Desejos Ocultos
1 Capítulo 1 CHEGADA À LONDRES...
Notas iniciais
Londres, sete de fevereiro de 1830.
Hoje, completo 24 anos. Desde que cheguei a esta cidade barulhenta e suja gozo do mais absoluto ostracismo. Descobri que, se não conhecemos as pessoas e lugares certos, é quase impossível estabelecer uma relação de negócios, embora diga-se que Londres é uma cidade cosmopolita. Creio que, desde que o mundo conheceu o vício, civilização equivale dizer: assaltos, prostituição, jogatina e patifaria.
Enganei-me do tempo em que permaneceria neste inferno. Creio que já é hora de render-me ao que diz o único homem que tratou-me com respeito e consideração. Ele se chama Shura e, como eu, também veio tratar de negócios. Diz ele que devo aprender a ser como um camaleão e despir-me da minha notória “seriedade caipira”.
Estou em vias de render-me, pois começo a acreditar que ele tem razão. Preciso usar de toda a minha paciência para confrontar-me com estes senhores em seu território. Muitos trabalhadores estão dependendo do meu sucesso em negociar. Como dizia meu pai: “Desgraçado é aquele que não se submete ao papel que lhe é confiado.”
Espero que, quando retornar a esse livro de registros, eu tenha notícias animadoras.
Camus d'Alembert deixou cair a pena sobre a mesa de mogno escuro e levou a mão aos cabelos fartos e ruivos. Estava seriamente preocupado. Odiava Londres, o ar pesado, as ruas movimentadas e estreitas, o barulho desagradável e a sociedade devassa e fútil.
Acima de tudo, detestava ter que rastejar para conseguir uma audiência com os banqueiros e investidores. Sabia que não se vestia com as roupas da moda e sentia-se ultrajado ao ser olhado como se fosse um animal raro ou pior, doente!
Suas roupas eram austeras e simples, seus sapatos, impecavelmente limpos. O cabelo, deixava-o sempre preso e bem penteado num rabo-de-cavalo baixo e seu rosto, bem barbeado.
O que havia de errado, afinal? Achava ridículo aqueles lenços volumosos envolvendo o pescoço e os corsets que apertavam a silhueta deixando os homens afeminados. Também desprezava os gestos amplos e ensaiados que lhes conferia a aparência de bufões, as risadas afetadas ou as gargalhadas ruidosas que feriam os tímpanos.
Suspirou e tratou de juntar os papéis que alencavam números interessantes para um investimento. Não era pobre, possuía uma vasta propriedade em Winchester que transformara numa fábrica de tecidos finos, após a morte de seu pai e sua estadia em Londres era para que banqueiros e investidores conhecessem o negócio que iniciara e partilhassem do empreendimento que ofereceria empregos e chances de uma vida honesta para muitos homens.
Quando chegara, pareceu-lhe razoável que encontrasse cavalheiros inteligentes que se interessassem por tal proposta. Como poderia ter imaginado que não conseguiria penetrar naquele meio, visivelmente decadente, que parecia chafurdar em encontros sociais desprovidos de utilidade?
Vestiu o casaco mais alinhado que possuía e tratou de tentar, mais uma vez, ignorar a certeza de atrair os olhares desdenhosos de certos cavalheiros que frequentavam o famoso clube Ás de ouro. Shura disse ter conhecido alguém que poderia ajudá-los e isso era o suficiente para dar-lhe alguma esperança.
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O clube Ás de ouro rescendia a tabaco e bebidas de forte aroma como o conhaque e o uísque. Risadas preenchiam o ar e o ambiente fervilhava de homens dispostos a jogar e dispor de outros vícios...
Era um salão elegante cuja mobília reproduzia um ambiente aristocrático e oferecia conforto e sofisticação. As mesas de jogo eram cobertas com toalhas de veludo vermelho e as cadeiras, ricamente ornadas com espaldares dourados à exemplo das poltronas francesas.
Jovens rapazes ficavam em lugares estratégicos, sentados em chaises ou em pequenos grupos bebericando ponches à base de champanhe. Em meio à conversas divertidas, sorriam de forma provocante tentando atrair algum amante ou uma fugaz aventura lucrativa.
Sim, o Ás de ouro era famoso por juntar toda a espécie de divertimento que ia desde o jogo, as conversas de negócios e o prazeres sensuais. Podia-se dizer que era o local da moda, em Londres. Uma vitrine exuberante a exibir o que a sociedade tinha de melhor e... pior.
Camus olhou em volta procurando o único amigo que fizera, Shura, o espanhol que dizia ter uma solução para que ambos chamassem a atenção de homens poderosos e dispostos a negociar. Não conseguia ver muita coisa com a fumaça e sentia-se propenso a deixar aquele lugar quando uma voz conhecida falou-lhe próximo ao ouvido.
– Então, meu amigo, vamos aos negócios? – perguntou Shura tocando-o no ombro.
– Será? Não vejo muita chance neste... clube. Mais parece um bordel de luxo, isso sim. – respondeu Camus, visivelmente, contrariado.
– Meu caro Camus... eu também não acho o melhor ambiente do mundo, mas é aqui que encontraremos a nossa passagem para o mundo dos negócios.
De repente, um gritinho agudo e irritante cortou o ar, fazendo Camus e Shura franzirem o cenho. Olhando na direção dos olhares, ambos vislumbrarem a entrada daquele que causava alvoroço na sociedade londrina, o sr. Milo Stephanopoulos, sobrinho e herdeiro do conde Falsworth.
Era um cavalheiro de beleza incontestável capaz de despertar o interesse imediato de homens e mulheres.
– Ali está o nosso passaporte.
– O quê? Está me dizendo que pretende se aproximar daquele homem? Está louco, Shura?- protestou Camus.
– Claro que não. Milo Stephanopoulos é o centro das atrações de todos os clubes e mansões de Londres. Tornou-se conde e dizem que goza da amizade do ministro do interior, sir John Peel, criador da polícia metropolitana. Este, portanto, é um contato que devemos considerar.
– Ele parece preferir a companhia de qualquer um que acene com algum prazer e não com negócios. – observou Camus ao ver Milo ser assediado por dois jovens bem vestidos que se insinuavam de forma ostensiva.
– Bem, dizem que ele tem o hábito de chocar a sociedade com atitudes extravagantes. Contribui com dinheiro para que peças de teatro, um tanto impróprias, sejam encenadas em lugares sofisticados e... desfila com seus amantes à plena luz do dia. Mas...
– Mas o quê? Acha que só por ser extravagante ele nos ouvirá e apresentará a alguém sério?
– É a nossa única chance, Camus. Não vejo outra, a não ser que nos tornemos como esses homens. Algo que, com a nossa origem, creio ser um tanto trabalhoso e não dispomos de tempo e estômago para tal.
– Está bem, Shura. Você venceu. Quando falamos com ele?
– Assim que surgir uma oportunidade... – disse o espanhol em tom baixo.
Camus revirou os olhos. Estava claro que Shura estava convidando-o a arriscar uma aproximação com o devasso da moda. Um homem perigosamente belo, do tipo que sabia muito bem do seu poder de sedução e não tinha pudores em usá-lo a seu favor.
Milo possuía cabelos loiros que cintilavam como o mais delicado cetim. Penteados para trás de maneira simples e despojada, os fios brilhantes emolduravam um rosto de traços fortes que possuía um toque de arrogância. Até o corpo era perfeito e harmonioso, posicionando-se com uma displicente elegância.
E os olhos. Ah, aqueles olhos azuis, insinuantes e afiados, como se fossem lâminas ardentes, prontas para incendiar qualquer um que os fitasse. Eram olhos de um sedutor, de um libertino...
Não era de se espantar que homens e mulheres suspirassem quando ele os fitava. Parecia que, quando ele fixava os olhos em alguém, a pessoa sentia sua plena condição de estar no mundo.
– Meu querido Milo, você perdeu o juízo? Soube que dispensou a duquesa de Ryan, para passar o fim de semana com o cavalariço dela. – indagou o homem ao seu lado.
Milo encolheu os ombros. Era sabido e notório que gostava de homens e mulheres, porém, cada vez mais, apreciava a praticidade das relações homossexuais. Não havia drama na hora do adeus, nem sonhos de casamento e fidelidade eternos.
– A duquesa era enfadonha e... além do mais, desejava exclusividade!
O extravagante e belo Afrodite levou um lenço rendado ao nariz e sorriu. Aos olhos da maioria, ele era apenas mais um almofadinha afetado e libidinoso como tantos nobres. Apenas alguns poucos escolhidos conheciam a mente brilhante e perspicaz por trás daquela imagem tola e Milo era uma delas.
– Milo, Milo... eu soube que seu tio está flertando com uma jovem adolescente. Se esse... flerte vingar...
– Já vingou, meu amigo. Soube esta manhã que ele pretende casar-se com ela. Parece que ele... Bem, ele a levou para a cama e ela está grávida!
– Não! Milo, meu caro... você está...
– Arruinado! Se eu não tivesse meu futuro destroçado como um castelo de cartas ao vento, estaria rindo da situação patética de um velho pançudo de 56 anos seduzindo uma menina de 15!
– Bem, ele pode deixá-lo bem de vida, agora que tem um herdeiro sanguíneo para deixar seu patrimônio.
– Gastei demais, Afrodite. Creio que o que ele me deixou já está comprometido. Já existem credores batendo em minha porta.
– Creio que agora, só lhe resta duas alternativas: ganhar na loteria ou o casamento!
– Deus me livre!
– Ah, meu amigo. O jogo é algo imprevisível, mas o casamento pode reabastecê-lo para continuar a vida de bon vivant. Com seu charme sabe que, qualquer mulher adoraria pô-lo em uma coleira. Seria um feito cantado por gerações!
– Você faria isso se estivesse em meu lugar? Se prenderia a uma mulher, teria filhos e ainda fingiria gostar de estar atrelado a uma relação mentirosa e por conveniência?
– Não me faça rir. Por favor, não me rogue uma praga só porque sugeri uma saída, digamos... terrível! – falou Afrodite rindo.
– Ah, pimenta nos olhos dos outros é refresco, não é? Pois pretendo encontrar outros métodos para obter os fundos de que necessito.
– Talvez eu possa ajudar.
A voz grave e aveludada soou detrás de um dos pilares da sala. Milo e Afrodite viram, surpresos, a figura de um homem ruivo e desconhecido surgir diante deles.
Milo o encarou sério, bravo até. Como alguém se atrevia a escutar sua conversa com Afrodite e interrompê-lo. Por acaso aquele ruivo não tinha boas maneiras?
Passada a surpresa, Milo analisou o desconhecido com atenção. Ele não era feio, pelo contrário, era de uma beleza quase silvestre, daquelas que parecem existir por si só, independente do cultivo de suas qualidades. A pele clara estava na moda, porém ele tinha um péssimo gosto para o vestuário que mais parecia adequado a um velho que a um homem jovem. Entretanto, o que chamava a atenção eram os olhos de um azul cortante, que o olhavam de forma direta.
– Quem é você?- ele perguntou.
– Camus d'Alembert. Desculpem-me se interrompo, mas não pude deixar de ouvir o que conversavam.
– Ah, não? Por acaso, senhor... Camus, estava preso ao chão? Ou esqueceu de se afastar como manda a boa educação?
Camus franziu o cenho e sentiu o rosto quente.
– Para ser honesto, eu vinha falar-lhe quando ouvi o que conversavam. Então, quando notei que era algo que podia me ser útil, ouvi o restante deliberadamente.
– Por quê?
– Porque creio que possamos ser úteis um ao outro.
– Úteis? Eu nem o conheço.
– Eu sei. Mas tenho uma proposta a fazer.
– Lamento, senhor Camus, mas se quer me vender algo, deve ter ouvido que não estou em boa situação, então não sei como podemos nos ajudar.
– Não quero vender nada ao senhor. Desejo, apenas, que ajude eu e meu amigo a sermos recebidos por possíveis investidores.
Milo sorriu e Afrodite levou o lenço rendado ao nariz.
– Sinto desapontá-lo, senhor Camus, mas não sou um homem de negócios. Meu único e principal negócio é o prazer.
– Pois que seja! Estou disposto a lhe oferecer seis mil libras.
O lenço de Afrodite caiu de suas mãos e Milo tossiu.
Não era comum que o pegassem desprevenido, mas aquela oferta vinda do nada foi como uma luz surgindo numa caverna escura e fechada por meses. O que aquele estranho estava oferecendo podia pagar os credores e ainda sobrava para entregar-se aos passatempos prediletos de sua vida por algum tempo.
– Por acaso, está me propondo irmos para a cama por seis mil libras?
– N-Não, é claro que não! Ofereço essa quantia para que nos apresente aos seus amigos. Estamos há duas semanas em Londres e não conseguimos ser ouvidos por ninguém.
Milo franziu o cenho e olhou para Afrodite que corria os olhos lânguidos pelo corpo definido de Shura.
– Bem, acho melhor conduzirmos essa conversa em outro ambiente. Vamos aos jardins. – disse Milo.
Afrodite afastou-se. Ficaria esperando em algum ponto estratégico até Milo terminar sua entrevista com o ruivo.
Em silêncio, Milo conduziu Camus para fora do salão. Olhos bisbilhoteiros acompanharam-no e ele sabia que as fofocas se fariam presentes no dia seguinte. Porém, não se importava com a maledicência alheia.
Do balcão de mármore, ele seguiu até a escada em espiral, até chegar num belo jardim ornado com pequenas fontes e lagos, onde peixes multicoloridos nadavam, rapidamente.
– Bem, senhor Camus. Agora diga-me o que quer, realmente.
– Quero, somente, que use da sua influência para apresentar-me e indicar-me cavalheiros dispostos a investir em negócios no ramo de tecidos. Sei da sua fama em Londres e, sinceramente falando, já esgotei minha paciência de tentar as vias corretas.
– Vias corretas?
– Sim. Conversas sérias, apresentação dos contratos e livros de registros. Parece-me que até os negócios devem passar por essa atmosfera de devassidão.
Milo sorriu encarando-o no fundo dos olhos e Camus sentiu a força poderosa da sensualidade daquele homem. Era quase tangível e lhe provocava um arrepio de mal-estar. Ele estava sozinho há tanto tempo que agora questionava se o que estava propondo era algo com o que pudesse lidar racionalmente.
– Pois bem, senhor Camus, creio que o prazer de ficar debruçado sobre balancetes e lucros é somente uma parte dos negócios. As pessoas querem ser vistas, admiradas e sentir prazer nos braços de alguém que lhes faça esquecer as agruras da vida.
– Agruras da vida? Ora, senhor Milo... Os homens deste lugar me parecem bem descansados e abastados para saber o que são “agruras”.
– E o senhor sabe? Por isso, porta-se como se estivesse acima daqueles a quem veio procurar? Interessante, mas tenho que informá-lo que é uma atitude inadequada para manifestar entre os nobres que espera convencer.
– Não tive a intenção de colocar-me acima ou insultar ninguém. Apenas estou acostumado a conviver com pessoas que preferem o trabalho, ao ócio.
– Sim, é claro. Mas, sinto muito em não poder ajudá-lo. – disse Milo, sério.
– Eu... estou disposto a pagar uma boa quantia por apenas algumas apresentações e...
– Já disse que sinto muito, senhor Camus. Passe bem! – falou Milo retirando-se dos jardins e deixando o francês aturdido e sem palavras.
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