto a gangue de Manilla jazia em sua grande parte agonizando no chão. O líder continuava urrando com a cara completamente queimada.

– Eu disse que não estava preso com vocês! – volveu Shaka com um sorriso vitorioso – Vocês estão presos comigo! Rezem para que amanhã eu não esteja mais aqui; ou cada um de vocês estará perdido!

–----Desejos vitais-----

– Alô? – Ikki atendeu ao telefone.

Estava num restaurante almoçando com Hyoga que parou a refeição para o mirar.

– Merda! Eu... eu não acredito que ele fez isso! Estou indo, por favor, o mantenha na cela!

O moreno desligou o celular, e se levantou.

– O que aconteceu, Ikki?

– O Shaka arrebentou a gangue do tal Manilla!

– Quê? – perguntou Hyoga atônito – Esse é o mesmo doutor calma de quem me fala o tempo todo?

– Não me pergunte como isso aconteceu, mas eu tenho que ir pra lá agora, se não contornar isso, o habeas corpus será negado!

– Ikki, esse caso está ficando muito complicado! – irritou-se o russo – Olhe pra você, está sempre tendo que sair correndo! Exausto e seu cliente não ajuda!

– Depois, Pato, depois! – falou e saiu correndo do restaurante.

Hyoga suspirou, voltando a comer. Não tinha jeito, teria que comer sozinho!

–----Paixão e morte----

Quando Ikki chegou à sala da detenção, encontrou o loiro sentado no sofá de couro; ele apresentava um semblante tranqüilo, e sorriu para o advogado.

– Olá, doutor Amamiya...

– Que merda foi essa? – esbravejou Ikki – Você quer ficar mais algum tempo aqui, é isso?

– Se for meu destino...

– Pare com essas baboseiras filosóficas! Pra mim chega, Shaka! – gritou o moreno – Você nunca age da forma que lhe aconselho, que diabos você quer?

O loiro mirou o advogado sem perder a expressão plácida.

– Há uma lei da física que diz que para toda ação há uma reação de força equivalente e em sentido contrário. Eu só fiz confirmá-la. – respondeu sem interesse.

Ikki passou as mãos nos cabelos repicados e bufou.

– Shaka... – incrivelmente, sua voz saiu baixa e pausada – Estou perdendo a paciência com você. Aqueles homens que você espancou...

– Eles me espancaram primeiro e me drogaram para isso. – cortou o loiro – Não sou adepto de vingança, mas eles mereciam uma lição. – mentiu. Não foi exatamente por isso que aceitou voltar ao presídio.

– Eu já tinha negociado com eles para que dissessem quem mandou que fizessem aquilo; por que ao contrário do que você pensa nessa sua cabeça loira e burra, a agressão não foi motivada pela vontade daqueles depravados de te comer!

Só dessa vez, o advogado reparou alguma reação no semblante do médico; Shaka corou e baixou o olhar. Ikki também ficou sem jeito, enrubesceu e procurou o isqueiro no bolso, acendendo um cigarro.

– Desculpe... – pediu sem jeito – Eu não queria dizer isso... Digo, não dessa forma...

– Não estou ofendido e sei que há algo por trás das atitudes dele, se quer saber. Foi isso que tentei... Apurar. – respondeu Shaka calmo e encarou os olhos escuros do advogado – Desculpe-me, doutor, mas continuarei a agir da minha maneira, mesmo que fique aqui mais tempo por isso. Provarei minha inocência...

Ikki tragou e soltou à fumaça no ar.

– A violência de hoje me deixa com sérias dúvidas a respeito da sua inocência, doutor Phalke. Não sabia que médicos pacifistas são mestre em artes marciais.

– Você nunca perguntou. Eu sou mestre em Wing chun, Shaolin Quan e Tui shou, então, posso facilmente matar um homem usando apenas minhas mãos. – explicou o loiro – Mas eu não matei ninguém...

– Estou tentando acreditar em você. – volveu Ikki irritado – Só gostaria que me deixasse fazer meu trabalho. Você está dificultando as coisas, doutor Phalke!

– Não tive intenção. Prometo ser mais ponderado a partir de agora. – respondeu, mas Ikki não sentiu nenhuma convicção no que ele dizia, ao contrário, algo lhe avisou que teria muitos problemas com aquele caso.

– Um dos homens do Manilla está na UTI, reze para que ele não morra... – disse Ikki se erguendo.

– Sou fatalista...

– E fatal... – disse o advogado, antes de deixar a sala. Ainda olhou para trás, vendo o cliente que permanecia no mesmo lugar, impassível. Alguma coisa dizia a Ikki que havia muito mais naquela história do que Shaka Phalke queria que soubesse.



Continua...

Notas finais
Notas finais: Revelei algumas coisas, mas claro que não posso fazer tudo de vez, e claro que me inspirei naqueles filmes classe C pra fazer a cena da vingança no presídio né? KKKK, sempre tem algo assim!Beijos a todos que leram e se divertiram comigo até aqui, em especial aqueles que perderam um tempinho e deixou uma review pra eu saber o que estão achando.Ninacorttinelly, anjodastrevas, Jukie, MayaAmamiya, meguari_uchiha, maah_belee, Hannah, Grazita.Queridas, obrigada pelo carinho!Sion Neblina