Desconhecido
21 Dores que ninguém nunca sentiu
Notas iniciais
— O que você acha de acampar em Old Pino, no Eldorado? Não chega a ser duas horas de carro. Podíamos ir à noite e voltar no dia seguinte no fim da tarde. Tenho uma barraca confortável, saco de dormir, isolante térmico. Compramos, sei lá, alguns cranberry e um vinho e...
— Eu tenho algumas provas práticas próxima semana – o garoto colocou sua mão sob a minha na marcha e eu o olhei. Os olhos tão dourados quanto no dia que nos conhecemos – mas nós vamos, porque elas pouco me importam.
Desconhecido
Capitulo 21
Dores que ninguém nunca sentiu
(é sentimento mais comum).
Não era estranho ser extremamente acolhedor.
O vento batia contra o material bruto do carro e uivava baixo pelo teto solar. Meus óculos aviadores não escorregavam do meu nariz e as montanhas e estrada lisa e escura, tomavam conta da vista. O céu estranhamente verde e rosa então me lembravam de que eu estava na Califórnia. O ar era diferente e Nate ao meu lado parecia estar contente.
Sentia meu coração cheio.
A cada milha parecia que um problema diferente ficava para trás, tornando-se tão transparente quanto o horizonte.
O pôr do sol sempre foi um momento magnífico.
O garoto ao meu lado sorriu ao falar que já não tínhamos estação de rádio.
— Não boa, pelo menos...
Logo a noite nos engoliu e eu redobrei minha atenção. Nate tinha achado um CD do Eddie Vader de baixo do banco. Queria poder filmar aquele momento, pintá-lo, fotografa-lo, mas nada era mais forte que a lembrança. E eu queria me lembrar da voz rouca do Vader me dizendo que eu não mais precisava retornar, queria me lembrar do rosto sereno de Nate River, enquanto cochilava no banco do passageiro, preso ao cinto. Queria me lembrar do vento e da sensação do chão.
Meu GPS apitou, alertando que eu deveria virar a próxima direita. Pela primeira vez em todo o percurso, vi faróis, indicando que não estávamos sozinhos naquele pedaço de terra. O carro marrom passou direto, como raio. Deveriam estar com pressa.
Pouco se passou e finalmente chegamos à área considerada segura para camping, próxima a um pequeno fio de água que descia o rio. Era o camping mais seguro da região e fiquei impressionado de não encontrar outras pessoas por lá, com seus filhos, cachorros e fogueiras ilegais.
Nate manteve-se cochilando, o que me deu trégua para montar a barraca para quatro pessoas, sozinho e armar os isolantes térmicos e, de forma exagerada, quatro sacos de dormir abertos, que aguentavam temperaturas abaixo de zero. As noites entre florestas costumavam ser gélidas e imperdoáveis para despreparados. Quando terminei com a barraca, me sentei numa rocha próxima ao carro e acendi o fogareiro, esquentando um pouco de água para fazer sopa de cebola.
A lua iluminava toda a floresta e refletia na água do rio.
Eu poderia viver aqui para sempre.
Eu tinha vontade de chorar.
— O que meu cozinheiro está aprontando? – escutei a porta do carro batendo, enquanto enxugava as lágrimas – você é um pouco emotivo, Mihael. Se continuar assim, essa sopa vai salgar de tantas lágrimas.
— Idiota – ri sem jeito – eu só estou feliz.
— Eu sei disso – o garoto se sentou do meu lado e encostou a cabeça no meu ombro, respirando devagar.
— Eu acho que os últimos meses... Foram demais pra mim. Eu estava sufocado cercado da mídia, ás vezes penso em meu pai e minha mãe. No quanto posso estar sendo negligente contigo ou Mail... – confessei enquanto sentia o fundo da panela envolto do caldo grosso – às vezes me sinto péssimo.
Nate continuou quieto, enrolando um de seus cachos grisalhos, me ouvindo e acenando com a cabeça. Quando reparou que eu não tinha mais nada a dizer, se inclinou e me beijou na bochecha. Agarrei seu pulso e o coloquei sentado em meu colo. Ambos tínhamos um sorriso maroto.
Beijei seu pescoço, puxando a gola do moletom. A pele da nuca dele, vermelha de sol se arrepiou. Minha posição já estava desconfortável na rocha, o que fez ambos caírem em direção ao chão. Os mosquitos nos rondando, a fim de devorar nossa carne.
Ele levantou e desligou a lanterna que estava no capô do carro. Um breu instalou-se em questão de milésimos de segundo. Eu só conseguia ver a lua e seu reflexo na água, o fogareiro exibindo uma chama azul e o cheiro da minha sopa de cebola queimando e grudando na mini-panela que não era antiaderente.
O senti novamente do meu lado, empurrando uma caneca na minha mão. Estava quieto e eu não conseguia ver seu semblante na escuridão. Ele derramou algo no copo e eu desconheci o cheiro.
— Licor de Ginja, direto de Portugal – sussurrou contra minha orelha, com o hálito quente. Tomei um gole e rapidamente o álcool aqueceu meu peito. Um gosto semelhante ao da cereja tradicional.
Mais um gole e mais outro.
Senti a mão dele acariciando minha coxa e subindo devagar, até o cós da minha calça. Ele continuou até minha barriga, com seus dedos terrivelmente gelados e eu não queria sair da brincadeira. Segui parado, tomando pequenos goles do licor.
Nate então afastou minhas pernas, sentando em apenas uma coxa. Seus joelhos sendo agredidos pelo cascalho e terra úmida, salvos pelo jeans grosso.
Enquanto uma de suas mãos massageava meu membro por cima da calça, a outra brincava com os fios mais curtos da minha nuca e ele me beijava devagar e intensamente, mordendo meus lábios. Eu podia sentir o gosto de ginja em sua boca e uma quentura crescente no meu ser. Corri minhas mãos por debaixo de sua blusa, apertando a linha das costas do garoto.
River desceu meu zíper lentamente. Neste pequeno e exato momento, pude ver seus olhos dourados, pela luz forte da lua. Olhos felinos.
Por cima da minha boxe, ele continuou massageando, hora apertando, hora passando os dedos pela extensão. Procurei suas coxas e mordi a linha do pescoço com força. Levantei, segurando ele e abri de forma apressada o zíper da barraca. O garoto entrou e tirou o moletom, ficando com uma camiseta branca, em pé no centro da barraca. De joelhos, sem enxergar e trabalhando somente pelo tato, desabotoei seu jeans, desci seu zíper e abaixei sua calça, passando os dentes durante o caminho. Continuou em pé e quieto. Também estava excitado e eu sentia seu tamanho entre o tecido.
— Me chupe, Mihael.
Sua voz parecia trovão em contraste com o silêncio da floresta.
Escorreguei sua cueca e agarrei entre os dedos seu volume. Beijando sua virilha, agarrei sua bunda. Lambi a ponta do seu pênis e senti sua mão na minha cabeça. Enfiei até onde pude e suguei também até onde pude. Os joelhos dele cederam um pouco, mas ele se segurou. Gemeu baixo. Sentia meu próprio tesão preso dentro da minha calça, clamando atenção, contundo não largaria minha tarefa.
Seu quadril acompanhou minha boca, até que ele me pegou pelos ombros e me fez levantar. Eu, porém, não conseguia ficar em pé dentro da barraca, sem que minha cabeça batesse no teto. Pôs as mãos no meu quadril e abaixou minha calça com tudo. Senti um frio instantâneo, com meu pênis saltando para fora. Deitei em cima de todos os sacos de dormir e Nate sentado em cima do meu abdômen, rindo, possivelmente do meu desespero.
O garoto atrevido desceu o quadril, atingindo meu membro. Esfregou-se lentamente nele. Começou com beijos e unhas na batata da minha perna, passou pelos joelhos e só chupou de leve. Agarrou com as mãos e começou movimentos brutos de vai e vem. Mas parou de forma bruta também, rendendo resmungos da minha parte. Ele saiu de cima de mim e escutei seus passos dentro da barraca. Voltou depois com um pequeno tubo em mãos, desenhando no meu tórax. Espalhou com o dedo e baforou ar quente, fazendo-me arrepiar. Chupou e mordeu minha pele, como se fosse uma espécie de doce. Entregou outro tubo em minhas mãos e eu sabia que era um lubrificante. Havíamos conversado sobre isso há quase um mês.
Abri o tubo e senti o cheiro que não soube identificar do que era. Passei uma quantidade exagerada no meu membro e coloquei Nate de quatro, segurando seu quadril e o penetrando devagar. Cravei minhas unhas em seu quadril e o vi gemendo, pedindo mais. O garoto curvou mais as costas, empinando o traseiro e consequentemente me fazendo introduzir mais. Quando eu já o sentia, apertado e rebolando pra mim, obtive confiança e enfiei tudo. Parei para senti-lo e Nate deu um grito abafado.
Não aguentava mais ficar parado e comecei movimentos, seguindo seu quadril nervoso. Senti sua mão em seu próprio membro, masturbando-o.
Uma corrente de energia dançava no meu corpo e só a ideia de amanhecer e olhar todo aquele corpinho branco marcado por mim, me deu mais tesão. Intensifiquei os movimentos. Nossos gemidos se misturaram e eu lambi os lábios secos. Quando quase cheguei ao êxtase, Nate se moveu e saiu da posição. Possivelmente por seus joelhos estarem pedindo clemência feito os meus.
— Eu também quero brincar, Mihael – ronronou no meu ouvindo, chupando meu lóbulo e agarrando meu saco, massageando.
Eu entendi o que ele queria. Era novidade pra mim e secretamente um medo interno crescia. Algo batucava dentro de mim, sempre que eu me imaginava como passivo. Mas ele também era um homem e tinha seus desejos.
Deitei. Near se deitou ao meu lado, passando o lubrificante na minha entrada, me deixando de lado. Abriu minhas pernas, colocando sua coxa entre as minhas. Minhas costas grudadas ao seu tórax, ambos suados. Meu coração parecia querer pular fora do peito, quando o senti atrás de mim.
— Me diga se doer – sua voz bateu contra minha nuca.
Penetrou devagar e me senti extremamente desconfortável. Ele enfiou boa parte de seu pênis grosso em mim, mas não por completo. Eu queria ele inteiro, mas não tinha coragem de pedir.
Reuni forças e pedi baixinho por mais lubrificante. Atendeu-me no mesmo instante, derramando mais do gel e penetrando mais. Ele deve ter sentindo meu corpo resetar e ficar tenso, pois travou. Sua mão começou a me masturbar novamente e eu só podia sentir pequenas lágrimas quentes inundar meus olhos.
Era meu ego.
O ego que eu nem sabia que tinha.
— Mais Nate! – gritei, mas ele continuou parado.
— Você não está sendo sincero comigo, Mello. Não precisamos fazer isso. Está tudo bem – sorriu contra minha pele.
— Nate, eu estou sendo sincero. Pode estar doendo, mas eu quero isso. Quero te sentir.
O beijei com desespero, mordendo seus lábios e sentindo a textura de sua língua. O coloquei contra o chão e por conta própria, sentei em seu abdômen. Coloquei mais lubrificante em seu membro e sentei, encaixando-o inteiro dentro de mim. Ele gemeu de prazer e eu de dor. Mas estava melhor que segundos atrás.
Rebolei tímido, agarrado ao seu tórax e cavalguei pelos vários minutos que passaram. Com as mãos livres, ele seguiu influenciando meu pênis.
— Mais rápido! – instrui, em meio a um gemido.
O clímax chegou primeiro para o garoto, que despejou todo seu líquido dentro de mim. Quase um minuto depois, o sujei com meu gosto. Nate passou o dedo no próprio abdômen e lambeu. Sentia minha entrada grudando e quente.
Deitei ao seu lado, sem querer pensar em mais nada. Só queria abraçá-lo, entrar no mundo dos sonhos e pensar como limparia aqueles sacos de dormir do esperma desta noite. Puxei o cobertor em cima de nós e apaguei no mesmo instante.
A claridade estava irritadiça contra o tecido vermelho da barraca. O sol forte me fez abrir os olhos e constatar que meu namorado tesudo já tinha levando, possivelmente para banhar no rio e vestir alguma roupa limpa.
Quem sabe não preparar um café?
Claro que a manhã me trouxe um desconforto no meu traseiro, mas nada que eu não pudesse aguentar. Nate não era daqueles caras de pornô gay que afirmava que ia de deixar numa cadeiras de rodas. Uma mancha branca no tecido dos cobertores. Eu me levantei e vesti somente a calça jeans, sem camisa ou cueca e sai da barraca trançando meu cabelo.
Nate não estava no rio, nem no fogareiro.
— Nate? – o chamei, olhando para o carro. Calcei minha bota de forma desajeitada e desci até a parte mais funda do rio. Nate sabia nadar, mas nada custava alguma merda acontecer.
Voltei para o acampamento. Não tinha a mínima ideia de onde ele poderia estar. Até que me dei conta de dois fatores que me quebraram por dentro: a terra úmida estava repleta de pegadas de calçados diferentes das minhas ou das deles e, colado com fita adesiva na barraca, uma folha de jornal com os seguintes escritos em canetão vermelho:
“estamos com teu moleque. senhor Matarazzo quer bater um papinho com você. esteja as 20h de amanhã em midtown, detroit. segunda avenida, casa nº 4336. SEM POLÍCIA.”
10 de dezembro de 2016.
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