Notas iniciais
Olá, queridos leitores,
Fanfiction chegando ao final. Creio que esse é o penúltimo capítulo e talvez tenhamos um epílogo, talvez.
Desde já, agradeço a todos que passaram por aqui, em especial, aos que deixaram algum tipo de comentário de incentivo.
Obrigada de coração e boa leitura!
Sion Neblina

Desejos vitais

Capítulo 11

— Como? — Ikki não acreditou no que ouviu.

— Isso que ouviu, eu o traí... — Shaka encolheu os ombros mostrando-se derrotado com aquela afirmação — Eu nunca contei isso a ninguém além do Mu e... uma amiga e, a ela, somente por necessidade. Sei que Mu também não contou a ninguém.

A confusão no rosto do moreno era evidente e Shaka diria mais, havia decepção, algo para o qual não estava preparado. Encheu de ar os pulmões e resolveu continuar.

— Aconteceu num plantão no Ross. O Mu já estava um tanto diferente e preocupado, mas depois disso, ele ficou tão... transtornado e frágil...

— Quem não ficaria? — Ikki riu com ironia para disfarçar sua angústia. Até aquele momento nutria uma enorme admiração pelo médico e esta acabava de ruir com aquela descoberta — Mas continue...

Shaka sentiu o tom cortante. Ikki deixara naquele momento de ser seu amante e se tornara seu advogado. Aquilo o feriu, mas ele fez o que o moreno pediu.

— Eu estava em um plantão de 48 horas naquele sábado. 48 horas sem dormir. No inverno, as emergências pediátricas se tornam um inferno e eu tive que ficar. Quando estava saindo do Ross, na terceira manhã de plantão, uma enfermeira me falou que o pediatra que deveria me substituir não chegaria naquele dia, pois, devido ao mau tempo, seu vôo tinha sido cancelado, então eu precisei ficar mais 24 horas de plantão...

— 72 horas?

— Sim, indo para o quarto dia de plantão. Estava exausto. O Mu passou na pediatria e exigiu que o Ross mandasse alguém para me substituir, mas a administração estava de mãos atadas, simplesmente não havia pediatras e eu não abandonaria aquelas crianças de forma alguma, era meu dever...

— Compreendo, mas não entendo o que tudo isso tem a ver com... com você ter traído seu amante — falou o moreno confuso.

— Bem, acontece que chegou um momento que não estava conseguindo me manter acordado por mais que eu quisesse e eu precisava me manter acordado — continuou Shaka. — Precisava também convencer o Mu de que estava bem, porque ele, que estava em casa, me ligava o tempo inteiro e se ofereceu para me ajudar no plantão, mas eu, orgulhoso, não aceitei. Não sei, achei que daria mostra de fraqueza, não entendo bem porque não aceitei...

— O que você fez?

— Eu tomei um vidro quase inteiro de anfetaminas com café. Eu nunca tinha feito isso apesar das anfetaminas serem conhecidas como “a droga do plantão”, eu nunca precisei e sempre abominei qualquer tipo de entorpecente. Mas uma enfermeira sugeriu e acabei cedendo. No começo tudo deu certo, minha energia voltou e eu consegui atender um número considerável de crianças, fiquei eufórico, ativo como nunca, mas depois vieram as reações adversas; fiquei tonto e nauseado. Pedi a uma enfermeira que cuidasse do plantão porque não estava passando bem e descansaria um pouco em meu consultório... Foi aí que... aconteceu...

— Aconteceu o que? — Ikki ficava cada vez mais nervoso com as palavras do médico e controlava-se com muito custo.

Shaka desviou o olhar do advogado para mirar a noite fria e neblinosa pela janela.

— Eu estava quase desfalecendo, suava muito, meu coração batia freneticamente e eu perdi a conexão com a realidade. Deitei-me em uma maca que havia na sala e pensei em ligar para o Mu, mas a vergonha de contar que havia me drogado evitou que eu o fizesse e permaneci ali, tendo uma taquicardia solitariamente. Daí pra frente tudo pareceu um sonho, tive a impressão de que alguém entrou, mas não conseguia ver quem era. Ouvi de forma distante a porta bater e depois mãos em meu corpo, mas não conseguia focar a imagem, alguém falava comigo, mas a voz era arrastada e desconexa, não conseguia saber quem era... Esse homem tirou minha roupa e... Bem, não preciso entrar em mais detalhes, ele usou meu corpo e eu, por minha própria culpa, estava impotente para impedi-lo... — respirou fundo — A culpa foi toda minha...

Um silêncio angustiante pesou sobre eles por alguns minutos. Ikki tentava encontrar as palavras certas. Estava algo chocado com aquela revelação e com uma vontade imensa de abraçar Shaka e dizer que nunca mais deixaria alguém machucá-lo ou humilhá-lo daquela forma. Engoliu a amargura, pensando no que aconteceu no presídio; aquilo deve ter doído horrivelmente, foi a ressurreição do pior pesadelo do médico.

— Eu sinto muito... — conseguiu murmurar enquanto Shaka parecia mergulhar naquele passado doloroso.

O advogado não conseguiu se controlar mais, levantou de onde estava e se ajoelhou de frente ao loiro que ergueu a cabeça para encará-lo e então o abraçou com força.

— Desculpe-me...

— Por quê? — o médico perguntou confuso.

— Por duvidar de você, duvidar de quem você é, mas a forma que disse... Bem, você não traiu o Gyatso, não foi sua culpa...

— Foi sim, Ikki, todos os homens são responsáveis pelas mazelas do mundo. Se esse homem abusou do meu corpo foi porque antes eu consumi drogas e fiquei vulnerável. Todo e qualquer acontecimento segue uma cadeia...

— Sei das suas crenças, mas isso não vai me impedir de dizer que você não tem culpa de nada, loiro — disse o advogado. — Sinto muito, sinto muito mesmo, mas pense que isso já passou, ficou no passado definitivamente.

— Não ficou, porque, de alguma forma, não sei o motivo, Mu se sentiu culpado...

— Você contou a ele como aconteceu? — indagou Ikki se afastando para encarar o médico.

— Sim. Não havia mentira entre nós. Eu contei tudo, mesmo porque, quando acordei, sim, porque eu dormi, não sei se dormi ou desmaiei, mas quando acordei e me dei conta do que aconteceu, me desesperei, entrei em pânico, em choque e liguei para ele. O Mu foi me buscar no hospital, queria que eu denunciasse o fato, abrisse sindicância no hospital...

— Deveria ter feito isso...

— Ikki, como homem, você gostaria de ficar tão exposto? — perguntou firme e o moreno se calou lhe dando razão. — Eu não queria me expor e nem expor o Mu, ele já estava tão perturbado, como eu nunca vi. Você não sabe o que é causar algo assim em alguém tão especialmente calmo como ele, eu me senti a pior das pessoas no mundo. Além do mais, denunciar o abuso implicaria em confessar que usei anfetaminas, isso acabaria com minha carreira.

— Entendo.

— Não, você não entende... O Mu tentou não se abater, ser forte por mim. Mas eu sentia o quanto ele se culpava intimamente, seu assassinato só me confirmou que havia algo muito errado nisso tudo...

O moreno se sentou ao lado do loiro com uma expressão pensativa.

— Entendi. Ele se sentia culpado, achou que o que fizeram a você tinha a ver com algo que ele estava envolvido ou sabia. — concluiu.

— Pensei nisso depois, por isso voltei ao presídio, como você deve se lembrar, mas não consegui nada — suspirou Shaka. — Bem, doutor, agora o senhor sabe de tudo. De tudo mesmo. Estou cansado, quero dormir.

— Tudo bem — Ikki afagou-lhe o rosto e se ergueu, deixando que Shaka fizesse o mesmo — Só que acho melhor comermos antes, o que acha? Deve estar com fome.

— Ah, sim — sorriu o loiro —, e desculpe por tudo isso, eu... eu não queria que você soubesse dessas coisas.

O moreno franziu as sobrancelhas e balançou a cabeça.

— Quando começará a acreditar que eu me importo muito com você, doutor?

Shaka sorriu e se aproximou o puxando pela gravata e o beijando.

— Sei disso — beijou-o e mirou as embalagens sobre a mesa. — Bem, vamos comer nosso apetitoso e... frio jantar?

O advogado riu e pegou as embalagens.

— Ah, claro, garanto que essa comida ficará maravilhosa depois que... aquecermos no microondas!

Ambos riram e seguiram com as embalagens para a cozinha.

*** Desejos vitais***

Na madrugada fria, dois homens se encontravam em um cruzamento deserto.

— E então, deu certo? — indagou o mais velho aquecendo as mãos uma nas outras.

— Claro que sim, eu nunca falho. Disse que apenas ele poderia descobrir onde estão as provas — falou o mais novo acendendo um cigarro.

O homem mais velho bufou e passou as mãos nos cabelos espessos.

— Resolva esse problema. Não quero mais mortes, nem sei por que deixei você me envolver nisso.

— Deixou que eu o envolvesse? — riu o mais jovem — Começamos isso juntos, nós dois, esqueceu? Não queira se fazer de inocente!

— Eu não sabia dos pacientes! Você me garantiu que eles estavam mortos, esqueceu? Eu nunca poderia imaginar que você fosse matar o Gyatso!

O mais jovem tragou o cigarro que segurava nas mãos cobertas com luvas de couro.

— Fiz o que foi necessário ou você preferia ir para a cadeia e receber a pena máxima? E não venha com essa história de “não sabia que eles não estavam mortos!” Você sabia muito bem qual era os métodos, doutor!

— Eu? Eu não fiz nada, vocês fizeram tudo e me incluíram esqueceu? Eu nunca aceitaria essa atrocidade, só que quando percebi já estava envolvido demais nessa história! O que queria que eu fizesse?

— Bem, amigo, eu gostaria que você não resolvesse cair fora agora, eu não ficaria nada feliz com isso...

— Está me ameaçando? — o mais velho perguntou estreitando os olhos.

— Sou um homem de ação e não de ameaças.

O homem de sobretudo negro passou as mãos nos cabelos escuros nervoso. As coisas fugiram do seu controle desde a morte de Gyatso, aliás, desde que soube da verdade. Agora se sentia acuado, qualquer passo em falso e seria o próximo a morrer.

— Foi você quem mandou matar o Phalke no presídio não foi?

O mais jovem terminou seu cigarro e jogou no chão o apagando com o pé.

— Sim. Mandei aqueles incompetentes matá-lo. Pense por um momento, amigo, se Phalke, o único que pode descobrir onde estão as provas, estiver morto, nosso lucrativo negócio continua. Quem vai se lembrar daquelas pessoas, quem? Ninguém! Foi uma idéia de mestre! Infelizmente você teve a idéia idiota de colocar Gyatso como diretor da cardiologia e ele resolveu fuçar, então a culpa da morte dele e da morte do Phalke é sua, o sangue deles manchará suas mãos! — disse o homem e riu alto.

— Mas Phalke está vivo, o que pretende agora?

Um sorriso perverso bailou nos lábios do homem mais novo.

— Phalke vai nos dar o que queremos. Através dele saberemos onde Gyatso escondeu as provas e depois... É só matá-lo e... mais uns dois ou três que sabem demais.

O mais velho arregalou os olhos. Aquele homem era louco, completamente perturbado.

— Chega disso! Eu não vou participar mais disso! Pra mim acabou! — saiu andando em direção ao seu carro — não vou conviver com isso, é loucura!

— Vai se arriscar a ir pra a cadeia?

— Que seja, não suporto mais!

Na noite gélida, o homem de sobretudo marrom acendeu um novo cigarro enquanto o outro andava.

— Tarde demais, doutor. — O mais velho parou ao ouvi-lo. Virou-se e nesse momento recebeu dois tiros certeiros no peito. Seus olhos desesperados encararam seu assassino antes de ele desabar no chão. O assassino então, guardou a arma cuidadosamente e arrastou o corpo para o carro do médico. Abriu a porta e o colocou no banco do motorista com dificuldade.

Estava em uma encosta próxima a um lago, local especialmente propício. Soltou o freio e empurrou o carro que em minutos adentrava a água gelada. O assassino ficou parado, fumando seu cigarro, enquanto o carro afundava nas águas escuras. Retirou um papel que continha uma lista no bolso, havia mais algumas pessoas a serem deletadas, antes que tudo viesse a tona e ele estivesse perdido.

*** Amor e morte***

Shaka acordou sobressaltado. Seu coração batia de forma alucinada.

Consultou o rádio-relógio sobre a cama, já passava das cinco da manhã. Mirou o homem que dormia ao seu lado. Inclinou-se sobre ele e afagou-lhe o rosto com os nós dos dedos.

— Já vai sair? — Ikki ronronou sonolento.

— Tenho que estar cedo no hospital — explicou num sussurro carinhoso. — Obrigado pela noite perfeita...

— Perfeita? Você conseguiu desbloquear seu computador? — o moreno perguntou ainda de olhos fechados.

— Consegui. Agora tudo está bem.

Quando Shaka declarou isso, algo acordou no íntimo do moreno. Ikki se espreguiçou e se sentou na cama.

— Vou tomar um banho, eu te levo ao Ross.

— Posso ir sozinho, sei que está cansado. É só você me emprestar seu carro.

— Sabe que não gosto de vê-lo andando sozinho por aí.

— Ikki, os policiais que dormiram na frente da sua casa vão me acompanhar, você sabe — falou tranqüilo — nada vai me acontecer.

— Okay. Você tem razão. Vou dormir mais um pouco, estou mesmo cansado — sorriu o moreno — , mais tarde passo no Ross e almoçamos juntos, pode ser?

— Claro! — Shaka o beijou de leve nos lábios e foi para o banheiro.

Tomou banho, se vestiu e preparou um café rápido. Enquanto bebia, desligava a CPU dos fios e, segurando-a entre o braço esquerdo e o corpo, colocou-a na mala do carro. Quando saiu pela garagem, os dois policiais responsável por sua segurança o cumprimentaram. Shaka, simpático, levou café para eles acompanhado de torradas e esperou que eles comessem para só então seguirem para o R. H. Hospital.

Deixou a CPU exatamente onde estava, na mala do carro e assim que chegou seguiu para a sala de arquivos. Apesar de estar com o pen drive no bolso, levava consigo algumas anotações importantes.

Começou a digitar os nomes a procura dos prontuários médicos. No Ross, todo o sistema de arquivo era informatizado o que facilitava a vida dos médicos.

Mas para confirmação das suspeitas de Shaka, nenhum dos pacientes procurados foi encontrado nos arquivos. A única prova da existência deles era o Pen drive, pois nem mesmo na CPU encontrou vestígios dos três nomes, apenas um arquivo simples que ele sabia ser uma chave que o levaria as provas cabais que Mu, com certeza, entregaria a polícia se não estivesse morto.

WILLIAMS, SMITH, BROWN.

Era como se esses nomes nunca houvessem existido.

— Shaka, você por aqui? — a voz suave da chefe das enfermeiras chamou sua atenção.

— Olá, Marin, bom dia — disse calmamente, recolhendo suas anotações.

— Bom dia. É muito cedo, já tomou café?

— Ainda não, precisava procurar um prontuário nos arquivos.

A ruiva riu e revirou os olhos.

— Vocês médicos, sempre em busca dos prontuários perdidos!

Shaka riu também e Marin o convidou para tomar um café com ela na lanchonete.

— Tudo bem com você? — continuou a mulher simpática enquanto eles caminhavam.

— Sim, tudo bem dentro do possível.

— Achou o que procurava?

— Não. Acho que terei que revirar o arquivo central mesmo e passar a noite espirrando por mexer naquele monte de papéis velhos.

— Pena! — riu a enfermeira.

— Já passei por coisas piores — Shaka deu de ombro.

— Realmente, foi terrível o que aconteceu ao Mu — ela suspirou — Bem, mas parece que você já se recuperou, não é?

O tom de malícia incomodou o pediatra, mas ele apenas sorriu de canto enquanto parava ao lado de uma máquina de café e enchia um copo de papelão, entregando-o a Marin em seguida.

— Só vou me recuperar quando colocar quem fez aquilo com ele atrás das grades.

— Soube que a polícia não achou nenhuma pista — comentou ela, sorvendo o café com calma. — Desculpe-me, Shaka, sei que você nunca seria capaz de fazer aquilo, mas até o momento não há evidências de que outras pessoas entraram naquela casa, fico preocupada com o andar do caso.

— Não se preocupe, Marin, se você quer mesmo saber, já estou na pista do assassino do Mu — falou Shaka enchendo um novo copo de café.

— O que descobriu? — a enfermeira baixou o tom de voz curiosa.

— Lembra-se do que aconteceu aqui no Ross? Aquele fato comigo?

Os olhos castanhos da ruiva se arregalaram.

— Sim, me lembro. O Mu ficou tão transtornado coitado!

Shaka suspirou. Não gostava de tocar naquele assunto. Na época, foi preciso contar o ocorrido a Marin, pois era a única pessoa de confiança que poderia medicá-lo e direcioná-lo aos exames que tivera que fazer depois, precisava saber se permanecia saudável.

— Acho que o assassinato pode ter relação com aquilo. Não sei, alguém poderia nos odiar, querer se vingar por algo...

— Será? — indagou Marin um tanto apreensiva — Na verdade, eu sempre achei que aquilo foi algo meramente passional. Você é um homem bonito e há muitos colegas nossos aqui no Ross que adorariam levá-lo pra a cama, você sabe. Mas como sempre foi um cara distante, algum engraçadinho tendo a oportunidade não quis perdê-la...

— Não acredito que as coisas tenham sido tão inocentes, Marin, mas por enquanto não há nada que eu possa fazer a não ser esperar que o assassino resolva me enfrentar — sorriu de canto terminando seu café.

— Será que ele o observa? — indagou a enfermeira olhando ao redor como se procurasse pelos olhos inimigos.

— Não sei. Bem, tenho que ir — falou beijando o rosto da amiga — Até mais, Marin.

— Até mais, Shaka, se cuida.

Cada qual foi para o seu setor. O dia movimentado do Ross se iniciava.

*** Desejos vitais***

Shun se reuniu a equipe da corregedoria naquela manhã. A pauta eram as ameaças que o agente estava sendo vítima. A equipe designou que a DP local cuidasse de investigar o caso e afastou o agente Shun Amamiya temporariamente.

Mesmo contrariado, ele aceitou a decisão, afinal, era o mais recomendado em casos como aquele. Uma nova equipe assumiria o caso Phalke, mesmo porque, seu parentesco com o advogado da vítima já se tornara de conhecimento público.

O departamento sugeriu também alguns dias de licença para que se recuperasse dos últimos acontecimentos e uma visita ao psicólogo que, claro, ele não faria.

Descoberto os policiais corruptos que facilitaram a ação dos criminosos, logo a corregedoria se afastaria do caso definitivamente e o DP trabalharia sozinho no caso Gyatso. Entretanto, devido as ameaças, Shun deveria permanecer sob proteção policial até que o inquérito fosse concluído.

Prender policiais era sempre algo perigoso, ainda mais quando poderia haver gente muito mais importante por trás deles.

O Amamiya mais jovem chegou ao seu apartamento no meio da manhã e ligou para o irmão contando as novidades. Ikki pareceu feliz em saber que ele estaria aparentemente seguro e Shun encerrou a ligação indo tomar um banho demorado.

Já estava vestido em um short e camiseta de algodão quando a campainha tocou. Ao abrir a porta se jogou nos braços de Hyoga que riu o beijando.

— Se me receber sempre assim, juro que te peço em casamento...

— Bobo, estava com saudades! — sorriu o mais jovem continuando a dar-lhe pequenos beijos.

— Eu também, parece que foi uma eternidade que passamos longe, meu amor... — sussurrou beijando o menor com vontade, jogando-o no sofá. Mas Shun riu e fugiu dele, empurrando-o suavemente.

— Hyoga, vai amarrotar seu terno e pelo que vejo está indo ao escritório...

— Sim, meus processos estão todos atrasados, preciso voltar à ativa; devo ficar até tarde, pondo o trabalho em dia.

— Ah, sei — Shun mordeu o lábio inferior, fugindo do que mais o amedrontava, o encontro entre o loiro e seu irmão.

— Shun, quando acreditará que te amo? — Hyoga pareceu ler sua mente. — Não tem que temer o Ikki...

— Tem certeza? Vocês... Bem, vocês eram tão apaixonados...

— E isso não o impediu de me trocar pelo Shaka...

— Não foi culpa dele, ele se apaixonou — Shun respondeu sentindo-se no abismo ao constatar a mágoa na voz de Hyoga. Sabia que era pedir demais que em tão pouco tempo o loiro esquecesse seu irmão completamente, ainda assim, era doloroso saber que muito daquela paixão ainda estava ali.

— Eu sei, não o estou culpando de nada, Ikki foi muito honesto comigo, eu só preciso que acredite na minha honestidade também, Shun, quando digo que amo você.

— Eu acredito — murmurou e recebeu outro beijo.

— Bem, estou indo, só passei para matar a saudade... — falou o loiro se erguendo. — venho à noite, posso?

— Claro que pode! Eu agora estou com tempo livre, fui afastado temporariamente das minhas funções.

— Como? — Hyoga franziu as sobrancelhas — O que aconteceu?

— É uma longa história, conversamos mais tarde, não quero atrasá-lo ainda mais.

— Certo, mas vai me contar com detalhes, ouviu bem?

Shun apenas assentiu com a cabeça e se despediu do amado. Quando Hyoga saiu, ele voltou para o sofá e ligou a TV que noticiava sobre a prisão dos policiais envolvido em corrupção na cidade.

*** Amor e morte***

Ikki examinava alguns papéis concentrado. Há pouco havia visto a repercussão na imprensa do escândalo de corrupção na polícia de Boston. Aquela cidade precisava mesmo de uma reforma urgente, estava pútrida pela corrupção.

Resolveu observar as atas do processo e pesquisar na internet a respeito do Ross Hamilton Hospital. Depois do que Shaka lhe confidenciara, tinha mais que certeza que o assassinato de Gyatso começara ali. O cardiologista devia ter irritado profundamente a alguém.

Entrou no site do hospital e começou a pesquisar sobre sua história, ações administrativas e sociais até chegar a declaração de imposto de renda.

Os olhos do moreno examinaram detalhadamente cada demonstrativo das doações filantrópicas, percebendo que o nome de uma única empresa se repetia várias vezes. Havia uma parceria entre a tal empresa e o Ross. O advogado resolveu pesquisar o ramo no qual a tal empresa atuava.

Acabou em um site de uma grande empresa, um conglomerado industrial vastíssimo.

A porta do escritório se abriu nesse momento e Hyoga entrou. Eles se encararam por um tempo e Ikki se ergueu, indo até o loiro e estendendo a mão.

— Seja bem vindo, Hyoga — disse com um sorriso amigável.

— Obrigado, Ikki, como andam as coisas? — indagou o mais jovem de forma polida, mas não tão amigável quanto o moreno.

— Não andaram muito, tirando que invadiram minha casa e tentaram matar o Shun pela segunda vez...

— C-como? — Hyoga ficou pálido. Então era aquilo que o policial estava escondendo?

— Ah, isso é uma longa história, o importante agora é que ele já está longe desse caso — falou sem dar muito atenção a palidez do ex-namorado.

Hyoga, embora com o coração aos pulos, resolveu demonstrar normalidade. À noite esclareceria aquela história com o próprio Shun.

Colocou a pasta sobre sua mesa e se livrou do paletó.

— E o Shaka?

— Voltou ao Ross, não sei por qual motivo o chamaram de volta; não sei se por medo de um futuro processo ou por algo mais perigoso...

— Suspeito — concordou Hyoga e se aproximou da mesa do sócio — O que está vendo?

— Uma empresa parceira do Ross, é sua maior financiadora nas obras sociais.

Hyoga prestou atenção a tela do computador.

— É a empresa do Mime...

— É?

— Você não sabia? A Corporação Vahala é uma grande empresa e ao que parece tem uma atuação social muito importante, parece que cuida de vários abrigos aqui em Boston, Nova York e Detroit, e constrói moradia para os socialmente desvalidos além de encaminhá-los para o mercado de trabalho. Tem parcerias governamentais e seu nome sempre aparece nas listas das melhores empresas em responsabilidade social.

— Sério? Nossa! Como você sabe de tudo isso? — espantou-se Ikki.

— Surpreende-me você não saber, o dono disso tudo aí era... é o namorado do seu irmão — corrigiu-se. Não era o momento de dar explicações ao sócio e, na verdade, achava que aquela conversa cabia mais a Shun que a ele.

— Nunca conversamos a respeito do que o Mime fazia — volveu Ikki sentindo aquelas palavras como uma acusação, embora não fosse essa a intenção de Hyoga — O Mime parecia fazê-lo feliz e era o que importava.

Hyoga riu.

— Isso porque você era o irmão mais velho e não o melhor amigo. Eu fui obrigado a saber detalhes do superpoderoso senhor perfeito com responsabilidade social!

Ambos riram com vontade e depois se calaram um tanto constrangidos.

— Bem então a empresa do Mime é a principal benfeitora do Ross.

— Natural, não vejo nada de suspeito nisso.

— É, eu acho que não tem mesmo. O problema é que não consigo juntar provas suficientes para inocentar Shaka, então, estou dando uma de detetive e tentando achar outro culpado.

— Partiu pro desespero — concluiu Hyoga se sentado à sua mesa e cruzando os braços.

— Fato — suspirou Ikki. — O julgamento será na próxima semana e eu... eu não tenho nada que possa provar a inocência dele.

— E se ele não for mesmo inocente?

— Ele é — cortou Ikki seco. — Tenho cada vez mais certeza disso, Hyoga, e não me pergunte como, porque sei que tudo que disser, você julgará que é somente... Ótica pessoal.

— É, talvez eu julgue mesmo — sorriu ladino. — Bem, vou cuidar da minha vida abandonada e parar de importuná-lo.

Ikki não respondeu, apenas consultou o relógio. Esperava que desse tempo de almoçar com Shaka, mas não tinha certeza. Precisava passar no tribunal e verificar os últimos detalhes do julgamento. Será que aquela seria a primeira derrota em sua curta carreira de advogado? Justo quando a vida da pessoa que amava estava em jogo?

Resolveu ignorar os pensamentos. Precisava ser frio se quisesse ajudar Shaka e sim, precisava ajudá-lo.

*** Desejos vitais***

Shaka trocou o turno com outro pediatra e se dirigiu de imediato a diretoria do Ross, precisava falar com o diretor Vaskália e pedir autorização para entrar na sala de Mu.

O elevador o levou até o terceiro andar do prédio, mas quando chegou à ante-sala da diretoria, foi informado que o diretor não havia comparecido naquele dia e que ligara informado um contratempo e só estaria no Ross no dia seguinte. Ele então pediu para falar com Shura, o agora responsável pela cardiologia e quem poderia lhe dar acesso à sala.

O cardiologista estranhou a presença do pediatra. Eles nunca se deram muito bem, mas nos últimos tempos, ele pelo menos tentava conviver com o loiro.

— Olá, Shaka, que surpresa — disse Shura — O que o traz aqui?

— Preciso entrar na sala do Mu, é muito importante.

Shura ergueu uma das sobrancelhas.

— Por quê?

— Estou procurando por algumas fichas médicas que não encontrei no arquivo, é importante — repetiu indiferente.

O cardiologista pareceu ponderar um pouco e então deu de ombros.

— Todas as chaves do hospital ficam na recepção, solicitarei a segurança que abra a porta para você, mas... Está acontecendo alguma coisa? Parece nervoso...

— E estou — Shaka respirou fundo —, mas agora não tenho tempo de explicar. Obrigado, Shura.

Saiu da sala, deixando o chefe da cardiologia intrigado. Imediatamente, ele pegou o telefone e tentou falar com alguém, mas a ligação caiu na caixa de mensagens.

Quando Shaka entrou novamente na sala de Mu, sorriu de canto. O lugar estava em perfeita ordem, exceto por uma coisa; na noite anterior quando entrara no local, deixara propositalmente um pedaço de papel amassado sobre a mesa e ele não estava mais ali. O assassino de Mu sabia que ele esteve na sala, aliás, aquela sala trancada era uma isca, a senha no computador também era uma isca.

Desde que acessara os arquivos da máquina, sabia que eles já tinham sido abertos e manipulados depois da morte do cardiologista. Fez questão de checar todos para ter a certeza disso. Alguém sabia a senha da máquina, isso era óbvio, pois, “meu coração” com certeza foi criada por Mu, disso não tinha dúvida. Mas quem além dele poderia conhecer aquele segredo? E o mais importante: por que alguém queria que ele descobrisse aquelas provas?

Ficava cada vez mais óbvio que seus passos estavam sendo cuidadosamente monitorados. O acesso a sala, a descoberta da senha, tudo. Os arquivos que estavam na máquina eram corriqueiros, mas juntos aos que estavam no pen drive revelavam fatos no mínimo inquietantes. Agora ele sabia por que Mu estava morto, só precisava saber quem o matou e... acessar as provas que o cardiologista havia escondido e que apenas ele, Shaka, sabia onde estavam.

*** Amor e morte***

Shun olhava o relógio impaciente. O jantar estava sobre a mesa e ele já havia ligado duas vezes para Hyoga. O advogado dissera que estava saindo em alguns minutos e ele compreendia que o trânsito caótico de fim de dia o atrasaria ainda mais, entretanto não conseguia impedir-se de ficar ansioso.

Seu celular tocou e ele novamente atendeu sem nem ao menos olhar o visor.

— Alô?

— Shun, sou eu, Mime...

Seu sangue gelou imediatamente. Imaginou que escutaria mais algumas ofensas merecidas. Pensou em desligar o telefone, mas ao invés disso se manteve firme, ao menos devia isso ao ex-namorado.

— Oi, Mime...

— Shun, eu preciso muito falar com você, é importante.

O tom de voz nervoso do empresário o intrigou e surpreendeu. Mime não parecia zangado, mas tenso. — Aconteceu alguma coisa?

— Na verdade eu não sei, mas acho importante que você venha o mais rápido possível, por favor...

— Certo, fica calmo, eu chego aí em 30 minutos.

— Certo, ficarei esperando.

Ele desligou e Shun rapidamente vestiu o coldre axilar e uma jaqueta, pegando sua arma, verificando se estava carregada e escondendo-a sob o tecido grosso. Mime estava estranhamente nervoso e isso o preocupava, pois o ex-namorado era sempre tranqüilo. Precisavam conversar, mas o policial não queria seus “guarda-costas” o seguindo naquele momento, não queria expor sua vida íntima dessa forma.

Pensando assim, saiu pelos fundos do prédio e pegou um táxi seguindo para o escritório do ex-namorado.

Mime desligou o celular e novamente se sentou de frente ao computador.

“Venha, Shun, eu espero que chegue logo, não temos muito tempo a perder...”

*** Desejos vitais***

Já passava das oito quando Ikki e Hyoga fecharam o escritório. Por incrível que pareça, eles tiveram um dia até bastante agradável para amantes separados recentemente. Conversaram como bons amigos e deram palpites nos casos um do outro. O moreno percebia que o loiro estava escondendo alguma coisa, mas pensava que, fosse lá o que fosse, não tinha mais nenhum direito de se envolver na vida de Hyoga. Estava com Shaka, amava Shaka e o amigo tinha o direito de fazer da vida dele o que bem quisesse.

Entraram no elevador conversando sobre os casos. Quando saiu, Ikki ligou para Shaka e avisou que estava indo buscá-lo. O advogado mais jovem sorriu de canto um tanto incomodado ainda com a forma “derretida” como o ex falava com o médico.

— Mal o reconheço! — não pode deixar de comentar, mas não com mágoa, um pouco de dor de cotovelo, é verdade, mas não mágoa, porque seu coração também estava muito bem nutrido, não poderia se queixar. — Estava quase babando no telefone! — riu do rubor que cobriu o rosto do moreno.

— Desculpe-me, eu acabei... esquecendo...

Hyoga parou o passo, estavam agora na frente do prédio. Encarou o ex-amante e balançou a cabeça.

— Ikki, além de sócios... Bem, nós dois seremos forçados a conviver por muito tempo por motivos que você saberá depois. Então, acho que devemos tentar levar essa questão de forma mais natural, certo?

— Essa questão...

— A questão de você ter me chutado e estar com o Shaka — foi objetivo e riu com a própria naturalidade. — Sério, Ikki, estou bem com isso, de vez em quando rola uma dor-de-cotovelo básica, algo que tem muito mais a ver com meu ego do que com ciúmes ou sentimentos.

O advogado mais velho encarou o mais jovem surpreso.

— Uau! Eu não lidaria tão bem com algo assim — confessou o moreno e Hyoga pensou que Ikki não lidaria nada bem quando soubesse que ele e Shun estavam juntos. Temeu por Shun e resolveu que ele mesmo teria aquela conversa com o Amamiya mais velho. Não se arriscaria a ver Shun magoado.

— Ikki, na verdade... Bem, sabe... — gaguejou tentando começar — Você se lembra do que falou sobre Shun e eu?

O moreno ergueu uma sobrancelha.

— Como assim?

— Sobre nossos sentimentos não serem puramente fraternais? — Hyoga disse e recomeçou a andar evitando um confronto direto, mas Ikki o puxou pelo braço o mantendo no lugar. O loiro engoliu em seco e encarou o rosto fechado do moreno, resolvendo terminar o que começou. — Você tinha razão. Realmente não era só amizade e... bem, nós dois... O Shun saiu da cidade para me encontrar...

— Como é que é?

— Ikki, é que...

— Você ta comendo meu irmão? — indagou o moreno estarrecido.

Hyoga sentiu a boca seca, mas não pode responder; foram interrompidos pelos faróis de um carro que freou abruptamente ao lado deles. Quatros homens armados desceram e os cercaram.

Os advogados não tiveram tempo de reagir, foram atingidos por coronhadas e caíram. Assim, foram jogados dentro do carro, amarrados e amordaçados.

O carro partiu a toda velocidade deixando para trás as pastas na calçada.

Continua...

Notas finais
Alexia-Black, ddd, Matsumoto-chan, Kao, Agathachan, KitsuneKiki, guima, Maya Amamiya, MysticRainbow.
A vocês, obrigada pelos reviews no capítulo anterior.
Sion Neblina