Desejos

1 Capítulo 2 - O menino no porto


- Você acha que as câmeras pegaram os nossos rostos?

— Acho que não, nós andamos com a cabeça baixa o tempo todo. E mais, do jeito que esse navio está velho acho que a ultima coisa que deve estar funcionando aqui são as câmeras.

Respondeu o marido enquanto ambos corriam de cabeça abaixada por entre os corredores do navio. As marcas de ferrugem e o cheiro mofo só suportavam a ideia de que o navio estaria velho demais para uma viagem tão longa. Tinha sido uma sorte terem chegado até aqui sem problemas mecânicos. Felizmente não tiveram problemas de outros tipos também. Mesmo com o navio vazio não era fácil se esconder da tripulação, eles vaziam rondas rotineiras de manhã, à tarde e a noite, e como sempre passavam por lugares diferentes a cada dia eles precisavam ficar trocando de lugar o tempo todo.

Não era tão fácil ser clandestino em nenhum navio, principalmente agora que aviões não são mais seguros e trem são atacados todos os dias. O único lugar que parece que foi esquecido por todos foi o mar. Quando todos perceberam isso foi uma corrida desesperada por qualquer bote que pudessem encontrar. Qualquer barco, por mais velho que estivesse, se tornara um tesouro e uma garantia de vida para o dono. Em áreas mais perigosas as pessoas dariam tudo que tinham por uma viagem rápida de barco.

O casal encontrou o lugar que os marujos visitavam menos, se ajoelharam e começaram pensar nos próximos passos. Afinal o porto já estava a vista, precisavam ter certeza que seu filho pudesse sair do barco em segurança.

- Você acha que ele vai conseguir?

- Não sei... As instruções, nós as fizemos da melhor forma possível, mas algo sempre pode dar errado. Se alguém o vir enquanto estiver saindo... – A mulher já estava quase chorando com essa possibilidade – Eu queria tanto ter usado o meu desejo de uma forma mais inteligente. Se eu fosse mais esperta, nós não estaríamos nessa situação.

- Não é só você. Eu também sinto como se tivesse jogado nossas vidas no lixo. Quem precisa de um pintor numa hora dessas? Eu devia ter previsto que isso ia acontecer, quer dizer, não poderia ter acontecido só comigo. Devia ter visto que todos teriam essa chance...

- Não vamos nos culpar, não teríamos como saber o que ia acontecer. Só me culpo agora por não poder ir com o ele para cidade. Ele vai ficar tão sozinho. – A mulher continua depois de uma curta pausa – Espero que seu irmão cuide bem dele, depois de tudo que passamos aqui, manter o menino em segurança em uma cidade tão grande não deve ser tão difícil.

As instruções diziam claramente para o menino, assim que sair do barco, se esconder nas docas por uma noite que na manhã seguinte seu tio iria encontrá-lo perto de onde o navio havia atracado. Mas uma noite era muito tempo, qualquer coisa poderia acontecer, qualquer homem na rua poderia vê-lo e tentar fazer alguma coisa. E mais, o menino e seu tio nunca haviam se encontrado, como eles iam saber quem era quem? Tanta coisa podia dar errado.

O navio continuou a flutuar em direção do porto por mais algumas horas. Sem ninguém passar perto deles ou nenhum barulho novo, somente os de ratos que eles já estavam acostumados, o tempo demorou a passar. Quando finalmente ouviram algum murmúrio mais alto vindo do deck eles se levantaram e começaram a tirar as coisas de dentro de suas mochilas, eles estavam chegando ao porto.

Eles saíram aos poucos pelo corredor em que estavam, vendo se não tinha ninguém ambos entraram no duto de ar do navio. Lá dentro a rota que deveriam seguir já estava traçada, prepararam esse caminho dias antes, para não terem a chance de errar quando a hora chegasse. As setas os levaram direto para a popa do navio. Lá eles deixaram todos os suprimentos desnecessários e começaram a andar. Como sabiam que os marujos não tinham nada de especial, sabiam isso por terem espiado os arquivos do capitão, foram derrubando um por um. Usando cordas para enforcar, armas com silenciadores, punhais e sua arma principal: o elemento surpresa. Mesmo não tendo nenhuma habilidade especial qualquer um dos marujos poderia dar conta dos dois. Estavam mal dormidos e sem comer direito a dois dias. Indo devagar derrubaram todos que estavam de patrulha a estibordo do navio. Agora precisavam garantir que esse lado ficasse livre enquanto os passageiros regulares desembarcavam pelo outro lado.

O capitão deu o sinal para que os tripulantes pegassem suas bagagens e já se apresentassem perto da rampa de desembarque, pois o tempo no porto era curto por que tinham muitos barcos para estacionar. Os passageiros foram saindo com suas bagagens um por um, esperando o navio atracar. Todos procuravam os familiares entre as pessoas que estavam em terra firme. Só que a maioria das pessoas no porto eram passageiras de outros navios, que haviam se mudado pra lá pelos mesmo motivos das pessoas em qualquer outro.

O casal continuava a silenciar cada um dos homens do capitão que passavam por aquela ala direita. Faltava pouco para que seu filho estivesse fora de lá. Apesar da arma já estar quase sem balas não tiveram muitos problemas com marujos, até mesmo os homens do mar estavam com vontade de visitar a terra e não conseguiam segurar a aflição de não terem baixado a rampa ainda.

Quando o desembarque começou as pessoas estavam se empurrando tanto que os idosos e doentes não conseguiam chegar perto da rampa. A pressa era muito grande. Uma mulher com um chapéu rosa estava lutando para chegar a rampa quando um homem que estava a seu lado pegou sua mala a começou a puxá-la. Os dois estavam brigando violentamente pela e ,apesar dos gritos da mulher, ninguém parecia estar enxergando o que estava acontecendo. O ladrão levou a melhor e derrubou a mulher na água. Quando a mulher finalmente caiu os gritos de todos que estavam por perto acordou a multidão do frenesi em que estavam e perceberam o que havia acontecido. O ladrão pegou a mala e saiu correndo. Ele acabou correndo para o lado direito do navio. Todos os homens que estavam por perto estavam em seu encalço, não podia parar, era melhor deixar a mala e salvar sua vida.

Foi o que fez. Jogou a mala pro lado e pulou na água. Só que a mala havia parado perto do casal e quando os perseguidores viram a mala e os dois com armas na mão fizeram um circulo em volta deles como para atacá-los. O homem pegou a mão da mulher de ajudou ela a subir na ponte de comando. Eles correram até o final da ponte. Os perseguidores também haviam subido e enquanto corriam o capitão, sabendo da confusão subiu na ponte e estava mandando seus maiores homens atrás dos dois.

Enquanto a mulher via todos aqueles homens fechando um circulo em volta dela ela pode ver perto da popa, descendo, sentado em uma caixa pendurada por uma corda, seu filho. O menino de cabelos castanhos e pele clara era inconfundível para ela. Ela se sentiu aliviada.

O menino tinha aproveitado a confusão que tinha acontecido no navio, não sabia ele como havia começado, para fugir. Não era exatamente o que estava nas instruções que seus pais haviam deixado, mas o importante é que estava fora. Ele pulou da caixa e se escondeu entre as docas. Parecia que com aquele tanto de gente ali estaria mais seguro andando entre as pessoas do que sentado em algum lugar, parado.

Ele se escondeu perto e uma taverna que estava próxima os lugar onde barco havia parado. O cheiro de álcool era inconfundível e no lugar onde estava qualquer pessoa que passa-se ele poderia vê-la. Então ele se sentou e começou a rever as instruções que os pais haviam lhe dado. Parecia que agora o jeito era só esperar seu tio chegar no dia seguinte que ele ia cuidar do resto.

Enquanto o dia ia acabando a taverna ficava mais cheia, e quanto mais ente ia chegando mais barulho e cheiro de álcool ele sentia. Algumas pessoas passaram por onde ele estava sentado, mas nada que ele não tivesse visto antes e pudesse se esconder. A noite caíra por completo e ele começava a ficar com fome. Ele pensava em roubar algo da taverna, um bando de bêbados, nunca iam notar a falta de alguns pães ou carnes em cima da mesa.

Ele começou a andar com a cabeça baixa por perto do bar, no início queria ver se alguém se atentava a figura dele. Depois ele foi chegando mais perto, vendo onde seria mais fácil pra ele roubar a comida. Ele viu, bem na lateral do bar, entra dois pontes de madeira, um senhor sentado sozinho. A mesa dele era pra uma pessoa, com um pano verde todo furado cobrindo a mesa em forma de losango. Ele tinha um copo de cerveja e alguns pedaços de linguiça jogados em cima da mesa. O senhor com uma barba branca e uma blusa de botão branca toda amarrotada parecia não perceber o que estava a sua volta. Não percebia a banda que estava tocando bem ao seu lado nem os mosquitos que estavam voando a cima de sua cabeça.

O menino se aproximou com calma para ver se o velho tinha alguma reação. O cheiro de cerveja perto do velho era mais forte do que o do bar em si. Ele veio pela esquerda, onde não haviam outras mesas. Ele sabia que se pegasse alguma coisa antes do velho perceber, ninguém iria ver também, e caso vissem era só correr que ele ia se esconder onde ele já estava antes. Era u plano sem falha.

Ele estava se aproximando aos poucos da mesa, com a maior cautela. Quanto mais perto ele chegava mais auto era o barulho da banda, e também havia outro barulho aumentando. Ele conhecia esse barulho, só não lembrava de onde, mas não se importou e continuou andando. Quando ele levantou a mão para pegar a linguiça o barulho já estava da mesma altura do da banda, então ele reconheceu o barulho no momento em que pôs as mãos no pedaço de linguiça, eram rosnados de cachorro, vindos de baixo da mesa. O menino não teve outra reação, pegou o pedaço mais próximo e correu. Ouviu um latido muito alto vindo de baixo da mesa e quando virou a cabeça pra ver o que estava acontecendo enquanto corria viu dois cachorros pretos gigantescos correndo atrás dele.

Os dois cachorros eram pretos, com os olhos brilhando com as luzes dos postes da rua. Os cachorros corriam muito rápidos e ele estava cansando, precisava se esconder, mas onde? Onde ele ia achar um lugar pra se esconder enquanto corria? Ele virou na primeira rua que conseguiu pra ver se encontrava algum esconderijo, mas era um beco sem saída. O beco terminava entre paredes de três prédios, não havia como escalar.

Os cachorros foram se aproximando, mostrando os dentes e com as orelhas abaixadas, podiam atacar a qualquer momento. Então ele ouviu o um assobio e os cachorros olharam pra trás. O velho estava parado no final do beco. Os cachorros voltaram para ele e quando ele os tocou os dois desapareceram no ar como se nunca tivessem existido. O velho olhou para o moleque com um olhar de raiva e começou a andar.

O menino sentou com a cabeça abaixada e tentou entender o que havia acontecido. Aqueles cachorros eram o desejo do velho. Naquela cidade todos poderiam ter alguma forma de se proteger. Ninguém era completamente indefeso. As regras do jogo tinham mudado e agora ele tinha que se adaptar pra sobreviver por pelo menos mais um ano. E teria que ser rápido, já que não sabia o caminho de volta para o porto ou onde o navio havia atracado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.