Desconcerto
1 One shot
A lua sempre está ali. Você não, pois, vez ou outra, teima em não voltar para casa. Muitas vezes, ou quase toda noite, você também atrasa, chega ofegante e, com olhos mentirosos, conta-me, com voz sedosa e hálito perfumado pelo sangue dos botecos, aquilo que, com docilidade de um bicho passivo, finjo acreditar e engulo sempre a seco, sem mais perguntas.
Eu te amo, mesmo quando não vem pra cama. Amo-a, mesmo quando você grita calúnias sem conter as os tapas no meu rosto. Em dias de esperança na mudança, eu te espero de mãos atadas, com uma xícara de café e um beijo que é a cura da rotineira embriaguez, carrego a compreensão em forma de cafuné e uma vontade incontrolável, quase incompreensível, de cuidar do seu corpo cansado de tanto samba e sarjeta.
Nas vezes que chega junto com o sol nascente, você costuma entrar na ponta dos pés, com os sapatos nas mãos e eu, apesar de estar sempre acordado e ansioso, quando ouço passos leves finjo dormir pesado, apenas para não frustrar-lhe os planos de manter-me como um animal domesticado.
Você chega sempre com o sapato já em mãos, descalça, evitando assim, que o salto bata na madeira do chão e que por isso, acorde-me dos pesadelos que crio de olhos arregalados e consciência ligada, nos quais você dança rente a outros homens e no fim, já na hora de partir, os beija com aquela boca faminta.
Você nunca acende a luz. Caminha no escuro. Não esbarra em nada. Sorrateiramente, vai ao banheiro, tira o batom vermelho, dá descarga nos muitos litros de cerveja recém-consumidos e, apenas para o espelho atento, despe seu vestido justo.
Por fim, entra no quarto, ou melhor, flutua para cama que esquento enquanto você esfria a palma da mão nas mesas bambas da vida. Você logo se esconde sob o edredom e, aparentemente sem sensação culpa, cola o corpo no meu em busca de calor e de contato humano verdadeiro. Não abro nunca os olhos, pelo contrário, movido pela raiva: aperto as pálpebras. No final, como um viciado quando reencontra a droga: esqueço do quanto você me destrói e te abraço, prometendo que, no dia seguinte, não estarei mais lá para ouvi-la chegar. Mentira. Talvez, eu morra a esperando sambar em outros braços.
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