Desejo Sombrio
10 A Mansão Gray
Notas iniciais

O motorista enviado por Dorian Gray estaciona o automóvel diante da entrada aos fundos do estabelecimento do Moulin Rouge, seguindo as instruções dadas pelo patrão que visava manter sua discrição sobre a passageira que fora ser buscada no local. Embora o que o jovem rico Dorian Gray fizesse fosse somente de sua conta, sendo que este era maior e vacinado e ainda por cima um dos homens mais ricos da cidade, este não pretendia dar margem ao falatório dos fofoqueiros que já o criticavam por suas inúmeras festas ostentadoras e banhadas a muita luxuria em sua residência, herdada do falecido avô Kelso a quem ele odiava por conta de todos os maus tratos aos quais fora submetido toda a sua infância.
Dorian perdera a mãe, ainda muito pequeno por conta de uma doença passada por seu esposo quando este regressara de uma de suas viagens. O homem de família simples que vivia apenas de seus poucos lucros como artista, nunca foi aceito pelos padrões rígidos e orgulhosos do pai da moça, que amaldiçoara o dia em que a filha fugiu de casa para se entregar a um homem tão simples, a quem Kelso julgava como um mero fracassado. Quando soube que a morte da filha teria sido causada por uma doença contagiosa trazida pelo marido durante uma viagem marítima, Kelso amaldiçoou até mesmo a alma de tal homem jurando jamais aceitar o fruto do amor do casal.
Dorian não foi afetado pela doença trazida pelo pai, e se tornou assim o único membro vivo da pequena família. O menino foi enviado de volta a Londres para viver com o avô que era seu único parente, e o único capaz de criar o garoto. Mas Kelso desde o momento em que colocou seus olhos sobre o menino, viu nele todas as feições do marido de sua filha única, e o odiou. O odiou a ponto de se tornar extremamente rígido, e cruel castigando o pobre menino com surras que não tinham razão alguma. Bastava que o pequeno Dorian dissesse uma única palavra, às vezes um simples gesto para desencadear a ira do avô e logo este era vitima das pancadas e agressões proferidas pelo homem que deveria lhe ensinar e lhe dar o amor do qual ele fora privado.
Inúmeras vezes o pequeno subia as escadas até o sótão da casa onde se escondia para fugir das surras de Kelso, mas este sempre o encontrava e ainda mais furioso pela fuga do pequeno lhe batia com mais raiva, açoitando o menino com um tipo de relho usado para dominar cavalos, assim marcado a pele de Dorian com feridas profundas.
Com o passar do tempo, já tomando ciência de sua situação inaceitável o jovem Dorian já não aceitava mais ser submetido a tais surras desnecessárias e um dia enfrentou o avô o empurrando pela escada da mansão, sem a intenção de ferir, apenas para se proteger, e isso causou a Kelso a paralisia das pernas, o impedindo de correr atrás do garoto pela casa para castigá-lo. Quando Dorian completou dezesseis anos, foi aceito em uma escola interna em Viena, e se mudou para lá assim se livrando do odioso avô. Regressou cinco anos mais tarde após a morte de Kelso, sendo assim o único herdeiro dos bens do avô. Se tornando assim um dos jovens mais ricos e conhecidos de toda Londres, além é claro de ter se tornado um belo rapaz de aparência extremamente atraente e encantadora.
Juliet se despede mais uma vez de sua “mãe” Candence após receber mais instruções de seu proceder e então adentra ao carro, assim como seu guardião Django. O motorista dos Gray os conduz até a residência e lá o mordomo se encarrega de receber os dois.
– Por favor, senhorita Bradford. –diz o homem de aparência cansada se referindo ao sobrenome da moça sem saber quem ela realmente era. – O senhor Gray pede que lhe dê as boas vindas, e que lhe ofereça uma bebida enquanto espera. –diz em tom cortes.
– Ah obrigada, muito gentil da parte do senhor Gray, mas eu vou recusar a bebida. – diz Juliet mantendo o tom coloquial. – Quer beber alguma coisa Django? –ela se dirige ao guardião.
– Não, obrigado. –responde em tom seco.
– Como queiram. –se manifesta o mordomo achando bizarro todo o tamanho daquele negro que acompanhava a jovem de estatura média. – Eu vou avisar sobre sua chegada senhorita. Com sua licença.
Assim o homem se retira dirigindo-se as escadas por onde some. Django analisa toda a imensa residência com móveis caríssimos, e decoração rústica apenas movendo os olhos sem se mover do lugar, como um guarda real preservando a segurança da garota.
– Parece ainda maior vista pelo lado de dentro não? –diz Juliet deslumbrada com a ampla arquitetura.
– Já vi maiores. –retruca o homem em tom firme.
– Relaxe Django. –diz Juliet tocando seu braço forte e sorrindo.
– Estou aqui para zelar pela sua segurança pequena Juliet. –ele se refere à garota como ele a via, como uma pequena e doce menina.
– Apenas não fique tão tenso. –diz a garota em tom gentil e agradável, algo que Django apreciava. – Não precisa agir como se estivesse em guerra.
Ela sorri e se afasta logo girando pela imensa sala, e analisando tudo com minúcia e atenção. Django a segue com o olhar compenetrado, apenas como se cuidasse de uma criança indefesa que poderia se ferir ao tocar em algum objeto perigoso. A jovem de rosto angelical e modos delicados vaga pela sala até estar diante de algo que chama sua atenção sobre uma lareira. Um belo quadro, em tamanho quase real do dono da casa. Uma pintura que teria sido feita alguns meses após a chegada de Dorian em Londres, por um velho amigo pintor chamado Basil Hallward como presente de aniversário de vinte e um anos do rapaz.
O rosto na imagem era de um jovem doce e gentil, com sorriso quase tímido e extremamente bonito. Juliet se perde por longos minutos apreciando cada detalhe da magnífica pintura vendo os traços delicados, e bem minuciosos espalhados pela tela. Era como olhar para o próprio Dorian em pessoa, devido a perfeição de detalhes, e cores bem pintadas pelo artista. Juliet quase podia sentir o olhar inseguro do jovem estampado no quadro, que em quase nada lembrava o homem de olhar gélido e sorriso cruel com quem ela havia estado. O guardião Django vendo Gray descendo as escadas, move seus grandes olhos sabendo que estava muito longe para avisar a garota, que distraída fitava a imagem a sua frente sem sentir a aproximação de Dorian.
– Gosta da pintura? –diz ele retirando-a do transe.
– Senhor Gray. –ela curva a cabeça em gesto formal depois volta a olhar nos olhos escuros de Gray.
Dorian a analisa por alguns segundos com seu semblante indecifrável e depois volta a se manifestar.
– Vejo que Lady Candence escolheu bem suas vestes. –diz olhando-a da cabeça aos pés com certo desdém.
– Eu mesma as escolhi senhor Gray. –responde em tom firme.
– É mesmo? –ele esnoba com um tom pouco interessado. – Fascinante.
– É um belo quadro que tem aqui senhor Gray, quase não se parece com o senhor. –ela alfineta.
– Existe muito pouco daquele jovem no homem que está diante de você. –rebate ele em tom duro e rude. – Vejo que Lady Candence cumpriu sua palavra. –ele se vira e encara Django com ar cínico. – Enviou seu guardião.
Django encara o rapaz com o mesmo olhar frio e rancoroso que sempre mantinha desde que percebeu que os olhos de Gray caíram sobre as graças da pequena Juliet, a quem ele via como um lindo anjo imaculado entre aquelas meretrizes. Django não via Juliet com os mesmos olhos que os outros homens, ele não a via como um objeto de prazer, de luxo para ser explorado e seu desprezo pelo rico Dorian apenas aumentava toda vez que o via com a garota. Não por ciúmes, ou algum sentimento egoísta, e sim por que para Django aquela moça era mais do que apenas uma moça bonita, ela era como uma criatura intocável, e pura. E ele via a maldade contida no olhar de Dorian, sabia que aquele homem não tinha nada de inofensivo e poderia ser um perverso.
– Seu criado me chamou pelo meu sobrenome. –Juliet chama atenção do jovem Gray para si. – Pensei que tivesse criado uma imagem social mais apresentável da minha pessoa.
– Não que minha vida particular diga respeito aos meus criados. –diz se aproximando da lareira. – Mas esta foi uma informação que julguei útil. Mas quanto a sua devida apresentação social, bem ela se resume a confirmar que sua família vem de uma pacata cidade no interior da Inglaterra, chamada Elgin. Conhece?
– Não sou tão viajada quanto o senhor, Mr. Gray. –diz a garota mantendo o tom que costumava ouvir de Lady Candence.
– Pois bem, isso não será problema porque pretendo encontrar alguém especializado no assunto para lhe ensinar. –responde encarando a garota.
– Todo esse trabalho para uma simples viagem senhor Gray? Poderia ter menos trabalho se levasse uma moça de seu próprio meio social, tenho certeza que esta se portaria de maneira educada e não lhe decepcionaria. –ela se afasta e caminha em direção ao centro da sala.
– Tome isso como um pequeno favor. Um presente... –ele a segue com os olhos.
– Um presente? –ela se vira e o encara com um sorriso fraco. – E porque me daria tal coisa? Porque tal gentileza?
– Não comece nossa viagem agradável que ainda nem se iniciou com insinuações ou perguntas impertinentes Juliet. –ele se fecha parecendo zangado e passa por ela em passos firmes. – Você pode subir até o segundo andar, Alfred a acompanhará até o quarto de hospedes onde deve ficar até a hora de nossa viagem. –ele para a alguns passos de Django e o interroga com expressão carrancuda. – Quanto so seu guardião ele poderá ficar em um dos quartos aqui embaixo.
Django segue o jovem Gray com o olhar pesado e depois recebe um olhar doce de Juliet como se fosse um pedido para ele se acalmar. Logo o mordomo surge na sala e se oferece para levar a moça até o segundo andar. Dorian some sem dizer nada por um dos corredores, e se dirige ao escritório um pouco impaciente, com algo que lhe incomodava.
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