Desejar
8 Jingle Bell Rock - pt. II
Notas iniciais
CAPÍTULO 7
PARTE — II
Jingle Bell Rock
–Você ‘tá parecendo um mendigo... –comentou Shisui com displicência.
–Cala a boca.
Muitos buscavam uma fórmula para ser feliz. Itachi Uchiha tinha uma bem simples: banho quente, pantufas, moletom, camisa de manga comprida, uma manta quentinha, uma caneca de chocolate fervendo e a bela voz de Frank Sinatra cantando “Dreams” em alto e bom som.
–Satisfeito? –inquiriu Shisui meio a contra gosto e aumentando o som.
–Muito. –respondeu Itachi satisfeito.
Pela vontade do tio, a maratona Chucky continuaria até a ceia, mas Itachi bateu o pé, afinal, aquele ainda era o seu apartamento. Itachi até conseguia tolerar a triologia inicial de “boneco assassino”, se apelasse bastante ele aguentava “noiva do Chucky”, mas já era pedir demais para aguentar “o filho do Chucky”; era esculhambação demais (por Deus, o boneco tinha um filho com dupla personalidade!). E sem mencionar que Shisui ficaria insuportável reclamando desse filme.
A porta do forno foi aberta com um rangido alto, seguido de algo pesado sendo depositado na grelha; Itachi antevia chester pelo resto da semana só pelo jeito que a grelha gemeu ao receber o peso. Shizune deu um suspiro aliviado na cozinha.
–Agora é só assar! –ela disse satisfeita. –Amor, eu vou tomar um banho, ok? Depois nós precisamos passar na casa da mamãe pra desejar feliz natal...
–Certo. –concordou Shisui. –Quando o amigo do Itachi chegar nós vamos, pode ser?
Shizune assentiu e caminhou até o banheiro, Shisui caminhou até o quarto e Itachi ficou tenso, pensando que o tio ia conversar com Sasuke ou qualquer coisa assim, só voltando a relaxar quando Shisui voltou à sala, sem, aparentemente, ter tido qualquer discussão com Sasuke.
Kisame tinha telefonado meia hora atrás dizendo que estava a caminho, avisando que traria o filho também. Ao que parecia, o filho de Kisame era amigo de Sasuke e isso deixava Itachi sem saber como reagir. Uma coisa era Sasuke ter um amigo como Naruto, que verdadeiramente estava tentando tirá-lo da fossa, outra era seu irmão ter um amigo que também estava afundando em problemas. Ao que parecia, Sasuke estava rodeado de más influências, ou ainda pior: seu irmão ser a má influência.
A filha de Minato e agora o filho de Kisame, as coisas pareciam orbitar ao redor do seu irmão, atraindo mais problemas para Itachi. Era fato notório que Kisame não ia com a cara do seu irmão, agora que o filho estava mancomunado com Sasuke em um caminho praticamente sem volta, Itachi nem sabia como lidaria com o amigo. Provavelmente os dois começariam a brigar em um momento que tudo o que ele menos queria era brigar.
Ele tomou um gole grande do chocolate, sentindo sua língua queimar pelo líquido quente e doce por um momento. Seus dedos gelados em contato com a caneca quentinha era uma sensação agradável e quase tão recompensadora quanto o sabor da bebida. Itachi suspirou pesadamente e depois sentiu dedos compridos fazendo festa no topo da sua cabeça.
–Eu não sei o que você ‘tá pensando, mas... –disse Shisui bondosamente. –Você não devia receber visitas com essa cara de enterro, nem parecendo um refugiado de guerra.
–O que está sugerindo? –retrucou Itachi com a voz mansa. –Que eu vista um fraque?
–Que tal aposentar as pantufas e vestir essa camisa de frio? –disse Shisui em tom paternal, lhe dando uma camisa de frio de um tecido macio que não era lã, ao que Itachi se sentia feliz: ele odiava lã.
Porém, Shisui estava novamente lhe usando como “treino pré-filho” e isso estava lhe irritando: Itachi não queria que Shisui sentisse pena dele porque estava cego e com um irmão afundado em drogas. Havia uma chance dele enxergar, bastava encontrar um doador de córnea compatível com ele; Itachi ainda acreditava nisso e tinha esperança, ele poderia aguentar aquela adversidade, mas não conseguiria lidar com Sasuke afundando ainda mais. As pessoas diziam que não era possível se viciar em “bala” e “doce”, mas Sasuke se viciou e mais pessoas ao redor do seu irmão também estão viciadas nisso.
Itachi não era burro, quando ele soube qual era a droga que seu irmão tomava, ele fez o dever de casa. Ele pesquisou e tentou entender: as pessoas usavam aquele tipo de droga para se divertir, fugir da realidade e se deixar envolver pelas sensações de euforia que a droga causava, durante uma noite, ou enquanto durasse a festa. Muitas pessoas não se viciavam, fato, era algo difícil de ocorrer, mas digamos que ele pegou o “bilhete premiado”. Isso apenas significava que havia um motivo para Sasuke ter ficado viciado, o real motivo para que seu irmão ser triste e tentar ser feliz através de ilusão, uma fuga da realidade.
Isso era terrível porque seu irmão se inseriu na mesma classe de jovens que teriam um futuro corrompido não apenas pelas drogas, mas pelas escolhas que faziam, já que fugir da realidade não resolve problema nenhum.
Nunca há um futuro bom quando as pessoas se cercam de caminhos fáceis. Jovens, principalmente adolescentes, não enxergam isso, principalmente porque não gostavam de escutar. Adolescentes pensam que são eles (e os amigos) contra o mundo, mas não entendem e não sabem como é o mundo, tampouco querem escutar o que as demais pessoas sabem sobre o mundo. É uma época de querer conhecer, experimentar e é aqui que muitos se perdem.
Adolescentes não gostam de observar e, em essência, não conseguem se colocar em uma posição onde possam visualizar o que as demais pessoas tendem a explicar. Se Itachi analisasse bem, ele sempre foi diferente de todos justamente porque desde criança ele sempre conseguiu observar a situação até que pudesse fazer um juízo de valor da realidade ao seu redor.
Não foi preciso que seu pai lhe aconselhasse sobre o mundo, ou que sua mãe lhe explicasse isso; era algo dele. Da sua curiosidade natural de compreender o ambiente que o cercava e as pessoas ao seu redor, já que tudo era um micro-organismo de um mesmo ser.
Todas as pessoas são parte de um todo, dentro de um espaço compartilhado; e isso significa um princípio compartilhado por algumas religiões, seja do espiritismo quanto até mesmo das igrejas católicas e protestantes. Sempre haverá alguém pregando que os humanos são irmãos, isso basicamente quer dizer que todos são um e um são todos; mesmo que a sociedade rejeite isso. Afinal, é uma bela teoria, mas não é simples esquecer as falhas e pecados alheios. É muito mais simples enganar-se com uma realidade imposta por uma meia dúzia pensante no poder, do que pensar por si mesmo e avaliar a realidade como ela é.
No fim, não basta apenas dar um bom exemplo ao pensar por si só: é necessário estar por perto para orientar e incentivar o pensamento. Estar por perto para guiar os jovens e fazê-los realmente pensarem por si sós e assim evitarem os caminhos mais fáceis; esta foi a sua falha com Sasuke.
E muitos outros pais no mundo também tinham falhado no mesmo ponto que ele: amor é importante, mas não é só isso. Nunca é. Amor não é a solução de todos os problemas, é apenas algo que existe na vida diária e que ajuda, mas não é uma resposta imutável.
Itachi amava Sasuke incondicionalmente. Faria o que fosse preciso por seu irmão, abdicaria do emprego dos sonhos, doaria um rim, Itachi morreria com um sorriso no rosto, se isso significasse que seu irmão estaria bem. Sasuke é sua família, a melhor lembrança do seu pai e da sua mãe, um elo com suas memórias do passado: a prova viva de tempos onde todos eram felizes. Não havia como Itachi pensar em Sasuke como um amante, o pensamento era nojento. Não porque a sociedade dizia que era nojento, mas porque Itachi jamais conseguiria ver algo tão importante como Sasuke reduzido a mero amante ou alguma espécie de esposo. Não. Sasuke era mais que isso, muito, muito mais, muito mais do que algo para ser visto com teor sexual.
E era por isso que Itachi precisava machucar Sasuke ainda mais e ser mais expresso a respeito do que sentia. Ele não queria magoar seu irmão ao dar um fora, não era isso, ele sempre tentava dizer o que sentia de uma forma que Sasuke entendesse e não insistisse mais, só que se seu irmão insistia em não compreender, Itachi precisaria ser direto. Não por maldade, mas para o bem de Sasuke.
Era arriscado porque Sasuke podia afundar e não ter mais volta. Seu irmão era diferente dos demais adolescentes que se viciavam por diversão: Sasuke se drogava por motivos que ele não conhecia, talvez nem mesmo Naruto soubesse. Mas Itachi estava tentando entender. Sasuke tinha uma falsa sensação de felicidade com o uso das drogas, ele afundava e fugia da realidade porque não aguentava sobreviver. Talvez seu irmão tenha consciência do caminho sombrio que escolheu, assim como ainda estava profundamente magoado pelas coisas que o pai deles disse há muito tempo atrás e ainda havia a possibilidade da ferida causada pela perda da mãe deles ainda não ter cicatrizado.
Sasuke tinha motivos para se drogar. E se Itachi fosse pensar bem, talvez até mesmo os amigos de Sasuke tivessem suas próprias motivações para caírem tão fundo. Naruto evitava falar dos irmãos e Itachi mal sabia sobre Suigetsu, mas, talvez, havia a possibilidade dos três adolescentes superarem seus respectivos vícios se fossem orientados a superarem seus monstros particulares.
–Terra chamando Itachi. –chamou Shisui com a voz brincalhona depois de um bom tempo. –Terra chamando Itachi, como está o sinal, câmbio?
Itachi inconscientemente revirou os olhos diante do comentário do tio, ouvindo uma gargalhada alta logo em seguida, o que lhe fez se lembrar da piadinha infame de Naruto e isso lhe fez corar um pouco de raiva. Pelo visto, o apelido ia ficar. Shisui continuava rindo no sofá, dando leves socos na almofada ao seu lado enquanto arquejava de tanto rir. Itachi cruzou os braços enquanto batia o pé ritmicamente no chão.
–A piada já perdeu a graça. –ele resmungou ranzinza.
–Ok, Armstrong. –comentou Shisui com a voz alegre e fraca. Itachi controlou a ânsia de revirar os olhos com a comparação escrota com o astronauta. -Veste logo a camisa de frio e deixa essa vida de mendigo.
–Ok, mamãe.
Já um pouco contrariado, Itachi chutou as pantufas de qualquer jeito na sala, deixando a manta que o cobria do lado enquanto pegava a camisa de frio do tio, tateando o tecido e sentindo qual era a frente. Em seguida ele a vestiu, ajeitando-se rapidamente.
–Pronto. –disse Itachi carrancudo. –Satisfeito?
–Muito bem, se não tivesse feito isso, eu ia te colocar no cantinho da disciplina. –comentou Shisui com um tom petulante que irritou ainda mais Itachi. –Vinte e dois minutos virado para a parede.
–Shisui, até mesmo a minha paciência tem um limite. –avisou Itachi com um sibilo baixo.
–Eu sei, mas fazer o quê? –comentou Shisui com um tom leviano. –Eu prefiro um Itachi irritado do que um Itachi apático.
Itachi não teve como retrucar e sequer sabia se seu tio teve tempo de ver a perplexidade em seu rosto, já que a companhia tocou. Kisame não era do tipo que chegava cedo, mas Itachi agradeceu o milagre, já que isso evitou uma situação possivelmente embaraçosa.
O peso de Shisui saiu do sofá e o som de passos até a porta foi ouvido quase no mesmo instante em que a porta do banheiro era aberta, trazendo um ar úmido para a sala, que agora cheirava a sabonete com aroma de leite. Os passinhos de Shizune foram ouvidos no mesmo momento que Shisui cumprimentava Kisame com um: “opa!”. Seus tios cumprimentaram brevemente seu amigo e ao filho dele, que sequer se deu ao trabalho de responder, perguntando apenas por Sasuke.
Ao ser respondido, o garoto de Kisame caminhou até o quarto onde Sasuke estava, suas pisadas eram fortes já que ele provavelmente pisava primeiro com o calcanhar antes da palma do pé; Itachi tentou cumprimentá-lo, mas o jovem o ignorou e um clima tenso ficou na casa após a porta do quarto ser fechada. Mas rapidamente seus tios se despediram, dizendo que iriam passar na casa dos parentes de Shizune e dar a devida privacidade para eles.
Shizune fechou a porta de entrada, cortando a corrente de ar gelado que entrava no apartamento e Kisame deu um suspiro, caminhando até a poltrona da direita e se sentando com um barulho alto. Dessa vez estava frio o suficiente para seu amigo ignorar o ventilador. Itachi não sabia o que dizer e nem fazia muito tempo que os dois tinham conversado pessoalmente, porém tantas coisas pareciam ter mudado.
–Não me leve a mal, Itachi, mas parece que você ganhou uns fios brancos desde a última vez que te vi. –comentou Kisame bem humorado, tirando um peso invisível das costas de Itachi.
Um singelo sorriso de agradecimento ornamentou o rosto de Itachi por alguns poucos instantes, enquanto ele respirava aliviado em perceber que nem tudo mudou entre ele e Kisame. Seus “rebentos” estavam em apuros, talvez um sendo a causa do outro estar tão ruim, mas eram seus rebentos, não eles. Não podiam perder uma amizade de anos assim.
–Bom ouvir essas palavras reconfortantes. –retrucou Itachi com uma ironia bem intencionada. Kisame só estava sendo Kisame e isso era algo que ele apreciava. -Como está?
–Estou igual a um tubarão sem barbatana, Itachi. –respondeu Kisame de modo franco, se ajeitando na poltrona e fazendo o móvel ranger; Itachi quase esperou o pior: que o móvel cedesse e Kisame caísse de bunda no chão.
Não o levem a mal. Itachi era alto. Tinha 1.82 de altura e tinha um peso correspondente a sua altura, o que não o deixava magro demais, nem gordo demais. Mas Kisame estava longe de ser alto e leve. Seu amigo tinha a altura de Michel Jordan (1) e cento e vinte quilos, obviamente que sua poltrona de segunda categoria ia reclamar do peso do amigo.
–Afundando no oceano pela falta de equilíbrio. –concluiu Kisame parando de se mover e o móvel de ranger, para alívio de Itachi que finalmente ponderou sobre as palavras do amigo.
–Compartilho a aflição. –respondeu Itachi com um suspiro.
–Eu sei. –comentou Kisame com franqueza e um leve tom fúnebre. -Seu pirralho está na mesma pindaíba que o meu moleque.
–Kisame, eu...
–Você nada. –cortou Kisame e, se Itachi bem conhecia o amigo, Kisame provavelmente devia ter erguido a mão. Podia não parecer, mas Kisame gesticulava muito com as mãos, mas só sobre alguns assuntos. -Nada do que você ou eu pudesse fazer teria mudado a situação agora.
–Eu não tenho tanta certeza.
–Nem eu tenho às vezes, mas... –respondeu Kisame com uma franqueza desconfortável que era algo que Itachi tanto admirava, quanto se sentia engolfado. -Isso nos leva a que?
Era uma pergunta retórica, Itachi sabia. Não havia necessidade de respostas porque não havia respostas para essa pergunta. Ele passou a mão pelos cabelos, levando parte da sua franja para trás, mas logo o cabelo estava de volta ao seu rosto. Kisame o observava em silêncio e por um instante ele tentou escutar o que seu irmão e o filho de Kisame conversavam no quarto, mas ou os jovens estavam falando baixo ou estavam silenciosos como os dois.
Kisame bufou na poltrona, voltando a se ajeitar e fazendo o móvel ranger outra vez, até que a sola de seus sapatos tocaram no chão fazendo um som abafado e Itachi se virou na direção desses ruídos, tentando se concentrar apenas no amigo.
–Itachi, vamos estabelecer algo, certo? –começou Kisame com a voz cansada e Itachi sabia exatamente o que o outro queria dizer. -Eu já estou fodido sem ter que lidar com mais um problema.
–Nada de falarmos sobre quem foi que afundou quem e nos concentrarmos apenas em fazer o melhor que pudermos por eles?
Um som gutural soou da garganta de Kisame, enquanto o som de suas costas indo de contra ao encosto da poltrona soavam na sala. Miraculosamente, a poltrona não rangeu pelo peso e Itachi percebeu que estava segurando a base do sofá, suas costas estavam levemente curvadas e ele prontamente corrigiu sua postura desleixada.
–Soa bom demais pra mim. –assentiu Kisame após algum tempo.
Um grande alívio percorreu todo o corpo de Itachi, que finalmente respirou mais tranquilamente e largando o encosto da poltrona, percebendo que até mesmo o timbre de Kisame ficou bem mais suave após esse acordo. Eles fariam dar certo, como sempre fizeram. Kisame e ele eram uma boa dupla, não era a toa que trabalhavam no mesmo departamento há anos sem qualquer tipo de conflito, seja com seus superiores, ou com clientes.
Pensar no trabalho causou um leve estremecimento em Itachi e novamente suas expressões faciais ficaram preocupadas, fazendo com que Kisame suspirasse rapidamente, mexendo uma das pernas e fazendo o sofá ranger.
–Alguma notícia da empresa? –perguntou Itachi sem ocultar sua preocupação.
–Alguma. –respondeu Kisame em tom brando, embora houvesse uma nota de preocupação em sua voz. -As coisas estão ainda mais estranhas por lá. Eu estou de férias, mas...
–Mas...?
Kisame se mexeu desconfortavelmente na poltrona, murmurando um “porra” baixinho antes de se cansar e andar pela sala até a outra poltrona à esquerda, um móvel bem mais resistente; Itachi acompanhou a movimentação em silêncio, prestando muita atenção nos sons que Kisame fazia. Itachi ouviu o amigo se sentar mais confortavelmente, suspirar de um jeito cansado e finalmente responder:
–O tal do Madara Uchiha é o chefe. –disparou Kisame. –E ele queria saber coisas sobre você.
Por um momento, toda a realidade esvaiu-se de uma vez só e Itachi sentiu um terror tão grande que quase o desestruturou e ele se forçou a respirar pausadamente para se acalmar. Madara o homem que matou a sua mãe e que tinha aparecido na sua vida, pagando a conta do hospital, comprando a empresa onde trabalhava, comprando a empresa onde seu tio trabalhava, forçando Shisui a aceitar um acordo duvidoso e que tinha mandado a bailarina há uns dias atrás. O que esse homem queria? E por que estava perseguindo a sua família?
Itachi abaixou a cabeça tentando pensar em alguma justificativa para o comportamento completamente surreal de Madara. Ele tinha vinte e dois anos, cresceu sem conhecer Madara, quando o conheceu foi na pior situação possível. Era suposto que Itachi o odiasse por ser o causador da morte da sua mãe e de todas as coisas horríveis que aconteceram a seguir em suas vidas, Itachi, obviamente, queria justiça pela morte da mãe, mas também queria ficar longe de Madara, queria se ver livre desse homem e não entendia o que é que tinham para atrair o interesse dele.
–O que ele queria saber? –Itachi perguntou com a voz fraca, enquanto segurava o sofá entre suas unhas.
–Suas amizades, seu modo de agir, o que você pensa, sua faculdade, seu temperamento, todo esse tipo de coisa. –respondeu Kisame de modo franco e a voz mais séria.
Kisame sabia a história da sua vida, não foi muito simples fazer com que todos esquecessem a sua cara após todo alvoroço que a mídia deu ao caso da morte da sua mãe, pelo menos, até antes de tudo ficar tremendamente silencioso. Itachi não deu entrevistas, nem Shisui, mas naquela época horrível, quando os dois precisavam ir e vir da delegacia para prestar depoimentos era inevitável que seus rostos aparecessem na mídia, assim como o rosto de Madara.
As pessoas se lembravam dele quando o viam, seu rosto não mudou muito, a única coisa que mudou foi sua altura e o comprimento de seu cabelo, já que após a morte da mãe, Itachi deixou seus cabelos crescerem e agora estavam quase na altura da cintura. Era algo que sempre quis, mas sua mãe odiava a ideia de ter um filho “cabeludo”.
Lembrar-se de Mikoto fez tudo ficar ainda pior porque ele quase conseguia ouvir o lago dos cisnes com a imagem mental de sua mãe, ainda jovem, com uma roupa de balé toda branca, deslizando pelo palco como um anjo... Exatamente como a bailarina que Madara enviou, pela narrativa de Naruto.
–E o que você respondeu? –Itachi perguntou com a voz fraca.
–Fiquei calado. –respondeu Kisame com simplicidade e tanta firmeza que Itachi invariavelmente se sentiu aliviado. -Pensei que ia ser demitido, mas aquele cara fez a coisa mais estranha do mundo.
–O que ele fez?
–Me promoveu.
Itachi se retesou.
–Que?
–Eu ganhei uma promoção e férias. –respondeu Kisame com a voz em um tom que Itachi não sabia como interpretar, pois ao mesmo tempo que soava satisfeita, também soava preocupada. -Volto a trabalhar em janeiro, na primeira semana, começando com um treino na nova função.
–Que função?
–Assessor da diretoria executiva. –foi a resposta do amigo e Itachi simplesmente não conseguia acreditar porque agora era uma certeza tão grande de que havia algo por trás que ele sequer sabia como reagir. –Itachi, eu não sei porra nenhuma disso!
–É, mas eu sei.
Itachi havia se formado em engenharia de produção, basicamente, o curso mesclava sua matéria favorita (matemática) com uma boa rentabilidade no mercado de trabalho. Não era segredo que estava formado neste curso, bastaria que alguém acessasse o site de sua universidade para ver as fotos do dia da entrega da placa da turma, pois todos os formandos eram obrigados a tirarem uma foto de beca para o mural dos ex-alunos. Se Madara estava mesmo fazendo uma pesquisa acerca da sua vida, então saberia desse detalhe, especialmente considerando o patrimônio que sua família tinha.
Não fazia sentido interrogar Kisame sobre o que ele fazia ou deixava de fazer, exceto se fosse para comprovar o grau de fidelidade de Kisame a ele. O que somente poderia significar que Madara tinha planos de colocá-lo na empresa em uma função elevada e de algum jeito que Itachi não teria como recusar, assim Madara sempre estaria por perto e controlando cada um de seus atos.
–Eu sei disso, sabe? Eu não sou idiota. –retrucou Kisame com indignação. — Itachi, esse cara acha que você vai comer na mão dele.
Isso era obvio, qualquer um poderia chegar a essa conclusão, mas Itachi engoliu o comentário; esse tipo de coisa não deve ser dita. As pessoas odiavam esse tipo de comentário, assim como descontar a frustração com isso não resultava em mais nada além de problemas; Itachi já havia extrapolado o limite, obrigado. Sem mais problemas.
–Esse cara ‘tá jogando pesado, não?
–Eu sei. –comentou Itachi em tom sério, mas depois soltando um longo suspiro. -Só que dois podem jogar isso, certo?
–Talvez, mas você não tem peça nenhuma contra ele.
“Ainda não” pensou Itachi. Ele não queria estar perto de Madara em nenhuma circunstância, de preferência, ele pegaria Shisui e Sasuke e tentaria sair do caminho do outro, mas essa opção já não era viável.
Uma guerra se inicia quando ambas as partes desejam o confronto. O ofensor sempre deseja a batalha, restando ao ofendido três opções: lutar, tentar um acordo ou fugir.
No caso, Shisui já estava vinculado a Madara e isso impossibilitava qualquer fuga. Madara sabia disso e agora jogaria com ele, o que significava que havia alguma chance de acordo.
Por outro lado, Madara parecia ser do tipo que joga para vencer e celebrar um acordo significa ‘perder em parte’, algo que provavelmente devia estar fora de questão para Madara.
Sendo estas as circunstâncias, Itachi não tinha outra escolha a não ser lutar, com o que tinha e o que não tinha ainda, afinal, guerras também são oriundas do sentimento do querer proteger algo e da vontade unânime dos soldados de voltar para suas famílias. Itachi encontraria um jeito de proteger sua família e ele não tinha dúvidas disso, mas um passo por vez.
Ele suspirou profundamente, tentando relaxar e guardar todas as informações que recebeu de Kisame para refletir mais tarde, agora a prioridade era Sasuke e Suigetsu. Até, pelo menos, que Madara fizesse outra jogada mais arriscada que faria com que Itachi pensasse no melhor meio de se defender do jogo do tio.
–Parabéns pela promoção.
–Valeu.
–Como... Como estão as coisas? –inquiriu Itachi um pouco sem jeito, a fim de mudar de assunto. -Algum progresso com ele?
–Nada. A não ser que ser chamado de “velho” em vez de “Kisame” seja um progresso. E você?
–Não tenho certeza de mais nada. –ele respondeu com um suspiro pesaroso, abaixando a cabeça.
–O amigo do Sasuke ainda aparece por aqui? –inquiriu Kisame com cautela e Itachi se virou para o lado de Kisame lentamente.
–Sim, ele tem me ajudado com o Sasuke. –Itachi respondeu com igual cautela.
Por algum motivo, talvez fosse seu sexto sentido alertando, ou talvez fosse apenas o tipo de entrosamento que tinha com Kisame, mas alguma coisa lhe alertava que Kisame estava lhe analisando. Seu amigo era extraordinariamente observador e era excelente em analisar o comportamento das pessoas mais próximas, frequentemente Itachi fazia parte das análises do amigo e sempre se surpreendia em como Kisame poderia acertar coisas sobre ele.
Entretanto, nem sempre essa habilidade de Kisame era algo bom, especialmente porque a franqueza de Kisame nesses momentos atingia o ápice e era constrangedor escutar o que seu amigo concluía.
–Prossiga. –murmurou Kisame.
Itachi ergueu a sobrancelha, ainda ficando muito silencioso e Kisame deu uma sonora gargalhada que reverberou pelo apartamento; Itachi não riu, mas desfez a expressão preocupada.
–Não entendo porque você desconfia tanto de mim!
–Porque é você. –retrucou Itachi em tom brando. –Isso faz toda a diferença.
Kisame riu um pouco mais com seu comentário, batendo no joelho e causando estalos rápidos e estridentes. O mais velho se recostou na poltrona, fazendo barulho e aguardou sua resposta. Itachi inspirou brevemente. Kisame podia ter um encantamento surreal (e bizarro) por tubarões, mas era definitivamente teimoso feito uma mula. Ele sabia que o amigo não ia falar nada até que ele respondesse a pergunta.
–Naruto e eu nos damos bem. –Itachi disse com sinceridade.
O Uchiha esperou algum comentário por parte do amigo, mas não veio nenhum. Alguns trechos de música eletrônica eram ouvidos saindo das brechas da porta do quarto que ele e Sasuke dividiam, mas nada das vozes dos adolescentes, provavelmente ambos conversavam em um tom mais baixo que o da melodia. Itachi relaxou um pouco mais.
–Confio nele. –continuou Itachi sorrindo minimamente ao se lembrar de Naruto. -E eu sei que ele é a chave para eu chegar até Sasuke e... –Kisame deu uma risadinha nasalada mal disfarçada que o surpreendeu. Dessa vez, seja lá o que fosse, Kisame concluiu rápido demais, o que ativou sua carranca quase que imediatamente. -Que risadinha foi essa?
–Não é nada! –comentou Kisame com falsa polidez, porque seu tom de voz parecia feliz demais e Itachi tinha certeza que Kisame tinha concluído qualquer análise sobre ele.
E qualquer que fosse essa análise, Itachi tinha o pressentimento de que ia ficar irritado.
–Você não espera que eu acredite nisso, né?
–Não precisa ficar todo desconfiado agora! –reclamou Kisame ainda com a voz bem humorada. Itachi podia apostar que havia um sorriso enorme nos lábios do outro. -É só que você fala diferente quando o assunto é esse garoto.
Ok. Isso tinha lhe pegado de surpresa. Como assim ele agia diferente com Naruto?
–Diferente?
–É, toda a ideia do seu rosto muda, Itachi. –respondeu Kisame com simplicidade, como se seu amigo explicasse o obvio. -Os vincos de preocupação somem e sua fala fica suave. Se eu não te conhecesse... –e Kisame riu e Itachi franziu os lábios. -Não, é fato, você está apaixonado por ele.
E lá vinha Kisame com essa conversa de novo! Sim, Itachi reconhecia que estava apaixonado, mas não por Naruto. Céus, de onde é que Kisame tirou essa ideia imbecil? E como é que Itachi iria se apaixonar por um garoto de dezessete anos? Por Deus! E ainda por cima Naruto era amigo de Sasuke e filho da sua atual paixonite, tudo bem que era um garoto divertido e que Itachi verdadeiramente gostava de passar um tempo com ele. E, certo, ele gostava do cheiro de Naruto, também não se importava nenhum pouco quando ele e Naruto acidentalmente se tocavam, mas aquilo era só amizade. Amigos são assim, oras!
–Eu podia ter passado o dia todo sem isso, Kisame. –Itachi comentou contrariado.
Kisame então explodiu em uma gargalhada tão alta que fazia tempo que Itachi não ouvia, fazendo-o apenas revirar os olhos e sorrir discretamente. Por um momento, ele quase acreditou que Kisame tinha falado sério a respeito dele estar apaixonado por Naruto, mas, ao que parecia, seu amigo estava só pregando uma peça nele.
Não parecia, mas Kisame também tinha senso de humor, um bem duvidoso por sinal, mas tinha.
–Você vai me pagar uma poltrona nova se quebrar essa. –resmungou Itachi fingindo estar irritado quando a poltrona rangeu quando as costas de Kisame bateram com força no encosto.
A poltrona da esquerda era mais resistente, mas também era velha e Kisame era pesado o suficiente para arrebentá-la também.
–E eu vou gostar de jogar na sua cara que eu tava certo, quando o momento chegar! –retrucou Kisame ainda em tom divertido, mas conseguindo parar de gargalhar.
–Com todo o respeito, -disse Itachi polidamente. -Vá se ferrar.
Seu comentário ocasionou mais uma crise de risos de Kisame, mas Itachi não se importou. Fazia tempo que ele e Kisame não tinham uma conversa mais leviana como aquela e Itachi se sentia grato com a brincadeira do amigo.
–Certo, certo, eu sou só um quarentão perigando morrer sozinho e que vai arrastar a bunda magra do filho daqui. –disse Kisame se levantando da poltrona, as juntas de suas pernas estalando quando ele ficou de pé. -Algo me diz que meu filho não joga no mesmo time que o meu e que arrasta asa pro seu irmão.
–Perdão? –perguntou Itachi erguendo uma das sobrancelhas.
–Acho que meu filho ‘tá apaixonado pelo seu irmão, não tenho certeza disso, mas não sei se quero descobrir... –respondeu Kisame com a voz mais baixa e apesar do tom meio sonhador, Itachi sabia que Kisame estava preocupado. -Por ora, acho que vou pegar minha deixa e ir embora. Acho que você vai querer aproveitar que o papai e a mamãe urso deram uma folga pra você conversar com seu irmão, certo?
–Quando foi que eu fiquei tão expressivo assim pra você?
–No momento que os primeiros cabelos brancos começaram a aparecer.
Em algum lugar do mundo existia um ditado dizendo que não se podia encontrar mais do que quatro pessoas na vida para chamá-las de amigo. Se isso era verdade ou não, Itachi não sabia, a única coisa que verdadeiramente importava é que ele conheceu Kisame Hoshigaki e que ele era seu amigo.
–Valeu Kisame. –agradeceu Itachi com um sorriso singelo.
–Disponha. –respondeu Kisame.
Mesmo que Itachi não pudesse ver, ele conseguia lembrar claramente do sorriso simples do amigo. Kisame caminhou até o quarto, chamando o filho que grunhiu algo mal educado em resposta. Logo pai e filho caminharam pelo corredor até a porta de saída quando Kisame se despediu.
–Um natal razoavelmente feliz pra você, Itachi.
–Pra você também.
E agora Itachi estava sozinho com a fera.
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–Hei... Você está comendo a torta de limão? –Itachi perguntou assim que abriu a porta do quarto, ouvindo os sons típicos de alguém mastigando.
–Hn. –fez Sasuke.
Itachi suspirou. Ele encostou a porta e caminhou até sua cama, se sentando e tentando pensar no que iria dizer. Sasuke estava arisco e qualquer palavra mal pensada poderia desencadear em algo irreparável, ao mesmo tempo em que ele sabia que precisava ser breve. Shizune e Shisui provavelmente já estavam a caminho e quando os tios estivessem em casa, Itachi sabia que não teria outra oportunidade para falar com o irmão a sós.
–Não é bom comer no quarto, traz bicho. –comentou Itachi em um tom levemente de bronca. –Formigas e baratas principalmente.
Isso era seguro de se dizer, Sasuke sabia disso. Havia uma proibição do tipo desde os tempos que seus pais estavam vivos. Sua mãe era extremamente severa quanto à manutenção da casa, mas, mesmo assim, ele e Shisui sempre tentavam burlar a regra do “doce só depois do almoço”, mantendo um estoque de jujubas e biscoitos recheados escondidos no quarto. Tudo ia bem até o dia que um formigueiro invadiu o estoque, porque além de deixar sua mãe extremamente furiosa com a descoberta (o que por si só já tinha garantido a palmada da vez), fez com que sua mãe usasse um produto na casa para matar as formigas, só que como consequência todas as baratas resolveram “dar um passeio”; foi um caos.
Sua mãe tinha pavor de baratas e Sasuke, que na época tinha seis ou sete anos, também. O pai deles estava trabalhando, assim ele e Shisui precisaram matar as baratas, entretanto às vezes elas iam para lugares altos demais, voando por cima da cabeça deles sempre atraídas pelos gritos histéricos de Sasuke e Mikoto. Itachi não era o tipo de pessoa que ria da desgraça alheia, mas ele teve que morder os lábios para não rir quando uma barata começou a subir pelas pernas de Sasuke e seu irmãozinho começou a dançar no mesmo lugar, gritando de nojo e sua mãe correndo na direção contrária.
Infelizmente, algumas das baratas foram mortas na parede branca e ninguém quis limpar. Ele e Shisui ficaram empurrando a responsabilidade um para o outro até quando o pai chegou em casa. O olhar que Fugaku lhe lançou naquele dia era algo que Itachi jamais esqueceria, muito menos da cintada tão bem dada que ele nunca mais escondeu nada doce no quarto.
E isso só lhe fazia se lembrar de algo no mínimo peculiar: Sasuke não gostava de doces. Diferente de todas as demais crianças no mundo, seu irmão preferia comida apimentada e salgada. Era uma dificuldade fazê-lo comer alguma fruta! Sempre franzia o cenho em desgosto com frutas mais açucaradas como manga e banana. Mas os sons de mastigação eram inconfundíveis. Sasuke definitivamente estava comendo a torta de limão que Naruto fez. Não importava que o limão fosse azedo: sempre haveria um creme ou um chantilly que fosse doce para balancear o sabor cítrico da fruta.
–E eu não sabia que você gostava de tortinha de limão. –comentou Itachi levemente surpreso, embora ainda soasse cauteloso.
–Eu não gosto.
–Então por que está comendo?
Por um instante, Itachi pensou que o irmão não fosse responder. O mais novo apenas colocou o refratário da torta e a colher, ambos embalados por um saco plástico, sobre o criado mudo entre ambas às camas.
–Naruto é um idiota intrometido, ele... Sempre faz. –respondeu Sasuke com a voz baixa e controlada, mas ainda assim cautelosa. -É um desperdício jogar fora.
Isso também era uma das lições da mãe deles. “Nunca ponha no prato mais do que você precisa.” – ela sempre dizia. Quando alguém desobedecia, ela fazia com que o resto da comida fosse engolido “para aprender a valorizar o que temos na mesa”, palavras dela. Mikoto Uchiha, apesar da delicadeza e da expressão gentil, era uma pessoa muito rígida na criação dos filhos.
Ela sempre era capaz de fazer uma palmada ser dolorida, quando nem mesmo a palmada surtia efeito, ela vinha com uma indiferença mil vezes pior; Itachi só ocasionou esse comportamento da mãe uma vez, quando esqueceu pela segunda vez de desligar o gás do fogão porque estava brincando com Sasuke. Ele tinha dez anos quando isso aconteceu.
Itachi não concordava com violência, achava que havia algum outro jeito de educar sem ser pelo temor, ainda assim respeitava o jeito que sua mãe o criou, na maioria das vezes ele foi feliz ao lado do irmão caçula e do tio. As palmadas doíam e não eram boas lembranças, mas ele se esforçava para entender que na verdade sua mãe só fazia isso porque se importava com ele e desejava que ele fosse uma pessoa melhor; apesar de violência nunca tornar alguém melhor.
A agressão, seja ela qual fosse, verbal ou física, deveria ser repelida e não funcionar como método de “disciplinamento”, pois a agressão é oriunda do terror e as relações interpessoais não deveriam ser geradas com base no terror.
Sempre que seguia essa linha de pensamento, ele sentia a necessidade de justificar o comportamento da sua mãe, mesmo que soubesse que estava errado em fazer isso. Ele sabia que seus pais fizeram o melhor dentro do que poderiam fazer, mas ainda assim não parecia o bastante ou o correto, especialmente agora que ele via o resultado de anos de distância.
O conservadorismo extremo de seus pais criou uma falha de comunicação irreparável em sua família, a extremada hierarquização de todos tornava ainda mais difícil de chegar até o cerne do problema com Sasuke. Tudo isso só provava que ele precisava encontrar um novo meio de abrir caminho e reparar os erros do passado. Era a sua chance de provar sua própria opinião que divergia, e muito, da dos pais.
–Você se importa com ele, né? –perguntou Itachi com a voz baixa, se sentando mais confortavelmente na cama, com as pernas abertas e as mãos sobre os joelhos. -Digo, com Naruto.
Entretanto, não seria nada fácil reparar uma fratura de anos. Assim que Itachi perguntou, Sasuke se aprumou na cama, parecendo se virar no colchão e isso fez com que o estrado estalasse alto. Itachi foi paciente, aguardando qualquer outra manifestação do irmão mais novo. Ele segurou o moletom que usava na altura dos joelhos, inconscientemente mordendo os lábios em apreensão enquanto pensava no que poderia dizer.
–Por que me importaria? –perguntou Sasuke finalmente em um tom irritadiço. -Ele só está por aí!
Itachi respirou mais tranquilamente, relaxando suas expressões e parando de morder o lábio inferior. Era verdade que ele não era capaz de desvendar o que seu irmão se tornou de uma única vez, mas havia coisas sobre Sasuke que sempre seriam verdadeiras. E Itachi sabia que seu irmão estava fugindo do assunto.
A postura do seu irmão era igual quando tinha nove anos, quando teve a sua primeira paixonite por alguma menininha na escola e ele e Shisui irritaram tanto o mais novo para saber quem era a menina que Sasuke ficou com o beiço do tamanho do mundo, expulsando os dois do quarto.
Um sorriso quase ameaçou escapulir de seus lábios, mas Itachi se conteve. Não sabia se seu irmão estava olhando para ele ou se tinha se virado para o lado da parede, mas não era bom arriscar e colocar tudo a perder.
–Ele não parece pensar isso. –ele decidiu por fim dizer no tom mais ameno que conseguiu.
–Por que ele é um tremendo idiota! –retrucou Sasuke verdadeiramente enfezado, o que fez Itachi morder os lábios para não rir.
Itachi ficou tentado a dizer “concordo” porque Naruto realmente poderia ser muito idiota, mas, ao se lembrar do Uzumaki e de sua voz sempre tão impossivelmente alegre, Itachi simplesmente não tinha coragem de xingar o outro. Não quando Naruto não estaria ali para retrucar, embora os dois raramente entrassem nesse tipo de conversa. Em vez disso, ele considerou outras respostas e o assunto que gostaria de tratar; não poderia se perder em pensamentos e perder essa oportunidade de colocar tudo às claras.
–Ele é o mais próximo de amigo que você tem. –ele comentou com brandura, enquanto tentava pensar no tom certo para desviar o assunto. -Por que nunca me falou sobre ele?
Sasuke não respondeu e Itachi lentamente voltou a sentir a atmosfera pesada invadir a conversa conforme ele mudava o assunto para os temas que verdadeiramente importavam. E mesmo que Itachi não quisesse fazer Sasuke se sentir culpado, ele não conseguia deixar de se sentir magoado. Tudo bem, ele talvez não fosse o melhor irmão mais velho do mundo inteiro, mas não era um portão de aço inoxidável trancado com gigantescos cadeados sem chave; e talvez ele estivesse andando demais com Naruto por causa dessa comparação.
O fato que não mudava era que todos esses anos Sasuke poderia ter vindo ao seu encontro. Era verdade que seu tempo era escasso, mas tudo o que ele havia feito na vida sempre foi por Sasuke. Trabalhar que nem um condenado, aguentando clientes que achavam que só porque ele atendia na loja ele era obrigado a aguentar cantadas, ou mesmo aturar professores boçais que se achavam o máximo. Tudo que Itachi fez foi para dar o melhor para Sasuke, a única coisa que ele esperava era que seu sacrifício fizesse Sasuke um adulto melhor e consciente.
E quantos pais no mundo inteiro não se sentiam exatamente como ele? E quantos jovens se perdiam exatamente como seu irmão por causa da distância que as obrigações diárias colocavam na família?
Tudo isso importava e não importava. Desde que Itachi descobriu um pouco mais sobre que pessoa Sasuke estava se tornando, ele evitava seguir por essa linha de raciocínio, mas no fim sempre voltaria para esse ponto.
Porque a verdade era que ele se sentia traído.
Toda a confiança que ele sentia em Sasuke foi abalada, toda a estrutura familiar que conheceu com os pais foi abalada pela perda e pelos anos onde ele tinha que se focar para garantir a subsistência deles. E agora eles estavam ali e Itachi não sabia o que fazer.
Mas tinha que agir. Mais do que qualquer pessoa no mundo Itachi tinha o direito de saber o que Sasuke escondia. Foram anos de mentiras. Sasuke tinha amigos, Sasuke tinha até mesmo uma namorada! E nunca, nunca, se importou em compartilhar esse tipo de informação a ele antes! Itachi sempre cogitou mudar Sasuke de escola para que o irmão socializasse, sempre que podia ia às reuniões da escola e os professores diziam que Sasuke era apático. Que havia muito talento ali, que era um garoto inteligente, mas faltava acordá-lo; nenhuma conversa em casa resolvia, mas porque Sasuke se acostumou a mentir.
E ele se acostumou a acreditar em mentiras.
Seu irmão passou por tantos riscos! Doenças, assaltos, assassinos; a imprudência sempre cobrava um preço, mais cedo ou mais tarde. A família deles já tinha sofrido tantas perdas que Itachi se recusava a passar por mais alguma. Não importava mais os erros do passado: eles precisavam se sobrepor a todas as adversidades para dar certo.
–Você tem uma namorada também... –insistiu Itachi, controlando a decepção em seu tom de voz. -Há quanto tempo estão juntos?
Novamente não obteve respostas, mas Itachi não pressionou mais. Não queria que Sasuke se sentisse pressionado ou que mentisse outra vez. Não. Já chega de mentiras ou de ilusões. A realidade estava bem ali: sua família inteira quebrada e abalada de tantas formas que talvez o conserto fosse impossível pela quantidade de sequelas. Ele precisava ser realista nesse momento, talvez assim ele conseguisse vislumbrar alguma saída.
O mais novo ficou muito tempo em silêncio e Itachi aguardava alguma resposta pacientemente, rezando para que os tios não chegassem antes de terminar de falar com Sasuke.
–Por que quer saber? –perguntou Sasuke por fim com a voz fraca e falha.
O mais novo pareceu se erguer da cama, fazendo o estrado ranger suavemente, logo o som de passos breves foi escutado e com suavidade, o colchão onde Itachi estava sentado afundou a sua direita. Uma das mãos de Sasuke acariciou seu rosto com delicadeza e Itachi imediatamente fechou a expressão até que o carinho cessou, mas Sasuke continuou sentado ao seu lado.
–Eu gosto de você, nii-san. –declarou Sasuke com a voz fininha em um tom de súplica tão grande que Itachi quase se amaldiçoou por causar tal sofrimento ao menor.
Mas era preciso. Sasuke não poderia resolver as coisas daquele jeito e precisava entender isso. Cabia a Itachi explicar ao irmão que o problema não seria resolvido dessa forma porque os dois não seriam felizes daquele jeito. Aquele momento ele precisava colocar a razão na cabecinha de Sasuke, porque nem só de amor as pessoas viviam.
–Sua vida me interessa. -respondeu Itachi pondo franqueza e suavidade em seu tom de voz, para que o irmão não pensasse que ele estava bravo. Isso não ajudaria em nada. -Eu quero te ajudar, irmãozinho e pra isso eu preciso te entender.
Itachi estendeu a mão direita para o lado onde achava que estava Sasuke, mas apenas tateou o ar. O menor deu um suspiro pesaroso e guiou sua mão até os cabelos que Itachi sabia serem escuros, mas diferentes dos dele, já que o mais novo possuía um cabelo negro-azulado intenso e brilhante. Ao menos era. Itachi se perguntava se a aparência do irmão estaria melhor agora, já que havia passado alguns dias em casa, se alimentando bem, livre de drogas e de quaisquer outras coisas que pudessem prejudicar sua saúde.
Sasuke não teve nenhum efeito físico por ficar sem a droga, claro que ficou com uma ressaca horrível por causa do vinho que tomou. Dois dias com dores de cabeça e colocando para fora tudo o que comia, mas ausência da droga não causou nada físico. Porém Itachi sabia que a razão do isolamento do irmão e a tristeza evidente em seu olhar eram ampliados pela ausência da droga. Mas ele não queria pensar nisso agora; tinha outras prioridades.
Os cabelos de Sasuke estavam lisos e macios, exatamente como Itachi se lembrava de como eram. Os dois ficaram muito tempo em silêncio, até que Sasuke o afastou com outro suspiro pesaroso.
–Você só ‘tá tornando tudo ainda pior... –comentou Sasuke com a voz pouco mais alta que um suspiro.
–Como quando você mordeu o Naruto, Sasuke? –perguntou Itachi suavemente e Itachi ouviu o outro gemer baixinho, como se tivesse sido flagrado fazendo algo errado e esse comportamento peculiar só tornava tudo ainda mais confuso. -Ele me contou que vocês brigam como o gato e rato o tempo todo, mas uma mordida?
Sasuke imediatamente ficou de pé e Itachi temeu que o mais novo fosse sair do quarto ou que fosse fazer qualquer outra coisa insana, como pegar alguma faca da cozinha e voltar a se mutilar. Um medo gigantesco o invadiu assim que seu cérebro processou essa ideia e Itachi agarrou o colchão com força, tentando se acalmar e não transmitir a insegurança que sentia.
Ele precisava aceitar que seu irmão havia se transformado em uma caixinha de surpresas completamente imprevisível. A instabilidade de Sasuke era parte do que o seu irmão era naquele momento e cabia a Itachi aceitar essa conduta até que o mais novo realmente se conscientizasse que precisava de ajuda, porque só então Sasuke poderia abrir mão de suas incertezas e voltar a ser quem era.
Sasuke começou a andar de um lado para o outro no quarto, seus passos eram rápidos e faziam o piso estremecer quando pisava com força com o calcanhar; Itachi ficou em silêncio, completamente inabalável pela impaciência do mais novo.
–Ele...! –murmurou Sasuke enquanto andava, sua voz tão desesperada que Itachi se sentiu mal por causar isso no caçula. -Nada disso importa! –Sasuke parou de andar. -Nada disso importa se...! –e Sasuke deu uma última volta até ficar de joelhos em frente dele, pegando ambas as suas mãos e segurando com força. -Se eu tiver você! Você não entende isso, nii-san?
Itachi engoliu um seco, tentando suprimir todas as emoções que sentia e se acalmar, mas como era difícil parar de se sentir pena do seu irmão. Sasuke estava desolado e perdido, mas tão perdido que era doloroso presenciar isso. “Tenho que ser forte!” ele pensou, mantendo a expressão inabalável.
Apenas um pouco, mas ele conseguiu vislumbrar um pouco mais do irmão: Sasuke estava fugindo dos vínculos afetivos que formou com não familiares e isso o assustava. Sasuke, assim como ele, cresceu em um ambiente onde não havia um canal entre os indivíduos permitindo que um compreendesse o outro e o apoiasse. Nunca houve isso na sua família, mas Sasuke encontrou isso em outras pessoas e isso o assustou.
Quanto mais assustado Sasuke ficava, mais ele fugia. No passado, ele usou a dor física como meio de eliminar a dor psicológica que sentia, agora eram as drogas, a bala, o doce e o álcool. E ao mesmo tempo em que os vínculos afetivos assustavam seu irmão, Sasuke os desejava com uma intensidade voraz, porque seu irmão precisava se apegar a alguém para continuar existindo.
Era difícil contar toda a dor e a pena que estava sentindo pelo caçula. Itachi queria saber mais. Por que Sasuke tinha tanto medo de criar vínculos? O que é que Sasuke ainda escondia? Porque era obvio que isso era apenas a superfície do problema!
Mesmo assim, por causa dessa necessidade de criar vínculos, o irmão estava sufocando e criando expectativas inatingíveis sobre algo que considerava seguro e perfeito. Era por isso que Sasuke tentava distorcer o amor fraterno que sentia por ele para algo carnal!
Sasuke projetava uma realidade perfeita onde os dois pudessem se amar de todas as formas possíveis e assim “suprir” o buraco deixado pela ausência de vínculos. Sasuke se enganava com a ilusão de um amor, distorcendo o real significado das coisas e criando uma realidade que fazia sentido apenas aos seus olhos.
E isso machucava ainda mais porque Itachi sabia que quem tinha que abrir os olhos de Sasuke para a insanidade disto tudo era ele.
–Sasuke, o que quer que você pense que seja amor... –ele começou, se soltando das mãos do caçula e não permitindo mais nenhum contato físico. Sua voz estava firme, mas ainda assim suave porque ele não queria afastar Sasuke, mas precisava deixar tudo as claras.
Entretanto Sasuke o interrompeu violentamente, se erguendo em um pulo, caminhando até o criado mudo e golpeando o pote de plástico onde estava a torta de limão que caiu no chão junto da colher.
–Não menospreze o que eu sinto! –urrou Sasuke socando o criado mudo. –Não ouse...!
Itachi permaneceu em silêncio, esperando que o caçula acalmasse a sua respiração. Ele não se moveu, tampouco se deixou abalar pela explosão de raiva que o caçula teve, mesmo que internamente Itachi quisesse gritar. Ele desejava que Naruto estivesse ali. Como é que Naruto tinha conseguido acalmar seu irmão nas crises onde Sasuke precisava se cortar para lidar com a dor? Como uma criança de doze anos conseguia lidar com isso melhor do que ele, um adulto de vinte e dois anos?
Essa corrente de pensamentos não o levaria a lugar algum e Itachi forçou sua mente a não pensar em mais nada, exceto em se concentrar para não perder o jogo de cintura àquela altura do campeonato. Sasuke se acalmou mais, recolhendo os objetos caídos do chão e logo voltando a se sentar em sua cama do outro lado do quarto.
–Mesmo que você me amasse, ‘amor’ não é a resposta. –começou Itachi, soando cauteloso até mesmo aos seus ouvidos. -Mesmo isso é insuficiente para eu te ajudar.
Sasuke cortou a distância entre eles em duas passadas largas e pesadas que fizeram o piso retumbar, Itachi controlou suas expressões, mesmo quando o irmão se sentou ao seu lado e o forçou a se virar para o lado direito. O mais novo segurava seus braços com força, quase cravando as unhas em seus antebraços.
–Por que diz isso? –perguntou Sasuke exasperado. -Nós poderíamos...!
Foi a vez de Itachi suspirar, controlando seus batimentos cardíacos e toda a avalanche de incertezas que crescia dentro dele. Itachi não sabia o que esperar! Não tinha a menor ideia do como Sasuke iria reagir e tudo dependeria do que precisava ser dito. Seus ombros ficaram tensos e ele se controlou para não morder os lábios, desejando mais do que tudo poder ver e transmitir sua incerteza em seu olhar para que Sasuke compreendesse.
Itachi estava verdadeiramente apavorado naquele momento, mais do que em qualquer outro momento da sua vida. Porque naquele instante ele compreendia que Sasuke poderia ficar com tanta raiva que se recusaria a escutá-lo, tornando o difícil ainda mais árduo. Assim como existia a esperança de que seu irmão o compreendesse.
Ele inspirou profundamente para se acalmar e delicadamente fez com que o irmão o soltasse.
–Sasuke, –ele começou, tentando firmar a voz. –Eu não fui claro com você na conversa que tivemos outro dia, mas... –Itachi inspirou profundamente. -Eu não consigo... Não posso corresponder a isso e nem posso satisfazer a sua vontade.
Muito tempo se passou sem que o mais novo se manifestasse, o que só aumentou as incertezas e o medo que Itachi sentia. A tensão se acumulava em seus ombros e nuca, fazendo com que até mesmo seu corpo começasse a doer pelo estresse emocional que aquela conversa estava lhe causando. E se Sasuke não entendesse? O que ele faria se isso acontecesse? Como poderia fazer-se compreender para o outro? Como...
–Por quê? –perguntou Sasuke com a voz tão fraquinha como a de um menino que descobria que papai Noel não trouxe o presente dos sonhos.
Itachi sentia que o mundo inteiro estava girando ao seu redor, mas eram só seus membros que estavam tremendo. Ele abrandou a expressão em seu rosto, sorrindo minimamente para o irmão, mesmo sem saber se Sasuke estava vendo seu rosto ou não.
–Por que você é muito mais que isso pra mim. –ele respondeu com sinceridade. -Eu nunca conseguiria te ver como amante porque você é muito, muito mais. –Itachi novamente estendeu o braço e, dessa vez, conseguiu segurar um dos ombros do mais novo. -Você é a minha família Sasuke.
O som de um choramingo baixinho machucou Itachi tanto quanto suas palavras pareciam machucar Sasuke, mas não havia nada que ele pudesse fazer. Aquela era a verdade. Sasuke era o seu irmãozinho, sempre seria. Era uma parte indispensável em sua vida, alguém que ele amou antes mesmo de nascer. E ainda amava, não importava as escolhas ruins, Itachi amava Sasuke, mas não daquele jeito. Por amar Sasuke tanto assim que Itachi precisava agir daquele modo porque só assim ajudaria o mais novo.
Seu sorriso quase vacilou nesse momento, mas ele precisava ser forte pelos dois. Itachi apertou levemente o ombro de Sasuke, tateando pelo corpo do irmão até que conseguiu subir sua mão até os cabelos do mais novo, fazendo uma carícia sutil ali.
–Eu faria tudo por você. –continuou Itachi quando conseguiu reunir a coragem remanescente. -Mas é justamente por isso que eu não posso ceder aos seus sentimentos. Você me entende?
Sasuke fungou, mas não respondeu. Itachi tirou a mão dos cabelos do mais novo para colocá-la sobre seu colo, em seguida ele abaixou a cabeça, se sentindo emocionalmente esgotado por aquela conversa. Seu corpo inteiro parecia dolorido, principalmente a sua nuca e os seus ombros, um vazio gigantesco estava se espalhando dentro dele.
–Você lembra? –ele comentou baixinho. -Somos nós dois contra o mundo. –Ele fez uma pausa, achando difícil continuar. -É isso o que significa sermos uma família.
–Mas...! –murmurou Sasuke com exasperação. -Itachi, nunca foi “nós contra o mundo”! –o irmão fez uma pausa para soluçar ruidosamente. -Nunca houve um ‘nós’ desde o começo!
Ali estava o peso de anos de falta de comunicação na família deles, o mal invisível que Itachi tinha certeza que seria o principal vilão naquela história. O inimigo mais difícil não seria as drogas ou as más escolhas que Sasuke fez, não, era quebrar aquela distância infinita entre os dois. E só talvez... Talvez, fosse tarde demais para remediar as inúmeras sequelas que todos tinham.
Não! Itachi se recusava a acreditar nessa possibilidade! Ele não desistiria da luta sem nem mesmo tentar, porque devia ter alguma outra saída. Não poderia deixar o desespero e o pavor tomarem conta dele naquele momento; precisava ser forte por ele próprio e pelo irmão. Itachi abraçou o corpo de Sasuke, enquanto jogava o corpo para trás, apoiando suas costas no colchão.
–Nunca é tarde demais para que isso aconteça. –ele disse gentilmente. -Eu estou aqui agora, não sou mais algo que você tenha que alcançar.
Sasuke murmurou algo que parecia com o seu nome, antes de voltar a chorar alto contra as suas roupas, agarrando o seu corpo como se fosse o único alicerce que o impedia de afundar de vez no oceano. O sofrimento parecia contagioso, mas Itachi aprisionou todas as lágrimas que desejou derramar.
–Eu te amo! –murmurou Sasuke desesperado e dessa vez Itachi sentiu que o mais novo falava isso apenas como um sentimento fraterno.
–Eu também te amo, irmãozinho. –Itachi disse com afeição, começando a acariciar o topo da cabeça de Sasuke, sentindo as mechas finas e revoltadas sobre seus dedos. –Não importa o que você faça, eu sempre vou te amar.
E que começasse a luta.
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Referências:
(1) – Michael Jordan. Famoso jogador de basquete da MBA, já aposentado que participou do filme Space Jam, da Warner Bross. Ele tem 2.10 de altura.
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