Desejos Ocultos

3 Capítulo 3 A EFICIÊNCIA DE UM BOM PLANO...


Londres, vinte e um de fevereiro de 1830.

Eu sempre soube que a sociedade é volúvel, fútil e ardilosa. Entretanto, não posso deixar de ficar admirado com a rapidez com que tudo muda, quando se encontra a pessoa certa.

Há exatamente, duas semanas, ninguém se dignava a dar-me uma chance de aproximação. Agora, disputam-me quase a tapas e ouvem quase com fervor religioso o que tenho a dizer.

Uma declaração explícita da total frivolidade humana.

“O caipira”, como diziam, às minhas costas, agora é considerado uma joia rara, um artefato indispensável.

E tudo por quê? Porque sou o objeto de atenção do homem mais desejado de Londres e isso, faz toda a diferença.

“Absurdo e ridículo aquele que julga única e exclusivamente, pelas aparências.”


Apesar de sua seriedade e pouca tolerância com as bajulações, Camus não deixava de achar divertido. Após semanas de cantos escuros e rostos indiferentes, ele agora era assediado por anfitriões solícitos e ansiosos.


Somando-se a mudança de situação, deixou o hotel e alugou uma casa por temporada. Sua correspondência era recheada de convites e suas tardes eram tomadas por inúmeros visitantes que levavam sua proposta de investimento para analisar.


Com Shura havia sido mais fácil, porque o negócio que o espanhol desejava empreender estava no ramo da hotelaria. Lorde Afrodite havia se encarregado de apresentá-lo a alguns estabelecimentos e tudo corria bem.

Então, porque se sentia inquieto se o plano havia dado certo?


– Camus! Está certo que adora trabalhar, mas deixe um pouco estes papéis e venha conhecer a cidade. Existem muitos lugares interessantes que precisa visitar. Vou levá-lo num delicioso restaurante e depois, podemos andar no parque.


A voz grave de Milo reverberou na sala. Ele era a razão da sua constante inquietação.


Mesmo após tudo ter dado certo, Milo continuava a visitá-lo nas horas mais impróprias e pior, ele esperava as visitas do grego como se fosse um colegial tendo os primeiros encontros amorosos. Estava começando a se aborrecer consigo mesmo. Precisava voltar logo para casa e afastar-se daquela cidade, de seus vícios e do grego.


– Senhor Milo... – disse Camus, tentando manter a aparência serena.


O grego sorriu e se aproximou da mesa atulhada de papéis e contratos.


– Meu nome é Milo, esqueceu? Já nos tornamos íntimos o suficiente para que me trate sem formalidades.


– Desculpe, não ouvi quando foi anunciado.


– Não fui.


– Ah... Bem, terei que falar com meu empregado. Ele deveria estar atento.


– Não seja tão duro com o pobre homem. Naturalmente, ele presumiu que seria bem-vindo, já que torno seus dias movimentados e excitantes.


Camus sorriu. Acostumara-se com a presença alegre do grego. Sempre que as coisas se tornavam pesadas, ele surgia como um sopro de brisa, uma pitada de jovialidade no duro mundo dos negócios.


– Está bem, mas não vamos a nenhum lugar público, por favor. Já cansei de ser assediado. – falou Camus passando a mão nos cabelos.


Milo sentiu-se prender com aquele gesto e, num movimento totalmente impulsivo, tocou nos fios avermelhados.


– O que está fazendo? – perguntou Camus, surpreso com a ousadia de Milo.


– Tocando em seus cabelos... São, absurdamente, lindos, assim como você. –respondeu Milo.


O francês engoliu em seco.


Olhando-o como se nada mais existisse, Milo aproximou-se ainda mais. Os dedos longos acariciaram a face de Camus e se aproximaram da curva da boca. O polegar descreveu a curva do lábio inferior e, lentamente, a cabeça se inclinou, revelando com clareza sua intenção.


Beijá-lo.


A constatação revelou-se a Camus no exato momento em que os lábios carnudos de Milo tocaram os seus. Depois disso, não houve mais espaço para a lógica ou a razão.


Os lábios do grego eram quentes e possessivos. E quando as bocas se fundiram, não houve um ataque impetuoso e sim uma persuasão deliciosa em forma de carícia. Com uma lentidão erótica ao extremo, Milo ia descobrindo o sabor dos lábios de Camus, reverenciando aquele momento... A língua tentava penetrar na cavidade úmida e a boca de Camus se abriu num convite ousado.


Um prazer avassalador aqueceu o sangue do francês deixando-o confuso e tonto, como se tivesse consumido, sozinho, uma garrafa inteira de conhaque.


Sussurrando algo que Camus não entendeu, Milo deslizou os lábios por sua face quente e foi se aproximando do queixo, desenhando um caminho de beijos. A sensação daqueles lábios nos seus e em sua pele fez Camus gemer baixo e estreitar Milo junto a si, unindo sua língua à dele e deixando-se possuir pelo desejo.


Porém, quando sentiu a própria turgidez em seu membro, pulsar de forma tão intensa, Camus afastou-se, afogueado e constrangido.


– Pare Milo! – disse ofegante.


Milo parecia à vontade e sob controle diante de sua agitação. Os olhos azuis podiam estar um pouco mais brilhantes, sua respiração um pouco alterada, mas não havia nenhuma perplexidade agitada como a que ele experimentara.


O homem era um sedutor nato. Fim da linha, Camus!


– Não precisa ficar tão constrangido por um simples beijo. – disse Milo tentando aliviar o clima.


– Espero que tenha se divertido, senhor Milo. Mas, agora, por favor, saia. – falou Camus ainda tenso.


– E o nosso passeio?


– Está cancelado. Não tenho tempo, nem vontade para agir como um desocupado.


Milo sorriu. Camus estava, visivelmente, perturbado, porque tinha gostado e se excitado com o beijo. Para alguém cujo único pensamento era os negócios, o francês se revelara um homem que seria um excelente amante se... tivesse os incentivos certos.


– Descansar e arejar a mente também ajuda na condução dos negócios. Mas, se quer se isolar em meio aos papéis ao ponto de ficar exausto e cometer erros...


– Eu não cometo erros. Sei bem o que quero e como consegui-lo. Agora se me dá licença.


– Disso eu não tenho dúvidas. Vejo-o à noite, Camus. O conde Aiolia estará oferecendo um jantar em sua homenagem.


– O quê?! Mas como? Não fui avisado e...


– Fiquei de avisá-lo, pessoalmente. Aqui está o convite. – disse Milo retirando um envelope do bolso.


– Porque só me diz agora que não posso dar uma desculpa e recusar?


– E porque recusaria? Não disse que sabe o que quer e sabe como obter sucesso?


– Pensei que não haveria jantares específicos. Não tenho roupa para tais eventos e não vou vestir-me como um...


– Almofadinha efeminado! – completou Milo. – Ora, Camus, não se preocupe com isso. Temos quase o mesmo físico. Posso emprestar-lhe um terno. Também não aprecio roupas extravagantes e possuo roupas que ainda não usei. Certamente achará algo que lhe agrade.


A expressão de Camus suavizou e ele sentou-se novamente, levando a mão, novamente, aos cabelos.


– Ainda bem que esse será o último! Logo estarei de volta a Winchester... – disse Camus suspirando.


Ao ouvir a frase em tom de alívio, Milo sentiu baixar uma sombra dentro de si. Não deixava de ser hilário que sua companhia fosse desejada e disputada, por quase toda Londres, e aquele homem o ignorasse por completo e desejasse fugir de sua presença como o Diabo foge da cruz.


– Bem, vou mandar trazer alguns ternos para que possa escolher um do seu agrado. Até à noite. – disse Milo e sua voz não tinha mais o tom entusiasmado de antes.


– Obrigado. – falou Camus e seu coração começou a desacelerar quando Milo fechou a porta atrás de si.



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A mansão estava repleta de convidados. Até uma orquestra havia sido contratada para entreter os convidados. O ambiente iluminado e requintado exalava riqueza com seus candelabros de cristal, a escadaria forrada com um fino tapete vermelho e os muitos vitrais que ornavam as janelas amplas.


O chão de mármore escuro refletia as roupas de gala, o cintilar das joias e os sons dos passos elegantes, enquanto criados uniformizados serviam champanhe e indicavam os lugares na mesa dos anfitriões.


Aiolia era um jovem conde cuja fortuna residia numa polpuda herança aliada aos seus investimentos na área comercial de importação. Altivo, o nobre ouvira falar sobre Camus e sua fábrica no interior. Curioso, mandara seus administradores entrar em contato e agora desejava conhecê-lo pessoalmente.


Sua esposa, Marin, era uma bela jovem, cuja origem simples e a amizade com Milo ainda suscitava comentários maldosos. Porém, nada disso afetava sua relação com Aiolia e era sabido que viviam felizes e apaixonados.


– Conde Milo! – disse a voz alegre da bela jovem que descia a escadaria num belo e vaporoso vestido azul turquesa que acentuava os cabelos ruivos preso num coque, ornado com delicadas pérolas.


– Milady... Tenho que dizer que está mais bela, cada vez que a vejo. — disse Milo beijando a mão delicada.


– Galante como sempre. E você também está cada vez mais atraente. Vejo que teremos muita gente suspirando durante o jantar.– disse ela envolvendo o braço no de Milo.


– Camus já chegou? – perguntou Milo olhando em volta.


– Ainda não. Hummm... vejo um brilho de interesse nesses seus olhos, milorde?


– Está tão explícito assim?


– Para uma mulher, sim. Mas, não tema, todos acham que está acompanhando o senhor Camus por dinheiro. Dizem que ele não serve para ser seu amante já que está do lado abjeto dos que precisam trabalhar para viver! Sabe como o preconceito insinua-se na corte, não?


Milo ficou sério. Sim, sabia do preconceito que recaía sobre aqueles que se dedicavam ao trabalho ao invés de viver de suas fortunas ou investimentos. Ele mesmo já pensara assim, antes de conhecer Camus. Agora questionava a própria situação e já não achava tão confortável ser um Bon vivant...


Marin tocou em seu braço e Milo despediu-se dos devaneios.


– Veja, ele chegou. Faça-o ficar à vontade, enquanto chamo Aiolia para receber nossos convidados! – disse Marin piscando o olho para Milo.


Camus viera acompanhado por Shura. O francês havia escolhido um terno escuro e de corte reto, algo que Milo passara os olhos e dispensara por sua excessiva sobriedade. Porém, nele, aquela roupa parecia adequar-se como uma luva, deixando-o... apetitoso.


Os cabelos ruivos presos num rabo de cavalo baixo pareciam arder em contraste com a cor preta, dando ao francês um ar sofisticado, acentuado pela pele clara.


Já o espanhol estava com um dos ternos da moda, cujo tom esverdeado ressaltava os cabelos escuros e lhe conferia um ar aristocrático.


– Eles são lindos, não é? – disse uma voz que pegou-o desprevenido.


– Afrodite! Como chega assim, sorrateiro? – disse Milo sorrindo.


– Eu cheguei há alguns instantes e o vi conversando com Marin, enquanto olhava para os homenageados. Nunca o vi tão... ansioso, milorde. Creio que essa farsa rendeu mais que esperava, não?


– Quem falando. O espanhol está bem enturmado... Creio ter dedinhos seus nesse novo visual e nos contatos.


Afrodite riu um pouco sem jeito. Passara bons momentos na companhia de Shura. Levara-o para conhecer uma das maiores hospedarias de Londres e conversara com ele sobre investimentos confiáveis e investidores em potencial. Tudo por simples... amizade. Em nenhum momento notara um olhar mais atrevido. O espanhol era um cavalheiro e portava-se sempre com muita discrição e educação.


– O senhor Shura é um homem interessante, mas... creio que não sou o seu tipo. – falou Afrodite com certo desalento.


– Nada que a sua habilidade em seduzir não dê um jeito.


– Talvez ele prefira as mulheres.


– Talvez você esteja ficando covarde... – disse Milo e, sem esperar pelo amigo, caminhou na direção de Camus.


Como se sentisse sua aproximação Camus moveu os olhos e encontrou a figura de Milo.


Pessoas tentavam falar com o grego, chamar sua atenção, mas ele seguia em frente com determinação e propósito, os olhos fixos no homem que o desconcertava e ocupava seus pensamentos com uma frequência espantosa.


– Senhor Milo...


– Senhor Camus... senhor Shura.


Estaria enganado ou havia uma expressão feliz nos olhos azuis ao apertarem as mãos. A forma com que Shura os deixou às sós, apenas provocou mais dúvidas, porém o momento era para ser aproveitado e não analisado.


– Está muito elegante. Creio que agora serei eu a disputá-lo em meio aos seus admiradores. – disse Milo admirando-o, ostensivamente.


Camus sorriu. E Milo perguntou-se se ele tinha consciência do quanto o perturbava ao fazê-lo daquela forma. Espontâneo, direto, sensual... Todas as qualidades cabiam naquele sorriso.


– Este terno é seu. Se não tivesse tido a gentileza de emprestar-me, certamente, eu seria chamado de caipira malvestido. – falou Camus.


– Ficou melhor em você, do que em mim. Agora vamos, Aiolia e Marin nos esperam.


– Sei que deve ser difícil ficar atrelado a um homem sem graça como eu. Pode ir ter com seus amigos. Não quero que tenha mais uma noite enfadonha. Posso muito bem apresentar-me aos anfitriões. – disse Camus.


– Quer se livrar de mim, agora que já está enturmado nos círculos sociais? Pois bem, não vou constrangê-lo. Afinal, já me pagou pelo serviço, não é? – a voz de Milo denotava contrariedade.


A irritação de Milo pegou Camus desprevenido. Achava que o grego devia estar cansado de ficar ao lado de um homem que só sabia falar de negócios. Mas, agora, vendo o olhar ofendido que ele lhe lançara, sentiu um aperto e mal-estar.


Gostava da companhia do grego. Mais até do que queria admitir. Milo era divertido, inteligente e com um humor afiado. Era o único que o fazia rir e esquecer, por alguns momentos, as dificuldades que tinha de enfrentar. Além de despertar nele, emoções e sensações que jamais tinham sido tão intensas...


– Milo, eu... Desculpe-me. A verdade é que sempre achei ser um fardo para você estar com alguém que não acha divertido esse ambiente. – disse Camus pegando no braço do grego.


A mão forte que conteve seu movimento fez sua pele arder mesmo coberta pelo grosso tecido. Os olhares se encontraram e Milo sentiu que estava se perdendo em águas perigosas e desconhecidas.


– Jamais, Camus. Não sou homem de sujeitar-me a fazer o que não me dá nenhum prazer. Se desejo sua companhia é porque o acho interessante. Admiro sua inteligência e a forma independente como conduz sua vida, sem importar-se com o que falam ou com a moda. Não pense que preocupo-me, apenas, com erotismo e futilidades. Até mesmo um devasso sabe apreciar o verdadeiro valor de um homem.


As palavras de Milo penetraram fundo na mente e no coração de Camus. Sabia que Milo era um conquistador, mas também havia generosidade e franqueza na personalidade do grego. Além disso, ele sabia entreter e conversar seriamente numa fração de segundos e não havia ninguém que não fosse contagiado pela alegria e descontração que ele oferecia.


– Então, me dê à honra de ir comigo até os anfitriões. – disse Camus com um sorriso carregado de ternura.


O grego também sorriu, sentindo por dentro um delicioso calor, enquanto andavam na direção de Aiolia e Marin.

Notas finais
Agradecimentos sempre!!! Bjs, XD