Desejos
1 Capítulo 1 - Os três irmãos
Notas iniciais
Parados a frente de um grande portão dourado com as letras C e L prateadas encaixadas no meio das portas, os três irmãos choravam. Sentados na grama, olhando pra baixo, esperando serem vistos, seja por alguém de dentro dos portões ou por animal da floresta que estava atrás deles. Os três se encolhiam e ficavam juntos sem olhar pros lados, como se o fato de não verem o mundo fizesse com que ele não existisse. Passaram horas desse jeito, esperando algo acontecer, até que a noite começou a cair e um deles, com medo, começa a chorar mais alto. Os outros pensam em acalmá-lo, mas se falassem alguma coisa também começariam a chorar.
Quando pensaram que passariam a noite do lado de fora uma mulher, vestida de marrom dos pés a cabeça com algo que parecia uma bata, abre o portão e vê os três sentados no chão. Ela se aproxima e pergunta:
- O que vocês, minhas crianças, estão fazendo aqui do lado de fora? Meu Deus! Vocês não têm ninguém para ajudá-los? Onde estão seus pais, seus irmãos?
Mas as crianças não responderam nenhuma das perguntas somente olhavam para ela com os olhos chorosos e soltando pequenos gemidos. Ela chegou à conclusão que eles precisavam de ajuda, não importava de onde ou como eles haviam parado ali. Ela pegou dois pela mão, chamou o outro e entrou com eles para dentro dos portões. Mandou o guarda fechar o portão e pediu para que ele não contasse a ninguém que tinha visto essas crianças.
Passou por todas as ruas da pequena vila até chegar a sua pequena cabana, que ficava no centro da vila. Uma cabana pequena, com duas camas, uma para ela outra para a filha, que havia morrido a mais de dois anos, uma mesa logo embaixo da única janela, um pequeno armário perto da cama e algumas fotos espalhadas pelas paredes, sem molduras ou padrão de organização. O chão de terra batido não levantava mais poeira e o frio que estava lá dentro só podia ser combatido por uma singela lareira que estava em um dos cantos da casa. Quando abriu a porta as crianças já haviam parado de chorar, mas não falavam ou expressavam outra emoção se não medo ou tristeza. Ela os colocou na cama que era de sua filha e lhes ofereceu algo para beber, mas não obteve resposta. Não surpresa com isso, pegou um cobertor e cobriu os três e disse bem baixinho:
- Eu não sei quem vocês são nem a idade que vocês têm, mas eu espero que amanhã vocês possam falar comigo. A cidade com certeza não ficou cega a chegada de vocês e eu espero que eu possa salvá-los dos perigos desse lugar. – Deu um beijo em cada um e se deitou.
Quando acordou os três ainda estavam dormindo. Resolveu não sair, pois se saísse, poderia ser que não estivessem lá quando voltasse. Abriu todos os armários em que guardava comida e fez o melhor que pode para preparar algo decente para eles, se sentou e esperou eles acordarem. Enquanto dormiam ela pode perceber mais coisas sobre as crianças, coisas que a luz da lua havia ocultado. Os três realmente eram meninos, e mais, gêmeos. Os três tinham o mesmo rosto, mas seus cabelos, apesar do mesmo corte e de serem lisos, tinham cores diferentes. Um possuía os cabelos verdes como as folhas da primavera, o outro tinha os cabelos vermelhos como sangue e o ultimo os tinha azul como o mar. Eles trajavam as mesmas roupas, blusa branca com um colete de couro por cima, calça jeans puída e um tênis velho que em todos já estavam rasgando em muitos lugares. Depois que o café da manhã já estava pronto ficou pensando no que faria na hora de falar com o líder da vila. Queria conhecer as crianças antes de enfrentá-lo. Queria saber seus nomes, origem e idade. Queria realmente proteger aqueles meninos.
Quando finalmente acordaram já era quase meio dia e as moscas atacavam o café da manhã que ela havia preparado. Eles levantavam com calma e cautela, sem tirar os olhos dela. Apesar de conseguir fazer com que eles sentassem não conseguiu colocá-los para comer ou falar algo.
— Meninos, por favor, falem comigo, eu quero muito ajudar vocês, mas preciso saber quem vocês são. Se vierem aqui eu preciso saber o que dizer. Eu posso ficar muito encrencada se aquele guarda contar o que me viu fazendo.
Continuou sem respostas dos meninos.
- Se vocês continuarem sem falar eu não vou poder ajudá-los. Eles vão fazer nós quatro irmos embora para aquela floresta...
- Não, por favor, moça! – gritou o menino de cabelo vermelho – Não deixe que nos coloquem naquela floresta de novo. Demoramos tanto tempo para sair de lá. Ficamos dias só andando! Não podemos voltar pra lá.
Não final da frase o menino já estava chorando. Quando terminou se sentou e abraçou seus irmãos que também estavam chorando.
- Então me contem como vocês foram parar do lado de fora da vila? Por que vocês estão sozinhos? Eu preciso saber para ajudar vocês!
O menino de cabelo verde olhou bem fundo nos olhos dela e disse:
— A gente estava sozinho, por que nossos pais nos abandonaram na floresta. Eles entraram conosco, disseram que iam pegar lenha. A gente ficou perto do rio esperando eles voltarem. Quando a primeira noite caiu nós sabíamos que eles não voltariam, eles sempre falavam de como as pessoas desapareciam do nada.
- Então quando o sol nasceu no dia seguinte, a gente resolveu subir o rio. – continuou o menino de cabelo azul – A gente esperava que eles tivessem tido a mesma ideia, mas quanto mais nós andávamos menos esperávamos encontrar com eles.
A mulher se ajoelhou perto deles e abraçou os três juntos, eles a abraçaram enquanto nenhum deles tinha coragem de falar mais alguma coisa. Então depois de muito tempo a mulher olhou pros três e disse:
- Coitados, eu sei como é duro perder alguém em que você se apoia – dizia ela com lágrimas nos olhos – agora que vocês...
No meio das palavras da mulher um forte barulho veio da porta. Alguém estava batendo. Ela mandou os três se esconderem, levantou e foi abrir a porta. Lá estavam cinco homens da guarda da vila, vestidos com seus uniformes laranja e boinas com detalhe prateado. O guarda do meio deu um passo à frente e se dirigiu a dona da casa:
- Senhora, fomos informados de que a senhora está abrigando três crianças nessa casa. Todos na vila sabem que abrigar pessoas estranhas é um grande crime contra a segurança de todos. Pedimos que entregue as crianças. Se a senhora não as entregar agora teremos que tomá-las a força.
— Quem te disse que eu tenho três crianças aqui? Quem te disse que eu tenho alguma criança aqui? A única criança que tinha nessa casa está morta há muito. Agora se os senhores me dão licença eu vou tentar arrumar alguma coisa pra comer.
O guarda colocou a mão na porta que a mulher estava tentando fechar. Ele sinalizou para que os outros quatro entrassem e respondeu a mulher:
- Temos quatro relatos da senhora andando com três crianças pelas ruas da cidade ontem à noite. Se a senhora não tem nada para esconder não tem com o que se preocupar. – alguns gritos e outros barulhos são ouvidos dentro de casa – Pelo visto a senhora realmente tem algo para esconder.
Os três meninos apareceram carregados por três guardas, chutando, gritando e tentando acertar socos nos guardas. O chefe dos soldados olhou bem para os três e para a dona da casa:
- A senhora e as crianças terão que se encontrar com o Líder na Casa Central. Por favor, pegue seus documentos e venha com agente. Vocês serão escoltados até a Casa Central, onde ficarão presos até que o Líder tenha tempo de cuidar de vocês.
Foi uma longa caminhada pela vila. Todos os habitantes, comerciantes, donas de casa e desavisados, estavam olhando para aquele desfile no centro da vila. Uma mulher que teoricamente nunca tinha feito nada para ninguém tinha trago uma ameaça tão grande para sua querida vila. Como pode? Ainda mais três ameaças com um potencial tão grande. Ela sentia que só faltava jogarem pedras neles, pois já estavam os condenando a morte pelos olhares. Ela olhava para os três meninos que estavam andando presos a sua frente. O que deveriam estar pensando? Provavelmente acham que vão voltar para floresta, coitados. Mas agora tudo estava nas mãos do Líder, não havia mais nada o que fazer até ter a chance de convencê-lo a poupar suas vidas.
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