Descobrindo o avesso.
2 Capítulo 2 - Tomando um banho de sorte...
Notas iniciais
Depois de demorar um tempo para me acostumar com o barulho de fora, em choque com as falas do meu seriado, consegui me concentrar em apenas assistir o que me interessava. Precisava me manter firme no escritório até as 04 da manhã, porém, havia chego mais cedo que o normal. A festa começou as 19 horas por conta dos agradecimentos dos sócios aos seus colaboradores e todo o “blábláblá” que toda empresa faz. Me peguei pensando por um minuto, que não havia pensado em uma confraternização para meus funcionários, mas iria resolver isso depois.
As horas estavam demorando pra passar, quando a dupla sertaneja que fez o pessoal gritar até não aguentar mais encerrou o show, entrou um Dj contratado pelos organizadores, que soltou um FlashBack suave de se ouvir. Um dos meus funcionários me levou um prato do jantar que estava sendo servido, massa verde recheada com mozarela de búfala, mexi na comida, dei um gole em uma água com gás que acompanhou o prato, apaguei a luz e coloquei confortavelmente os pés em cima da mesa.
A última vez que me lembro de ter olhado no relógio, não era nem meia noite e meia, e as pessoas da festa estavam em ânimo total, e eu só conseguia pensar em como eles iriam trabalhar na sexta seguinte. Peguei no sono, afinal, eu já era acostumado à dormir naquele escritório pequeno e aconchegante, enquanto as pessoas pulavam de alegria bem em cima de mim.
Acordei com a porta sendo aberta de forma bruta, apenas consegui ver a sombra do corpo que entrou no meu espaço. Fechou a porta atrás dele e com toda ousadia do mundo, trancou também. Fiquei observando para ver onde aquela palhaçada iria terminar. O cara começou a passar a mão pela parede, nitidamente procurando por um interruptor. Não aguentei assistir aquilo quieto, e acendi a luz pelo interruptor da minha mesa.
Na minha frente, um cara alto, loiro de olhos verde escuros, com um corpo perfeitamente escultural, esculpido em uns, sei lá, seis ou sete anos de academia pesada, eu chutaria. Estava carregando uma garrafa de água na mão e uma taça de champanhe. A camisa branca que ele estava usando não tinha botões, apenas um “cadarço” perto do pescoço, bem no meio do peitoral quadrado e bem definido. A calça que ele usava era bem colada, mas não pelo modelo, e sim porque ele tinha pernas enormes. Confesso que achei aquele cara sensacional, mas estava tão incomodado com a presença dele, que não consegui pensar em nada além de por que caralhos ele invadiu o meu escritório?!
Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele se virou para mim e corou na hora. Como era bem branquinho, eu pude ver cada parte do seu rosto ser tomada pela vergonha:
— Ah, oi! Nossa, me desculpa.
Como ele pareceu ser educado, e não estava bêbado (pois quando você trabalha na noite, reconhece quem está travado só pelo olhar), decidi ponderar.
— Eu posso te ajudar com alguma coisa?
Ele ficou sem graça e deixou os ombros caírem.
— Desculpa invadir a sua salinha, mas é que como a sua porta é parecida com a do banheiro do lado, eu pensei que aqui também fosse.
Comecei a rir, porque isso sempre acontecia, mas os bêbados sempre davam de cara com a porta trancada. Meio sem jeito, ele continuou:
— Me desculpa mesmo, eu não queria te acordar! Eu que fiz confusão.
Estava indignado como aquele homem daquele tamanho, era educado e tímido. Era o tipo de pessoa que você leva para casa, põe no colo, cuida, manda embora, aí ele se apaixona, te enche o saco, fica grudado, e você pega nojo. As mulheres com quem ele saia, deveriam ser aquelas que exibem os buquês de flores que ele manda após uma saída para jantar. Resolvi fazer uma gentileza.
— Olha, levando em conta que quando as pessoas estão nesse banheiro, elas sempre demoram muito pra sair, porque estão sempre acompanhadas, se é que me entende...
Ele riu sem graça, parecia que ele sabia quem estava lá dentro e com quem.
— Eu deixo você usar o meu. É essa portinha aí do seu lado, fica à vontade.
O cara me abriu um sorriso imenso, como se eu tivesse dito exatamente o que ele queria ouvir. E perguntou da maneira mais desesperada possível:
— Posso colocar minha taça e minha garrafa em cima da sua mesa?
Eu assenti com a cabeça, rindo, porque aquela pergunta era totalmente desnecessária. Ou eu não estava acostumado a lidar com gente tão educada. Me questionei por um segundo, e pausei meu seriado, estava ansioso para que o Senhor Príncipe Encantado da Cinderela saísse do meu banheiro, para que eu pudesse olhar pra barriguinha trincada dele por mais alguns minutinhos, mesmo que aquilo fosse território inatingível.
Quando ele saiu, foi bem tímido e sorridente pegar a taça. Quando ele pensou em abrir a boca para me agradecer, eu perguntei:
— Gostando da festa?
Ele me olhou animado, com uma cara de quem tinha acabado de sair da zona de carência.
— Eu estou sim! Venho aqui normalmente, não imaginava que a casa era tão bonita iluminada e com uma decoração diferente.
Olhei pra ele surpreso e perguntei:
— Como nunca te vi aqui?
Ele ficou um tanto quanto curioso com a minha pergunta, e rebateu:
— Você vem aqui tanto assim, pra saber de todo mundo que frequenta?
Comecei a rir, levantei da cadeira e ofereci minha mão.
— Frederico Van Laurentt, prazer.
Ele aceitou o cumprimento, com uma cara humorada e falou
— Ah está explicado, você é o cara!
Antes de se apresentar ele começou a falar:
— Vi a matéria que fizeram sobre você na Veja. Vender seus oito bares pra entrar de cabeça nessa sociedade, foi uma ação corajosa. Lembro que quando eu vi, te chamei de louco umas cinquenta vezes, principalmente por ser frequentador de alguns dos seus bares e saber que eles mantinham um nível de excelência. Cara, vou confessar, eu torci muito pra você dar certo. Mesmo sabendo da sua fama como investidor, sabendo que se você quebrasse no ramo não seria uma coisa tão...
Precisei interromper, não estava aguentando de vontade de rir. Aquele cara parecia aquelas meninas de 13 anos que fazem fã clube pra vocalista de banda, e procuram até com quem o cara deu o primeiro beijo! Olhei pra ele rindo, e perguntei:
— Você tem nome?
Ele me olhou rindo sem graça, e respondeu:
— Eu sou o Rodrigo!
Pra quebrar aquele clima de “cortada” que se formou, pedi para que ele sentasse, mostrando a poltrona e ele não pensou duas vezes. Perguntei se ele se importaria de dividir mais uma garrafa de champanhe, e ele disse que não. Conversei com ele por um bom tempo, e descobri que tinha 32 anos, apenas dois a menos do que eu, que era o sócio mais novo do escritório, e tinha conseguido isso por levar um cliente muito bom, que rendia uma grana absurda para os advogados mensalmente. Ele era natural do Rio de Janeiro, e conhecia quase o país inteiro. Estudou muito durante a vida toda e não tinha previsão de quando parar.
— Você não sente que sua cabeça vai explodir? Olha o tanto de coisa que você faz...
Ele tinha um sorriso encantador, e eu já estava me perguntando o que eu estava fazendo com aquele cara na minha sala, porque ele não fazia o tipo Gay. Mesmo sempre gostando de homens, eu nunca fui bom de “faro”.
— Se eu não fizer isso eu fico entediado. Os funcionários que estão abaixo de mim, param os assuntos quando eu chego, por medo ou sei lá o que. Meus sócios, não se conformam com o fato de eu ser tão novo e estar na mesma posição deles, não me levam à sério, sou o que menos participa das decisões. Com isso, me concentro 100% em atender a demanda do meu cliente, pra manter uma quantidade de ações improcedentes satisfatória.
Eu olhei pra ele, já me sentindo um pouco alto por conta do champanhe, que nos empolgamos e já estávamos na segunda garrafa, falei rindo com um tom de deboche:
— Então o Senhor Carente está aqui porque não tem ninguém pra curtir a festa com você...
Confesso que me senti mal por ter feito esse tipo de comentário, porque ele que tinha um sorriso tão fácil e leve, me retribuiu apenas com uma puxada de canto da boca. Pensando seriamente em como resolver a minha cagada, eu acionei o meu modo mais doce possível (que era mais bruto do que aquele cara com toda raiva do mundo) e falei concordando:
— Ainda bem que você veio, né! Porque não aguentava mais o mal gosto musical do pessoal do seu trabalho.
Ele soltou uma gargalhada gostosa, que ecoou nas quatro paredes da minha sala, e soltou com um tom de piada:
— Então você também estava carente! Carente de companhia pra reclamar sobre uma festa que nem é tua!
Levantei os braços em posição de desarme, e concordei rindo. Eu tinha que confessar que estava amando conversar com o Rodrigo, ele era diferente de tudo que eu já tinha conhecido ali naquele lugar. Após mais um tempo de conversa, faltando quarenta minutos para o encerramento da festa, todas as luzes da casa se apagaram e as de emergência foram acesas.
Me levantei e procurei o rádio com a lanterna do celular, chamei alguém do Staff pra entender a situação. Cinco minutos depois, entra o Jogê na minha sala, ensopado e com uma aparência exausta.
— Chefe, alagou tudo! A chuva alagou a rua toda! Acabou a energia e não tem condição nenhuma de tirar os carros do estacionamento porque vão danificar. A chuva ainda não cobriu a rampa do estacionamento, mas já subiu um degrau da entrada da casa. A gente armou a tenda que vai até o estacionamento e pedimos pro pessoal evacuar a casa. Por enquanto a água não deu trégua, não sei o que vamos fazer.
Fiquei preocupado, mas pensando em recompensar Jogê pela agilidade. Ele sabia o que deveria ser feito, e não precisou nem de confirmação pra isso. Mas meu foco agora era a evacuação da casa, e passar uma boa imagem para o cliente que havia dado a festa. Aproveitei que tinha um dos sócios na minha sala, e de pronto já me ofereci para cobrir o prejuízo.
— Eu vou recalcular as horas da sua festa, e te devolver o que ficou faltando até a hora do encerramento!
Ele se levantou e veio em minha direção, pela primeira vez eu me senti totalmente passivo de alguém. Ele me deu um empurrãozinho no ombro e falou sorrindo:
— Cara, para! Olha a proporção da festa que vocês fizeram! Todos os nossos funcionários estavam super felizes e tenho certeza que vão lembrar dessa chuva dando risada. É bom que já cura o porre né.. E a noite está super quente.
Eu ainda não tinha percebido qual era a dele, mas de uma coisa eu tinha certeza: ELE NÃO QUERIA IR EMBORA. Quando constatei isso, criei a coragem que o álcool me deu, e perguntei:
— O que vai fazer depois daqui? Amanhã você trabalha? Quer continuar bebendo em casa? Dá pra ir andando, é bem perto, e meu carro tá aí também!
Aquele momento eu poderia ouvir um sim, um não, ou pior, ele poderia pedir para que eu chamasse algumas amigas para ir para a minha casa. Me arrependi da pergunta no momento que fiz! E com toda elegância e educação que existiam naquele homem, ele me olhou na maior naturalidade do mundo e perguntou:
— Eu não vou incomodar?
Alí eu soube, naquele exato momento, bem naquele instante, que aquele cara era o mistério mais gostoso que eu já havia conhecido na vida. E eu, que nunca gostei de chuva, só agradeci por ela não ter parado de cair.
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