Desejos Ocultos
18 Capítulo 18 A VOZ DO CORAÇÃO...
Notas iniciais
“Se a consciência pesa...
Se o coração se amedronta...
Se a escolha te tortura...
O caminho não se torna unicamente um fardo pesado e dolorido?
Procure na água o teu desejo por fogo...
Procure no subterrâneo o ar puro e a liberdade do céu...
O que não te mata te fortalece...
Ou será apenas uma cortina de fumaça para a própria dor...?”
Chacal_Maldito
Seus dedos tocaram a relva coberta de orvalho. A luz das estrelas refletia-se nas águas escuras, enquanto ele continuava a explorar com as mãos, aquele lugar que se tornara o seu santuário particular...
Não tinha a mínima noção de como fora parar ali. Apenas sabia que precisava ir para algum lugar onde pudesse respirar, entregar-se à dor solitária que sempre soubera administrar, mas que agora rebelava-se dentro de si.
Olhou para o céu, enquanto deitava-se no chão úmido e no mesmo lugar em que tivera Milo em seus braços, pela primeira vez. Ainda podia sentir na pele o calor e o prazer daquela noite. O sorriso do grego, seus ofegos e gemidos, as profundezas de seu corpo...
Nunca uma entrega havia sido tão poderosa e nunca, o prazer tinha sido tão intenso. Jamais acreditara ser um homem ardente e, no entanto, com Milo descobrira uma necessidade e um ardor que se perpetuava em todas as fibras do seu corpo e do seu coração.
Amava-o! Mas, o que sabia sobre amor? Sabia amar?
A resposta para ambas às perguntas eram apenas mais e mais questionamentos que se insinuavam em seu coração, pele e ossos...
Havia sido traído, abandonado e deixado o fato trancado em algum lugar no fundo da sua alma. Sim, tinha sido doloroso, mas não se comparava com o que sentia agora e a aceitação deste fato somente lançava mais indagações sobre si mesmo.
A imagem de Saori insinuou-se, em sua mente, levando-o de volta ao passado e a um relacionamento desprovido de paixão. Era um marido leal, devotado ao trabalho e totalmente alheio aos anseios românticos de sua jovem esposa. Agora que sabia como era estar apaixonado, podia entender o quanto devia ter sido difícil para Saori vivenciar uma rotina de solidão e frieza.
Seu casamento havia sido planejado por seu pai e ele, como filho obediente, acatara a decisão. Saori era uma jovem inteligente, vivaz e delicada. A escolha dela como esposa pareceu-lhe acertada, assim como o rumo da vida em direção à maturidade. Continuaria os negócios de seu pai, teria filhos, formaria uma família. Uma bela progressão aritmética onde todos os elementos eram conhecidos e resultariam em sequências previsíveis...
Então surgiu o inesperado, a paixão de Saori pelo jovem Seiya e tudo o que era estável e certo, deixou de sê-lo. Sua vida desmoronou como um castelo de cartas, mas mesmo assim, ele seguira em frente, sepultando as mágoas e retornando à dimensão matemática dos resultados esperados. Até Milo surgir como uma variável inesperada, despertando desejos e tornando-o vulnerável...
Fora passional ao acusá-lo, porque, apesar de sua inteligência e seu espírito empreendedor, não confiava em si mesmo e nem achava possuir capacidade de atrair a atenção e o afeto de um homem como Milo. Uma falta de confiança que sempre fora reforçada por sua tentativa de colocar a lógica acima de seus sentimentos. Era mais seguro analisar que sentir...
Fechou os olhos e ouviu os murmúrios da água corrente. O ar noturno tornou-se ainda mais frio e Camus deixou-se envolver. Seu corpo estava dolorido de tanta tensão e, aos poucos, a exaustão dominou-o trazendo uma abençoada letargia. Apertou ainda mais os olhos e a última imagem que viu foi o rosto furioso e magoado de Milo.
Amo-o tanto, Milo. Espero que possa me perdoar... Pensou, enquanto era vencido pelo cansaço e adormecia ao relento.
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Hyoga colocava as roupas na mala de qualquer jeito, amontoando-as com raiva. Vou embora desta casa! Chega! Repetia entre dentes, enquanto lutava contra as peças de roupa que continuavam a sair da mala.
Ouviu duas batidas na porta e reconheceu-as, pela delicadeza. Era sua tia. Respirou fundo e passou a mão nos cabelos desgrenhados. Pelo menos alguma coisa havia aprendido com Camus, vestiria uma máscara de tudo bem e seguiria com seu plano de pegar Shun e ir embora de Winchester.
– Olá, tia Claire. – disse abrindo a porta, após esconder a mala e forçando um sorriso.
– Hyoga! Pedi a Camus para procurá-lo e aqui está você. Por onde andou?
– Estava dando uma volta com Shun.
– Ah! Fiquei preocupada e... também queria lhe dar o seu presente.
Presente? Mas, já deu-me muito, tia. Não há necessidade de dar-me mais nada.
– Mas, eu quero e Camus também! Ele concordou que você deve ficar com Pearl.
– Pearl?
– A potranca que nasceu há alguns dias atrás. É um belo puro sangue e é seu! No futuro, pode inscrevê-la nas corridas, ela tem potencial para isso.
– Obrigado, tia.
– Você merece, meu filho. – disse Claire abraçando o sobrinho e sentindo-o tremer.
Hyoga desvencilhou-se do abraço e fingiu estar animado com o presente.
– Obrigado, tia Claire. Agora, se me dá licença, tive uma noite exaustiva e estou cansado. – disse Hyoga.
– Tem razão, a festa foi ótima, não é mesmo? Mas, estou achando que você está um pouco nervoso, aconteceu alguma coisa?
– Não, claro que não. Estou apenas cansado, só isso.
Claire beijou o sobrinho e deixou o quarto. Quando a porta se fechou, Hyoga desabou sobre a cama com um dos braços lhe cobrindo o rosto, angustiado e zangado. Então respirou lenta e profundamente, organizando em sua mente, o plano de sair de vez daquele lugar onde, cada vez mais, sentia-se um intruso.
No corredor, Claire deparou-se com Milo. O grego estava carregando suas malas e pela expressão estava muito aborrecido.
– Senhor Milo? – falou Claire pousando os olhos nas malas.
– Senhora! Estou partindo ainda hoje. Vou aproveitar que a carruagem dos músicos tem um lugar sobrando e que eles estão indo para Londres. Obrigada pela encantadora hospitalidade!
– Mas, vai embora assim tão tarde? Camus já sabe? Aconteceu alguma coisa?
Milo só conseguia se lembrar de duas vezes na vida em que ficara sem palavras: quando recebera a notícia que seu tio engravidara uma adolescente e naquele momento.
– Por favor, meu filho... diga-me, o que aconteceu! – pediu Claire.
Meu filho. Há quanto tempo não era chamado assim. A voz aflita de Claire e o carinho que ela demonstrava quase o fizeram vacilar, mas manteve o orgulho e obrigou-se a sorrir com muito esforço.
– Agradeço o seu carinho, senhora. Quero que saiba o quanto foi especial para mim, conhecê-la. Agora devo ir. Se precisar de qualquer coisa, estarei sempre às suas ordens. – disse Milo abraçando Claire com afeto.
Ditas as palavras, Milo partiu deixando Claire atônita como há muito tempo ela não ficava.
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Quando Saga entrou em sua mansão, um homem em trajes escuros e usando óculos grossos dava instruções ao criado. Franzindo o cenho, ele aproximou-se dos dois homens.
– Doutor Tilden? Aconteceu algo com meu irmão? – perguntou ao reconhecer o médico.
– Senhor duque! Seu criado chamou-me para ver o seu irmão e creio que devemos ter uma conversa bem séria.
– O que houve? Quando saí ele estava febril, mas nada grave.
– A febre aumentou, senhor, e agora está acompanhada de uma tosse seca e persistente. Resolvi chamar o doutor. – disse Petry.
– E ele fez muito bem, vossa Graça. Quanto mais cedo tomarmos as providências, mais chances seu irmão terá de superar a doença. – completou o médico.
– Doença?
– Sim, sinto dizer-lhe que seu irmão está com a doença dos pulmões e precisa deixar o ambiente de Londres, imediatamente. Sugiro que o leve para uma residência no campo onde o ar puro e uma boa alimentação serão fatores imprescindíveis que o ajudarão a recuperar-se.
Saga ficou tenso e preocupado. Embora se mantivesse sob controle, sentia medo. Seu pai havia morrido jovem e da mesma doença e a possibilidade de perder Kanon era algo insuportável. Parecia que o mundo resolvera desabar sobre a sua cabeça todo de uma vez!
– Tem certeza que é esta maldita doença?
– Os sintomas são bem claros, febre e tosse seca. E, pelo visto, seu irmão adora a vida boêmia, pois a primeira pergunta que me fez é se podia beber uísque. Entretanto, ele possui uma constituição física privilegiada e a doença está no início. Providencie para que ele fique afastado de problemas e desenvolva hábitos saudáveis. Eu e alguns colegas meus estamos desenvolvendo um elixir experimental que vou prescrever para ajudar no tratamento. Mande seu criado buscar, amanhã mesmo, alguns vidros.
– Obrigado, doutor!
– De nada, senhor duque. Agora preciso ir. Desejo-lhe boa sorte.
Naquela noite, Saga sentiu-se atormentado por todas as surpresas que se descortinaram para si. Primeiro Afrodite e agora Kanon. Lembrou-se da paixão explícita e da coragem de seu ex-amante, assim como da sensação experimentada em ver que ele não temia nada e nem ninguém. Olhou para a porta de seus aposentos e hesitou por alguns minutos. Então girou a maçaneta e entrou.
Kanon adormecera e acordara quando o médico chegou. Estava sonolento quando ouviu a porta do quarto se abrir. O luar penetrando pela janela aberta o fez reconhecer a silhueta de Saga.
Saga vestia apenas calça e camisa, cujo colarinho aberto revelava parte do peito vigoroso. Os cabelos escuros estavam revoltos e os pés descalços...
– Vim ficar com você. – ele murmurou, o olhar tempestuoso.
Pálido, Kanon sorriu e abriu os braços. Saga começou a desabotoar a camisa, mostrando os ombros largos e a beleza do torso musculoso. Quando se despiu por completo, entrou para baixo dos lençóis e abraçou Kanon com força.
Saga... – gemeu Kanon.
– Não se mexa e deixe a luxúria fora disso... Vou apenas aquecê-lo com meu corpo. Feche os olhos e durma, não vou deixar que nada de mal aconteça com você.
– Eu te amo... – disse Kanon, sentindo o corpo relaxar, mesmo que a proximidade com o corpo do irmão fosse tão íntima.
– Eu também te amo. Agora durma... – sussurrou Saga, mantendo Kanon em seus braços, sufocando o desejo que sentia em nome de um amor maior. Um amor capaz de trazer lágrimas aos olhos do orgulhoso duque...
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Uma dor aguda nas costas, seguida de algo áspero tocando seu rosto fez Camus despertar antes que a luz pálida do alvorecer abrisse espaço no céu escuro. A folha seca que caíra, mais a reclamação de seu corpo, testemunhavam que tinha dormido fora de casa e o fez levar a mão aos olhos, ainda doloridos e esfregá-los, ao mesmo tempo em que levantava do chão úmido.
Assim como o último pensamento fora para Milo, o primeiro, ao despertar ali, também o foi. Tentou organizar, mentalmente, o que diria a ele e então, tomou o rumo de sua casa para encontrar o grego.
A casa estava quieta e ainda mostrando os resquícios da festa. Ao passar pelo quarto de sua mãe, Camus viu que a porta estava aberta e tentou passar despercebido quando ela olhou direto na sua direção.
– Camus!
– Bom dia, mãe. Já acordada?
Ela franziu o cenho.
– Onde passou a noite?
– Estive... Mãe, posso conversar com a senhora mais tarde? Agora, preciso falar com Milo.
– O senhor Milo partiu ontem à noite. — disse Claire arqueando as sobrancelhas.
Camus sentiu a cor fugir-lhe do rosto e mordeu o lábio num gesto instintivo. Claire levantou-se da escrivaninha e tomou-o pela mão.
– Sente-se aqui, meu filho.
– Mãe, eu...
Claire suspirou e puxou Camus até a poltrona e o fez sentar.
– Os filhos sempre acham que suas mães são santas, tolas ou cegas. Mas, sinto desapontá-lo, meu filho, não me insiro em nenhum destes papéis e possuo dois olhos bem saudáveis! Sei que aconteceu algo importante entre você e Milo. Algo que o fez sorrir e mostrar-se, profundamente, feliz pela primeira vez em sua vida. Só por este fato, passei a amar aquele homem! Mas, também sei que houve algum desentendimento entre vocês dois... Havia dor naqueles belos olhos quando deixou esta casa.
Camus corou e baixou os olhos. Sentiu como se ainda fosse um garoto temeroso de uma repreensão.
– Não consegue olhar para sua mãe?
– É difícil... Eu...
– Camus... Saiba que quando casei com seu pai, eu desafiei todas as convenções pré-estabelecidas e... o fiz por amor. Eu me entreguei antes do casamento e estava grávida quando subi ao altar. Enquanto minha família julgava-me como se eu fosse uma meretriz, eu andava de cabeça erguida, porque em minha opinião, amar está acima de qualquer regra moral ou convenção social! Acha que não percebi os olhares entre vocês dois? Pareciam querer devorar-se um ao outro e, ao mesmo tempo, havia a ternura de corações que se completam. Agora diga-me, o que aconteceu?
Surpreso pelas revelações de sua mãe e com a forma serena com que ela lhe contava tudo aquilo, Camus sentiu-se desarmar e abriu-se com ela.
– Cometi um erro... Fui preconceituoso e estúpido. Milo é nobre, tem um estilo de vida totalmente diferente dos padrões que eu considero. Julguei-o mal e...
– Hummmm... toda essa conversa para me dizer que ficou com ciúmes e meteu os pés pelas mãos! Milo é um devasso irresistível... pode-se perceber pela sensualidade natural que aflora em todos os seus atos. Vivi na Corte tempo suficiente para perceber o tipo de homem por quem as mulheres e... os homens são capazes de perder a cabeça. Mas, Milo também é uma raridade, um homem generoso, gentil e nada afetado como se esperaria de um nobre. Acho que ele também deixou de ser virgem e não sabe bem o que fazer com isso.
– Virgem? – Camus olhou para Claire com uma expressão ainda mais confusa.
– Sim, virgem! Todos consideram a virgindade como um estado do corpo, uma pureza, apenas, física de quem desconhece os desejos da carne. Mas, nada disso reflete o seu verdadeiro significado. Uma meretriz pode deitar-se com muitos homens e permanecer sempre virgem se nunca conhecer o amor e vivenciar, apenas a luxúria. Deixar de ser virgem é tornar-se um com o ser amado, sem medos e sem reservas.
– Eu o magoei, mãe! Eu disse coisas...
– Então vá atrás dele e peça perdão! Quando Saori o abandonou eu disse para esquecê-la, porque sabia que não havia amor entre vocês dois. Ela era uma jovem ingênua e apaixonada, enquanto você era a cópia perfeita de seu pai, austero e controlado. Até hoje me penitencio por ter permitido aquele casamento, mas agora é diferente, surgiu a sua oportunidade de ser feliz, meu filho, não a jogue fora.
Camus sorriu como uma criança. Jamais poderia imaginar ter as bênçãos de sua mãe e ali estava ela, sorrindo e gesticulando para que ele fosse à procura de Milo.
– Antes, preciso de um banho e também falar com Hyoga.
– Aquele é outro que estava estranho... Não sei o que há entre vocês, homens, estão sempre estão dificultando as coisas.
– Também fui duro com ele. Aliás, está na hora de resolvermos esse mal-estar que permanece entre nós.
– Até que enfim! Aleluia! – disse Claire revirando os olhos e fazendo um gesto com a mão.
Camus levantou-se sentindo o peito mais leve, quando alguém gritou. De imediato, ele e Claire foram na direção dos gritos que mesclavam vozes femininas e masculinas.
– Que diabos...? – Camus correu quando viu a senhora Midler, vermelha e quase sem ar.
– Fogo! A ala oeste da fábrica está pegando fogo! – disse ela.
Com um olhar de total incredulidade, Camus correu para fora de casa e viu a nuvem de fumaça, subindo lentamente em direção ao céu.
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Hyoga tinha entrado pelos fundos quando ainda estava escuro. O pequeno lampião que trazia em mãos, iluminava o galpão agora cheio de máquinas e matéria-prima. Olhou com tristeza para a fábrica que Camus conseguira montar com esforço e trabalho duro. Como queria que ele o aceitasse, que deixasse ajudá-lo....Seria a oportunidade de agradecer tudo o que ele e Claire haviam feito por ele.
Chega de tentar enganar-se Hyoga! Camus o odeia e sempre vai odiar! Pensava enquanto ia em direção ao escritório. Sabia que Camus guardava todos os papéis importantes em um cofre, inclusive o documento que o tornava seu tutor até os vinte e um anos. Iria dar fim àquele documento, assim seria livre e não teria mais que viver sob o mesmo teto que o primo.
Fechou os olhos e usou sua memória excepcional. Tinha visto Camus abrir aquele cofre quando era um pouco menor e guardara a combinação por divertimento. Agora, a brincadeira que ele e Shun sempre faziam de memorizar objetos, rostos e números, era um ponto alto ao seu favor. Girou e ouviu um clac ficando satisfeito consigo mesmo.
Porém, quando retirava os papéis ouviu o som de vidro quebrando e um baque surdo, como se alguém tivesse pulado. Virou-se, de imediato, e então arregalou os olhos. O lampião havia sido derrubado e o autor da ação, um gato gordo e amarelado, corria como uma flecha em direção à janela entreaberta.
Sem saber como, Hyoga viu uma labareda subir tão rápido que se perguntou como aquilo tinha acontecido em tão pouco tempo. Uma mostra de tecido jazia ali, junto às outras que haviam sido deixadas para avaliação de qualidade e, ao cair, o lampião, rapidamente, a incendiara.
– Não! – gritou Hyoga voltando para retirar todos os documentos do cofre, colocando-os sob as roupas e olhando em volta para achar algo que detivesse o fogo.
Havia muito tecido no local e nada que impedisse o avanço do fogo. Um tremor de pânico percorreu o corpo de Hyoga, mas ele cerrou os punhos tentando conter o medo.
O fogo subiu rápido e atingiu o teto. O calor tornou-se intenso e Hyoga sentiu-se sufocar. Porém, mesmo com os pulmões ardendo, lembrou-se dos barris de carvalho que estocavam água para ser usada pelos operários. Correu na direção onde eles ficavam guardados e ergueu um deles sobre a cabeça, voltando ao escritório.
Embora houvesse alguns destroços queimados no chão, o interior do escritório ainda estava, misteriosamente, intacto dentro do brilho da destruição eminente.
Com dificuldade para respirar, ele jogou a água no foco principal no exato momento em que um barulho apavorante soou acima de sua cabeça. Sem pensar, olhou para cima, mas não podia se mexer. O ar faltou-lhe e sua garganta fechou. Alguém o ergueu, tirando-lhe os pés do chão e dando um passo atrás. Uma pilastra caiu sobre a escrivaninha e partiu-se em dois pedaços ardentes, parando a poucos metros dele.
Hyoga estremeceu com os olhos lacrimejantes e nublados pela fumaça. O peito em fogo impedindo-o de falar. Sentiu-se distante, como se estivesse em meio a um sonho e fechou os olhos...
Camus carregou Hyoga que amolecia em seus braços e saiu da fábrica para a segurança do ar fresco, enquanto alguns homens entravam com baldes d’água e acabavam com o foco. Colocou-o no chão do pátio externo e bateu de leve em seu rosto.
– Hyoga! Hyoga, acorde!
Hyoga ouvia a voz de Camus, mas sua cabeça estava longe, como se algo o puxasse para um poço sem fim. Depois viu-se fora de seu corpo que estava deitado na grama, enquanto Camus pressionava o seu peito e colava os lábios nos seus, insuflando ar para dentro de sua boca.
– Vamos, Hyoga, reaja! – gritou Camus enquanto tentava fazê-lo voltar a respirar.
Por um momento, Hyoga não quis voltar. Havia paz naquele estado flutuante e tudo parecia simples e luminoso. Não traria mais problemas a ninguém e não havia mais dor. Estava aceitando aquele novo estágio em sua vida, até ouvir a voz dele!
Camus ainda detinha Hyoga em seus braços, quando Shun ajoelhou-se perto dos dois com os olhos inundados de lágrimas e a voz estrangulada pelo desespero.
– Hyoga! Por Deus, Hyoga, não ouse me deixar! – gritou Shun tocando o rosto do amado.
Arrancado, violentamente, de seu lugar tranquilo e pacífico, Hyoga tossiu e cuspiu, sentindo uma forte dor. Camus suspirou, aliviado e Shun agarrou-se ao corpo de Hyoga, molhando seu rosto de lágrimas.
– S-Shun... – murmurou Hyoga com a voz rouca e baixa.
– Graças a Deus! – disse Shun colando seu rosto ao de Hyoga.
Camus olhou para os dois e gritou instruções para os homens que já haviam combatido o fogo. Depois, tornou a encará-los e disse com voz calma.
– Shun, por favor, ajude-me a levar Hyoga para casa.
– C-Claro! – respondeu o jovem passando as costas da mão no rosto para enxugar as lágrimas.
Hyoga estava com os olhos inchados e o rosto coberto de fuligem. Sua voz era baixa e parecia arranhar a garganta, mas, mesmo assim, ele agarrou o braço de Camus e falou.
– A... culpa foi minha...deixei cair o lampião... eu só queria...M-mas... mas... não fui um inútil completo... salvei todos os contratos e documentos. Estão aqui... – disse apontando para o próprio corpo.
Camus tocou o rosto de Hyoga, comovido com o gesto e emocionado ao constatar que amava aquele garoto como um irmão. Não sabia a razão de ele ter ido à fábrica e como começara aquela confusão. Sabia, apenas, que experimentara uma terrível angústia quando o vira desfalecer em seus braços e ficar morto por alguns segundos. Então, com uma ternura inédita, acariciou os cabelos desgrenhados e cheirando a fumaça dizendo:
– O mais importante é que você está bem. Coisas podem ser substituídas, mas aqueles que amamos, não. Agora vamos para casa, você precisa de um médico.
Notas finais
Motivo: PORQUE SÃO VOCÊS INUNDAM MEU UNIVERSO DE ALEGRIA!!!!
A quem? À TODAS, DESDE ÀQUELAS QUE CARINHOSAMENTE COMENTAM CADA CAPÍTULO E ME FAZEM SORRIR DE MADRUGADA, ATÉ ÀQUELAS QUE LEEM NO MAIS ABSOLUTO SILÊNCIO, PORQUE CADA UMA TEM SEUS MOTIVOS, SEU TEMPO, SUAS OBRIGAÇÕES E TUDO FICA MAIS FÁCIL QUANDO NÃO PARAMOS PARA JULGAR E SIM, PARA USUFRUIR. SEJA UM RECADINHO CURTO, SEJA UMA RECOMENDAÇÃO, SEJA UMA LEITURA QUE FEZ BEM. TUDO TEM UM VALOR INESTIMÁVEL PARA MIM! OBRIGADA!!!!!
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