Desconhecido

16 Já não há mais diferença


Notas iniciais
Opa, opa, opa! Eu atrasada com o capítulo? Que ideia absurda é essa? Tá louco? hahaha

“tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
Antoine de Saint-Exupéry

Desconhecido

Capitulo 16

Já não há mais diferença
entre a raiva e a razão?

Observei Casey Campbell uma última vez antes de sair.

Ainda me perguntando como ela era capaz de aceitar ir ao baile de formatura com Trevor Wright, de 16 anos, que agora cuspia na lata de lixo e achava aquilo a coisa mais punk do mundo.

No corredor me deparei com a professora de literatura, que o nome me é falho. Ela sorriu para mim e disse uma frase que eu sei que lembraria para o resto do ano letivo – ou da vida.

— Agora era fatal, que o faz-de-conta terminasse assim¹.

Eu não respondi. Sabia que a frase era de algum autor ou canto estrangeiro, mas não entendi o porquê da frase ter sido proferida para mim.

Continuei me guiando até meu armário, coçando meu cabelo duro de gel. Eu estava gostando do Ensino Secundário até metade do ano, mas depois que Wright foi transferido e tive que concorrer meu posto de valentão, as coisas pioraram. Brigamos um par de vezes só na última semana e agora Casey, a garota que eu gostava, tinha aceitado ir ao baile com ele.

Depois de almoçar e ouvir piadas ruins de meus amigos, a aula era de biologia. Devíamos dessecar algum bicho e posso confessar que adorava aquilo, mas não estava com cabeça. Aos 14 anos e já sofria desilusões amorosas?

— Mihael! – ouvi ser chamado pelo diretor Brown, um cara gordo e branquelo, que acreditávamos ainda morar com a mãe – você deveria estar em aula! Quer outra suspensão?

— Talvez – sorri e ergui as sobrancelhas.

— E eu não quero que continue aqui próximo ano. Você vai se formar e se tornar problema de outra escola! Agora marchando para a detenção.

Eu poderia ignorar, mas caminhei; as mãos no bolso do jeans velho e surrado e ainda trajando minha jaqueta de couro preferida, apesar do calor brutal.

Na detenção você via de tudo: moleques feito eu, garotos nerd’s que estavam no lugar errado e garotas encrenqueiras. Nas diversas vezes que eu ia para a detenção, as folhas do caderno de alguém se acabavam em bolinhas não tão bem amassadas.

Mail Jeevas era um garoto ruivo que mal conversava com ninguém. As pessoas até tentavam e ele respondia, muitas vezes gentil, mas logo voltava a ignorar. Nós conversávamos. Ele estava com alguns problemas sérios em casa e por isso já bebia e fumava mais que o comum – que eram dois ou três cigarros por dia; crianças não ganhavam muito de mesada.

— De novo aqui? – perguntei, sentando no chão do fundo da sala.

— Me pegaram fumando de novo. E você?

— Matando aula.

Ficamos em silêncio por bastante tempo depois dessa enorme conversa. Mail jogava um videogame portátil, que era a vida dele. Eu não curtia muito e por isso ficava na minha, sei lá, contando carneirinhos ou contando quando ainda tinha de dinheiro pra gastar em chocolate.

— Vai ao baile? – perguntou, pausando o jogo e me olhando.

— Coisa de bichinha. Tenho mais o que fazer – respondi áspero.

— Ah... – ele sorriu – eu não vou porque não consegui chamar a garota que eu gosto. Ela comenta de vez em quando o quando detesta cheiro de nicotina.

— Quem é?

Ele coçou a cabeça, como se tentasse lembrar o nome da garota. Fechou as sobrancelhas e bocejou.

— Ellie.

Fechei os olhos e quando os abri novamente, estava do lado de fora da escola. Mail chamava Ellie para ir ao baile. A vi balançar a cabeça negativamente e gesticular alguma coisa, enquanto dizia alguma coisa também. Ele voltou, aspecto de derrotado. Faltei bater em suas costas e dizer que estávamos no mesmo barco.

A vida não era um conto de fadas. As mocinhas não saíam como caras feito eu ou Mail, mas isso não quer dizer que elas deveriam sair com caras feito Trevor.

O baile de formatura do Secundário era a coisa mais importante do mundo para os estudantes. Talvez perdesse um pouco sua importância conforme os anos, quando chegássemos ao colegial e lá tivesse um baile ainda maior regado a músicas melhores e talvez sexo.

Especulações.

O baile seria dali duas noites.

Naquela madrugada, liguei meu Discman e pensei no que poderia fazer a respeito.

Eu ia tomar a atenção de Casey de volta. Eu ia esmurrar tão forte o nariz de Wright, que ele ia passar o colegial inteiro se perguntando onde seu nariz fora parar. Era um plano bobo, mas era um plano preciso. O vilão, O mocinho e A mocinha.

Logo de manhã cedo, sai atrás de Wright; não era muito difícil acha-lo, uma vez que mantinha uma rotina muito parecida com a minha. Antes de ir para a aula, ficava em um ponto de ônibus, perto de um bar, conversando com os amigos e depois da aula, o fliperama.

Encontrei-o depois da aula, jogando na minha máquina preferida, Funky Jet.

— Wright! – gritei. Seus amigos me olharam feio, assim com o próprio, mas eu estava preparado. Nick, Franklin e Jimmy me acompanhavam, entusiasmados com a ideia de porrada gratuita – temo que não poderá levar Casey ao baile amanhã.

— E quem vai me impedir? – ele me encarou, peito alto e queixo erguido. Era quase como obrigação aquela postura, com galos de rinha.

Não respondi. Meti uma joelhada na boca do seu estomago, fazendo-o se curvar e logo ouvia gritos ao fundo e meus amigos se atracando com os dele. Aproveitei sua distração com a própria dor e desferi um soco na orelha dele, derrubando-o, atordoado.

Sorri sob a minha vitória, mas cedo demais. Um dos garotos dele me agarrou e me derrubou em cima de um banquinho de madeira que ficou em pedaços. O dono do Fliperama logo apareceu, nos mandando sair. A briga manteve-se do lado de fora, com Trevor totalmente recuperado e pronto para outro round.

Desviei de um gancho que ele quase acertou no meu queixo e aproveitando a brecha, uma cotovelada no seu maxilar o fez sangrar.

Transbordando ódio, ele acertou uma cabeçada na minha testa e depois um chute lateral na minha costela, que chorou. Minha jaqueta preferida havia se rasgado e eu estava de joelho no chão, segurando a dor.

Wright voltou e me chutou o estomago. Cai. Segurei sua perna e o derrubei, desferindo socos sem rumo, quase que por desespero.

Ambos estávamos cansados e isso era evidente. Sangue escorria da boca de Trevor, mas não tanto quanto o líquido vermelho jorrava de um corte na lateral do meu olho. Minha jaqueta no chão, tão fuzilada quanto eu estava. Num último momento, só vi um borrão vermelho, que acreditei ser sangue.

Mas acordei. Era Mail Jeevas. Ele estava com um olho roxo, mas sorria como idiota.

— O que aconteceu?

— Vi você e o Trevor. Ele já tinha apagado, mas o gorila que segue ele ia te acertar. Acabei levando o soco no teu lugar – ele riu – e você é pesado, Mihael. Te arrastar até aqui foi difícil.

Passei a unha no meu rosto liso, sentindo o sangue grudado e seco.

Estava tarde, o sol estava se pondo.

Mais uma vez fechei meus olhos e quando abri estava em outro lugar: em frente a casa de Casey; ela na varanda, com uma blusa branca de gola, colete jeans e legging.

Casey Campbell era uma garota de cabelos castanhos e olhos verdes. Era inteligente e dedicada. Não era nenhuma garota loira de torcida e talvez por isso chamasse tanto a nossa atenção.

— Casey – chamei, subindo os degraus da varanda.

— Mihael, olá.

Ela parecia triste. Talvez estivesse magoada por não ter mais quem a levasse ao baile. E eu estava lá pra resolver seus problemas.

— Bela noite, não? Aceita chocolate? – ofereci um pedaço da barra de chocolate ao leite, ainda intacta.

— Não, obrigada.

Ambos ficamos quietos. A garota observava um papel. Virava de um lado, virava de outro, passava os olhos. Eu prestava atenção nas estrelas e na madeira podre no rodapé perto da porta.

— Casey... – tomei coragem – você que ir ao baile comigo?

Ela não pareceu surpresa, sequer feliz.

— Mihael, você é um cara legal, mas você bateu no Trevor. Eu ia com ele. Agora... Eu não vou mais ao baile.

— Por que não? – questionei, elevando meu tom de voz.

— Porque eu gosto do Trevor, e agora ele não vai poder me levar porque você fez o favor de quebrar um dos dentes dele. Acha mesmo que as coisas são resolvidas assim?

— Mas Casey, eu pensei que você... – parei, o coração acelerado. Ela não estava indo forçada. Ela gostava de Trevor Wright e isso era completamente absurdo – pensei que...

— Pensou, achou, fez tudo errado Mihael. Se eu quisesse ir contigo, eu teria aceitado seu convite – me olhou com mágoa, os olhos lacrimejados – obrigada por estragar tudo. Babaca.

Casey bateu a porta forte quando entrou em casa. Senti meu coração apertar. Senti-me desolado e me senti um babaca mesmo. Eu havia ganhado a batalha, mas Wright a guerra.

Sai da varanda da casa dos Campbell e sentei num morrinho, perto da estação ferroviária. A iluminação ali era fraca e era sempre bom para observar as estrelas. Me sentia abatido e doente.

As lágrimas quentes atingiram meu rosto, queimando de vergonha.

Senti uma mão no meu ombro e eu estava pronto pra derrubar o dono dela, mas era Mail, solidário. O ruivo sentou do meu lado e acendeu um cigarro mentolado.

— Parece que estamos no mesmo barco, Mell.

— Mell? – perguntei ainda com a voz embargada, envergonhado e provavelmente vermelho de raiva.

— Um dia ainda vamos rir disso – ele disse – nós vamos mandar Casey e a Ellie se foderem.

Ri um pouco e limpei as lágrimas do meu rosto.

— E ela vai sofrer um pouco com ele. Ouvi boatos que Trevor tem HIV – o ruivo disse sério, olhando o gramado – é bastante triste, sabe? A vida é assim.

Fiquei em silêncio. Não era uma notícia que me alegrava, por mais maldoso que eu fosse.

— E além do mais, ele é canhoto. Ela vai ter que pedir pro vizinho abrir o pote de picles – ri, imaginando as seguintes cenas — nós ainda vamos rir disso – ele disse.

Abri os olhos, a claridade forte. A janela estava escancarada e um vento úmido entrava sem dó nem piedade. Nate estava enrolado no cobertor ao lado e usando meu braço de apoio. Seu peito subia e descia devagar, o cabelo bagunçado.

Sorri e observei o quarto. Era bom lembrar que tudo na minha vida estava certo. Ou quase certo. E que eu já não era um moleque de 14 anos, valentão e babaca.

Levantei devagar para não acordar Nate. Iria encontrar Weatherly logo às 9:30h. Quando sai do banheiro, Nate estava sentando na bancada, com a testa no mármore, enquanto a cafeteira estava ligada.

— Bom dia – sorri – dormiu bem?

Ele resmungou alguma coisa. Levantou, me beijou ao passar por mim e entrou no banheiro.

— Vou ter que sair. Vai ficar aqui ou voltar pro campus? – gritei do quarto, enquanto escolhia uma cor de camisa.

— Vou voltar. Tenho aula meio dia.

Depois disso, tudo passou muito rápido. Tomamos café juntos e terminamos de nos arrumar. Deixei Nate no campus antes das 9h e às 9:42h eu estava no lugar marcado. Weatherly me encarava sério. Acho que ele ainda não tinha superado a história da lingerie.

— Como eu disse, a audiência está marcada para sexta-feira. A advogada de Matarazzo já veio à público. Ela é boa, portanto temos que convencer o juiz.

— Ela é boa? Em quais casos já atuou?

— Em tantos quanto eu. Em seu currículo, já teve quase dez importantes ganhos, seguidamente.

— Tipo O Advogado do Diabo²?

Weatherly me encarou. Parecia querer rir, mas tomou fôlego e fez que sim com a cabeça.

— Ela se chama Casey Roberts – ele virou algumas páginas da pasta.

Franzi o cenho e algo bateu com um taco de beisebol na área de lembranças do meu cérebro.

— Casey?

— Isso – o advogado levantou as sobrancelhas – algum problema?

— Tem alguma foto dela aí?

— Tem na internet – explicou. Não parecia muito interessado no assunto.

Pesquisei Casey Roberts no Google e logo várias noticiais saltaram a página:

“ROBERTS, ADVOGADA GANHA MAIS UM CASO.

A advogada Casey Roberts, 26, ganhou mais um caso para seu atual cliente: Spencer Augustus, 43, acusado do homicídio de Richard Victor, 16, vizinho de Augustus.

É o décimo caso consecutivo que a advogada ganha em menos de um ano. Roberts vem chamando a atenção de juízos e atuantes do tribunal.

‘Trabalho muito para dar aos meus clientes a vida que tinham antes de tudo. Por isso meus preços são altos’, diz.”.

E sua foto. Era ela.

Casey Campbell.

Cabelos castanhos e escuros, pele pálida, mais magra e séria do que nunca. Olhos de águia.

— Algo errado? – perguntou Weatherly.

— Você acha que mulheres são rancorosas? – perguntei, apagando meu celular, suspirando e massageando minhas têmporas.

— Minha ex-mulher é a prova disso – riu – por quê?

— Por que... Por minha causa, Casey não foi ao baile de formatura, 11 anos atrás.

E eu era o que? Uma espécie de bruxo? Por que tive aquele sonho?

— Isso... É ruim – ele concluiu.

— Um pouquinho.

— É...

28 de outubro de 2015

“como poder ser, gostar de alguém e esse tal alguém não ser seu?³”

Notas finais
Depois deixo a nota aqui. Eu escrevo e qnd salva, 90% da nota foi comida e sumiu