Desejos Ocultos

9 Capítulo 9 DESAFIOS...


Shura permaneceu calmo e frio, refletindo sobre as revelações e analisando o homem a sua frente. Sem dúvida, era um nobre de alta estirpe, porém havia nele algo oculto e sombrio. Algo que não estava somente ligado aos negócios e sua intuição dizia ter a ver com... Afrodite.

Sentia a energia tensa se estabelecendo entre os dois, apesar da aparente troca de gentilezas. Se antes intuía, agora tinha certeza que ambos haviam tido alguma intimidade pela forma com que Saga o olhava...

Eram ou tinham sido amantes! A simples observação do fato fez crescer dentro de Shura um ciúme atroz, mas ele controlou-se e sorriu, friamente, como se o duque tivesse falado algo comum e sem importância.

– Estranho, senhor duque... Os papéis me foram passados, legalmente, em cartório. Creio que, se houvesse algum impedimento, o escrivão ou meu advogado teriam me alertado.

– Eu estava viajando a negócios e...

– E soube de tudo tão logo chegou? Acho tudo muito estranho... Como pode estar seguro do que diz em tão pouco tempo? — interrompeu Shura. — Se há alguém cometendo um engano aqui, acho que é o senhor. Aliás, alguém da sua posição não devia discutir negócios assim, ao ar livre. Creio que deva ter um escritório ou algum outro local onde possamos conversar devidamente sobre um assunto tão sério, já que o senhor afirma que fui ludibriado.

Saga esboçou um sorriso que mais parecia o de um lobo. Avaliava a força e as intenções de Shura, como quem avaliava um inimigo e parecia gostar da disputa silenciosa que se estabelecia entre eles.

– Está andando sobre terreno escorregadio, meu caro... Duvido que eu precise de lições de etiqueta de um... imigrante espanhol. É claro que possuo um escritório em minha casa, mas não creio que necessite discutir este assunto. As propriedades são minhas e não podem ser vendidas sem o meu aval.

Shura permaneceu sério, porém exultante. Conseguira ferir a fleuma daquele homem, ao mesmo tempo em que se mantinha controlado. Sua vontade inicial era arrancar aquele sorrisinho diabólico do duque com um bom soco, mas... iria mostrar a ele do que um imigrante espanhol era capaz.Não de forma violenta, mesmo que seu sangue quente ficasse muito à vontade para fazê-lo...

Iria dar-lhe o mesmo tratamento falso e civilizado que os nobres adoravam ostentar. Seu pai lhe ensinara muitas coisas, entre elas manter o controle, mesmo sob pressão e ele aprendera tudo muito bem.

– Pois eu digo que estas propriedades são minhas até que prove o que está dizendo, senhor duque. Agora, se me dá licença, tenho coisas mais importantes a fazer que discutir sobre algo inconsistente. – disse Shura desprezando a atenção do duque e fixando o olhar atencioso em Afrodite.

Afrodite observava o embate com uma falsa expressão de enfado. Porém, internamente, fervia, pois sabia o que Saga estava fazendo: medindo forças e transmitindo um recado.

– Se não se importam, eu gostaria de ir para casa. Tive um dia... extenuante! Podem discutir este problema sem mim, não é mesmo? – falou Afrodite levando o lenço ao rosto para compor o personagem a que estava acostumado.

– Claro que sim, meu caro. Perdoe-me interromper seu... compromisso com notícias desagradáveis. – respondeu Saga.

– Não interrompeu milorde... — disse Afrodite com um brilho perigoso nos olhos. — o senhor Shura e eu já tínhamos conversado. Agora, se me dão licença...

– Eu o levo. O que tinha a ser dito, já o foi. Com licença, senhor duque. Vamos, Afrodite.

Por um segundo, Afrodite estranhou a forma íntima com que Shura dissera seu nome e notou o estreitar dos olhos de Saga que o encarou com uma interrogação nos olhos. Porém, se manteve frio e com a mesma expressão blasé que tomara por máscara ao ver-se frente ao duque, acompanhou Shura até a carruagem.

Shura mantinha-se em silêncio. O rosto parecia tranquilo, mas uma observação mais atenta mostrava um pequeno vinco entre as sobrancelhas e um cintilar raivoso perpassar os olhos negros.

Afrodite pensava em como reverter àquela situação e, ao mesmo tempo, sentia pesar pelo preço a ser pago por tal ato. O recado de Saga era bem claro: “Não admito que exiba um plebeu em público, enquanto o desejo como meu brinquedo particular”...

– Mentiu quando disse-me não possuir um amante. Este homem, Saga, ele não veio aqui pelos negócios. Ele veio por você! – disse o espanhol quebrando o silêncio e fazendo Afrodite dar um pequeno pulo.

– E-Eu? Na verdade... o que existe entre eu e o duque é... Bem, nos encontramos algumas vezes, mas é algo que nem eu mesmo sei definir. Por isso, disse que não tenho um amante. Ele é casado e eu sou um homem livre, uma equação bem simples, eu diria.

Afrodite estava preparado para tudo, menos para o olhar que Shura lhe lançou. Havia dor, raiva e decepção na escuridão daqueles olhos.

– Tão livre que ele se dá ao trabalho de ameaçá-lo, através, de mim.

– Sinto muito pelo constrangimento, mas não precisa se preocupar com isso. Esta noite falarei com ele e tudo voltará ao normal. – disse Afrodite e havia uma espécie de ressentimento no tom de voz.

– Não ouse barganhar por mim! Eu resolvo meus problemas. – disse Shura com raiva, o que fez Afrodite estremecer.

– Shura...

Ele o silenciou com um dedo. O rosto tenso e o olhar tão afiado que Afrodite sentiu sua respiração estancar.

– O que aconteceu entre nós hoje, teve significado para mim. Não sou homem de aventuras e casos indefinidos. Se sente o mesmo, afaste-se daquele homem e deixe que eu resolva este problema. Se voltar a encontrá-lo, saberei que cometi um erro e jamais voltarei a procurá-lo, mesmo amando-o como nunca amei ninguém em minha vida.

A expressão antes impassível de Afrodite evoluiu para o mais absoluto terror. Shura dissera com todas as palavras que o amava, e o choque de ouvi-las o assustou ainda mais, fazendo- empalidecer e arregalar os olhos. Nunca tinha ouvido uma declaração tão veemente e dita fora dos ardores da cama...

– Milorde... – engoliu em seco. – Está dizendo que...

– Estou dizendo que o amo Afrodite e desejo viver esse amor por inteiro. Se me quiser, nada mais importa.

Antes que Afrodite se manifestasse, a carruagem deu um solavanco e ele viu-se nos braços fortes de Shura. Seu coração estava disparado e um silêncio carregado de emoções pairou por alguns segundos entre os dois.

O olhar de Shura, agora se mostrava carregado de paixão e, mais uma vez, o deixou sem palavras. Então, como se selasse um acordo mútuo, a boca do espanhol cobriu a sua e tudo mais pareceu evanescer no ardor e na possessão daquele beijo...

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Mu abriu os olhos doloridos e espreguiçou-se devagar, sentindo dor em cada músculo. Lembrou-se de ter acordado nos braços de Aldebaran e de tê-lo beijado até ficar sem ar e tudo escurecer, novamente. Sabia que estava em seu quarto, mas havia algo de novo nele, uma enorme poltrona e alguém sentado nela... Forçou a vista e viu que era uma mulher.

– Madame...

– Vejo que já está consciente, mon amour... Então, vai poder me contar o que aconteceu aqui. – disse a mulher, envolvida num glamouroso roupão de seda vermelha permeado de flores em negro e dourado.

– Foi lorde Kanon. Ele... não aceitou a derrota para lorde Milo e quis me ver depois que o conde deixou a casa. Tentou forçar-me a deitar com ele. – falou Mu.

– Hummm... E lorde Milo ficou toda a noite com você? – perguntou ela com um tom de voz que incomodou Mu.

– Sim, madame.

– Meu querido... sei que é jovem e, como tal, sabe pouco da vida. Tem um corpo delicioso e uma habilidade sensual que já nasceu impregnada nele. Não é à toa que os homens adeptos do amor entre iguais fiquem loucos por você... Mas, você não sabe mentir. Portanto, Mu, não pense que eu sou tola. Eu não seria uma mulher bem-sucedida se o fosse. Agora, diga-me! Com quem passou a noite? – disse ela com um brilho de fúria e reconhecimento nos olhos acinzentados.

– Não sei do que está falando, madame. – sustentou Mu com o olhar firme, embora sentisse um tremor em seu peito.

– Ah, não sabe...? Pois bem, hoje pela manhã, o duque Saga veio procurar-me para falar do incidente e trouxe o irmão junto. Ele revelou-me que houve um mal-entendido entre você e lorde Kanon. O jovem lorde exaltou-se, após descobrir que você passou a noite fora, enquanto lorde Milo o esperava em seu quarto. Vocês dois o enganaram e isso o fez perder a cabeça! Agora, se não vai me dizer com quem estava, prepare-se para pedir desculpas ao senhor Kanon e também para recebê-lo, daqui a uma semana. É o tempo que lhe dou para se recuperar e voltar à vida normal.

Mu empalideceu, a cabeça começou a latejar e ele teve vontade de levantar-se e sair da presença daquela mulher cruel, mas conteve-se. Uma de suas características era manter-se impassível diante de situações que tirariam qualquer um do seu centro de equilíbrio.

– Como quiser, madame. – Respondeu, secamente.

Os olhos delineados se estreitaram acentuando as rugas no canto dos olhos e madame Walmot sorriu. Os olhos agora exibiam um lampejo de triunfo. Possuía a fama de ser dura, mas seus “meninos e meninas” eram bem cuidados e gozavam de certo status, pois ela só contratava quem tivesse talento para o trabalho. E, como dizia o ditado: “Tudo tem o seu preço!”

Ela sabia que Mu escondia algo, uma paixão, talvez... E, como uma mulher vivida, sabia que quando uma cortesã ou um rapaz vivenciava a experiência do amor, inevitavelmente, arruinava sua carreira como serviçal do prazer.

– Não me tome como uma megera. Sabe que gosto especialmente de você... Por isso, fica a advertência, não tente me enganar e saiba o seu devido lugar, nesta casa. Tome esta... última tolice como lição e volte a portar-se como a joia valiosa que sempre foi. – disse ela levantando-se e dando uma última olhada por cima dos ombros ao fechar a porta do quarto.

Os olhos verdes se estreitaram ao contemplar o sorriso da cafetina e Mu mordeu o lábio, refreando as palavras que ameaçavam sair de sua boca. Megera seria um elogio àquela mulher. Ela era pior que um demônio!

Assim que a porta se fechou, Mu virou o rosto em direção à janela, cuja luz pálida indicava que era cedo. Esfregou os olhos com os dedos, tentando afastar a sonolência e lembrou-se que alguém lhe dera algo para beber. Viu o vidro ambarino sobre a mesinha. Láudano. Afastava as dores do corpo e propiciava um efeito sedativo, provocando, de acordo com a dose, uma bem-vinda sonolência...

Fechou os olhos, novamente, e deixou-se inundar pelas lembranças de estar nos braços de Aldebaran... Se não fosse contrário às suas crenças, beberia o vidro inteiro daquela droga e dormiria para sempre, levando nos lábios a doçura e o encantamento que conhecera na boca de seu amado.

Ainda permanecia com os olhos fechados, quando a luz do sol, filtrada, através da cortina transparente tocou seu rosto e sons de passos leves acrescidos do ranger da porta revelaram a bela cortesã.

– Então, contou tudo para a madame? – perguntou June.

– Sim, mas ela não estava interessada no que me aconteceu e sim no seu cliente especial. – respondeu Mu com um tom amargo.

– Não me diga que ela... Ela vai permitir que aquele patife se saia bem!

– Pior que isso, ela vai obrigar-me a recebê-lo e ainda pedir desculpas.

– Merde! Isso me deixa furiosa e vai deixar Aldebaran também.

– Por favor, June, não conte nada a ele! Não quero que ele faça algo que o prejudique.

– Vocês estão apaixonados, não é?

– A paixão é algo proibido para alguém que leva esse tipo de vida. – respondeu Mu com tristeza em sua voz.

– Mesmo assim, você o ama.

– Sim, eu o amo e é por amá-lo tanto, que tenho de esquecê-lo! Se madame sonhar que existe algo entre nós dois, certamente irá despedi-lo e eu nunca mais o verei.

– Desejo-lhe sorte, meu amigo... Sei que não será fácil. E, por falar nele...

Aldebaran entrou no quarto, trazendo uma bandeja com frutas, pão e um copo com leite. Sorria, mas ao fitar o rosto de Mu percebeu a tristeza pairando nos olhos verdes.

– Bom dia! Vejo que está melhor. – disse Aldebaran sorrindo e tentando animar o jovem.

– Estou, obrigado. – respondeu Mu evitando olhá-lo.

– Bem, eu já estava de saída. Vou acompanhar madame às compras. – disse June.

Mu quase implorou com os olhos que June não o deixasse sozinho com Aldebaran, mas a jovem cortesã parecia decidida a deixá-los conversar.

– Obrigado, June. Ah, por favor, traga-me um perfume novo. – disse Mu.

– Perfume? Você está de repouso, prá quê precisa de perfume?- perguntou Aldebaran.

– Volto à atividade daqui a uma semana e preciso de um novo aroma, algo que me traga ânimo e... bem-estar. – respondeu Mu tentando dar um tom afetado à sua fala.

Aldebaran notou a mudança no comportamento de Mu e aproximou-se da cama tentando estabelecer uma conexão visual. Aquilo tudo já estava deixando-o aflito e ele não era homem de fingir por muito tempo.

– Você contou tudo o que lhe aconteceu à madame, não?

– Sim e já está tudo resolvido. Não precisa se preocupar comigo. Agora, se me dá licença... – disse Mu com um sorriso forçado.

Surpreso com a atitude de Mu, Aldebaran ficou sem palavras. Então, aproximou-se pegando a mão alva que se esquivou do contato.

– Mu...?

– Eu agradeço o que fez por mim, mas estamos de volta à realidade. Trabalho aqui, assim como você e precisamos manter distância ou estaremos encrencados. Então, por favor, vamos voltar a ser amigos. Apenas, amigos, está bem? – disse Mu rezando para que o tremor que sentia não se refletisse em sua voz.

– Está me dizendo isso, porque aconteceu algo que não quer me contar. – falou Aldebaran.

– Não. Estou fazendo isso, porque ganho a vida me prostituindo e não adianta fingir que posso viver como se não o fosse. Agora, por favor, não torne isso ainda mais difícil do que está sendo. Deixe-me, eu estou pedindo! – disse Mu, exasperado.

Baixando a cabeça, Aldebaran não disse nada. Depois, relutante, ergueu o olhar e tocou o rosto de Mu.

– Estamos ligados... Não importa o que fazemos ou quem somos.

– Ah, Aldebaran... quisera eu que... tudo fosse diferente. Mas, não é! Então, por favor, deixe-me e encontre alguém que seja digno do seu amor. – disse Mu se afastando em direção à janela.

Por um segundo, Aldebaran pensou em pegar Mu nos braços e tirá-lo daquele lugar. Depois pensou no que tinha a oferecer a ele. Nada! Era um porteiro que lutava na madrugada. Já juntara algum dinheiro, mas não o suficiente.

Olhou para a silhueta esguia de Mu e a forma altiva com que ele tentava ocultar seu sofrimento. Depois, sem dizer uma palavra, deixou o quarto, batendo a porta com força. Mu estremeceu tanto quanto a parede sólida e só então, deixou-se tomar pela dor...

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Era cedo quando Camus pediu ao condutor da carruagem que parasse em frente à casa de Milo. Pensou em esperar um pouco, devido à hora, mas surpreendeu-se quando Milo despontou na porta de entrada e sorrindo, subiu na carruagem com uma bagagem sucinta.

– Bom dia, Camus! – disse o grego acomodando-se no coxim aveludado.

– Bom dia, senhor Milo. Quer dizer... Milo. – falou Camus.

– Ah, assim é melhor! Não se pode ter formalidades com um amigo íntimo. – disse Milo colocando as mãos atrás da cabeça e espichando as pernas.

Os olhos azuis se estreitaram. Amigo íntimo? Camus sentiu um leve rubor, mas mesmo assim sorriu e respirou fundo, diante de tal afirmação. Afinal, a ideia fora sua.

– Bem, esse seu argumento é incontestável, afinal, todos pensam que fomos amantes. – disse Camus.

– Não fomos. Com este convite, você deu a eles a certeza que ainda somos! – disse Milo rindo.

– Você deve achar tudo isso muito divertido, eu suponho...

– Eu diria... interessante. Jamais tive um amante produtivo. – respondeu Milo com a mais absoluta naturalidade.

Camus sentiu vontade de rir daquela cena. Conversavam sobre uma farsa e ainda assim, sentia-se mais à vontade que contrariado. Milo tinha o poder de tornar as situações mais escabrosas em algo, no mínimo, instigante.

O francês viu-se, novamente, no limite do perigo. Sem que pudesse evitar, perdia-se na visão do rosto de Milo. A boca polpuda que já tinha provado, o olhar magnético que jamais recuava, o jeito malicioso mesclado com um ar juvenil...

Milo percebeu o olhar de Camus e o sustentou. Pensou no quanto sentia-se atraído por aquele francês. Apesar de ele ter dois braços, duas pernas, um nariz e uma boca com o todo mundo, sentia algo especial e estranho ao vê-lo sorrir timidamente e pior, parecia que todas as suas táticas infalíveis pareciam patéticas diante daquele homem desconcertante.

Seduzira um incontável número de mulheres e homens ao longo dos seus 24 anos. Sabia de cor todos os passos. Os primeiros olhares, um casual roçar dos corpos, o beijo roubado, as carícias ousadas e, finalmente, a cama. O gosto da paixão saciada era inebriante e... inevitavelmente, fugaz.

Em resumo, era um conquistador experiente, mas pela primeira vez na vida, era forçado a reconhecer que Camus lhe despertara um sentimento completamente diferente daquele que o levava a vencer no jogo da sedução. Admirava-o, desejava-o, mas acima disso, havia algo que o impedia de agir como o devasso capaz de persuadir até o demônio. Deu-se conta que desejava que Camus o quisesse tanto quanto ele o queria, porém, de livre e espontânea vontade...

Ficaram um tempo se olhando até a carruagem sofrer um solavanco e pender para um lado, fazendo os dois se desequilibrarem de imediato.

– Desculpem, senhores! Uma das rodas quebrou! – gritou o condutor.

Camus saltou com agilidade, seguido por Milo que já retirava sua casaca e arregaçava as mangas. O condutor surpreendeu-se com a disponibilidade de ambos e agradeceu a ajuda, porém tratou de fazer tudo sozinho. Em menos de uma hora já estavam de volta à estrada e, logo em seguida, adentravam o território arborizado e verdejante de Winchester.

Milo percebeu a mudança nos ares e fechou os olhos, sentindo o aroma de flores e de ervas que lembravam sua infância. Alecrim! A imagem de uma bela mulher de cabelos negros com uma cesta cheia de plantas surgiu como um relâmpago em sua memória e ele soube ser sua mãe, embora não conseguisse lembrar-lhe o rosto com nitidez. Sorriu, em meio à lembrança e, mais uma vez, deparou-se com o olhar de Camus investigando a natureza de suas expressões.

– Boas lembranças? – perguntou o francês.

– Estranho, lembrei-me de minha mãe, embora não consiga precisar como ela era, realmente. Só sei que ela sorria e que gostava de... ervas e temperos. Acho que o cheiro revivou algo que eu nem mesmo sabia que lembrava. – respondeu Milo.

– Pois então, seja bem-vindo à minha casa. – disse Camus apontando para o caminho formado por carvalhos centenários.

Milo ficou impressionado com o local. Não era algo que ostentava riqueza, porém era magnífico em sua simplicidade e elegância. A fachada em tijolos brancos sustentada por colunas Greco-romanas não perdia em nada para as mansões que, embora luxuosas, não possuíam aquela aura aconchegante.

A casa onde Camus morava parecia uma obra que fora criada para abrigar uma numerosa família feliz e, de certa forma, Milo sentiu uma nostalgia pelo que teria sido sua vida se crescesse num lugar assim.

A porta larga e alta se abriu e uma mulher idosa, porém corpulenta surgiu com um largo sorriso.

– Senhor Camus, que bom que voltou! – disse ela.

– Olá, senhora Midler! Este é Milo, um amigo da corte.

– Oh! Seja bem-vindo, milorde! Deixe-me pegar seu casaco. – disse Midler conduzindo-os para dentro da casa.

Adentrando a sala decorada em azul claro e marfim, Milo viu uma figura feminina sentada num sofá. O ambiente era sóbrio, porém feminino. As janelas eram grandes e altas, as cortinas transparentes e esvoaçantes. Uma lareira grande e aconchegante mostrava-se no centro da sala, convidando à intimidade familiar. Parecia que o tempo ficara em suspenso, ali e a quietude se mesclasse aos movimentos cuidadosos dos donos do lugar. A mulher parecia entretida com algo semelhante a um bastidor de bordado e, como se previsse a entrada de alguém, direcionou o olhar na direção ambos.

– Camus, meu filho! – disse a mulher com um genuíno sorriso. – Como demorou, já estávamos preocupadas!

Camus cumprimentou a mãe beijando-a na testa e em seguida apresentou Milo.

– Mãe, este é o conde Milo, um amigo que ajudou-me a conseguir valiosos contratos em Londres. Milo esta é minha mãe, a senhora Claire Antoine d'Alembert.

Milo aproximou-se e estendeu a mão, sorrindo ao constatar a semelhança da senhora com Camus. Os mesmos cabelos ruivos que, nela mesclavam-se a fios prateados e brancos. Os olhos azuis penetrantes, a linha delicada dos lábios que se curvavam ao sorrir...

– É um prazer conhecê-la, senhora. Mas, por favor, prefiro que me chame somente de Milo. – disse o grego tomando a mão magra na sua e beijando-a, com delicadeza.

– Belo e modesto! – disse ela batendo no estofado com um sorriso amplo. – Sente-se aqui e tomaremos um chá enquanto conversamos e me conta tudo o que está acontecendo na corte, Milo.

Milo obedeceu surpreendendo-se com a acolhida entusiasta da sorridente senhora, enquanto Camus apenas os observava com um visível constrangimento.

Decididamente, Camus se parecia com a mãe, apenas na aparência. Pensou Milo enquanto Claire o enchia de perguntas e ignorava o olhar aflito de Camus.

Duas horas depois, Claire recostava-se no sofá acetinado rindo de orelha a orelha, sendo seguida por Milo que sorvia o chá com prazer, enquanto devorava os confeitos que a senhora Midler havia trazido.

– Meu filho, seu amigo é um presente dos céus! – disse ela satisfeita. – A festa que planejei vai ser um sucesso, e graças a você e Milo.

A expressão de Camus mudou de constrangimento para reprovação.

– Festa? De que festa a senhora está falando? – perguntou o francês de cenho franzido.

– Ora, meu filho. Esqueceu que Hyoga completou 18 anos e nós não pudemos comemorar? Agora que tudo está encaminhado, acho que o pobrezinho merece ter sua festa.

– Mãe, já tínhamos falado sobre esse assunto e acordado que, ao invés de gastarmos com uma festa, iríamos enviá-lo para um bom colégio interno. – disse Camus.

– Pois eu sou contra! Embora você como o chefe desta casa tenha a última palavra, eu ainda assim, acho que devemos deixá-lo escolher o seu destino. – disse Claire, aborrecida.

Milo olhava para os dois sem entender nada. Então, como era da sua natureza, sorriu e perguntou sem rodeios:

– Quem é Hyoga?

Notas finais
Agradecimentos especiais para: Thainara Aline,DonaPeppa,Marciabs, Keronekoi, DDD, Jullylove, Kassiminha, Chakal_Maldito e quem mais chegar!!! Sinto-me muito honrada com a atenção de vocês!!!Bjs, XD