Desejos Ocultos
4 Capítulo 4 SEGREDOS...
Aiolia era um homem inteligente, orgulhoso e divertido. Ouvia com atenção as ideias de Camus para a expansão dos negócios, enquanto bebia do champanhe que era servido por garçons, elegantemente, uniformizados.
No salão amplo, o burburinho mesclava-se ao som da música erudita. Mexericos, sedução e intriga pairavam nos olhares e trejeitos de quem ali estava e desejava ser notado.
Um buffet farto, regado à carnes finas e saladas dispostas em travessas como se fossem obras de arte, completavam o banquete suntuoso do qual todos usufruíam, cada qual, com a sua intenção particular...
Marin havia colocado Milo, Camus, Shura e Afrodite em lugares privilegiados à mesa principal, assim, seu marido podia conversar com os quatro como se estivesse em uma reunião íntima, o que suscitou alguns comentários.
- Veja, lorde Aiolia parece muito à vontade com o francês... – disse uma senhora de feições aristocráticas, vestindo um longo verde musgo e exibindo um colar de ouro com uma safira gigantesca.
- Todos sabem da amizade que nutre por lorde Milo. E... o francês caiu nas “graças” do nosso belo devasso, portanto, é natural que o conde o considere, também... – respondeu a outra mulher mais jovem, cujos brincos de diamantes oscilavam nas orelhas pequenas e delicadas como se fossem raios de luz.
- Não está querendo insinuar o que eu presumo que está... não, é? – disse a senhora abrindo o leque à frente do rosto.
- Ora, ninguém resiste aos encantos de lorde Milo... sua extravagância contagia todos os setores de sua vida, sejam eles dinheiro ou... a cama. Não me surpreenderia que esta amizade fosse mais íntima que possamos, sequer, imaginar. – disse a jovem sorrindo de forma maliciosa.
Milo olhou na direção das duas mulheres e sorriu. Assim como Camus dominava a arte dos negócios, ele sabia de antemão todas as conversas que circulavam na corte. Agora mesmo, aquelas mulheres que o olhavam, de modo sorrateiro, deviam estar comentando sobre a amizade íntima existente entre ele e os outros.
Podia apostar que maliciavam e fantasiavam, sobre a vida alheia e, por um momento, o sorriso morreu em seus lábios, descobrindo que não era assim tão divertido conviver com tanta superficialidade.
Camus valia muito mais que todos os tolos, risonhos e devassos que se banqueteavam a custa de Aiolia. Possuía beleza e inteligência e, no entanto, só fora ouvido por estar em sua companhia. Não deixava de ser cruel e irônico que aquele, cuja reputação abarcava todo o tipo de excessos, fosse avalizar um homem, cujo talento era produzir algo útil à sociedade...
Uma onda de choque o atingiu junto com o eco da insatisfação. O que estava acontecendo com ele? Que raios de pensamentos eram aqueles que agora afetavam a sua sensação de bem-estar?
Tratou de calar aqueles pensamentos indesejáveis e concentrou-se em observar a conversa animada que Camus empreendia. Na postura do francês havia uma competência tão óbvia que o conde e os demais o ouviam com admiração e respeito. Porém, mais fascinante era o brilho de entusiasmo nos olhos azuis...
Milo sentiu um calor intenso invadir seu corpo imaginando o francês com aquele brilho em seus braços... Teria aquela paixão explícita no ato de amor? Seria ousadamente ativo ou... deliciosamente passivo?
Às divagações, somaram-se a lembrança do beijo trocado, naquele mesmo dia. O prazer surpreendente da hesitante, porém intensa, resposta do ruivo ao tomar-lhe os lábios... Como se fossem velhos amantes, as ereções haviam despontado com espantosa rapidez e ambos os corpos vivenciaram o latejar do sangue...
Era um homem experiente, acostumado a homens e mulheres versados na arte da sedução. Havia levado para a cama, cortesãs experientes, nobres libidinosos e toda a sorte de companhias que sabiam como dar e receber prazer. E, no entanto, quem poderia imaginar que o toque inseguro e desajeitado, assim como os lábios trêmulos de um quase estranho o deixaria ardendo de desejo e urgência...
Respirando profundamente e bebendo mais um gole de champanhe, Milo tentou acostumar-se ao fato que, embora fosse o alvo de comoção e interesse para ambos os sexos, com Camus, era muito diferente...
Não conseguia lembrar outro momento em que se sentira uma sombra, alguém em segundo plano. Logo ele que era acostumado a ser o centro, o sol que atraía os outros astros para a sua órbita!
Se não tivesse um pouco de arrogância ou se fosse menos seguro, certamente estaria deprimido. Porém, a noite estava começando para um homem como ele e, em seguida, se tudo desse certo, teria seu divertimento.
- Senhor Milo, boa noite! Poderia dar-me um minuto do seu tempo?– a voz profunda e calorosa se fez ouvir e um homem grande, com aparência jovial e alegre aproximou-se da mesa, estendendo a mão para o grego.
- Aldebaran, meu velho! – respondeu Milo abrindo um largo sorriso.
Todos na mesa fitaram o estranho. Era um homem magnífico, alto, grande e poderoso. Podia-se ver a musculatura rija e exuberante sob o traje elegante. Lembrava um personagem exótico de algum conto infantil, especialmente os olhos amendoados que, definitivamente, não eram olhos ingleses...
Aiolia não o conhecia, aliás, ninguém na mesa, além de Milo conhecia o homem que sorria com simpatia cativante.
- Deixem-me fazer as apresentações. Este é o... Barão de Queiróz, vindo diretamente do Brasil. O Brasil é um país cativante, cheio de sol, verde e... Bem, como conheci o barão numa das salas de jogos, tomei a liberdade de convidá-lo para este jantar. Agora, se me dão licença, vou ter uma conversa particular com o barão.
Afrodite tocou a ponta do nariz, franzindo o cenho. Desde quando Milo conhecia um barão brasileiro? E que história mal contada era aquela sobre tê-lo conhecido num salão de jogos, já que durante todos os meses, também frequentara tais salões e nunca vira o gigante charmoso em nenhum deles...
Um breve silêncio se instalou no ambiente, enquanto o homem se afastava devagar com Milo ao seu lado. Aiolia balançou a cabeça e sorriu. Milo sempre aprontava alguma excentricidade e ele já estava acostumado.
Camus apertou os lábios. Uma emoção raivosa e repentina apropriou-se de seu corpo ao ver a intimidade e a pressa com que Milo conduziu Aldebaran em direção à biblioteca, longe dos olhares curiosos.
De repente, a conversa perdeu o interesse e Camus viu-se ansioso, olhando na direção da biblioteca e imaginando o que Milo e aquele... gigante, estariam fazendo trancados numa festa onde todos, certamente, iriam comentar tal ato.
Shura notou o desconforto do amigo. Apesar de continuar com uma expressão inabalável, Camus não mais falava e apenas concordava com a cabeça ou, simplesmente, parecia estar longe dali.
- Camus, está se sentindo bem? – perguntou Shura, baixo.
- Estou. Porque a pergunta? – devolveu Camus olhando, novamente, na direção da biblioteca.
- Por nada é que... acabou de concordar com a senhora Marin em ficar mais três semanas em Londres para frequentar dois saraus, um baile, uma sessão de leitura de poemas e uma peça de teatro.
- Hã? Como assim concordei?
- Assentindo com a cabeça e dizendo: “Sim, claro!”.
- Deus, não acredito! Estou cansado... – disse Camus apertando o canto interno dos olhos.
- Também estou, mas tenho que admitir que o senhor Afrodite é muito divertido e inteligente! Quando o conheci, eu percebi que havia muito mais naqueles olhos azuis... Ele possui uma energia poderosa que faz questão de mascarar com frivolidade. Mas, creia-me, jamais encontrei alguém tão arguto e, ao mesmo tempo, tão... perigoso. – disse Shura observando que Afrodite havia deixado a mesa e agora conversava com um homem belo e aristocrático.
- Perigoso?
- Sim, do tipo que é capaz de virar a cabeça de qualquer um. – respondeu Shura bebendo um gole de chardonnay.
- Shura... – disse Camus franzindo o cenho.
- Por favor, não me censure. Pode parecer estranho, mas... me sinto atraído por ele e de um jeito, que jamais me senti atraído por uma mulher.
Camus olhou-o sério e depois bateu, solidário, no ombro do amigo. Sabia como ele se sentia, pois também havia sido pego de surpresa por sentimentos intensos e completamente avessos a sua experiência de vida...
- Pretende deixar claro, as suas intenções? – perguntou Camus.
- Não. Seria uma perda de tempo, pois ele já tem um amante. Porto-me com discrição e assim, pelo menos, mantenho nossa amizade. Embora pareça que faço isso por interesse, a verdade é que meus dias nesta cidade só adquirem brilho quando estou com ele.
Se a porta da biblioteca não tivesse sido aberta, no momento exato, em que Shura concluía sua frase, Camus teria dito que o amigo estava perdido. Porém, quando viu Milo emergir do recinto com os cabelos em desalinho e o rosto afogueado seu coração disparou num ritmo furioso.
O relógio de ouro fez soar onze badaladas e, Camus se levantou, pedindo desculpas aos anfitriões e deixando o grande salão. Caminhou rápido e resoluto em direção à saída e quem o visse, apenas deduziria que tinha outro compromisso, visto que sua face não traduzia o que seu interior gritava:
Maldito libertino! Maldita cidade!
Milo viu Camus afastar-se e tentou alcançá-lo, porém quando conseguiu transpor o séquito de adolescentes que se aproximaram de si soltando risinhos abafados, o francês já tinha ido.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou o grego a Shura que estava tão surpreso quanto ele.
- Creio que fiz revelações demasiadas... – respondeu o espanhol.
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O elegante bordel situava-se discretamente recuado e ficava oculto por uma cerca viva alta, composta de heras e roseiras. Um lugar que a nobreza adorava frequentar e que sempre dispunha de atrações inusitadas.
Madame Walmot, a proprietária, era reconhecida pelo seu talento peculiar de oferecer entretenimento tendo em sua casa os mais belos rapazes e garotas versados na arte do amor. Não só sabiam dar prazer ao corpo como também entreter a mente.
Literatura, arte e música... Todos ali exibiam um pouco de cultura e algum talento especial. Comentavam que madame Walmot havia visitado o Japão e lá se familiarizara com um tipo especial de cortesã. Inteligente e com visão empreendedora, aplicara o mesmo processo em seu negócio.
A última criação de madame era o momento esportivo que consistia em uma luta ao estilo Greco-romano onde os clientes eram convidados a participar. Havia prêmios em dinheiro, mesmo que a maioria que frequentasse o bordel fosse de origem nobre e, em datas especiais, era oferecida uma noite de prazer com o mais belo ou bela cortesã da casa.
Desta forma, o bordel conhecido como “A Ânfora” tornara-se o local da moda entre os devassos e os ditos homens de família que iam ali, usufruir dos prazeres especiais de Londres...
Quando a porta do bordel se abriu, uma figura enorme e musculosa surgiu com um sorriso nos lábios.
- Senhor Milo, seja bem-vindo.
- Obrigado... duque. – respondeu Milo rindo.
Aldebaran gargalhou. Aquela farsa tinha sido ideia do grego e ele tinha pelo conde uma genuína afeição. Milo, apesar de libertino, jamais negara ajuda a quem necessitava e, em sua época de esplendor financeiro, o ajudara muito. Agora tinha sido a vez de ele retribuir o favor.
- Lembra-se dos golpes que lhe ensinei na biblioteca? – perguntou Aldebaran.
- Se me lembro! Fiquei vermelho como um tomate e sem ar por uns bons minutos! Acha que consigo vencê-lo, esta noite? – perguntou Milo com um entusiasmo quase infantil.
- Siga as instruções e os golpes que lhe ensinei. Ele ainda não sabe que é você quem vai desafiá-lo. Lembre-se, lorde Kanon é forte e mais pesado, mas se conseguir levá-lo ao chão e imobilizá-lo...
- Divido o prêmio com você, meu amigo. – completou Milo.
- O prêmio desta noite não é dinheiro, Milo.
- Não? Deixe-me adivinhar... deve ser, então, uma noite de prazeres com algum rapaz ou dama. Estou certo?
- Sim e com a prata da casa, o jovem Mu. Por isso desejo que vença, sei que vai tratá-lo com respeito e não como um objeto qualquer. – respondeu Aldebaran com um semblante grave.
Milo ficou sério. Sua experiência dizia que o jovem mais disputado da casa era importante para o amigo e dispunha da afeição devotada do homem que garantia o bom comportamento no bordel.
- Se eu ganhar farei com que passe a noite com ele, em meu lugar. – disse o grego sorrindo.
- E-Eu? Não, Milo. Eu apenas...
- Não negue meu amigo. Vejo que o adora e eu... Eu só quero uma boa luta para esquecer que, pela primeira vez, estou sendo desafiado. – falou Milo com certo desalento na voz.
- Ele não sabe de mim, Milo. Para ele sou apenas o homem que é responsável para que todos possam divertir-se em segurança. Ficaria chocado se... fosse dado a um grandalhão como eu.
- Aldebaran... um jovem como Mu deixou todos os melindres para trás, quando abraçou esta vida.
- Eu sei... Mas, não quero ser mais um destes malditos devassos que se aproveita de seu corpo.
- Aldebaran, eu sou um devasso...
- Ah, você não conta. Você é diferente deles.
- Nem tanto. Apesar, de ser meio-nobre confesso que até hoje agi como se tivesse o sangue puramente azul.
Aldebaran sorriu. Sabia das origens de Milo. Por isso, o achava diferente dos demais, ele possuía em seu sangue um pouco da simplicidade e generosidade genuínas que só aconteciam nas camadas populares da sociedade.
Um conde puramente inglês casando-se com uma atriz de teatro que deixara a Grécia em busca de aventura... Pena que ambos houvessem morrido tão jovens e deixado o filho pequeno aos cuidados do tio.
- Sabe o que eu acho sobre isso? Que quando nobres de sangue azul se unem a plebeus, a raça se fortalece! – disse Aldebaran.
Milo riu e começou a prender os cabelos para trás, quando um homem trajando um casaco vermelho, uma calça preta e abrindo um cintilante leque chinês que sacudiu diante do próprio rosto, falou ao seu ouvido:
- Só você mesmo para ousar apresentar o porteiro de um bordel como um barão...
- Afrodite! – disse Milo contendo o riso. – Que roupa é essa?
- Não quero que me reconheçam.
- Bem, talvez não o reconheçam, mas por certo jamais será esquecido o cavalheiro trajado como um... palhaço. – disse Milo rindo.
- É uma estratégia... Se lembrarão da roupa escandalosa e não do homem que a veste. O que faz aqui? – falou Afrodite mantendo o leque aberto à frente do rosto.
- Como já deve ter sido informado, haverá o momento da luta e eu vou lutar com Kanon.
- Kanon! Não... Será que Saga está por aqui? – perguntou Afrodite um pouco tenso.
- Não creio. Pelo menos, não o vi. Mas, se eu fosse você, aproveitava que o lugar ainda está vazio e voltaria para casa. Veio de carruagem?
- Sim, aluguei uma e pedi a Shura que me acompanhasse. Ele está me esperando. Disse a ele que visitaria um amigo doente e não demoraria.
- O espanhol está aí? Por acaso Camus também veio? – perguntou Milo.
- Sim e não. Camus pareceu-me visivelmente irritado e acho que foi porque você e o barão ficaram trancados na biblioteca.
- Jura? Então ele ficou com... ciúmes? – o semblante de Milo abrindo-se num sorriso.
- Se espera conquistá-lo vai ter que mudar seu estilo... Shura me confidenciou algumas coisas sobre o francês.
- Que coisas? – perguntou Milo interessado.
- Não posso falar aqui. Amanhã nos encontramos e veja se permanece inteiro. – disse Afrodite batendo com o leque na cabeça de Milo.
Na carruagem, Shura permanecia inquieto. Afrodite dissera que aquele lugar era a casa de um amigo. Devia achá-lo ingênuo ou estúpido, pois estava na cara que o lugar era um bordel e o disfarce que Afrodite usara era, sem dúvida, uma forma de passar despercebido já que a roupa extravagante ficaria impressa na memória de qualquer um que a visse. Sem querer, sorriu quando o viu voltar apressado e com aquele leque ridículo ocultando o belo rosto.
- E então, seu amigo está melhor? – perguntou Shura displicente.
- Sim, claro! Ah, como são as coisas, não é? Em uma hora estamos bem e em outra...
- Posso fazer-lhe uma pergunta pessoal, senhor Afrodite?
- Mas é óbvio que sim, somos amigos, não? — falou Afrodite com um sorriso tenso.
- Seu amante sabe que frequenta um bordel?
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