Desconhecido
12 Moitié de la vie
Notas iniciais
Quando finalmente me afastei, fiquei a milímetros do seu rosto. Podia ver cada traço do rosto do garoto e sua pupila dilatada. Sua respiração controlada. Ele sorriu e voltou a por a cabeça no meu ombro, rindo. Eu também ri. Feito idiota.
Porra Mello.
Desconhecido
– Pressão quatro por seis. Caindo.– Para a sala númeronove!
– Prepare tudo, enfermeira.
– Ele va-aificar bem?
– Por favor, você deve ficar na sala de esper...
– Vá àmerda! Ele vai ficar bem?! — Pressãocaindo...
Pressão caindo.
– Está acordado, doutor!
– Rápido, injete no soro.
– Quatro por seis.
– Éinstantânea.
Capítulo 12
Moitié de la vie
“Mas que merda é essa... Como minha cabeça dói... Por que é tão difícil abrir os olhos? Que caralho de ressaca é essa, maluco...”.
– ... Fumar aqui.
– Tá, mas...
– Vou ter que chamar o segurança?
– Ok, ok.
– Que dor... – consegui resmungar. A lateral da minha cabeça latejava tanto que parecia estar partida em dois pedaços. Consegui abrir meus olhos com uma dificuldade que eu nunca pensei que teria; tudo estava embaçado. Só borrões.
Tentei mexer meu corpo, mas puxões repentinos me faziam desistir. Eu só estava ciente que tudo doía e eu não enxergava quase nada. Minha garganta estava seca e eu queria água. Eu juro que tinha acabado de ouvir Mail...
– Matt? – mas nenhuma resposta veio. De repente, tudo virou um borrão escuro, como se alguém tivesse apagado a luz. Será que eu estava... Morto? Isso é ridículo. Eu me lembraria de ter morrido e sei lá, estaria no inferno sendo cutucado por Satã ou algo assim.
Puxei uma boa quantidade de ar e forcei meus cotovelos contra cama, a fim de me sentar. Devo confessar que foi a pior ideia que tive na minha vida: a dor aguda e excruciante atingiu minha cabeça novamente e eu fiquei imóvel, paralisado, esperando ela passar. Eu tinha a impressão que era mesmo Satã me cutucando com o tridente dele.
Minha posição inicial enfim pareceu mais lógica e confortável, então lentamente me deitei. Já tinha fechado os olhos e só conseguia imaginar os motivos pelos quais eu estava dele jeito. Considerava várias coisas e a ideia de estar morto me passou pela cabeça novamente. Um medinho se colou com Super Bonder no meu coração, que parecia bater tão lentamente...
O silêncio da sala era torturante. Queria falar com alguém, queria saber o que tinha acontecido, era só o que eu queria. Poderiam, tranquilamente, me falar que eu tinha sido sequestrado e estava retirando meus órgãos para venda, mas eu tinha que saber o que estava acontecendo!
Ou vou enlouquecer.
Há quanto tempo estou acordado? Sem me mexer e sem enxergar. Isso é pior do que eu imaginei que seria um dia.
Comecei a lembrar da minha infância monótona em Minnesota. Lembro-me da Srta. Beverly, uma das primeiras professoras da minha vida, explicando que foram os índios Dakota que deram o nome "Minisota" à região e que significava "terra de céu tingido de água"; de como Minnesota era bipolar, com invernos de números negativos e verões quentíssimos; lembro, que aos doze anos quase morri afogado no Rio Mississippi porque inventei de me exibir pra garota que eu gostava; de como Prince era amado na cidade, pois era filho ilustre de Minneapolis; e do meu primeiro cigarro e lata de cerveja, aos treze anos... E como Alanis Morissette era deusa. Ah, os anos 90...
Resolvi abrir os olhos novamente. Minha visão continuava embaçada, porém, um pouco menos. Conseguia distinguir uma janela iluminada e as frestas de luz de uma porta. Não era um lugar que eu conhecia, mas sabia que era um hospital, pois tinha cheiro de hospital. E eu odiava hospitais.
Eu vou enlouquecer.
Eu me sentia cansado e largado. Sentia meu pé formigar e o músculo da minha coxa esquerda gritar “estou com câimbra, estou com câimbra!”.
– Oh, my life is changing everyday… In every possible way, oh, my dreams, it's never quite as it seems, never quite as it seems…
“Oh, minha vida está mudando a cada dia
De todas as maneiras possíveis
Oh, meus sonhos não são bem o que parecem
Nunca como parecem”.
– I want more, impossible to ignore, impossible to ignore and they'll come true, impossible not to do, impossible not to do…
“Eu quero mais, impossível ignorar
é impossível ignorar
eles vão se realizar, impossível que não se realizem
impossível que não se realizem”.
– Por que claro, quando se está internado e fuzilado, as pessoas cantam The Cranberries.
A luz acendeu do nada e meus olhos lacrimejaram. Era Matt.
– Cranberries é música para todo momento... E Mail! Como é bom te ver, irmão...
O ruivo se sentou em uma cadeira do lado da minha cama. Em questão de minutos, minha visão se recuperou e eu pude vê-lo de modo mais nítido. Mas a claridade ainda me incomodava.
– Matt... Por favor, apague a luz.
Ele franziu o cenho, mas fez o que pedi. Suspirou e se sentou na cadeira de novo. Parecia igualmente cansado.
– Como você está, Mello? Me deixou preocupado, seu filho da puta...
– O que aconteceu? – perguntei, fechando os olhos e colocando minha cabeça na posição anterior. Meu pescoço já doía.
– Por enquanto não. Só me diga se sente muita dor.
– Hm... Minha cabeça parece o mar vermelho partido. Minha nuca dói. Estou morrendo de sede, meu pé formiga, minha coxa chora... E meu corpo todo parece pesar duas toneladas. Acho que comi chocolate demais...
Mail sorriu, mas não riu. Isso era estranho.
– Tudo bem. Vou pegar água pra você e chamar a enfermeira para te trazer algo para comer, tá bom?
– Mas Matt, você não ia me con... – e ele já tinha saído do quarto.
Comecei a repassar tudo que eu me lembrava de ter feito por último. Há duas semanas eu tinha comprado um apartamento novo; há oito dias tinha vendido minha casa antiga e discutido com o ruivo por causa disso; há seis dias tinha jogado banco imobiliário com uma velhinha e seu neto numa loja de brinquedos; há quatro dias Nate tinha me dito que ia começar sua faculdade... Nate... e... e há dois dias tinha encontrado com Matarazzo e dito que ia procurar a justiça com Anthony... Há dois dias. O que aconteceu depois disso? Eu sai do escritório, comprei rosquinhas e... Vim pro hospital?
– Mello... Sua água.
Se meu corpo me tivesse permitido, eu teria pulado pro outro lado da cama, tamanho foi meu susto. Consegui mover meu braço de forma muito cômica e dobrar o pescoço, para beber o líquido. Era a fucking água mais gostosa da minha vida.
– Vamos lá, Matt. O que aconteceu comigo?
– Os médicos me disseram pra não contar... Mas fico muito feliz que esteja bem, loira – ele brincou, mas eu escutava sua voz arrastada – mas do que você se lembra?
– Me lembro de sair do escritório na quarta... Um dia antes do natal.
– Hoje é dia 30 de dezembro, quarta-feira.
O olhei fazendo uma careta. Ele só podia estar brincando comigo. Franzi o cenho pra ele, mas Mail não mudou sua expressão abatida. Ele suspirou e me olhou nos olhos. Ele se levantou de forma brusca e eu me assustei.
– Mail, o que voc...
E ele me deu um beijo na testa.
– Estou realmente... Feliz que esteja acordado, seu retardado. Vou ver se a enfermeira que ia trazer sua comida morreu. Já volto.
Eu estava mudo.
Mudo.
Quando o ruivo voltou com a enfermeira, digitava algo no celular.
– Muito bem, consegue comer, Mihael? – a enfermeira rechonchuda perguntou enquanto anotava algo na prancheta. Ela tinha acendido a luz e me dado dois comprimidos para tomar.
– Acredito que sim – respondi. Na verdade, eu comeria até um camelo, tamanho era minha fome, agora que tinha reparado.
– Que bom – ela saiu do quarto e voltou com uma bandeja. Na bandeja, uma tigela com sopa com legumes, tomate morango e bolinho de creme.
– Hã... Sabe, eu gostaria de algo, mais... Sólido? Eu consigo comer.
– Por enquanto, é o que terá para comer, Mihael, lamento. Quem sabe no almoço de amanhã, certo?
Caralhudadocaralhoeuquerocarne!
– Tá... E o bolinho pode ser de chocolate?
– Lamento, mas não.
Filhadaputadocacetevaisefuder!
– Okay... – suspirei e olhei tristonho para a bandeja. A cama se mexeu e eu pude enfim me sentar. Tomei minha sopa, comi meu morango e o bolinho, que, mesmo não sendo de chocolate, foi a melhor coisa que minha língua teve o prazer de provar, naqueles dias.
– E Nate? – questionei o ruivo que olhava pela janela.
– Near começou a faculdade esses dias. Está bem.
– Near?
– Ah – ele riu pela primeira vez – pois é. Lembra que eu ia dar um apelido pra ele? Depois que tu comprou o apê perto do American River, eu fiquei brincando com ele, sabe? Nate River, e Near é “próximo”, então... Tipo... Próximo do River. Near River. Algo assim.
– Você é idiota por demais, velho! – eu ri.
– Eu sei – ele riu comigo – nós dois revezamos esses dias. Eu vinha um dia, ele outro. Mas tu preferiu acordar comigo, por que você me ama mais, né? – o ruivo ergueu as sobrancelhas – eu sempre soube, Mello! Que lindinho!
– Vai se foder, Matt.
Continuamos rindo, até que uma enfermeira brotou na porta e nos mandou calar a boca, pois era quase duas horas da manhã e o ruivo nem deveria estar ali.
– Duas horas da manhã? Então já é 31 ou é 30 mesmo?
– Verdade... É 31. Que bom né! Imagina se você acordasse dia 01 de janeiro! Iríamos poder falar, tipo, “O Mello passou o ano dormindo” ou “ele está dormindo desde o ano passado!”.
– Isso já e velha. Então hoje eu perco a companhia e o champgne e...
O ruivo permaneceu quieto.
– Olha, vou ir dormir no carro, tá bom? Tente descansar você também. Nós vemos logo cedo.
Eu ia reclamar e questionar, pois eu estava dormindo havia uma semana, mas parecia que Matt não dormia há mais tempo ainda. O deixei sair e logo apaguei também.
– Está tudo certo, então?
– Está. Acredito que está. Ele reclama de uma dor forte na cabeça, mas ele não tá falando enrolado, ainda se lembra de tudo e enxerga. Acho que não afetou nada.
– É, mas depois daqu...
– Ele está acordando!
Eu estava fazendo de tudo para que não notassem, mas notaram. Abri os olhos e vi Nate me olhando. Nunca o tinha visto com um olhar tão caloroso, quanto o de agora; eram duas bolas de chamas quentes, de fogo em brasa. Eram olhos tão dourados que dava vertigem.
O garoto tinha fundas olheiras e o cabelo grisalho bagunçado. Usava um jeans azul e camisa verde-musgo.
– Mihael – ele caminhou até mim e me abraçou de forma cuidadosa. Fechei os olhos e aspirei seu cheiro, que até hoje não sei se é perfume ou natural; só sei que muito gostoso – como você está?
– Hm... Bem, Nate. E você? Começou a facul. bem?
– Sim, sim... – ele sorriu. Observei a janela e ainda estava escuro. Eu só cochilei por duas horas ou o que?
– Te deixaram entrar de madrugada no hospital? – questionei. Matt me olhou e colocou oNintendo DS dele no bolso do casaco.
– Na verdade... Você dormiu o dia inteiro. Nós nos falamos hoje às duas da manhã, mas já é quase nove da noite – o ruivo disse, olhando para o Iphone dele – três horas para 01 de janeiro.
– Nossa... – eu olhei para o teto – puta merda, hein. E vocês, o que estão fazendo aqui? Não deveria estar numa festa, ou algo assim? Você não disse que ia ver a bola descer na Time Square, ruivo?
– E eu vou viajar e te deixar sozinho aqui no hospital, Mello?
– Hm... E você, Nate?
– Vim passar a virada aqui também.
– Seus pais...?
– Acham que estou bebendo todas no campus.
A mesma enfermeira gorda de ontem apareceu com uma bandeja.
– Hoje, realizamos seu pedido, loirinho. Comida sólida.
“ah tá, quero ver o quão sólida é isso. É purê né.”.
A comida de hoje era arroz, purê de batata, salada de frango com shoyu e picadinho de carne com molho. Tínhamos também suco de laranja e uma barra de cereal de frutas vermelhas.
“é... dá pro gasto”.
Conversamos durante um bom tempo e sobre tudo. Sobre como estavam sendo as coisas da faculdade do garoto, como estavam as coisas no meu trabalho e em como Mail ainda estava chateado de estar morando tão longe da minha nova casa. Sobre um novo jogo que tinha sido lançado e Matt queria muito comprar. Falamos sobre como meu bronzeado estava sumindo e em como começaríamos o ano. Às 23h, ligamos a televisão do quarto; ao vivo da Times Square.
Estava lotado, como todo ano e eu imaginava toda aquela gente congelando ali, como sempre.
– Eu não sabia que você fazia aniversário nesse mês, Mello – Nate comentou, com a minha carteira de motorista nas mãos – foi dia 13... Já nos conhecíamos. Por que não me disse?
– Hm... Prefiro assim. Sabe, tenho 26 anos agora. Estou ficando velhinho, Nate.
Ele riu e guardou a carteira novamente no bolso.
– Eu vou ir ver se consigo alguma coisa pra nós bebermos antes da meia-noite – o ruivo disse, saindo do quarto.
Ficamos só eu e Nate. Ele sentado logo do meu lado, me encarando e sorrindo.
– Aqui estamos nós mais uma vez, certo? – ele comentou – só que com as posições trocadas.
– Verdade... Foi em um hospital que nos conhecemos. E foi esse mês ainda! Estranho né? Parece tanto tempo...
– Verdade. Ah, esqueci... Lhe trouxe isso – e ele tirou uma fucking barra de Snickers do bolso da calça jeans. Oh my fucking God.
Quando fui lhe agradecer, Matt entrou no quarto com uma garrafa de champagne e duas taças. Ele tinha um sorriso enorme no rosto. Eram 23:50min.
O ruivo aumentou o volume da televisão; no telão da Toshiba, um camarada que eu não conhecia cantava Imagine do John Lennon e as pessoas acompanhavam. Nós também acompanhamos.
– Imagine there's no heaven, it's easy if you try, no hell below us, above us only sky…
“Imagine não haver o paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum Inferno abaixo de nós
Acima de nós, só o céu”.
– Imagine all the people, living for today…
“Imagine todas as pessoas
Vivendo o presente”.
You may say, I'm a dreamer, but I'm not the only one, i hope someday you'll join us and the world will live as one…
“Você pode dizer que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia você junte-se a nós
E o mundo viverá como um só”
Às 23h59min a música fechou. Os segundos começaram a ser contados no telão. Vi o ruivo sacudir a garrafa e Nate rir um pouco do meu lado. Era uma cena bem gay de ser ver.
– 10. 9. 8. 7.
Matt já estava com o dedo na rolha da garrafa, pronto pra estourar e quebrar a janela. A bola já estava descendo e Nate me olhava. Ele entendia perfeitamente. Nós nos entendíamos.
– 6. 5. 4. 3.
Apoiei-me nos meus cotovelos e por mais dor que sentisse, me mantive. Nate havia se sentado na cama, do meu lado e sua mão na minha nuca.
– 2. 1.
Senti o beijo do garoto. Senti seus lábios nos meus e fechei os olhos.
– 0. Feliz ano novo! Feliz 2015!
Escutei a gritaria na televisão, a gritaria vinda dos outros quartos e da rua, o estouro da garrafa, mas, apesar de todo o barulho, ouvia também meu coração batendo rápido nos meus pulsos. Senti a língua de Nate e sorri entre o beijo. Era doce, era macio, era excitante. Nate River era tudo e mais um pouco.
– Heureuse Année Nouvelle, mon ange.
06 de setembro de 2015.
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