Desconhecido
22 Serpentes não jogam baralho
Notas iniciais
Voltei para o acampamento. Não tinha a mínima ideia de onde ele poderia estar. Até que me dei conta de dois fatores que me quebraram por dentro: a terra úmida estava repleta de pegadas de calçados diferentes das minhas ou das deles e, colado com fita adesiva na barraca, uma folha de jornal com os seguintes escritos em canetão vermelho:
“estamos com teu moleque. senhor Matarazzo quer bater um papinho com você. esteja as 20h de amanhã em midtown, detroit. segunda avenida, casa nº 4336. SEM POLÍCIA.”
Desconhecido
Capitulo 22
Serpentes não jogam baralho
— Última chamada para o voo n°298, com destino a Detroit.
O nosso silêncio era compensado pelo som dos passos apressados no Aeroporto Internacional de Sacramento.
Era o único voo disponível antes do prazo estipulado por Matarazzo e seu bando estourar. Seriam 5h30min aproximadamente de voo com conexão em Nebraska.
— Mello – o ruivo chamou minha atenção – não há mais o que fazer. Vamos antes que percamos o avião.
— Certo.
Matt estava abatido também, mas tentava me animar com tudo que podia. Desde que eu voltara de Old Pine, não havia comido nada. Somente desmontei todo o equipamento e vim embora, ligando para Mail no meio do caminho, avisando para ele comprar duas passagens urgentes para Midtown. Ele ainda brincou, dizendo que preferia Chicago.
— Você sequer trocou de roupa né? – ele sorriu pra mim, enquanto mostrava a identidade para subir a bordo.
— Não tive tempo. Só passei em casa para deixar as coisas e pegar meus documentos – respondi, observando sem interesse minha calça jeans e botas sujas de lama – mas troquei de camiseta, se isso te deixa contente.
— Sim, me deixa contente sim – disse melancólico.
Conversamos no começo do voo, sobre não chamar a polícia. Era ridícula a situação, depois de todos os filmes hollywoodianos que tínhamos visto em vida.
Desembarcamos às 16h23min no aeroporto Metropolitano Wayne County. Ajeitei minha jaqueta no corpo. Nuvens escuras cobriam o céu e logo o mundo desabaria em água, relâmpagos e trovões.
— Então umas sete horas pegamos um táxi até a universidade. É pouco menos de trinta minutos daqui até lá – expliquei, enquanto sentávamos em uma cafeteria do lado de fora do aeroporto.
— Estava pensando que podemos tomar muito no cu se não levarmos a polícia, Melll.
— Tenho medo que machuquem Nate. Ele não tem nada com nada nessa história.
— Nem você tem! – o ruivo apertou as sobrancelhas – Matarazzo não tem mais nada a ganhar contigo. Isso tudo é por orgulho, tenho certeza.
— Orgulho ou não, eles têm Nate. Precisamos tomar muito cuidado com esses filhos da puta e... — suspirei. Minha garganta travada, só de pensar na possibilidade do meu garoto estar jogado em uma sala escura, com os braços amarrados e um pano na boca.
— Vamos fazer assim. Nós vamos ao encontro com eles e assim que soubermos o que eles querem de nós, contatamos a polícia. Eles não vão pedir dinheiro, sabem que tu é mó pé rapado.
— E se pedirem pra me trocar por Nate?
— Acho muito pouco provável. Digo, vocês dois estavam em rede nacional a poucos dias atrás. Matarazzo não é burro pra ir preso e sumir contigo assim, de uma hora pra outra.
— Então não sei o que eles querem cara... argh – passei a mão no meu rosto. Queria gritar com todo mundo dali – Matt, você não pode ir comigo. Eles falaram pra não levar polícia e... Eu tenho medo que eles te peguem também. Prefiro não correr o risco.
— Que idiotice, claro que eu vou contigo! – bateu com os punhos na mesa, fazendo as xícaras pularem. Ele levantou, parecendo irritado e saiu, acendendo um cigarro.
Deixei alguns dólares em cima da mesa e fui atrás dele, que estava encostado em uma parede, fumando e observando o trânsito correr.
— Mail, eu preciso que você fique de olho só. Fique em algumas quadras dali, sei lá, observando se ninguém vai sair comigo desmaiado lá de dentro e me jogar numa van.
— Você é péssimo em convencer os outros, Mello – ele riu – sei que Nate significa muito pra você. Mas você significa muito pra mim, Mell. Não posso deixar você correr esse risco sozinho. Somos parceiros!
Abaixei a cabeça, sentindo meus fios deslizarem minha nuca.
— Por favor – pedi.
Mail fechou os olhos e deu uma tragada demorada em seu cigarro.
— Ok. Mas não ficarei longe e também ficarei com um pedaço de madeira. Sabe que Detroit é sinistra.
— Obrigada – o abracei e ele encostou a cabeça no meu ombro.
— Idiota.
Eram então 19h34 e estava chovendo forte. Eu caminhava de cabeça baixa e com as mãos dentro do bolso do jeans. Gotas de chuva pulavam meu nariz. Finalmente parei em frente à casa n°4336. Uma construção abandonada de dois andares, mato alto e pichada por todas as gangues pesadas de Detroit.
Suspirei e dei a volta pela casa, achando uma porta nos fundos arrombada. O cheiro lá dentro era forte. Alguns panos sujos jogados junto à colchões e latas de refrigerantes abertas. Tocos de cigarro pelo chão e capsulas de calibre 32.
Olhei meu telefone. Logo estariam ali. Matt ficara numa distancia de 300 metros, debaixo de uma pequena ponte, abrigado da chuva.
Meu coração batia rápido.
20h.
Um moleque de mais ou menos dezesseis anos entrou, me encarou e tirou uma arma do cós da calça, engatilhando a arma e apontando pra mim.
— Quieto aí – ele disse, apertando os olhos – você é Mihael Keehl?
— Sim.
Ele pegou um celular descartável, discou um número e me entregou o aparelho. Levei ao ouvido, apertando minha mandíbula.
— Boa noite, Sr. Keehl— era Matarazzo – é uma pena termos chegado a tal ponto. Roberts tentou entrar com recurso, mas não conseguiu nada. Estou numa prisão executiva e, apesar de ser bem confortável, eu não gosto da comida daqui. Consegue imaginar o pior bife com purê que eu comi na vida, então...
— Diga logo o que quer – foi a única coisa que consegui pronunciar. Aquele maldito estava sendo tratado como rei, mesmo depois de tudo que fizera. Eu não podia perder a cabeça ali, com uma arma apontada pra mim.
— Quanta pressa...— ele riu do outro lado da linha – espero que não tenha ninguém rastreando nossa ligação. Uma das maiores gangues de Detroit é totalmente subordinada minha. Eles podem simplesmente sumir contigo e teu namoradinho e nada ser ligado ao meu nome.
— Não há ninguém aqui.
— Que bom então, Sr. Keehl, por mais que seja difícil confiar em você...— ele tossiu – mas então, vamos logo ao assunto. Para ter teu garotinho de volta, quero que volte ao tribunal e retire todas as acusações contra mim. Quero que peça desculpas em rede nacional e assuma que você foi o responsável por tudo que aconteceu a sua empresa. Diga, hm... Que você causou tudo aquilo porque queria a empresa só pra si. Lamente, diga... Sei lá, que infelizmente foi mal planejado teu plano. E que a tentativa de homicídio foi outra jogada tua. Você será preso e eu irei libertar teu garotinho pra te visitar duas vezes por mês na Prisão Estadual da Califórnia. Irá pegar, vejamos... Uns trinta anos, se tiver boa conduta sairá em uns vinte e quatro.
Senti minha cabeça dar uma volta, imaginando trinta anos da minha vida jogados fora porque recusei um emprego. Apertei meus olhos, minha boca seca.
— E claro, terá que fazer isso o quanto antes. A mídia está aos seus pés, é só dar um telefonema — continuou.
— E como eu sei que Nate está bem? Como vou saber que você terá liberado ele em segurança?
— Você conhece o procedimento, Mihael. Terá que confiar na minha palavra... Se pensar em chamar a polícia, saiba que matá-lo será extremamente fácil pra mim e meus garotos. Sabe que na Periferia de Detroit eles são acostumados com execuções diárias.
— E... Eu posso falar com ele antes de falar com a imprensa?
— Deixe-me pensar... Irei deixar, mas só porque gosto de ingleses. Diferente de alemães. Eu acho que os EUA têm muito estrangeiro. Realmente acredito que a candidatura do presidente T. irá resolver muita coisa.
E ele ainda apoiava aquele homem. Matarazzo era o pior do pior.
— Passe o telefone para o garoto ao teu lado— tirei o aparelho do meu rosto – e Keehl. Não faça nenhuma burrice.
Entreguei o telefone para o garoto, que ouviu atentamente o que seu chefe lhe dizia. Observei suas tatuagens e logo no pescoço, tinha uma longa serpente sendo atravessada por três cartas de baralho. Do outro lado do pescoço, três letras má formadas: SMA.
— Ei! – ele me cutucou com o cano da arma, me entregando o telefone novamente. O coloquei na orelha.
— Mello— Nate disse baixo do outro lado da linha. Aquilo me quebrou.
— Nate? Nate, como você está? Eles te machucaram? – meu pulso acelerado e minhas mãos tremiam.
— Eu estou bem, só com um corte na panturrilha. Derrubaram-me com algo de metal lá em Old Pine. Não lembro exatamente como cheguei aqui.
Eu queria desesperadamente perguntar se ele sabia onde estava, cidade, como era o ambiente, gírias ou sotaque. Mas ambos estávamos de mãos atadas.
— Eu vou te soltar, Nate. Eu te prometo. Vai dar tudo certo, tá bom?
— Mell...
— Ok, já chega! – alguém o cortou do outro lado da linha e então desligou a ligação.
Eu estava com o coração acelerado e uma raiva crescente dentro de mim.
— Me dê o telefone – o moleque ordenou – eu vou embora e você irá esperar dez minutos para sair daqui, está entendido? Se desobedecer, toma tiro.
— Ok... – balbuciei.
Ele saiu e me deixei cair no chão, com as mãos apertando minha nuca. Mandei um SMS para Mail não vir aqui e me esperar exatamente onde eu estava.
Após cinco minutos, um flash veio em minha mente.
Matarazzo havia dito que seus garotos estavam acostumados com execuções, porque moravam em Detroit. Ou seja, Nate estava nas mãos deles, em Detroit. Eu poderia identificar o nome da gangue por suas tatuagens.
Talvez eu realmente não precisasse da polícia.
Se eu ia perder minha vida em uma cela de prisão, por que não perdê-la agora? Eu tinha muito mais a ganhar salvando Nate e mantendo Matarazzo na prisão. Era só o que me interessava. Que Near estivesse seguro e Lorenzo apodrecesse em sua cela chique.
E era isso que eu ia fazer.
11 de dezembro de 2016
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