Descobrindo Sombras
18 Ressaca
Acordei aos poucos. Meus olhos estavam pesados, eu sentia muito frio mesmo estando coberta, estava extremamente enjoada e com a boca seca, desejando água mais do que nunca em toda a minha vida. Meu estômago parecia estar lutando comigo e eu estava perdendo.
Me levantei rapidamente e abri a grande janela que ficava ao lado da minha cama e acabei vomitando nas plantas que haviam ali. Eu estava tremendo, me sentindo extremamente fraca. Vomitei de novo e meu olho encheu de lágrimas por conta disso.
Voltei e me sentei na cama, respirando fundo, tentando controlar o enjoo. Meu celular começou a vibrar. Era John me ligando.
—Alô? — Minha voz estava fraca.
—Mey, você está bem? — John estava preocupado do outro lado da linha. — Você me ligou várias vezes na madrugada, mas o celular estava no silencioso e eu não acordei.
—Eu tive outro sonho — Contei — E acordei super enjoada.
—Deixe-me adivinhar. Neve e vodka estavam nesse sonho?
Antes que eu pudesse responder fui até as plantas da janela de novo e me livrei de mais algumas coisas que estavam dançando no meu estômago.
—Quer que eu vá ai? — Ouvi John perguntar.
Peguei meu telefone novamente para respondê-lo.
—Quero. Tem como você trazer água?
—Claro. Chego em quinze minutos.
Desliguei o telefone, fechei a janela e fiquei sentada na minha cama, lutando contra o enjoo e a dor de cabeça infernal que eu estava sentindo.
—Ele não desiste.
Levei um susto enorme ao ouvir aquela voz vindo do meu quarto. Acendi a luz e vi Lúcio sentado na cadeira em frente a minha mesa, a luz repentina fez com que ele cobrisse seus olhos.
—O que você está fazendo aqui? — Perguntei com raiva.
—Você praticamente desmaiou ontem a noite.
—E você não foi embora?
Ele passou os dedos pelo cabelo e respirou fundo, como se estivesse sem graça.
—Eu fiquei curioso para ver se você se lembraria de alguma coisa.
Inacreditável.
—E não quis me impedir de ligar para John no meio da noite? — Eu nem me lembrava de ter ligado para ele. Aquele apagão foi estranho.
—Então era isso o que você tinha feito quando eu fui ao banheiro?! — Ele estava com a voz sonolenta.
—Por que você não aproveitou para ir embora? — Quanto mais raivosa eu ficava, mais meu estômago me castigava.
—Meu deus, garota — Ele me lançou um sorriso — Por que você é sempre tão arisca? Eu só estou tentando te ajudar.
Ele estava se divertindo. Podia sentir isso pelos seus pensamentos, como se ele estivesse com saudades do meu humor matinal. Aquilo queria dizer que ele já havia passado muitas manhãs comigo, o que me enjoou mais ainda.
—E então? — Ele veio e se sentou na minha cama, de frente para mim — Do que se lembrou?
Passei a mão pelo meu rosto, tentando tirar a cara de cansada dali.
—Lukyan — Disse para ele — Acho que foi o dia que te conheci em Leningrado — Dei uma pausa e olhei no fundo dos seus olhos — Por que vocês sempre mentem para mim? — O sorriso e a diversão dele se foram — Nesse dia, na Russia, você me fez acreditar que tinha uma noiva que havia morrido. Colocou isso em sua cabeça porque sabia que iria mexer comigo.
Ouvi alguém bater na porta. Lúcio foi salvo pelo gongo. Mas eu não. John e Lúcio ali, comigo junto, só poderia dar em problema.
Ele se levantou e abriu a porta.
—Bom dia, Ionahee — Ele sorriu.
Mas John não sorriu de volta. Na verdade ele pareceu ficar furioso ao ver Lúcio
—Por que eu não estou surpreso? — John passou direto por ele e veio em minha direção. Ele trazia uma maleta de couro com alguns suprimentos dentro.
—Não está surpreso? — Lúcio deu uma breve risada que, para mim, parecia um tanto diabólica — Ficaria surpreso se eu te contasse que foi ela que me chamou?
Ai, não. O enjoo estava de volta. Abri a janela de novo e coloquei a cabeça em direção às plantas. Não havia quase nada no meu estômago para sair, o que só fazia com que eu tentasse vomitar e aquilo estava machucando minha barriga e aquela força fazia com que meus olhos enchessem de lágrimas por reflexo. Saí de perto das plantas, mas ainda estava com a janela aberta e a cabeça para fora dela. John veio até a mim e colocou uma mão nas minhas costas, acareceando-a. Não sei como, mas aquilo me ajudava. Me transmitia muita calma.
Eu voltei para a minha cama e me encolhi, enxugando as lágrimas dos meus olhos.
—Lúcio, por favor — Eu mal tinha forças — Eu preciso que você vá agora.
Ele revirou os olhos. Não estava preocupado como John. Eu não sabia o que se passava pela cabeça de John, mas sabia o que se passava na de Lúcio e ele estava pensando que já viu aquilo várias vezes, sabia que eu iria ficar bem e não entendia a preocupação excessiva de John.
—Tudo bem — Disse ele por fim — Eu só gostaria que você soubesse que eu nunca menti. Eu tive uma noiva que morreu. Essa noiva foi você.
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