Desejar
10 All the hell breaks loose - Pt. II
Notas iniciais
OITO
All the hell break’s loose
Parte 2
Shizune’s Pov
Não queria ser pessimista, mas dessa vez o destino caprichou na dose de problemas em sua vida. Senhoras e senhores, Shizune estava diante da fórmula do caos: um cego teimoso, um estressado imprevisível e um gigante furioso.
E Murphy poderia piorar a situação, se ela considerasse três pontos relevantes: 1) dois deles eram Uchihas. Não havia um Uchiha que ela conhecesse que não tinha um temperamento difícil, mesmo que Itachi costumasse ser um amorzinho quase o tempo inteiro, Shizune desconfiava que quando era o irmão mais novo em jogo, Itachi mostrasse o seu lado teimoso. 2) Estavam em uma festa enorme, barulhenta, cheia de pessoas e que ainda tinha uma espécie de “parte dois” como em uma franquia de filme de terror barato, como ‘sexta feira 13’ ou ‘a hora do pesadelo’. O que dificultava as coisas para a locomoção segura de Itachi, bem como em achar os dois adolescentes fujões. Isso sem entrar no mérito de haver traficantes ali. 3) Madara Uchiha. Isso era autoexplicativo.
“Uchihas...” Shizune pensou suspirando, até se lembrar que ela era uma Uchiha por associação. “Então também tenho um temperamento difícil?” ela concluiu a linha de raciocínio e fazendo uma careta rápida. Shisui se virou em sua direção, inquirindo com o olhar o que tinha acontecido. Ela apenas fez um gesto de descaso com a mão, voltando a pensar no que era importante.
“O que nós podemos fazer?” ela pensou, mordendo o lábio inferior. Shisui tinha ligado para o irmão enquanto estavam no saguão de entrada, um segurança lhes perguntou se eram os convidados de “Madara-Sama” e, como a resposta foi positiva, eles ganharam os passaportes, que davam acesso a festa no salão colorado e a tal rave, embora devessem deixar Itachi em um tal salão índigo.
O segurança informou que esse tal salão índigo era uma espécie de anexo do hotel, para ‘situações memoráveis’ e que ficava do outro lado da piscina, que por sua vez só era acessível se cruzassem o salão de festas colorado de cabo a rabo. Porém como atravessar uma pista de dança lotada com um cego?
Havia uma parte do salão cheia de mesas redondas, mas estavam tão juntinhas umas com as outras que Itachi ia acabar se machucando ou então derrubando alguma coisa que nenhum deles conseguiria pagar. E tudo naquele lugar parecia ser um objeto que eles não conseguiriam pagar.
–Isso aqui parece uma lata de sardinha! –comentou Kisame com a voz alta. Os olhos escuros percorriam pelo salão. Ia ser fácil achar o filho dele, o garoto tinha os cabelos praticamente brancos quase que no tom dos cabelos da Tempestade!
–Como é que vamos ir pra essa tal salão de festa colorado? –perguntou Shisui em
voz alta para se sobrepor a música ambiente e ao som de conversas.
O marido se virou na sua direção e Shizune mordeu os lábios, pensando no que fazer até que seus olhos se focaram em Kisame. O homem tinha o porte de Lou Ferrigno (3), ela definitivamente não queria conhecê-lo irritado. Um estalo ocorreu em sua cabeça e ela sorriu.
–Kisame-san, você poderia nos ajudar a levar o Itachi pra esse tal salão? –ela perguntou. O homem que era muito mais alto do que ela olhou para baixo e assentiu, sem compreender. –Vá na frente, abrindo caminho. Itachi-kun, você deve andar bem junto do Kisame-san, segurando os ombros dele, ok? Shisui irá atrás de você.
–E você atrás de mim, tipo uma centopeia humana? (4) –inquiriu seu marido com um sorriso debochado.
Shizune franziu os lábios e estreitou os olhos. Aquele era um péssimo momento para se lembrar daquele filme horrível de tão ruim. Francamente, às vezes Shisui se superava. Como foi que ela acabou se casando com ele mesmo? Ah sim, foram flores todas as semanas, filmes de terror com várias tigelas de pipoca amanteigada, idas a convenções de HQ’S e um pedido de casamento bem no dia da sua formatura. Golpe baixo! Seu marido pareceu ler seus pensamentos e o sorriso dele aumentou no mesmo instante.
–... Nos ombros? –inquiriu Itachi incrédulo e ela se voltou para prestar atenção no sobrinho, percebendo que o rapaz parecia inconformado com a solução. –Como num trenzinho do pré?
Ela ia abrir a boca para explicar para o sobrinho que não havia outro jeito, porque passar pelas mesas seria impossível em razão da proximidade dos móveis. Atravessar no meio das pessoas no salão seria mais rápido desse modo, afinal se você vê um homem de mais de dois metros parecendo um tanque militar é obvio que você vai deixá-lo passar. Porém ela não precisou usar nenhum argumento: Kisame guiou as mãos do sobrinho até os ombros, e ela precisava admitir que foi muito engraçadinha a expressão irritada de Itachi, depois se virou para encarar a multidão.
–Certo, senhores e lady, expresso Kisame partindo da estação. –disse Kisame em um tom irônico, enquanto Itachi suspirava em desânimo.
Sua teoria se provou válida quando atravessavam o salão, as pessoas realmente desviavam de Kisame, abrindo espaço, mas isso não tornou a travessia com menos contato humano. Todavia, dos males o menor.
Assim que chegaram do outro lado, veio outro problema: escada. Andar com Itachi junto era complicado, pois precisavam ter certeza que ele não se machucaria por ali. O barulho na pista de dança estava maior e por mais que Itachi fosse inteligente, a sua limitação visual cobrava um preço severo em locais desconhecidos e barulhentos como aquele.
Mas o pior não era isso: eram os olhares. Shizune percebia que as pessoas nas mesas e até mesmo algumas pessoas que estavam dançando olhavam na direção deles talvez pensando algo como “que parentes desnaturados! Trazendo esse pobre homem para um lugar como este?”. Outros observavam Itachi como se ele fosse um ET ou então com pena, um cara em específico chamou sua atenção, ele olhava Itachi atentamente, dando um riso sinistro. Shizune queria tirar o sobrinho dali imediatamente.
Itachi conseguiu subir os cinco degraus, com sua ajuda e a de Shisui, Kisame abriu a porta. Eles caminharam ao redor da piscina oval enorme até chegarem em uma construção no alto de uma escadaria com pouca iluminação. Ótimo, mais degraus.
Apesar das dificuldades, eles conseguiram subir e adentrarem por uma daquelas portas grandes e assim que pisaram no salão, as luzes se ascenderam. O lugar só poderia ser descrito como: “oh!”. O teto era alto, as paredes todas pintadas em um tom de madrepérola bonito, contrastando com o piso de mármore escuro. Havia bancos e, provavelmente, aquele lugar era onde se realizava o casamento de gente chique. De cada lado do salão havia janelas amplas, uma dando vista para o mar e outra para o lago Shinai.
Shisui e Kisame indicaram para que Itachi se sentasse no último banco a direita, para o lado da vista do mar. Shizune foi até o grupo.
–Então o plano é o seguinte. –começou Shisui em um tom objetivo, a testa levemente franzida em preocupação e isso o deixava muito sexy. Malditos problemas que não a deixavam curtir sua lua de mel! –Eu e Kisame vamos pra essa festa lá em baixo, nos separamos lá e, amor, você fica com a festa daqui de cima, Itachi nem ouse sair daqui, ouviu bem? Em duas horas a gente volta aqui, ok?
–Ah ‘tá, porque eu tenho muito lugar pra ir, né? –rebateu Itachi com ironia, mas em um tom ameno, mas que o deixou igual a um menininho irritado.
Shizune deu um risinho baixinho enquanto pensava em como Itachi ficava fofo agindo como um menino. Ela devia mesmo parar de ter esses instintos maternais para com o sobrinho, mas Itachi não ajudava nenhum pouco! Se ela pudesse ter um filho com Shisui, ela queria que seu filhote fosse fofinho e bicudinho como Itachi. Ia ser uma gracinha! E agora ela estava pensando em ter filhos. Ótimo, grande, há dois meses ela nem cogitava a hipótese de ser mãe!
Inconscientemente ela pisou no pé de Shisui.
–Ai! –resmungou Shisui estreitando o olhar para ela.
–Ah, desculpa. –ela disse com doçura. Ok, talvez não tão inconscientemente. –Aliais, discordo do plano.
–E o que a dama sugere? –inquiriu Kisame e dessa vez quem estreitou o olhar foi Shizune, tentando ver se havia alguma ironia ou deboche na voz do outro. Mas não havia nenhum tom desrespeitoso, na verdade, parecia o oposto e ela se sentiu lisonjeada.
–Não concordo em deixar o Itachi aqui sozinho, não com Madara querendo falar com ele ou fazer alguma coisa com ele.
–Isso é algo a se considerar. –observou Shisui em um tom de voz sério.
–Esse Madara é um pé... nos países baixos. –comentou Kisame e Shizune ergueu a sobrancelha. Ok, seu marido e seu sobrinho tinham trava na língua com palavras chulas, mas ela não era tão sensível assim.
–Será que dá pra pararem de falar de mim como se eu não estivesse aqui quando eu estou? –reclamou Itachi com irritação. –Além disso, quanto ao Madara ele provavelmente só vai me propor algo que me fará entrar nesse jogo que ele está jogando. Um presente em troca de alguma coisa, o que eu obviamente recusaria. –esclareceu Itachi em tom firme. –Tenho certeza que ele fará isso.
–É uma possibilidade o que o Itachi disse... –comentou Shisui em um tom contemplativo, segurando o queixo e perdendo-se em pensamentos. –Ainda assim, não quero que você tenha que lidar com ele.
Em resposta, Itachi suspirou como se dissesse “desisto de vocês”.
–Podemos voltar ao ponto? –perguntou Itachi com a voz irritada.
–Acho que vocês deveriam checar uma festa de cada vez porque se combinarem um horário e se desencontrarem, vocês dois vão ficar estressados e rabugentos, descontando a irritação nos garotos ou em nós. –pontuou Shizune com calma. Kisame revirou os olhos e Shisui bufou, mas Itachi assentiu.
–Isso é verdade. –afirmou Itachi em um tom baixo. -Ainda assim, mesmo que eles verificassem uma festa de cada vez há a possibilidade de Sasuke sair de uma festa para a outra, o que só aumentaria ainda mais a raiva desses dois.
–Isso é um complô? –inquiriu Shisui lhe lançando um olhar azedo, do tipo: “em casa a gente conversa”. –Eu sou uma flor de pessoa!
–Dormindo, sim. –retrucou Itachi com firmeza. Shizune assentiu e Shisui ficou indignado. Ele brincava tanto dizendo que Itachi fazia “o combo”, mas certamente Itachi aprendeu isso com o próprio Shisui, porque era isso que o marido fazia no momento.
Kisame bufou revirando os olhos, pondo fim a discussão em família.
–Olha, eu acho que é uma boa a dama ficar aqui com o Itachi. Não sei como é a festa lá em baixo, mas se for o amontoado de gente que ‘tá aqui em cima, é bem melhor a dona ficar aqui. –comentou Kisame com franqueza. –Até porque daqui dá pra ver benzinho a escada de acesso de uma festa e outra.
–Certo, saberíamos que eles estão nessa festa, mas como avisaríamos vocês? –inquiriu Itachi.
–Eu ligo pra vocês, basta deixarem o celular no vibratório no bolso de dentro do casaco. –esclareceu Shizune rapidamente. –Eu sei que não é prudente andar com celular nessas festas, mas que escolha temos?
Todos os demais pareceram concordar com a ideia, mas como só havia dois celulares no grupo, Kisame e Shisui teriam de andar em dupla na busca dos dois adolescentes. Primeiro olhariam a festa do hotel Rokudou em uma hora, depois passariam para trocar informações com Shizune (Itachi literalmente bufou de indignação quando foi voto minoritário nesse ponto) e em seguida Kisame e Shisui iriam para a festa de baixo.
Todavia, assim que os dois homens saíram, os minutos demoraram a passar, quando Shizune achava que tinha passado pelo menos dez minutos e olhava o relógio ela ficava frustrada ao constatar que só haviam se passado um ou dois minutos. Isso era uma tortura para alguém como ela, que não suportava ficar sem nada para fazer. O pior? Dava sono, muito sono.
Itachi não falava, mas o sobrinho sempre foi uma pessoa muito fechada, pelo que Shisui dizia. O jovem se sentava reto, com uma postura austera impecável naquele banco de madeira desconfortável. Nos últimos trinta minutos, Itachi mal tinha se movido, nem comentado algo, mesmo que ela tentasse conversar e diminuir o estresse do outro.
Era quase um milagre que Naruto Uzumaki tivesse conseguido quebrar aquele muro que seu sobrinho colocava entre si e as demais pessoas. Ela particularmente gostava do garoto, Naruto conseguia distrair Itachi com frequência. Itachi sempre parecia mais feliz ao lado de Naruto e até Shisui tinha comentado isso com ela.
Ás vezes seu instinto dizia que talvez estivesse acontecendo alguma coisa entre os dois, mas quando ela pensava nisso, ela se sentia muito mal, como se estivesse cutucando algo que não devia cutucar. Odiaria tirar conclusões precipitadas e acabar magoando ou irritando os outros.
Ainda assim ela queria muito que Itachi fosse feliz.
Na última meia hora que faltava, Shizune já não aguentava mais ficar parada, porque se não iria dormir. Eram quase três e meia da manhã! Ela começou a andar de um lado para o outro, nunca se esquecendo de olhar para a escadaria vez ou outra. Foi então que ela percebeu que estava ficando com as mesmas manias do esposo, o que a fez bufar indignada.
Com um suspiro, ela foi até a janela que dava vista para o oceano, observando a vista com pesar. Shizune olhou para baixo percebendo que havia mais um acesso à praia ali perto, mas com uma escada com mais degraus que a outra e um tanto quanto menos iluminada. Ainda assim ela conseguia visualizar tudo com perfeição.
No último degrau próximo da praia uma mulher estava sozinha num ponto mais escuro. Ainda assim, Shizune via perfeitamente bem a jaqueta de couro e uma echarpe xadrez bonito marrom com azul que a mulher usava, ao menos ela tinha bom gosto. Mas ainda assim Shizune franziu o cenho: o que uma mulher faria naquele canto mal iluminado sozinha? Era imprudência demais! Mas assim que ela pensou isso, uma dupla veio até a mulher. Um usava uma camisa de manga comprida vermelho bordô, usava um boné preto com um desenho de um pássaro alaranjado, ainda assim, por o homem estar de frente para Shizune, ela conseguia ver os óculos estilo Harry Potter.
A outra pessoa estava de lado e usava um agasalho preto, com o capuz abaixado, mas não dava para Shizune ver o rosto dessa pessoa. Shizune observou que a dupla parecia conversar com a mulher, que tinha estendido a mão para tocar na pessoa de capuz preto, mas esta estendeu a mão impedindo o toque.
Enquanto ela observava a cena peculiar, uma corrente de ar gelado invadiu o interior do salão, enquanto o som da porta arranhando de leve o piso lhe fez virar de costas para a janela com o coração na boca, mas felizmente não era Madara; era Shisui.
Shizune deu um suspiro de alívio, pondo a mão no coração, mas logo percebendo pelo olhar atormentado e triste do marido que não haviam encontrado Sasuke ou Suigetsu na primeira festa.
–Shisui? –inquiriu Itachi incerto, ainda sentadinho no banco como um bom menino que era. –É você?
Shisui mordeu o lábio inferior, fazendo uma leve careta e entrou na capela, deixando a porta aberta. O amigo de Itachi permanecia do lado de fora, quase como se fosse um guarda-costas mais assustador do que Kevin Costner foi. O que? Um filme romântico era bom uma vez na vida e outra na morte, além disso Withney Houston era uma diva que merecia ser prestigiada.
–Sim. –murmurou Shisui com a voz baixinha.
Itachi moveu o corpo e era incrível como ele sempre se virava para o lado da pessoa com quem conversava, parecia até que conseguia enxergá-los. Mas Shizune sabia que não.
–Nenhum sinal deles. –afirmou Itachi em um tom resignado, voltando a posição de antes, mas dessa vez sua cabeça pendia para baixo e Shizune queria saber que pensamentos o sobrinho tinha.
Ela lançou um olhar para Shisui que a encarou no mesmo instante, mas nem mesmo o marido sabia o que se passava com o sobrinho; era frustrante. Shisui e ela namoraram por cinco anos, começaram a morar juntos no fim do segundo ano de namoro e em todo esse tempo ela nunca tinha visto o outro tão perdido e frustrado quanto naquele momento. Tudo estava fora de controle e Shizune odiava essa sensação! Era difícil sustentar o olhar de Shisui e ela voltou a observar pela janela, olhando o oceano a sua frente. O céu ainda estava bastante escuro e eles ainda nem estavam perto de encontrar os garotos, o que conseguia transformar toda a exaustão que sentiam em algo ainda mais frustrante.
–Hey, tem uma escada de acesso aqui. –comentou Kisame em um tom quase feliz. –Eu vou indo na frente e te espero lá em baixo, pode ser?
–Certo. –disse Shisui em um tom ameno.
Mesmo que ela ainda conseguisse escutar baixinho a festa no salão, Shizune ouviu os passos corridos de Kisame enquanto descia a escada de acesso à capela. Ela olhou para trás e Shisui veio até ela, colocando um dos braços ao redor dos seus ombros de uma forma protetora. Ela pegou da mão dele e plantou um beijinho na palma.
Itachi simulou uma tosse como se dissesse: “hey, eu ainda estou aqui. Não se esqueçam de mim!” ‘demolindo’ qualquer intenção do casal com sua super audição de super herói cego, apesar de não ser muito parecido com Ben Affleck. Shisui largou o seu ombro e Shizune olhou para baixo, percebendo que a movimentação abaixo estava ainda mais suspeita.
A mulher saia da sua posição inicial e sendo seguida de perto pela pessoa de agasalho preto que agora Shizune percebia ser um garoto. Logo os dois sumiram da sua vista, enquanto que o homem de camisa vermelha tomava o lugar da mulher, tirando do bolso alguma coisa que muito parecia uma cartelinha de tic tac ou uma cartela de comprimido, Shizune não conseguia precisar.
Uma terceira pessoa que ela não tinha visto pegou o objeto.
–Shisui! –ela chamou com alarme, enquanto apontava para baixo. –Olha aquilo!
–O qu... Putz! –exclamou Shisui com raiva.
A terceira pessoa que ela não tinha visto era Suigetsu, os cabelos descoloridos iguais aos da Tempestade não negavam o fato. O adolescente pegou o que tinha na mão do homem, viu a mercadoria e colocou no bolso da jaqueta e só nesse momento Shizune se conscientizou que aquilo deveria ser droga.
–Esses garotos só têm titica de galinha na cabeça, não é possível! –resmungou Shisui com a voz alta pela irritação. –Kisame vai ver isso!
–O que? –perguntou Itachi com apreensão, se erguendo do banco. –O que houve? Acharam eles? Como?
Shizune não conseguia deixar de olhar pela janela, observando o filho de Kisame prensar o homem da camisa vermelha na parede, beijando-o com rapidez, mas foi com ainda mais agilidade que Suigetsu se abaixou, arriou as calças do outro junto com a cueca e colocou o pênis flácido na boca. Imediatamente ela fechou os olhos, dando um gritinho enquanto se afastava da janela e Shisui dizia um palavrão em voz alta.
Um palavrão.
–Mas o que é que ‘tá acontecendo?! –perguntou Itachi exasperado, tateando pelo banco e tentando ir até eles, mas acabando por bater o joelho na quina do banco e gemer com dor.
–Eu vou seguir o grandão e tentar segurar ele, Shizune corre e pede ajuda! –instruiu Shisui correndo até a entrada da igreja. –Itachi senta e fica quieto!
Sem pestanejar, Shizune foi até a entrada do salão com igual velocidade a tempo de ver o marido correndo pelos degraus da escada com rapidez, mas não foi ágil o bastante para evitar o urro de desgosto que Kisame bradou. Estava acontecendo de novo! Igual como aconteceu no apartamento e agora era uma versão ainda mais horrível porque o filho de Kisame estava fazendo aquilo por causa da droga, talvez como pagamento! Apesar dos pesares, a filha do doutor Uzumaki ainda era a namorada de Sasuke e fazer esse tipo de coisa é normal entre namorados, mas aquilo que Suigetsu fazia não era!
–Isso... foi o Kisame? –inquiriu Itachi com pavor.
Shizune queria muito chorar, mesmo que o filho não fosse dela, mas ela realmente sentia pena de Kisame. De algum jeito isso lhe deu mais força para fazer o que precisava ser feito.
–Fique aqui! –ela mandou com o tom de voz choroso e vendo como o rosto de Itachi empalideceu ainda mais. -Já voltamos!
Em momentos como esse Shizune ficava feliz de sempre ter o hábito de correr todos os dias pela manhã. Ela desceu a escadaria com agilidade e correu o mais rápido que podia até a outra festa sem se cansar muito. Apesar do horário, ainda havia gente demais no salão e havia barulho demais ainda, mesmo assim ela não se deixou abater pela música, ficando no alto da escadaria procurando por algum segurança que pudesse ajudá-la e logo viu um perto do palco. Shizune sequer ousava olhar para outro lugar com medo de perder o homem de vista, mas acabou se esquecendo de ver o último degrau para o acesso do salão e acabando por agarrar um homem de meia idade para não cair, pelo susto o homem derramou o conteúdo de sua taça em outro cara ao seu lado.
–Eu sinto muito! –ela disse alto parando de se apoiar no homem que segurava a taça agora vazia.
O homem se virou para encará-la com o semblante fechado, tinha os cabelos grisalhos e olhos escuros severos. O olhar de censura do homem era tão forte que Shizune deixou um ofego estrangulado escapar de seus lábios, mas ela balançou a cabeça de um lado para o outro tentando se concentrar no que precisava fazer: ela precisava levar o segurança até onde Shisui estava. Ponto.
–A senhorita não deveria correr pelas escadas, para evitar este tipo de transtorno. –resmungou o homem com a taça em voz alta. Os olhos escuros cintilavam em seu rumo com desaprovação. Ele se virou para o homem que ganhou um banho de proseco. –Queira me desculpar senhor...?
Assim que o homem se virou, Shizune reconheceu aquele nariz de batata e aquele cabelo castanho ligeiramente arrepiado. Ela nunca ficou tão feliz em encontrar um policial como naquele instante.
–Asuma-san!
O delegado piscou não a reconhecendo e Shizune mordeu os lábios, até que o olhar do homem clareou e ele a reconheceu de vista, mas talvez não se lembrando do seu nome.
–Shizune-san? –perguntou o delegado com a voz incerta! –O que...
–Por favor me ajuda! –ela pediu ignorando completamente o homem de cabelos grisalhos, assistindo o delegado espremer sua camisa molhada. –Vai acontecer uma tragédia doutor, precisa vir comigo!
O delegado a encarou, erguendo uma sobrancelha como se estivesse avaliando a veracidade do que ela tinha dito e isso ao mesmo tempo frustrou quanto irritou Shizune. Ela precisava de ajuda! Naquele mesmo instante! Asuma adotou uma expressão séria, olhando dentro de seus olhos. O homem de cabelos grisalhos se meteu na frente, estreitando o olhar também e Shizune pensou que ele era um intrometido.
–É algum problema na segurança da festa? –inquiriu o grisalho em um tom severo. –Posso pedir aos... Espera um momento, ‘Shizune’, você é uma das convidadas do Madara.
Não foi uma pergunta e isso chamou a atenção de Shizune que finalmente explodiu com a carga de sentimentos que nutria naquele momento. Ela se virou para o homem grisalho, vários centímetros mais alto que ela, com o dedo em riste. Shizune era baixinha, não se considerava ameaçadora, mas ainda assim o homem grisalho deu um passo para trás.
–Você está com aquele crápula? –ela perguntou irritada. –Trabalha pra ele?
–Francamente... –resmungou o homem colocando a mão livre sobre a testa. –Não tenho ideia do que o meu sócio aprontou com vocês, mas devo me responsabilizar por isso. Eu sou Tobirama Senju e sou um dos patrocinadores deste evento.
Shizune arregalou os olhos. Patrocinador? Significava que ela estava comprando briga com alguém tão perigoso quanto Madara, o que, nas entrelinhas, significa ainda mais problema, como se não bastasse todos os outros que tinham.
–Shizune-san... –disse Asuma, coçando a cabeça sem jeito. Era obvio que ele estava na festa como um civil, mas os policiais tem o dever de ajudar a população em serviço ou não! -Eu gostaria de ajudar, mas...
–Pelo amor de Deus me ajude! –pediu Shizune em um tom desesperado. Asuma suspirou cansado, enquanto o tal Tobirama ergueu uma taça e o segurança que ela tinha almejado começou a vir em sua direção. -Tem um traficante estuprando o filho de um companheiro nosso e o pai do garoto vai fazer alguma coisa horrível!
O olhar de Asuma endureceu enquanto sua expressão se tornava séria e compenetrada. Dois seguranças apareceram ao lado deles, ambos olhando diretamente para o tal Tobirama, aguardando ordens.
–Onde? –inquiriu Asuma.
–Por aqui!
Shizune subiu as escadas, abrindo a porta de vidro e logo correndo até o segundo acesso à praia, sendo acompanhada de perto pelos outros homens. Assim que chegaram a escada, passaram a descer os lances com cautela, havia menos iluminação ali, mas ainda assim conseguiam ouvir os gritos de pai e filho.
–COMO É QUE É? –berrava Kisame em altos brados. –REPETE O QUE VOCÊ DISSE?
–SE VOCÊ É SURDO EU REPITO! –a voz de um adolescente soava espalhafatosa. -VAI ENCHER O SACO DO BOI, VELHO! ‘CÊ NUM TEM NADA A VER COM ISSO!
–MOLEQUE NÃO ME PROVOQUE...! –rugiu Kisame com tanta raiva que Shizune ficou com medo.
–KISAME NÃO DEIXA ELE TE PROVOCAR CARAMBA! –berrava Shisui.
–E QUEM VAI ME FAZER PARAR? –retrucou o adolescente em tom de chaquota. -VOCÊ? ‘PAPAI’?!
Havia tanta ironia na voz do garoto que Shizune temeu o pior: que Kisame se descontrolasse e desse uma surra violenta no próprio filho bem ali. Mas, bem, que pai no mundo que ouvisse isso não iria ficar possuído de raiva? Suigetsu estava igual a menininha do exorcista, não Itachi!
–KISAME NÃO! –aquela era a voz de Shisui e só por isso Shizune desceu ainda mais rapidamente os degraus da escada.
–PODE VIR! –zombou Suigetsu com uma risada de escárnio. –‘VEM NI MIM PAPAI’!
Eles conseguiram descer o primeiro lance de escadas, a partir dali ela já conseguia enxergar a cena. Kisame aparentemente tinha batido no homem com o agasalho vermelho, que estava no chão segurando o maxilar, ainda parcialmente nu, com as calças arriadas, ao menos o pênis não estava a mostra. Shisui estava ao lado de uma mureta, olhando para pai e filho como se não soubesse o que fazer. Kisame estava de frente para o filho, ambos no início dos degraus. Shizune estava com medo de descer os últimos lances: Kisame era o Hulk.
Ela gostaria de estar brincando, só que não era brincadeira.
Kisame deu dois passos em direção ao filho e os seguranças parrudos que acompanhavam o tal do Tobirama continuaram descendo os lances de escada até chegarem ao conflito e os dois armários pegaram ambos os braços de Kisame, impedindo-o de avançar contra o filho.
–VOCÊ TEM O QUE NA CABEÇA?-gritou Kisame com raiva, não resistindo a ser afastado do filho, mas tentando gesticular alguma coisa. -HEIN? MERDA? SE O SASUKE COMER MERDA VOCÊ VAI COMER TAMBÉM?
–HÁ!- berrou Suigetsu com raiva, apontando o dedo em riste para o pai. -EU NÃO DEVO EXPLICAÇÃO PRA TU SEU VELHO FRACASSADO E CORNO!
–OLHA AQUI...!
–Você vai me pagar Suigetsu...! –resmungou o homem da camisa vermelha, finalmente se erguendo.
Shizune estava com as pernas tremendo tanto, que ela estava realmente apavorada com a possibilidade de rolar, literalmente rolar, escada abaixo até o meio daquele conflito. Com as mãos tremendo, ela segurou um dos corrimãos, enquanto tampava os lábios com a outra mão, inspirando profundamente para tentar se acalmar e pensar racionalmente.
O tal Tobirama reparou em seu estado e delicadamente segurou em seu braço, servido de apoio para ajudá-la a descer as escadas. O delegado Asuma, em vez de se preocupar com Kisame, correu até o homem caído, tirando das vestes um par de algemas e indo até o traficante, imobilizando-o e colocando as algemas nos pulsos deste. O homem era muito mais jovem do que ela esperava, no máximo, deveria ter uns vinte anos. “E já está nessa vida, meu Deus!” ela pensou atônita, agarrando ainda mais o braço de Tobirama.
Shizune era uma mulher calejada, era uma enfermeira e já tinha visto muitas situações difíceis. Tinha visto o desespero dos parentes quando perdiam um ente querido, o desespero de saber que uma pessoa querida estava gravemente ferida, mas aquilo era irreal de tão horrível. Era um pai e um filho e olha como se tratavam! Isso... Isso conseguia ser ainda mais assustador do que ela jamais pensou que seria possível!
–AI ‘TOU COM TANTO MEDINHO! –zombou o adolescente fingindo se encolher contra o muro e depois começando a rir.
–MOLEQUE...! –berrou Kisame ainda tentando se desvencilhar dos seguranças. -EU ‘TOU TE AVISANDO...!
–SUIGETSU, SEU MERDA, OLHA NO QUE VOCÊ ME METEU! –reclamou o homem da camisa vermelha olhando para trás a fim de olhar para o delegado.
–‘Oi’ pra você também rapaz, sentiu falta da delegacia? –inquiriu Asuma com uma voz quase entediada.
–Infelizmente não, Doutor.
–Que pena, nossas instalações estão abertas pra você.
Shizune e Tobirama pararam de descer as escadas, dando uma diferença de três degraus entre a confusão com Kisame e Suigetsu (e agora com o delegado e o traficante) e eles. Tobirama soltou seu braço, ficando a uma distância respeitosa novamente, ao que ela se sentiu muito grata. Shisui tinha andado dado alguns passos para trás também, olhando em sua direção.
Kisame estava possuído pela raiva e estava tão cheio de adrenalina que os dois seguranças monstros não conseguiam acalmar ele, mesmo que pedissem que o outro se acalmasse, mas quem conseguiria se acalmar? Shisui, percebendo que Kisame ia se desvencilhar dos seguranças, resolveu ajudá-los, tentando controlar a fúria do amigo de Itachi, mas o homem simplesmente parecia um trator.
–Relaxa, eu vou compensar você cara! –disse Suigetsu para o traficante mesmo que olhasse diretamente para o pai. -VOU DAR A MINHA BUNDA PRA VOCÊ COMER! –Shizune viu quando o queixo de Kisame caiu com o choque daquela afirmação enquanto Shizune sentia suas próprias bochechas arderem com vergonha e horror. — PODE ENFIAR UM CASSETETE E TUDO O QUE ’CÊ QUISER DENTRO DO MEU RABO!
–JÁ CHEGA MOLEQUE! –mandou um dos seguranças, mas Kisame nem parecia ouvir. –NÃO PIORE AS COISAS!
Durante um instante Kisame pareceu congelado, mas logo aquela raiva gigantesca estava de volta junto com a força que parecia triplicar. Os seguranças e Shisui não estavam conseguindo contê-lo e Suigetsu parecia provocar ainda mais o pai, parecendo se divertir.
–ORA SEU...! –resmungou o pai.
Não houve santo que deu jeito de aprisionar Kisame e até mesmo o adolescente ficou apavorado com a visão de um homem com mais de dois metros e musculoso correndo vindo em sua direção e depois dando um tapa bem dado na cara do garoto. O rosto de Suigetsu ficou vermelho, os cinco dedos de Kisame bem visíveis na face esquerda do adolescente. Os dois seguranças, Shisui e agora até mesmo o contido Tobirama correram para tirar Kisame de perto do filho.
O garoto colocou a mão no rosto, como se estivesse em choque pelo pai realmente tê-lo batido e Kisame... Kisame apesar de estar com raiva ainda parecia que ia chorar. Shizune nunca tinha visto algo tão desalentador quanto aquilo, aquele gigante estar totalmente irado e completamente arrasado no mesmo instante, sem que ninguém pudesse ajudá-lo.
Suigetsu se recuperou do tapa e começou a tremer de raiva, lágrimas escorriam pelo seu rosto e o traficante começou a rir alto, enquanto os outros homens tentavam conter Kisame. Como se aquilo fosse um interminável circo do terror!
–ISSO! VAI! BATE! –gritou Suigetsu com a voz carregada em irritação e desdém, batendo no próprio rosto e se aproximando do pai, a fim de provocá-lo ainda mais. -BATE EM MIM! ME MATA! ME MATA OU ENTÃO EU VOU CONTINUAR FAZENDO OS CARAS GOZAR NA MINHA BOCA!
Havia quatro homens segurando Kisame, quatro homens que estavam tentando conter aquele gigante de surrar aquele garoto. E quatro homens quase falhando em segurar apenas um! Shizune estava arfando de pavor, ciente de que não estava em nenhum filme de drama, em nenhum reality show, apesar de tudo parecer quase irreal demais para se acreditar. O traficante rindo, o delegando mandando o jovem calar a boca, Kisame quase escapando dos seus quatro mediadores e Suigetsu falando absurdos um seguido do outro... E ela não fazendo nada em razão do choque.
Ela não estava fazendo nada.
–É melhor você parar de rir! –mandou Asuma para o traficante que era o único se divertindo com aquela cena.
–VOU CONTINUAR RECEBENDO BUKAKE E QUER SABER POR QUÊ? –continuou Suigetsu, pondo no rosto um sorriso insano. -POR QUE EU GOSTO DE PINTO! E NÃO É UM VELHO MALDITO COMO VOCÊ QUE SUMIU A MINHA VIDA TODA QUE VAI ME SEGURAR!
–EU VOU TE CURAR NA BASE DA PORRADA SEU INGRATO! –rugiu Kisame, conseguindo libertar um braço, mas logo um segurança conseguiu segurá-lo de novo.
‘Curar’ havia algum jeito de curar isso? De curar esse mal comportamento, esse vício nas drogas? Havia um jeito de remediar tudo isso? Shizune não sabia, a única coisa que sabia é que aquele espetáculo de mal gosto tinha que parar. Ela precisava fazer alguma coisa, mas nenhuma ideia veio na sua cabeça. Aquele era um problema da família de Kisame e ela não poderia se meter, mas todos estavam envolvidos nisso agora. Todos.
–INGRATO? –inquiriu Suigetsu possesso. -VOCÊ É A PORRA DE UMA FALHA DE MERDA DE PAI! –acusou o garoto e dessa vez sua voz saía ferida e rouca. As lágrimas voltaram ao olhar do jovem. -EU TE ODEIO! ODEIO TER TEU SANGUE! EU TE ODEIO!
Kisame fez uma careta machucada e todo mundo, tirando o maldito traficante, ficou estarrecido com aquelas palavras. Shizune não poderia estimar o quanto aquilo tinha machucado o grandão. Os olhos de Kisame não mentiam o quão machucado aquele pai estava. Mas os olhos de Suigetsu estavam tão machucados quanto os olhos do pai e por um momento, só um instantezinho, Shizune viu um menino perdido e não um adolescente revoltado no garoto.
–VOCÊ. É. MEU. FILHO! –gritou Kisame com uma nova determinação no olhar. -MESMO QUE ME ODEIE EU NUNCA VOU DESISTIR DE VOCÊ MOLEQUE, VOCÊ É MINHA CARNE MESMO QUE NÃO QUEIRA!
Aquele pai ainda não tinha desistido. Apesar da raiva, apesar do desgosto e de toda a dor, Kisame ainda não tinha desistido do filho, não iria desistir de ajudar o garoto porque o amava e isso qualquer um poderia ver. Menos Suigetsu que balançava a cabeça em negação, limpando as lágrimas do rosto.
–Como é linda a relação entre pai e filho, não acha delegado? –perguntou o traficante com desdém, um sorriso cínico estava na sua cara e Shizune queria estapear o rapaz.
Aquele comentário foi a gota d’água para ela.
–Mas você fala hein? –pontuou o delegado com uma nota de irritação na voz.
–Onde ‘tá o Sasuke? –inquiriu Shizune com a voz séria para o traficante. O homem olhou na sua direção pela primeira vez com uma expressão de quem tinha acabado de ver um brinquedinho interessante. Shizune não se deixou amedrontar. –Ele era o garoto com o capuz preto, né?
–Lamento, mas as regras do negócio é que só posso oferecer informações se eu tiver algo em troca. –informou o traficante dando um sorriso quase charmoso, embora seus olhos escuros estivessem reluzindo em malícia. Ele ajeitou os óculos na cara, com aquele jeito prepotente. -Você não tem nada do que eu queira, tia.
Shizune estreitou os olhos, cravando as unhas na carne da palma da sua mão para ver se a dor a ajudava a ficar com o foco no que precisava ser feito. Ela lançou um olhar feio ao traficante, que parecia rir ainda mais com isso. Asuma a encarava como se não soubesse o que esperar dela, mas Shizune não precisava da aprovação de ninguém ali.
–ENFIA ESSE PAPO DE AMOR NO CU! –rugiu Suigetsu após conter um fungar. Os olhos fuzilando o pai que voltou a tentar se soltar dos outros quatro que o seguravam.
Com a coragem recém adquirida pela raiva, Shizune desceu os degraus remanescentes, ficando entre pai e filho, virando-se para o adolescente que piscou incrédulo quando ela se voltou para ele.
–JÁ CHEGA RAPAZINHO! –ela gritou, olhando o adolescente com raiva.
Os dedos de Kisame ainda estavam visíveis no rosto do jovem, havia vários vestígios de lágrimas nas bochechas pálidas do garoto que era pouca coisa mais alto que ela. Talvez aquele moleque fosse mais novo que Sasuke. O garoto se encolheu após o seu esporro, talvez pensando se ela realmente tinha gritado com ele ou outra coisa; Shizune não ligava. Ela se voltou para Kisame que arfava ruidosamente, tentando se livrar dos outros.
–VOCÊ, SE CONTROLE! –ela mandou apontando para Kisame, olhando diretamente nos olhos do grandão. -Você é o pai e tem que dar o exemplo!
Suas palavras pareceram ter efeito porque Kisame ofegou, piscando repetidas vezes, enquanto respirava profundamente, parando de tentar se livrar das pessoas que o seguravam. Shizune se voltou para o garoto que a observava com olhos cheios de raiva e desprezo. Ela estreitou o olhar aceitando o desafio implícito e apontou para o garoto.
–E você fica quieto! –ela mandou em um tom baixo, mas inquisitivo.
–CALA A BOCA SUA VACA! –gritou Suigetsu com raiva, saliva quase a atingindo.
Shizune arfou com o xingamento, estreitando ainda mais o olhar e caminhando em direção do adolescente que arregalou o olhar, caminhando para trás até suas costas baterem contra a mureta. Ela não parou até ficar frente a frente com o adolescente, com o dedo indicador tocando o peito do garoto. Atrás de si, ela escutava Kisame ofegando, tentando se controlar. Os dois seguranças, Tobirama e Shisui arfavam pelo cansaço de se esforçarem tanto ao tentar segurar aquela ‘máquina mortífera’.
–Olha aqui mocinho, você está grande demais pra dar chilique e novo demais pra desrespeitar qualquer um aqui! –comentou Shizune com a voz baixa e cheia de raiva. De repente o adolescente não parecia tão diferente de uma criança birrenta de cinco anos que não queria tomar remédio contra a tosse. -Então cale a boca e fique na sua!
O adolescente estreitou os olhos, apertando os punhos com força, talvez pensando em agredi-la, mas Shizune não ficou com medo. Ela continuou encarando o garoto que não conseguiu sustentar o seu olhar, desviando o rosto para observar o mar, fazendo um beiço do tamanho do mundo que serviu apenas para deixá-la ainda mais irritada.
–E engole o choramingo bebezinho! –continuou ela com raiva. Suigetsu voltou a encará-la. -Chiar não vai adiantar nada! –ela insistiu quando o adolescente abriu a boca para reclamar. -Entendeu ou quer que eu desenhe na areia?
O adolescente ainda ficou lhe encarando por alguns segundos, como se estivesse pensando em algo para retrucar, mas Shizune o encarou de volta nessa briga de olhares, que terminou com o jovem desviando o olhar de novo. Ela suspirou com a vitória, se virando para trás e encontrando os olhos de Shisui fixos nela, com aquele brilho especial que ele mostrava sempre que queria fazer amor com ela.
Ao menos alguma coisa boa naquela confusão toda. Não que ela esperasse que tivessem algum tempo para ficarem a sós. Mas Deus, como ela queria passar mais tempo a sós com Shisui!
Indiferentes a sua necessidade de sexo, o traficante foi instruído pelo delegado a se erguer do chão. Os seguranças e Shisui finalmente soltaram Kisame e Suigetsu os contemplava com um silêncio abençoado, se não fosse aquela maldita batucada. Shizune notou que estava com uma dor de cabeça lancinante e nenhum remédio disponível, grande. Tobirama suspirou pesadamente, ajeitando o seu terno que estava torto.
–Francamente, -murmurou o homem com irritação. -eu não acredito que ele precisou chegar até esse ponto...
.. Madara. Shizune sentiu como se tivesse levado um soco no estômago ao perceber as implicações desse comentário aparentemente inocente. Madara tinha planejado até isso? Ela olhou para cima, onde ficava a capela, percebendo que Itachi estava sozinho esse tempo inteiro e que ficaria ainda mais tempo sozinho porque agora precisariam prestar depoimentos na delegacia.
Foi tudo um plano? Até mesmo aquele encontro que parecia uma coincidência sem tamanho? Era difícil acreditar nisso, havia tantas possibilidades, tantos “e se...?”. Não havia meios desse tal Madara ter pensado até mesmo nisso. Ainda assim...
Não parecia impossível.
–Todo mundo venham por aqui. –disse Asuma, guiando-os pela praia. -Tem uma tenda de segurança e apoio no perímetro entre a praia e o hotel.
–Por favor! –pediu Shizune com desespero, o delegado se virou para encará-la. -Nós precisamos avisar o Itachi! Ele ‘tá sozinho ali na capela!
–O que? Aquele rapaz cego está aqui? –inquiriu o delegado com assombramento na voz e Shizune assentiu. Asuma passou a mão pela cabeça, suspirando pesadamente. –Certo, certo, quando chegarmos ao posto de apoio e segurança eu mando alguém ir até lá. Com essa batuqueira toda nem dá pra falar direito no telefone. –concordou o delegado e Shizune expirou um pouco mais aliviada. –Vamos logo, quanto antes terminarmos isso, melhor vai ser.
–Obrigada!
O delegado se virou para encará-la, dando um meio sorriso cansado e logo guiando-os pela praia. Shisui colocou a mão em seu ombro e ela se virou para o marido, vendo um sorriso gentil nos lábios dele e um olhar repleto de orgulho e amor.
–Vai ficar tudo bem. –assegurou Shisui com a voz mansa. –Ele vai ficar bem.
Contrariando suas expectativas, Shisui deu um beijo em sua testa. Não era na boca como ela queria, mas era o suficiente para reassegurá-la de que ele estaria ali e que ela não precisava enfrentar tudo sozinha. Uma parte do pavor que sentia minimizou com isso, mas ainda assim ela não conseguia se livrar da preocupação e daquele sentimento horrível que deixar Itachi sozinho era o pior que poderiam fazer. Sequer tiveram tempo de explicar o que estava acontecendo para ele! E Sasuke ainda estava em algum lugar ali! Fazendo Deus sabe o que!
Mas ela não tinha escolha a não ser acreditar nas palavras do marido. Agarrando a mão de Shisui como se ele fosse uma âncora, Shizune seguiu os demais até a delegacia.
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Minato’s pov
Seu sogro tinha dito que para chegar ao hotel Rokudou demorava duas horas, bom, pela experiência prática de Minato, o tempo poderia ser drasticamente reduzido para uma hora. Claro que no caminho ele descobriu o quão potente um onix pode ser na estrada, jogou roleta russa algumas vezes e ainda teve que lidar com uma esposa psicótica no volante. Mas, bem, ossos do ofício: ele tinha sobrevivido.
Embora, a julgar pelo olhar demoníaco de Kushina, ainda não estava em total segurança. Paciência. Um conselho sábio de Hashirama, devidamente passado às novas gerações, era para deixar Kushina em paz e era isso que ele fazia enquanto caminhava lado a lado com a esposa até o posto de segurança e apoio.
Há mais ou menos dez minutos ele recebeu uma mensagem do sogro avisando que finalmente tinham encontrado Karin e que estavam rumando para o posto. Entretanto a garota não queria sair da festa porque estava esperando o namorado. E de pensar que o mundo seria pequeno o bastante para o seu Naruto trabalhar para o irmão mais velho daquele jovem e que ele próprio tivesse sido o médico de Itachi-kun. Ao menos, Itachi-kun, Shisui-san e Shizune-san eram boas pessoas.
Mas enfim. Ele não pensaria nisso naquele momento.
A intenção do grupo era se encontrar nesse lugar para que todos convencessem Karin a vir com eles. Assim sendo, ele tinha pouco tempo até encontrar os filhos e precisava pensar bem no que faria com os dois. Karin estava drogada, Naruto tinha mentido (e sabe lá quantas outras coisas o filho escondia).
Jiraya tinha dito que garotos na idade de Naruto faziam idiotices mesmo, que mentiam para os pais e que o adolescente provavelmente só fez aquilo para que ele e Kushina não sofressem tanto. Seu pai (na verdade padrasto, mas para Minato sempre seria pai) era um homem sábio e Minato devia considerar essas palavras. Ainda assim...
O ponto é que: mesmo que fosse uma mentira branca, do tipo para não machucar, Naruto mentiu. E ele sabia que precisava conversar a respeito disso com o filho. Uma omissão como aquela poderia causar muitos problemas: Naruto poderia ser machucado de novo por aquele jovem (como diria Mandela: “perdoe, mas lembre-se” e Minato lembrava muito bem do incidente do Rolex), Karin ter alguma complicação em decorrência do uso da droga ou até mesmo uma intoxicação ou algo congênere.
O inferno estava cheio de pessoas bem intencionadas e ele precisava garantir que seu filho não fosse para lá (assim como precisava garantir que a fascinação que ambos filhotes tinham para aquele jovenzinho não se aprofundasse).
Kushina andava rápido e bufando como uma locomotiva vermelha bonitinha. Ele supunha que a tenda de apoio e segurança estivesse em um ponto estratégico, entre a festa na praia e a festa no hotel, pois era um longo trajeto e poderia ocorrer roubos se não fosse monitorado. O lugar ainda deveria ter alguma enfermaria, ou algo assim, mas era só o que ele supunha. Ainda assim, ele conseguia ouvir claramente a batucada alucinante da festa e as luzes vibrantes direcionadas ao céu.
–Quando eu pegar essa garota...! –murmurava Kushina para consigo mesma. Minato sentiu um calafrio passar pela sua espinha e uma compaixão enorme pela filha nasceu dentro dele.
Seria uma bronca ainda pior do que a que ele presenciou após o incidente-que-não-deve-ser-lembrado. Decerto que a esposa não teve a melhor das sortes em seu último encontro com a filha, mas ainda assim precisavam ser pacientes com Karin.
Porque era culpa da omissão deles que Karin e, até mesmo, Naruto tinham caído no mundo das drogas, já que após a morte de Nagato toda a rotina familiar mudou. O desespero de perder alguém é algo realmente surpreendente, não? Sua esposa sempre foi uma mulher extraordinariamente forte, mas quando Nagato partiu foi horrível para ela.
Kushina chegou muito perto da depressão profunda e foi horrível vê-la cada dia pior. Sua esposa era o elemento coesivo da sua família e, como marido, era seu dever cuidar dela, até que Kushina melhorasse. E ela melhorou, com o seu amor e a dedicação em salvar vidas. Minato sabia que a esposa estava mais forte do que antes, porque Kushina era assim. O casamento deles estava ainda mais forte para superar essa crise.
Obvio que ele se sentia culpado por não ter prestado atenção em como seus filhos afundaram no sofrimento sem que ele, o pai, pudesse evitar, porém isso não mudava a situação atual.
Minato tinha consciência que a única coisa a se fazer era aprender com o erro passado e torcer para que conseguissem melhorar a relação com os filhos, antes que fosse tarde demais.
Naruto foi mais fácil de lidar. Assim que Minato conversou com ele, explicando o quão decepcionado ficou com o caçula por ceder tão facilmente ao sofrimento, o garoto realmente parecia ter acordado e seguido seu conselho. Ou talvez realmente não tivesse gostado da crise de paranoia que teve naquele jantar, quando tinha uns quatorze ou quinze anos. No fim, a motivação não importava, os resultados sim, e que Deus abençoe Maquiavel.
Com Karin as coisas eram diferentes, bem mais sombrias. A filha nunca lidou com a doença de Nagato, sobrando para Naruto lidar com o irmão doente e tudo só piorou ainda mais após a morte do primogênito. Minato não tinha noção do quão profundo era o sofrimento da garota, mas tinha que ser remediável e que isso decorria de um conhecimento que o filho mais novo tinha.
E não contava.
(Shoot me down and I'll get up again
Emotions running high with double meaning
Just another day to keep it calm within
Atire em mim e eu me levantarei de novo
Fortes emoções com duplo sentido
Só mais um dia para se acalmar por dentro)
Minato suspirou pesadamente, tentando não se sentir muito magoado por isso para poder se concentrar no que precisava ser feito: Não poderia se deixar afetar pelos problemas e a aparente falta de solução deles. Ele apressou o passo para acompanhar a esposa que tinha acelerado ainda mais a caminhada quando viu a tenda há alguns metros de distância. Quanto mais se aproximava, mais ele era capaz de ouvir a música eletrônica e ver os holofotes de várias cores.
Não era a toa que as pessoas usavam drogas nesses ambientes: estímulo visual e sonoro eram um incentivo aos jovens a “provar” novas sensações e isso era tudo o que os bandidos queriam.
–Eles estão ali! –avisou Kushina apontando para uma direção e logo correndo em linha reta até a entrada da tenda. Minato viu o filho, a camisa laranja que Naruto usava quando saiu de casa era inconfundível.
Minato apenas sorriu quando a cabeleira acaju da esposa ondulou no vento. Karin e Nagato tinham aquele mesmo tom, um gene recessivo peculiar e belíssimo, na sua humilde opinião. Às vezes ele não acreditava que realmente casou com a mulher dos seus sonhos, mas aquela mesma mulher iria falar coisas que iria se arrepender depois se ele não ficasse por perto dela.
–Você não vai vir não, hein? –berrou Kushina em um tom inquisitivo, se virando rapidinho para trás. Minato sorriu.
Não importava que estavam na areia: quando o assunto era corrida, ninguém conseguia vencê-lo. Só Naruto chegava perto, mas enfim. Ele deu um risinho com a lembrança, começando a correr e logo ultrapassando a esposa, o que, provavelmente, não foi a ideia mais genial da noite.
–MINATO! –resmungou Kushina com a voz extremamente irritada, o que significava que os quatro cavaleiros do apocalipse chegaram. –Você também ‘tá querendo morrer?
Só que mesmo que Minato gostasse de viver pacificamente, ele também tinha um lado apreciador da vida louca. Viver com Kushina era prova o suficiente disso.
–Querida, eu vou conversar com o Naruto ali, ‘tá bom? –ele perguntou com docilidade, dando um leve sorriso a fim de acalmar o demônio mais comumente conhecido como a esposa dos seus sonhos.
Que agora era um pesadelo, mas fazia parte.
–Comigo? –inquiriu Naruto fazendo uma careta assombrada.
Minato ficou sério, olhando dentro dos olhos azul-celeste de Naruto, idênticos aos seus, e assentindo com a cabeça. O adolescente engoliu um seco e abaixou a cabeça. Hashirama estava com Karin, segurando o braço da garota que parecia estranhamente confusa e lenta. Maconha dava lerdeza que Karin aparentava ter, já que o MDMA liberava dopamina e serotomina, deixando o usuário elétrico, ainda mais em um ambiente como aquele. Ele queria muito que a filha olhasse em sua direção para ele ter certeza de qual droga era, se bem se lembrasse, olhos vermelhos era sinônimo de maconha, enquanto pupilas dilatadas eram MDMA; mas Karin não olhou.
Então ele iria resolver um problema de cada vez.
Kushina caminhou diretamente para a filha, mas Hashirama ficou no meio das duas; Minato fez um gesto com a cabeça para que o filho o seguisse para mais perto do mar. O vento gelado trazia o cheiro de maresia e de mariscos, e ele se aconchegou na sua jaqueta branca. Ele se virou para Naruto e o garoto o encarava cheio de resolução, em expectativa, apesar de sério, os lábios estavam franzidos e as mãos no bolso, isso em linguagem corporal significava que Naruto sabia que tinha feito algo errado e agora estava com medo.
–Naruto... -Minato começou em um tom sério. -Desde quando você sabia disso?
–Pai...
–Não vou me repetir. –ele viu os olhos do filho se arregalarem em um pavor silencioso, mas por mais que sentisse o constrangimento do mais novo, Minato sabia que aquela situação precisava ser remediada.
Seu filho precisava entender de uma vez que um problema como o de Karin não seria resolvido com outro problema causado pelas mentiras. Minato precisava fazer Naruto falar o que sabia, porque era óbvio que seu caçula sabia de muitos outros segredos. Ele era o pai, precisava saber disso até mesmo para guiar os mais novos.
Não havia tempo para passar a mão na cabeça.
–Eu... Faz uns dois meses. –respondeu Naruto com a voz baixa, evitando olhar para o seu rosto. –Talvez mais. –Naruto engoliu um seco. -Karin e os outros gostam desse tipo de festa e aí eu... Eu sei que eles dariam um jeito de vir.
O pai ficou em silêncio total, esperando mais informações e Naruto ergueu o rosto para encará-lo. Havia um desespero tão genuíno que Minato se sentia nervoso, mas não poderia demonstrar isso. “Acredite em mim!” os olhos de Naruto diziam, mas Minato conseguia perceber as entrelinhas daquele olhar: “isso é a verdade, mas não toda”. E isso contestava a sua autoridade como pai, além de deixá-lo desapontado com o comportamento do filho mais novo.
Minato decidiu ficar em silêncio e aguardar. O filho suspirou exasperado por um momento, fechando os olhos bem apertados enquanto colocava a mão na testa, mas logo voltando a suspirar de novo. Os ombros de Naruto se envergaram como se de repente o garoto carregasse um peso invisível em suas costas.
–Só que o senhor e a mamãe estavam tão felizes com o natal que eu não queria...! –continuou Naruto com a voz falhando pela emoção. O filho fechou os punhos, voltando a ficar com uma postura altiva e lhe encarando com aqueles olhos desesperados. -Era o primeiro ano que íamos comemorar em família de novo!
Os olhos azuis cintilavam em lágrimas não derramadas enquanto Naruto respirava de um jeito ofegante, mesmo que não tivesse feito nenhum exercício físico. Seu caçula estava sendo machucado com aquilo e Minato amoleceu o olhar, apesar de ainda manter a postura séria.
(I can't find a way to fight
This shadow dreaming
Não consigo achar um jeito de lutar
Contra este sonho de sombra)
–Eu não...! Eu não queria que isso acontecesse, entende? Eu tentei evitar, tentei mesmo e eu quase, quase consegui! –prosseguiu Naruto com a voz estridente, estendendo o braço direito e fechando a mão como se tivesse tentado agarrar alguma coisa no ar. –Faltou tão, tão pouco pai!
Naruto deixou o braço cair, virando-se para o lado com uma postura de derrota que não era nada característica do seu Naruto. Os ombros do adolescente voltaram a ficar curvados, Minato observava o filho enquanto se dava conta do quanto o sofrimento fez seu filho amadurecer e ele não sabia se isso era bom ou ruim.
Ele manteria um olhar no filho, mas por hora não pensaria nisso; ele estava desviando do objetivo principal da noite. Minato suspirou pesarosamente, enquanto massageava a testa para organizar seus pensamentos.
‘Faltou pouco’. Aquelas palavras tinham um poder enorme e talvez nem Naruto tivesse compreendido a totalidade disso. Não é como se Minato não acreditasse no filho: ele acreditava. Só que ao mesmo tempo ficava mais e mais clara a noção equivocada do caçula: Naruto achava que podia fazer tudo sozinho. Ajudar a irmã, cuidar da casa, ajudar aquele garoto problemático, ajudar Itachi; seu filho fazia tudo pensando nos outros, não em si. Entretanto, aquela era uma luta de toda a família ou algo que a família de Itachi tinha que lidar, não uma batalha exclusiva de Naruto.
O mais novo precisava lembrar que tinha suas próprias lutas individuais, como passar de ano e se preocupar com o vestibular. Antes de ajudar Karin, ele precisava que Naruto compreendesse onde estava errado, pois caso contrário todos só seguiriam em um caminho de erros.
–Naruto... –chamou Minato com delicadeza e o garoto lhe encarou com olhos muito machucados e cheios de expectativa. -A Karin é minha filha, minha responsabilidade e da sua mãe, nós tínhamos que saber disso. –pontuou Minato em um tom sério, porém delicado. Naruto abaixou os olhos. -Ponha na sua cabeça que sua única responsabilidade é passar de ano e no vestibular de medicina.
Naruto arregalou os olhos, observando-o em choque. Minato pensou que o garoto iria interrompê-lo para comentar alguma coisa, mas o filho apenas abriu a boca em espanto e nada falou. Ele daria tudo para saber o que o mais novo estava pensando, mas isso não era possível. Minato abrandou ainda mais o olhar e deixou um sorrisinho meio melancólico curvar seus lábios.
–Eu não esqueci que o seu boletim deu uma caída nas notas no ano passado, sabia? –comentou ele com um leve toque de humor. Naruto abaixou a cabeça e esboçou um sorriso também. -Como espera passar na federal desse jeito?
Apesar de Minato ter tentado abordar o assunto com delicadeza, tentando apenas fazer com que seu filho se focasse em si mesmo em vez de ser um mártir para com os outros, o garoto não parecia reagir àquilo. Naruto ergueu o olhar e havia uma nuvem que impedia Minato de entender o que o filho estaria sentindo naquele momento e isso lhe deixava apreensivo.
(We're always waiting for the night
Never lost, we can go where the light shines brightest
Estamos sempre esperando pela noite
Nunca perdidos, podemos ir aonde a luz brilha mais forte)
–Eu vou me esforçar mais...! –afirmou Naruto, o olhando com aquele olhar cheio de expectativa e insegurança que os filhos dão aos pais quando estão com medo. Minato sentiu seu coração afundar com essa visão. –Eu prometo!
Minato sorriu satisfeito com a promessa, tentando passar confiança ao filho através desse gesto. Ele caminhou até o mais novo, colocando a mão no ombro do garoto que já estava quase da sua altura.
–Eu sei que vai. É o meu filho, não? –ele perguntou com doçura, tirando a mão do ombro de Naruto para fazer festa nos cabelos do filho e Naruto riu um pouco.
O pai tirou as mãos dos cabelos do garoto, voltando a encarar o mais novo com um ar sério e solene. Naruto parou de rir e o encarou com expectativa.
–Você também me promete que não vai mais esconder esse tipo de coisa de mim?
–Mas... pai! –murmurou Naruto com a voz fraca e contida. -Eu só queria que o senhor e a mamãe ficassem contentes com o resto da família por uma noite! –o garoto o mirava intensamente, os olhos ainda maiores que o normal pareciam duas bolas de gude imensamente brilhantes. -Isso é pedir muito?
Era um pedido razoável, mas também uma alegria falsa.
–Esse era o primeiro natal em família lá em casa depois que o nii-san morreu! Isso significa alguma coisa... né? –continuou Naruto com a voz baixinha, visivelmente tentando não chorar. –Eu achei... Achei que...! Eu só queria que...! Eu queria que tudo fosse como antes...!
Minato suspirou pesadamente enquanto assistia uma onda quebrar na orla da praia, umedecendo a areia até bem próximo de onde estavam. A música ao longe continuava, mas o barulho do mar não combinava com aqueles sintetizadores modernos. Naruto deu um gemido baixo, soluçando audivelmente.
(We're always waiting for the night
Estamos sempre esperando pela noite)
Ele observou o filho abaixar a cabeça, escondendo o olhar atrás da franja loira e apesar da voz do filho ter saído cheia de sentimento, Minato não conseguia evitar supor que havia alguma outra coisa ali. Algo que ele não conseguia captar ainda. Com um suspiro, ele parou de olhar para o adolescente, sequer abraçou filho como era seu costume sempre que o mais novo parecia desolado.
Quando Naruto pareceu se controlar um pouco mais, Minato voltou a encarar o garoto, percebendo que o filho estava com os olhos avermelhados igual àquele dia que Minato se conscientizou que o garoto usava maconha escondido. Não era uma boa lembrança e certamente não vinha em um bom momento.
–Por mais nobre que seja a sua intenção, –comentou Minato com a voz séria, voltando a ficar com a expressão controlada. -isso não muda o fato de que você omitiu coisas que nós precisávamos saber.
O garoto suspirou exasperado, enfiando a mão nos cabelos que eram de um tom de loiro dois tons mais claro que os dele, por insistência de Kushina para que todos usassem xampu de camomila para o loiro não desbotar. Ninguém era louco de contrariar sua esposa. E se lembrar da esposa lhe fez lembrar que não poderia demorar muito com Naruto, caso contrário a situação com Kushina e Karin seria ainda pior.
–Agiu por conta própria. –continuou Minato no mesmo tom. -Era pra sermos um time.
–Eu sei mas...! -tentou remediar Naruto voltando a ficar desesperado.
Minato apenas ergueu a mão, pedindo silêncio, sem nunca deixar de olhar de um jeito sério para o filho. Naruto imediatamente ficou quieto, os olhos cintilando perdidos em sua direção.
–Eu achei que pudesse contar com você, Naruto... –murmurou Minato com a voz baixa e calma. Naruto arregalou o olhar completamente atônito e Minato se sentiu horrível por dizer isso, mas era absolutamente necessário para que Naruto entendesse o seu ponto. -Mas o que fez hoje foi muito errado.
Minato começou a caminhar em direção a Kushina e Karin, conseguindo ouvir os gritos da esposa dali. Precisava terminar essa conversa com Naruto agora, deixá-lo de castigo no quarto de Hashirama, em um lugar onde ele soubesse onde o garoto estava, e depois poderiam todos ir para casa. Definitivamente, aquele era o segundo pior natal da sua vida.
–Pai...! –chamou Naruto com a voz desesperada.
–Não minta mais pra mim, Naruto. –continuou Minato, parando de caminhar e se virando para encarar o filho. -Fica difícil confiar em você quando você age assim.
Sem reparar em como mais novo reagiu a isso, Minato voltou a caminhar para onde a esposa, a filha e o sogro estavam.
–Vá para o quarto do seu avô. Nem preciso falar que você ‘tá de castigo, né? –concluiu Minato, pensando em pedir para Hashirama depois ir checar o mais novo. -Só vai sair de casa quando for pra trabalhar, quem sabe assim você não começa a estudar logo pros exames da federal. E nada de internet também.
–Mas...! –tentou Naruto correndo em sua direção.
–Entendeu? –disse Minato em tom sério.
–Eu... –os olhos do filho brilhavam com uma teimosia muito ‘Senju’, mas de repente esse brilho se apagou. –Entendi. Vou pegar o cartão magnético com o vô.
Minato sorriu em aprovação, mesmo que o filho não estivesse lhe vendo. O pai colocou o braço ao redor dos ombros do filho e eles caminharam até onde estavam os outros.
–Ótimo depois que conversarmos com sua irmã nós vamos até lá te pegar e ir pra casa. –concluiu Minato com um pouco mais de esperança. Pelo menos um problema resolvido. –Certo?
Naruto assentiu. Assim que chegaram, Minato viu que a situação estava muito pior do que ele esperava. Hashirama estava entre a filha e a neta, tentando acalmar uma Kushina possuída, o que, por si só, já era a visão do inferno. Karin parecia alheia a tudo o que causava na mãe e Minato nem sequer conseguia pensar em um meio da garota se conscientizar disso no momento porque ela estava no efeito da droga.
–PAI SAI DA FRENTE! –rugia Kushina. Mas Hashirama não obedeceu.
–Querida... –Minato chamou a esposa com o seu tom de voz mais amável possível.
Ali era um posto de apoio e segurança, não poderiam causar um atrito justamente ali. Karin era maior de idade, fato, mas ainda assim agressões em família era um crime e Minato acreditava que Karin entenderia melhor a situação assim que eles a levassem dali e o efeito da droga passasse.
Kushina lhe lançou um olhar desesperado e completamente irritado. Sua esposa qualquer dia desses desenvolveria um problema cardíaco ou mesmo um quadro de pressão alta por conta disso. Minato olhou a filha mais velha, que se escondia atrás do avô. O filho mais novo se adiantou, aproveitando que a mãe e a irmã ainda não estavam brigando e pediu o cartão magnético do quarto, sem nunca erguer a cabeça, muito possivelmente refletindo toda a confusão que causou.
(So come with me
And we can go where the light shines brightest
Então venha comigo
E podemos ir aonde a luz brilha mais forte)
Seu sogro entregou o cartão, Naruto o pegou e sem dizer mais nada começou a correr em direção ao hotel. Hashirama observou o neto por um momento, logo saindo de sua posição para seguir o adolescente. Percebendo a deixa, Kushina se adiantou em direção a filha.
–KARIN UZUMAKI, OLHA O SEU ESTADO! –reclamava Kushina com a voz desgostosa e estridente. -QUANTAS VOCÊ TOMOU, HEIN? E CADÊ O INCONSEQUENTE DO SEU NAMORADO PRA EU DAR UMA SURRA NELE? CADÊ?
–Não bate no meu gato não, mamãe! –resmungou Karin em um choramingo, fazendo um beicinho dengoso. Depois ela abriu um sorriso. -Ele me faz feliiiiiiiiiiiiiiiiiz!
–KARIN...! –rugiu Kushina
Rapidamente, Minato tomou a segunda escolha menos genial da noite ao ficar entre as duas mulheres. Hashirama iria cuidar de Naruto, então ele não precisava se preocupar com isso por enquanto. Minato deveria se ocupar apenas com essas duas mulheres.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!–MINATO! –ralhou Kushina com a voz perigosa e Minato sentiu o calafrio horrível pela sua espinha. -SAI DA FRENTE!
–Oi papai! –saudou Karin com a voz alegre. -Isso é mau, né?
Ele olhou para trás rapidinho e viu. As pupilas da garota estavam dilatadas, o que significava que ela ingeriu MDMA mesmo, mas ainda assim Karin estava estranha. Não que Minato fosse um toxicologista, sua especialidade era completamente diferente, mas na faculdade eles estudaram isso. Era natural um usuário de MDMA ficar “solto”, porque esse era o efeito da droga, mas Karin parecia estranhamente... Confusa.
(Stay all night, run away all night
We'll stay all night, run away all night
Stay all night, run away all night
We'll stay all night, run away all night
Fique a noite toda, corra a noite toda
Ficaremos a noite toda, correremos a noite toda
Fique a noite toda, corra a noite toda
Ficaremos a noite toda, correremos a noite toda)
Minato olhou para a esposa, observando Kushina inspirar e expirar lenta e ruidosamente, os punhos bem fechados e o bico gigantesco que significava problemas. Continuava linda, Minato tinha que tomar cuidado para não fazer uma cara muito idiota porque se não ia piorar tudo, só que havia algo de muito sexy em ver sua esposa tão irritada. Kushina sempre foi muito bonita, mas quando ficava com raiva era realmente, realmente um demônio. Um lindo demônio que lhe faria ir para o inferno com um sorriso besta na cara.
–Kushina querida, se controla! –ele pediu com a voz mais amável o possível, se funcionasse, ele poderia se considerar um amaciador de feras. -Estamos em público!
Pena que não funcionou. Kushina estreitou os olhos. Por favor, que Deus tivesse pena da sua alma, porque ele estaria morto dali algumas horas.
–Querido, eu te amo, mas enfia no quinto dos infernos essa calmaria porque em mim não vai funcionar, sacou? – respondeu Kushina apontando o dedo em riste para ele e sibilando. Sibilando. Ele estava mais encrencado do que jamais pensou que estaria. -E você mocinha...! Que papel bonito, hein? Servindo de mulher de bandido, toda lascada nesse muquifo barulhento! O que é que eu faço com você, hein? Não vê o desgosto que ‘tá causando na gente, hein? Responde pra sua mãe!
Karin colocou as mãos em seus ombros, escondendo o rosto nas suas costas. Os olhos cinza chumbo de Kushina se arregalaram com uma raiva mortífera, parecendo ainda mais uma fumaça de um incêndio devastador.
Ele estava a espera de um milagre para acalmar a esposa.
–Papai...! –choramingou Karin de maneira infantil. -A mamãe ‘tá medonha de novo! –Foi então que Minato começou a sentir as lágrimas molhando suas costas. Ele se voltou para o lado da filha. -Ela grita e a minha cabeça dói!
–AAAAAAAAAAAAAAAAAH! E DE QUEM É A CULPA, HEIN? –gritou Kushina com irritação, bufando em seguida.
Minato se virou para abraçar a filha, a garota estava muito quente, talvez até mesmo estivesse com febre. Com o grito da mãe, Karin começou a chorar ainda mais intensamente, a situação saindo do seu controle e lhe deixando completamente apreensivo.
(Push and shove against the thoughts you left me with
Every picture of regret my expectation
Faço esforços contra os pensamentos que você me deixou
Toda imagem de arrependimento, minha expectativa)
Kushina precisava se acalmar e eles precisavam tirar Karin dali e fazer alguns exames simples na garota, como algo para verificar a pressão, mas...
–ENGOLE O CHORO! – gritou Kushina. -ANDA! ENGOLE O CHORO!
–Senhores... Está acontecendo algo? –perguntou alguém. Minato se virou para encarar um homem vestido de branco, talvez algum outro médico ou enfermeiro.
–Pode deixar, eu vou tomar conta disso. –disse Minato, sorrindo para o desconhecido.
–Mas ‘tá doendo! –choramingou Karin entre um soluço e um fungar. Minato abraçou a cabeça da filha, percebendo como a garota suava na nuca, mesmo que estivesse uma noite fria.
O desconhecido não parecia muito certo se Minato conseguiria lidar com as duas, mas Minato não lhe deu bola. Em vez disso, ele se voltou para a esposa com um olhar sério e Kushina ergueu a sobrancelha, se acalmando apenas um pouco. Karin o abraçava, escondendo o rosto em seu peito, olhando rapidinho para cima, como se pedisse ajuda para ele; era de partir o coração de qualquer pai.
(Your emotions can't hide behind those eyes
Conversations come quick to steal me back again
Suas emoções não podem se esconder atrás desses olhos
Conversas logo chegam para me roubar de volta)
–Vamos Kushina, Karin você vem com a gente. –ele disse em um tom sério.
–Minha cabeça ‘tá doendo! –balbuciou Karin, começando a tremer e Minato estava ficando seriamente preocupado com o comportamento da filha.
Isso não era um sintoma da droga. Isso tinha que ser alguma outra coisa e ele precisava saber da resposta o quanto antes porque não tinha um bom pressentimento quanto a isso. Acima de tudo, Kushina precisava se acalmar agora, ele sozinho não conseguiria dar conta de tudo, era fundamental o apoio da esposa para que Karin compreendesse a situação, só assim conseguiriam se livrar daquela noite interminável.
–Ah, muito bem, né belezura! Fica tomando essas merdas por aí dá nisso! –reclamou Kushina, mas, ao menos dessa vez ela não estava gritando. -Vamos pra casa e lá a gente medica você e ai de você se eu ouvir um pio no carro sobre esse elemento que você namora! ‘Tá me entendendo Karin?
(Stay all night, run away all night
We'll stay all night, run away all night
Fique a noite toda, corra a noite toda
Ficaremos a noite toda, correremos a noite toda)
–Obrigada mamãe... –falou Karin com a voz baixinha, quase não dando para ouvir por causa do barulho da festa. -A senhora também ‘tá bonita.
Karin estava desorientada... Estava com dor de cabeça... Suava muito... E tinha usado MDMA, uma droga sintética capaz de fazer o usuário ficar com o corpo super aquecido, sendo necessário tomar certa quantidade de água para que o organismo não reaja mal as altas temperaturas, porém o organismo não conseguiria digerir a água. Além disso...
“Vamos...! Se lembre!” pensou Minato com desespero, enquanto ajudava a filha a caminhar.
A esposa tinha parado de caminhar e parecia que estava ficando novamente super irritada de novo, o pior momento o possível para isso acontecer.
–Como é que é? –inquiriu Kushina, sibilando outra vez, com um dos punhos muito apertados, como se fosse esmurrar alguém.
Minato lembrou.
–Kushina...! –exclamou Minato em choque.
–Não, Minato, nem tenta...! –reclamou Kushina olhando em sua direção. -Não bastasse o que aconteceu com o nosso Nagato e ainda temos que ver a nossa filha acabando desse jeito? Eu me recuso, entendeu?
–Nii-san... –murmurou Karin com a voz fraquinha, ela estava com os olhos se fechando e Minato não poderia permitir isso.
Ele se voltou para a filha, tentando conter o desespero crescente e o pavor que cresciam dentro dele. Minato precisava ficar calmo se quisesse chegar a algum lugar e assim impedir o pior. Kushina e Karin precisavam dele e ele não poderia falhar. Com delicadeza, ele segurou o rosto da filha, limpando as lágrimas e fazendo a garota o olhar com as pupilas muito dilatadas ainda, o rosto da filha estava muito quente, o que confirmava que ela estava com febre. Karin começou a tremer em seus braços.
–Filhota? –ele perguntou com doçura.
A filha piscou, tentando olhar em sua direção, mas seus olhos estavam perdidos e Karin gemeu baixinho, voltando a se aconchegar em seu corpo. Minato sentia o corpo da filha quente e trêmulo: precisavam de uma unidade de saúde, rápido. Atrás dele Kushina murmurava um “não me diga...?” baixinho. Minato não se permitiu explicar a situação para a esposa, o tempo era precioso nessas situações.
–Fiz algo de errado de novo? -Karin respondeu ainda muito confusa e com a voz chorosa de novo.
–Não, não fez. –respondeu Minato, tentando sorrir, mas havia um gosto amargo na sua boca. Ele olhou para a tenda de apoio e se perguntou se lá havia uma enfermaria também, precisava que tinha uma. -Vem com o papai que a gente vai dar remédio pra você, ‘tá?
A filha deu um sorriso bobo e antes que Minato a pegasse no colo, Karin caiu no chão começando a se tremer freneticamente. Por um instante de puro horror, ele sentiu o seu corpo inteiro travar ao ver a filha se contorcendo no chão. Ele era médico, já tinha visto isso antes, mas nunca com a sua filha. Kushina foi mais rápida, caiu de joelhos no chão forçando Karin a se deitar de lado, erguendo o queixo de Karin com delicadeza enquanto a garota convulsionava.
–MINATO! –gritou Kushina com desespero, olhando para ele com aflição.
O torpor finalmente o abandonou e Minato contou os minutos no relógio de pulso, tentando controlar a sua mente enquanto via a filha convulsionar no chão sem que ele pudesse fazer qualquer coisa. O desconhecido que encheu o saco há poucos instantes estava de volta, quase que tentando pegar Karin no colo, mas Minato o reteve, voltando a olhar para o relógio. Um minuto.
–Espere! Não faça nada!-ele mandou em tom urgente olhando o relógio. –A convulsão tem que parar pra ela ir pra mexer nela!
–Você acha que é o que? –gritou o desconhecido. -Um médico?
–É. –ele disse com a voz séria, observando o relógio e vendo que os ponteiros caminhavam lentamente, enquanto sua filha estrebuchava no chão. –Nós somos!
(Stay all night, run away all night
We'll stay all night, run away all night
Fique a noite toda, corra a noite toda
Ficaremos a noite toda, correremos a noite toda)
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