Desejos Ocultos
17 Capítulo 17 BROKEN HEARTS...
Notas iniciais
– Camus! Camus! Hyoga sumiu! – disse Claire com o rosto afogueado, enquanto abanava o leque, nervosamente.
Preocupado com a angústia de sua mãe, Camus pediu licença ao homem idoso que discutia com ele as benfeitorias da fábrica e foi até ela.
– O que foi mãe? Porque todo esse desespero?
– Eu... eu fui buscar o presente surpresa que combinamos em dar a Hyoga, no final da festa e ele sumiu! Ninguém sabe onde ele está.
– Ora, mãe, Hyoga deve estar por aí com seus amigos.
– Amigos? Você sabe que ele não tem muitas amizades. Shun é o único com que ele se relaciona bem e ele também não está por aqui. Eu quero que ele receba o nosso presente especial ainda hoje!
– Acalme-se, vou procurá-lo se faz tanta questão de dar o presente agora.
Sentindo-se cansado, Camus suspirou e tratou de olhar de forma panorâmica pelo pátio. Muitos ainda estavam dançando, outros já se encaminhavam para deixar o ambiente e as crianças ainda corriam com sua inesgotável energia.
Hesitando em perder-se entre aquele pequeno mar de gente, decidiu examinar os aposentos com atividades planejadas. Certamente, encontraria Hyoga em um deles jogando ou conversando.
Ainda estava abrindo e fechando portas quando ouviu a voz de Hyoga um tanto abafada e ofegante. O som vinha de um dos cômodos que tinha ligações com os fundos da casa. Era uma espécie de quarto de costura onde sua mãe e a senhora Midler costumavam tecer e bordar. A porta estava entreaberta e ele se aproximou devagar.
– Por favor, não conte a Camus sobre nós... ele não entenderia e não quero magoá-lo.
– Não contarei. Mas, sabe que não se pode esconder algo assim para sempre, não é?
– Sim, eu o amo, senhor. Amo muito! Jamais pensei que fazer amor fosse tão... tão divino!
O sangue de Camus pareceu congelar. A voz ansiosa era de Hyoga, seu rosto estava corado e as suas roupas, amassadas como se estivessem sido vestidas com pressa. E a outra, profunda e rouca era de... Milo!
O grego abraçava Hyoga com ternura, enquanto lhe erguia o queixo e fitava seus olhos. As frases eram ditas com uma intimidade que doeu no peito do francês como se tivesse sido apunhalado.
Os batimentos cardíacos de Camus se aceleraram tanto que seus ouvidos pareciam que iam explodir. Ficou imóvel, a mente tentando processar a cena e, ao mesmo tempo, ordenar às suas pernas que se mexessem. Estava pálido quando escancarou a porta e os pegou desfazendo o abraço.
– Hyoga, minha mãe está procurando você. – disse ele, devagar e com uma expressão desnorteada nos olhos.
– Camus... — disse Hyoga ficando ainda mais vermelho do que estava.
Milo não sabia o quanto Camus havia ouvido, mas pela expressão do francês algo estava errado. Resolveu intervir:
– Camus, vamos conversar... você deve ter ouvido que Hyoga...
– Sim, eu ouvi tudo! Agora, saia Hyoga que eu tenho um assunto a resolver com o senhor Milo. – interrompeu Camus e havia um tom raivoso em sua voz.
– Camus, deixe-me explicar, eu... – tentou Hyoga.
– Saia, Hyoga! Não ouse dizer mais nada ou não respondo por mim! – gritou Camus.
– Vá, Hyoga. Creio que Camus e eu precisamos esclarecer algumas coisas. – disse Milo com firmeza e tranquilidade.
O jovem levou as mãos aos cabelos e olhou com receio para Milo. O grego lhe deu um meio sorriso e sinalizou para que os deixasse.
Camus inspirou fundo. Todo o seu corpo tremia de fúria, mágoa e decepção. Milo olhou-o sério, ainda desconhecendo a razão de tanta confusão. Porque Camus era tão rigoroso com aquele menino?
– Bem, agora que ficaram os adultos, podemos conversar como gente civilizada. – disse Milo.
Uma risada sarcástica e estrangulada emergiu dos lábios de Camus.
– Gente civilizada... Isso é bem próprio de pessoas como você!
– Perdoe-me a ignorância, mas... pessoas como eu? Afinal, Camus, o que você está falando?
Os olhos de Camus estavam brilhantes e vermelhos. Ele encarou Milo com tanta ira que o grego sentiu como se ele estivesse pronto para agredi-lo.
– Pessoas que tem como único propósito de vida seduzir e ser o centro das atenções! Pessoas que trilham o caminho do esforço mínimo e que acham a moral e a integridade, valores ultrapassados! Pessoas cuja luxúria não conhece limites! Pelo amor de Deus, Milo! Hyoga é uma criança! Como pôde? – gritou Camus.
A expressão de Milo passou de confusa a incrédula. Ele quase riu, mas percebia que Camus falava sério e pior, acreditava no que estava falando.
– Está insinuando que eu seduzi Hyoga? Mas... de onde tirou esse absurdo?
– Não me tome por um idiota! Eu ouvi muito bem o que ele disse a você, o modo como estavam... juntos!
– Ouviu? Eu creio que não! Se tivesse escutado tudo, desde o princípio, saberia que Hyoga teve a sua primeira noite de amor, mas não comigo. Eu estava ocupado em sua festa, lembra? O que ele dizia quanto a não falar sobre o assunto com você era porque vive, emocionalmente, aterrorizado pela forma com que você o despreza! Ele teme que você não entenda as escolhas que ele fez, porque tudo que ele faz é insatisfatório aos seus olhos. Eu fui, apenas, alguém com quem ele dividiu uma decisão importante, nada mais que isso.
O coração de Camus pareceu parar de bater por alguns segundos diante de tais palavras e foi como se um balde de água fria tivesse sido jogado sobre a sua cabeça.
– O quê? O que está dizendo? – falou Camus levando a mão aos cabelos num gesto nervoso.
– Estou dizendo que apesar de ser um homem inteligente, você se precipitou, julgou errado e fez papel de idiota! E pior, reduziu-me a um canalha capaz de seduzir uma criança ao mesmo tempo em que partilha a cama com você!
Camus ficou atordoado. Em seu íntimo uma série de sensações se amontoava e ele não sabia o que fazer.
– Milo, perdoe-me, mas é que...
– Mas o quê? Como você ousa pensar que eu seria capaz de descer tão baixo? Convidou-me para hospedar-me em sua casa e, no entanto, na primeira oportunidade me acusa de algo que eu jamais faria e joga em minha cara que pertenço ao círculo de pessoas que você despreza! Aos seus olhos eu serei sempre um devasso inútil e imoral, capaz das ações mais vis!
– Por favor, Milo... eu não quis...
– Oh, não... não se torne melindroso a essa altura dos fatos. Trouxe um devasso para a sua casa e deixou claro o que pensa a respeito. Se ainda tem algum insulto para me fazer, vá em frente! Odiaria pensar que pode terminar a sua noite lamentando não ter tido a chance de reduzir o caráter de um nobre desprezível a frangalhos! Se é que tenho um, não é mesmo?
Cada vez mais confuso e envergonhado, Camus não sabia o que dizer. Milo tinha razão, ele o tinha julgado sem piedade. Agora era o grego que estava enfurecido como Camus nunca presenciara. O que diria para apaziguá-lo se, as acusações refletiam a mais absoluta verdade? Em nenhum momento dera a Milo o benefício da dúvida. Agredira-o, porque revivera uma traição do passado, algo que ainda jazia mal resolvido em seu coração e agora destruía seu relacionamento com Milo.
– Eu errei, me perdoe! Sinto muito, já fui traído uma vez e... Você é um nobre, Milo, seus conceitos são muito diferentes dos meus. De repente, eu... eu o vi abraçando Hyoga e falando daquele jeito. Você mesmo se orgulha de ser um libertino!
Houve um breve silêncio como se Milo considerasse a explicação. Depois, ele se aproximou alguns passos e encarou-o.
– É terrível ser enganado, porém mais terrível ainda é enganar-se a si mesmo. Pensei que tínhamos algo que valia a pena, mas vejo que cometi o erro de acreditar ser digno, senão da sua confiança, ao menos do seu respeito. Tem razão, Camus, somos muito diferentes. Você é um pilar de virtudes e eu sou um libertino. Não tenho mais nada que fazer aqui!
Concluída a frase, Milo caminhou para a porta e a destrancou. Sem olhar para trás, saiu e fechou-a com um estrondo.
Camus não disse nada. Merecia aquelas palavras duras. Sentiu a garganta apertada e a cabeça dolorida. Queria impedir Milo, mas tudo ficou preso dentro de si. O grego tinha razão e parecia que nada do que tivesse a dizer desfaria a barreira que se erguera entre eles.
Algo quente escapou de seus olhos, lavando-lhe o seu rosto. Um soluço inédito e irrefreável sacudiu-o tão violentamente que teve de buscar apoio na parede. Uma enxurrada de emoções abateu-se sobre si como a água represada que, encontrando uma brecha, deságua livre e violentamente.
Então, o homem que sempre enfrentava seus desafios com a lógica e a razão, constatou, surpreso, que estava chorando...
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Era verão, seu pai o tinha feito suar tanto que agora, ele preferia continuar nu. Era sempre assim. À noite, depois que todos iam dormir, era o momento em que as brincadeiras íntimas começavam. Sentia prazer, embora não soubesse como aquilo funcionava.
Seu pai o tocava, beijava e pedia que ele fizesse certas coisas... Porém, de madrugada, deixava-o sozinho e voltava para os seus aposentos. Era neste momento que algo dentro de si ficava esquisito e ele sentia frio e também, vergonha, sem saber exatamente o porquê.
Era nesta hora que sentia precisar de Saga...
Correu sobre a madeira fria, sentindo-a ranger, levemente, sob os pés descalços e sorriu. O irmão estava dormindo, então iria pé ante pé até a cama e entraria pra baixo das cobertas e o abraçaria até o amanhecer.
Kanon! Deixe-me dormir! – rugiu Saga sem abrir os olhos.
Eu deixo, se você me abraçar!
Está quente!- reclamou Saga.
Não importa, me abrace! Gosto do calor do seu corpo...
Kanon acordou com a boca seca e a pele em brasa. Fazia tanto tempo que não sonhava de forma tão intensa, quanto agora. Tinha febre e uma tosse seca sacudia seu corpo, fazendo-o sentir náuseas. Tentou se levantar, mas sentiu vertigem. As janelas estavam abertas e a aragem da noite adentrava o quarto, enquanto um filete de lua adornava a noite escura. Inspirou fundo, tentando acalmar a respiração ofegante.
Inferno! Só o que me faltava era ficar doente... Disse para si mesmo, enquanto sacudia a sineta dourada para chamar o criado.
– Pois não, senhor! – disse Petry com sua postura empertigada.
Olhando-o com divertimento, apesar das olheiras, Kanon sorriu e gesticulou.
– Prepare-me um banho e traga-me uma bebida.
– Concordo com o banho, senhor. Quanto à bebida... acho melhor que faça uma refeição ao invés de beber.
– Não sou mais um menino, Petry. Daqui a pouco vai querer dar-me mingau de aveia com mel. Faça o que eu mandei! Vou sair, já estou cansado de ficar trancado.
– Não está bem de saúde, milorde. O duque ordenou-me que não o deixe sair. – disse o criado, calmamente.
Uma gargalhada irrompeu dos lábios de Kanon, seguida de mais um ataque de tosse.
– E onde está meu querido irmão? – perguntou ele, ofegante.
– Foi ao teatro, senhor.
– Ao teatro?
– Sim, recebeu um importante convite. Parece-me que é uma peça escrita, em homenagem aos nobres, salientando-lhes o papel na Corte. – disse Petry com evidente orgulho na voz.
Kanon voltou a deitar-se. Ainda sentia o corpo dolorido pelos hematomas recentes e pela maldita febre, mas, estranhamente, sentia como se toda aquela confusão o tivesse tirado de um sonho letárgico, vivenciado dia após dia...
– Saga deve estar orgulhoso... – disse o jovem, enquanto fechava os olhos e voltava a tossir.
O criado aproximou-se e tocou a fronte de Kanon com uma expressão preocupada. Depois, foi até a escrivaninha e pegou um vidro de láudano. Colocou-o numa colher e deu-o a Kanon que fez uma careta infantil.
Após cobri-lo com o lençol, Petry deixou o quarto, rezando baixinho, para que as suas suspeitas fossem infundadas...
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No caminho para o teatro, Saga permanecia com o convite de Afrodite nas mãos. Ao abri-lo, tinha ficado surpreso tanto com as palavras, quanto com a pequena chave que agora estava em seu bolso.
“Convido-o para assistir a peça Desejos Ocultos, uma viagem ao mundo fascinante dos nobres, cuja origem lhes confere toda a sorte de honrarias e responsabilidades.”
Gostaríamos de contar com Vossa graça, especialmente.
P.S. Em, seu camarote, encontrará um pequeno baú, no qual a chave que se encontra em seu poder deverá ser usada para abri-lo. Ao término do espetáculo, abra-o e retire o conteúdo destinado, apenas e somente, para os seus olhos.
Assinado: Afrodite.
Responsabilidade... Nunca, uma palavra lhe caiu tão bem quanto esta, pensou Saga enquanto mais uma vez, sentia a forte fragrância inundar-lhe os sentidos. Sorriu ao pensar no que haveria dentro do tal baú. Afrodite sabia como deixá-lo curioso e, devido aos últimos acontecimentos, tal feito caía-lhe como uma benção...
Quando a carruagem parou, Saga desembarcou percebendo que toda a alta sociedade estava presente. Não conhecia os atores, nem sabia que companhia estava se apresentando. Notou apenas que o cartaz anunciava um convidado especial, fato que não chamou muito a sua atenção. Nem bem entrara no saguão, uma dama de beleza madura aproximou-se, acompanhada de uma jovem sem graça, de rosto redondo e dentes afastados.
– Meu caro, duque! Lembra-se de mim? – perguntou a mulher com um sorriso largo e afetação na voz.
– Condessa Elizabeth e sua filha... Margaret! Mas, claro que me recordo. É uma das amigas de minha esposa. – respondeu Saga beijando a mão que ela lhe estendeu.
– E como vai a pobre Fúlvia? Será que ela poderá vir para a temporada dos espetáculos na Corte? Só Deus sabe o quanto deve ser enfadonho permanecer longe da civilização!
Antes que Saga respondesse, o sinal de início da peça soou chamando os espectadores. O duque foi conduzido até um camarote de localização privilegiada e acomodou-se na poltrona recoberta de veludo púrpura. Ficou um tanto decepcionado quando não viu Afrodite. Esperava que ele estivesse em seus camarotes, mas nenhum sinal dele era percebido e as cortinas já estavam se abrindo.
Um ator com o rosto totalmente coberto de maquiagem apresentou-se e sorriu, arrancando aplausos comedidos do público. Dando um passo para frente, fez uma mesura exagerada e apontou para o centro do palco.
Então, ele surgiu... Uma chuva de pétalas de rosa caiu sobre ele e, mesmo com a maquiagem pesada e as vestes femininas, pode reconhecê-lo movendo-se no palco com graciosidade e leveza.
Afrodite!
Saga fixou o olhar no amante que usava um vestido prateado e abanava-se com um leque de penas de avestruz. Se não soubesse que era um homem, juraria que quem ali estava era uma mulher e que bela mulher!
Com uma voz melodiosa, mas de timbre intenso, Afrodite elevou os olhos e encontrou os seus. Uma onda de excitação e surpresa o inundou, porque percebeu uma energia forte e estranha naquele olhar.
O núcleo da peça mostrava uma bela dama que cedia seus favores ao amante nobre, elegante e bem casado. O duque “X” como era chamado na peça, mostrava-se um homem de caráter incontestável que, apesar de mimar a amante, ainda cuidava dos negócios da família e da pobre esposa cega, surda e muda...
Então, num belo dia, a bela jovem conhecera um homem solteiro e trabalhador, e tornaram-se amantes. De imediato, seu coração passou a pertencer àquele homem, porém, o nobre não aceitava o fato de ela privá-lo de sua atenção e passara a perseguir o jovem que a cortejava, tomando-lhe a chance de encontrar um trabalho honesto, minando a sua reputação... Neste momento, o ator que fazia o papel do duque vestiu uma máscara horrenda e transformou-se em um ser animalesco, arrancando gritinhos histéricos e expressões de puro prazer, na plateia.
– Você é minha!!! Não aceitarei que me troque por um... por um operário miserável!!!! – gritou o duque.
– Oh! Pobre duque! Foi possuído pelo demônio da insensatez!- gritou Afrodite, fazendo a plateia rir.
Em atos que ora levavam o público a rir, ora a torcer pelo amor entre a jovem e seu novo amante, a peça ia mostrando as desventuras do duque que, ao perseguir o casal, acabava enredando-se em uma série de infortúnios, sendo um deles, a perda da esposa cujo dote havia somado muito a sua fortuna e também, a sua reputação de ser um homem inteligente, discreto e... justo.
– Eu desisto! Perdi minha esposa, meus negócios vão de mal a pior! Quero minha vida de volta! – gritou o duque caindo de joelhos e arrancando a máscara.
– Oh! Caríssimo... deixe-nos viver em paz e tudo se resolverá! Sua esposa o perdoará, seus negócios fluirão e eu... eu serei eternamente grata pelos momentos que passamos juntos e jamais farei algo que o prejudique! – disse Afrodite tocando o rosto do duque.
– Bela! Perdoe-me!! Eu estava louco, mas agora... agora eu vejo claramente!
Os dois se abraçaram e as cortinas foram fechadas. O público aplaudiu de pé, admirado da atuação de Afrodite e dos atores que agora se curvavam e sorriam, atirando rosas na direção das poltronas e camarotes.
O espetáculo, cujo final feliz trouxe delírio aos espectadores, terminou rapidamente, já que a peça, uma mistura de drama e comédia, havia sido encenada em apenas três atos e não houvera intervalo.
Em seu camarote, Saga tamborilava os dedos sobre o pequeno baú que jazia sobre uma almofada de seda vermelha, enquanto no palco, Afrodite e os outros atores voltavam pela segunda vez para receber mais aplausos.
Por um instante, o duque da vida real viu que Afrodite elevou os olhos na sua direção e piscou. Cerrou os dentes e teve vontade de descer até onde ele estava e tirar-lhe satisfações sobre aquela brincadeira de mau gosto.
Entretanto, uma mórbida curiosidade se insinuava, levando-o a desejar saber até onde ia a petulância de Afrodite... Colocou a chave na minúscula fechadura e abriu. Mais odor de rosas e três cartas, cuidadosamente, envelopadas.
Pegou a primeira e leu. Seu cenho se estreitou quando constatou que se tratava de uma declaração afirmando que a venda das propriedades ao senhor Shura havia sido feita bem antes da aposta no clube Ás de ouro. Estava assinada por três frequentadores do clube, mais o funcionário que fiscalizava as mesas de jogo.
A segunda carta tinha sido escrita pelo próprio Shura e era um pedido de investigação policial sobre a legalidade do embargo de vendas, baseado em acordos verbais discutidos em um clube de jogo.
E a última, dizia apenas uma frase: “A vida imita a arte... E tudo se torna possível quando o bom senso triunfa!”
Saga sentiu um princípio de irritação, porém não deixou de admirar o trabalho que Afrodite tivera para chamar sua atenção.
Dar-se ao trabalho de encenar uma peça de teatro! Aquele devasso estava mesmo apaixonado pelo espanhol... Não deixava de ser irônico o fato que, embora todo aquele espetáculo soasse como uma ameaça disfarçada, ao mesmo tempo era uma forma criativa de atingi-lo. Com isso, Afrodite mostrava que sabia não estar lidando com qualquer um e tal constatação abrandou seu aborrecimento.
O único camarim em cuja porta havia um mar de admiradores era o de Afrodite e Shura estava lá, impaciente e atento, quando um funcionário do teatro chamou-o com certa urgência. O espanhol franziu o cenho e olhou para ver se havia algum sinal de Saga, porém não viu nenhum e cedeu ao apelo do funcionário.
No mesmo instante, Afrodite apareceu na porta do camarim, usando um roupão de veludo azul, com os cabelos soltos e já sem maquiagem. O belo rosto estava sereno e ele sorria. Falou gentilmente com as pessoas, aceitando as flores e os bombons com que era presenteado. Quando a última retirou-se, ele olhou para o lado e viu Saga parado, com sua postura ereta e impecável. Recebeu-o com um amplo sorriso.
– Boa noite, duque. Gostou da apresentação?
Saga fitou-o no fundo dos olhos azuis e não encontrou nem um pingo de temor. Viu-se tomado pela excitação, mas controlou-se e obrigou-se a sorrir com visível sarcasmo.
– Você nasceu para o palco, meu caro. Tanto talento assim, empregado em um espetáculo oferecido a mim? Fiquei honrado... Se bem que, pareceu-me ser mais uma ameaça que uma homenagem.
– Vossa Graça não é um homem comum... E creia-me, não foi uma ameaça e sim uma visualização de certos fatos. Às vezes, estamos tão inseridos dentro de uma situação que perdemos a visão do todo.
– Montou tudo isso, porque está apaixonado pelo espanhol e achou que minha reivindicação era uma retaliação por tê-lo tomado como amante.
– E não foi?
– Superestima sua importância em minha vida, Afrodite. Apenas fiz o que achei ser meu direito. Sou um homem de negócios e não um filantropo.
– Embora nunca tenhamos sido apaixonados, tivemos prazer e intimidade o bastante para que eu saiba ler os sinais... Sentiu-se preterido e usou de sua influência para prejudicar o senhor Shura, não negue. Porém, se isso o faz sentir-se melhor, o espanhol, como gosta de frisar, vem de uma casa tão nobre quanto a sua. Saiba que Shura descobriu ser neto de Don Geronimo, duque da casa de Toledo e, mesmo assim, não quis usar este trunfo contra você.
– E porque o faria? Descobrir-se nobre não é a mesma coisa que nascer nobre e saber apropriar-se de sua linhagem. Certamente, o senhor Shura orgulha-se de sua origem inferior como um soldado orgulha-se de suas cicatrizes de batalha. Ambos reverenciando estigmas patéticos e pobres. Aliás, onde ele está? Pensei que estaria aqui como um obediente cão de guarda...
– Cuidei para que ele ficasse longe, enquanto conversamos. Creio que não seria... saudável para você.
– Ora, além de achar-me um homem rancoroso, ainda acredita que sou indefeso? Francamente, Afrodite... Agora acho que já está ultrapassando os seus limites.
– Sei que não é. É um homem astuto, forte e inteligente. Mas, ao mesmo tempo, vive uma vida vazia, fundamentada em aparências e em jogos de poder. Antes de conhecer Shura, eu compartilhava deste mundo com você, mas vivenciar um sentimento verdadeiro me fez mudar e sou capaz de qualquer coisa para defendê-lo.
– Ameaçar-me, inclusive?
– Não considere uma ameaça, considere um pedido concebido de forma criativa...
Afrodite sorriu terno e despretensioso e Saga percebeu extremamente chocado consigo mesmo que aquele amor intenso e real que via nos olhos azuis mexia com algo dentro dele, fazendo-o sentir uma pontada cruel de inveja.
– Sempre conseguiu me enlouquecer entre os lençóis e sabe ser sedutor fora deles! Espero que esse amor não seja mais uma de suas fantasias, Afrodite. Diga ao seu... amante que pode continuar com seus empreendimentos. Como eu dizia antes, ele ostenta um grande orgulho em pertencer à classe dos trabalhadores e não serei eu quem o privará de tal status! Mandarei meu advogado contatá-lo. Boa noite! – disse Saga curvando a cabeça e deixando o camarim sem olhar para trás.
Os olhos de Afrodite cintilavam intensos e sorridentes, quando Shura retornou ao camarim com uma expressão tensa por ter encontrado Saga no corredor. O espanhol parou como que hipnotizado ao vê-lo tão radiante.
– Você está bem?- perguntou o espanhol pegando as mãos do loiro nas suas.
– Estou ótimo! Por onde andou? – perguntou Afrodite com um sorriso inocente.
– Um dos funcionários chamou-me para ajudar a trocar a roda de uma carruagem a alguns metros do teatro. Demorou mais que eu esperava e assim que terminei corri para cá. Estava preocupado que Saga o procurasse enquanto eu estava longe.
– Não precisa preocupar-se mais, meu amor... tudo está em seu devido lugar! – disse Afrodite, enquanto puxava Shura de encontro a si e beijava-o com paixão e ternura.
Enquanto Saga embarcava em sua carruagem negra, sentindo um estranho pressentimento, o funcionário do teatro olhava com os olhos faiscantes para um pequeno maço de notas que havia recebido de um certo nobre de olhos azuis...
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