Descobrindo Sombras
16 Perguntas
Resolvi não ligar para Roland. Em vez disso mandei uma mensagem para ele, dizendo que iria passar em uma cafeteria para estudar e ele poderia me encontrar lá se quisesse. Não foi uma surpresa quando ele apareceu com Nilla e Ronnie. Eu estava sentada em uma mesa perto de uma janela, vendo as pessoas passando pelo campus, depois de passar uma hora estudando sobre intervenções sociais. Eles pegaram algo para beber e se sentaram à mesa comigo.
—Trouxe para você — Roland havia pego uma batida de alguns sucos que eles vendiam ali.
—Obrigada.
Ronnie sacou seu computador e o abriu na mesa e eu coloquei minhas anotações e cadernos na minha bolsa. Nilla parecia estar muito distante, olhando para os alunos que passavam. Tentei ler seus pensamentos, mas pela primeira vez eles estavam bloqueados.
—Nilla — Eu estalei os dedos perto do seu rosto. Ela pulou de susto e prestou atenção em mim, ainda sim não conseguia captar nada dos seus pensamentos. — Que bicho te mordeu?
—É — Disse Roland — Você está tão… — Ele deu uma pausa e olhou para todas nós. — Quieta.
—Ai, Roland — Disse ela — Não enche.
—Tuuudo bem — Ronnie cortou o clima, claramente incomodada com aquilo — Eu tentei pesquisar algumas coisas sobre John Ionahee e os resultados não foram muito conclusivos.
Me senti indiferente e Nilla também, mas podia sentir que Roland estava intrigado. Mas o que eu poderia fazer? Alguém que sabe que ler mentes é algo possível, sabe de vidas passadas e tudo mais, não seria surpresa que resultados sobre ele seriam inconclusivos.
— Aqui — Disse Ronnie — Não consegui achar nenhuma informação sobre quando ele nasceu, nem onde cresceu, mas achei uma foto dos anos setenta que parecem ser do pai dele, que tinha o mesmo nome.
—Então quer dizer que Ionahee é Ionahee Junior? — Roland estava realmente intrigado.
—Isso não quer dizer nada — Vanilla continuava olhando para a janela, ainda distante e impenetrável. Aquilo estava me incomodando.
—Ela tem razão — Eu disse — Vocês provavelmente não vão achar nada sobre mim, já que Alexy me protegeu muito bem.
—Desculpe — meu amigo olhou para mim — Quem?
—A moça que trabalhava com serviços sociais — Explicou Ronnie, brevemente — Mas olha isso. Sabemos que esse deve ser o pai dele, mas quem seria a mãe? Ele é igualzinho ao pai dele — Ela virou o computador para nós e mostrou uma foto dele em algum restaurante.
Um flash me veio à mente. Ele estava trabalhando em um restaurante em Sacramento, na Califórnia. Eu cheguei lá de manhã com a pior ressaca da minha vida e um garçom muito gentil me ajudou com café e uma receita de waffles especial da casa. Foi assim que eu o conheci. Com waffles e café. Algo que dizia que eu gostava muito de waffles.
Sacudi a cabeça, jogando a memória para longe.
—Isso não quer dizer nada — Disse Vanilla.
Percebi que Ronnie ficou um pouco chateada. Vanilla também percebeu, mas não disse nada. Apenas pegou sua bolsa e se levantou.
—Me desculpe — Disse ela — Eu preciso ir para casa. Eu tenho uma dor de cabeça que não vai embora por nada e já tomei uns quatro remédios diferentes.
Então ela se foi.
Dor de cabeça. Seus pensamentos impenetráveis. Olhos violetas. Algo gritava dentro de mim para ir atrás da minha amiga.
—Ronnie — Eu disse me levantando — Obrigada pela ajuda. Se descobrir mais alguma coisa, me avise, por favor.
Corri para alcançar Nilla antes que ela fosse embora. Por sorte eu a alcancei antes que ela pudesse entrar em seu carro.
—Hey — Eu disse um tanto ofegante — O que foi aquilo?
Minha amiga passou a mão pela cabeça, se livrando da franja em seu rosto. Apesar de conseguir esconder seus pensamentos, sua dor de cabeça era tanta que eu podia senti-la.
—Mey, nós duas sabemos que isso é idiotice.
— O que, exatamente, nós duas sabemos?
Ela revirou os olhos e repousou seu olhar no chão.
—Sobre você — Ela começou — E sobre John e talvez mais algumas pessoas. Olha, eu não sei ao certo ainda, estou tentando descobrir e isso está me dando uma dor de cabeça enorme, então se me der licença — Ela entrou em seu carro.
—Vanilla! — Fui até sua janela — Sua vó te contou?
Ela olhou no fundo dos meus olhos e eu olhei de volta, tentando desvendar qualquer pensamento.
—Ela me contou algumas coisas. Outras eu tenho que descobrir sozinha. — Continuamos nos encarando por mais um tempo — Mey, vai ficar tudo bem — Ela sorriu — Só não vamos envolver esses dois nessa bagunça, porque não sabemos o quão grande ela é.
Ela deu partida no carro e eu me afastei. Mais perguntas. Como assim, bagunça? Mais pessoas? Saí ainda mais frustrada do nosso breve encontro.
Fui até o meu dormitório e bati a porta com força, sem dar a mínima para o que os meus vizinhos pensariam, como se a força que eu usei na porta pudesse aliviar qualquer coisa.
Fui até a minha prateleira com livros e peguei todos os livros de história que eu tinha. Comecei a fazer uma grande revisão que não só iria me ajudar com as minhas aulas, mas também tinha a esperança que eu fosse me lembrar de mais alguma coisa. Qualquer coisa. Algumas horas se passaram, eu li muitas páginas e anotações, mas nada me veio a mente. Assim que eu desisti ouvi alguém bater na minha porta. Eu a abri com cautela.
—Oi, Mey — Disse Lúcio. Ele estava com duas bebidas quentes na mão — Eu trouxe chá.
Eu o deixei entrar. Ele deu uma volta no meu quarto, olhou meus posters e viu a bagunça que eu havia feito com os meus livros.
—Você não vai conseguir informação com esses — Ele riu, então foi até a minha escrivaninha, colocou os chás ali e pegou a foto que eu estava com John, seu sorriso se desfez.
—O que está acontecendo? — Eu fui direta.
Ele respirou fundo e se sentou na minha cama.
—Você descobriu tudo muito rápido dessa vez. Eu não deveria estar surpreso, mas ainda sim estou.
—O que isso quer dizer?
Ele parou para pensar no que dizer, mas dessa vez eu não captei nada vindo dele. Me concentrei e ouvi minha própria risada. Ele estava se lembrando de mim, rindo, na Califórnia.
—Há quanto tempo nos conhecemos, Lúcio?
Ele olhou bem para mim e finalmente respondeu:
—Desde o Egito antigo.
Senti aquilo como um baque. Como se alguém houvesse me dado um soco no estômago.
—E John? — Foi tudo o que saiu dos meus lábios. E aquilo parece tê-lo deixado chateado.
—Esqueça John por um segundo — Disse ele.
— Mas… E-eu… — Não conseguia achar as palavras certas, mal conseguia achar ar para respirar.
—Ei, ei — Ele se levantou e se aproximou de mim — Está tudo bem — Ele colocou uma mão no meu rosto e me fez olhar para ele. — Você está bem. — As palavras dele pareciam ter um efeito imediato. De repente eu me senti mais tranquila, como se tudo estivesse realmente bem, como se estivesse certo. — Eu posso te ajudar a se lembrar de algumas coisas, assim, quando você se lembrar pode perguntar o que quiser para mim — Ele se afastou de mim por um segundo e pegou um dos chás de cima da minha escrivaninha e deu para mim — Tome um gole. É de camomila, vai te acalmar.
Fiz o que ele mandou e tomei um longo gole do chá. Ele estava adocicado. Eu não gostava de tomar chá com açúcar, mas não disse nada.
—Você sabe que eu posso…- Não consegui terminar a pergunta. Dizer aquilo em voz alta me parecia ridículo.
—Que você sabe ler mentes? — Ele sorriu — Sim, eu sei. Na verdade, eu tenho um dom como o desses também.
Arregalei os olhos.
—Qual dom?
Ele colocou os dedos sobre as minhas têmporas e olhou no fundo dos meus olhos. Ele estava perto, muito perto. Podia sentir seu hálito em meu rosto. Ele cheirava a lavanda.
De repente, uma imagem veio. Era de um lugar que eu não me lembrava de ter visto. Era um deserto, vários homens estavam vestidos com muitos trajes para se protegerem do calor enquanto atravessavam o deserto à cavalo. Seus olhos mal estavam a mostra. Eles não pareciam ser homens das arábias. Mesmo com todas aquelas vestes eu sabia que eles eram homens de uma região ao norte, que acreditavam em deuses e deusas de guerras, eles vinham de um local que havia muita neve e estavam sofrendo muito com o calor.
A imagem se foi de repente e quando ela se foi, era como se eu houvesse levado um tombo. Mas logo em seguida, senti uma vontade avassaladora de rir. Comecei a dar gargalhadas sem sentido algum. Minha barriga estava começando a doer de tanto rir e meus olhos se enchiam de lágrimas. E assim como a vontade veio, ela passou, do nada e eu me senti ainda mais surpresa e confusa.
— Esse é o meu dom — Disse ele — Eu também posso entrar na cabeça das pessoas. Se você pode ler mentes, então digamos que eu posso fazer com que os outros vejam e sintam o que eu quero.
Peguei o chá de camomila e dei mais um gole, aproveitando seu calor.
—Por que temos esses dons, Lucio? — Virei todo o chá, rezando para que a camomila fizesse efeito e odiando aquele gosto açucarado.
—Eu jamais conseguiria explicar isso em uma noite.
Senti meu corpo ficando mole. Seria a camomila fazendo efeito?
—E John… — Percebi que minha língua estava ficando enrolada.
Meus membros pareciam pesar uma tonelada. Eu tinha que fazer um esforço enorme para manter meus olhos abertos.
—Eu acho… — Tentei ir até ele — Você precisa… John...
Eu simplesmente não conseguia falar. Tentei dar um passo, mas meus pés se embolaram e eu tropecei.
—Hey — Lúcio veio de prontidão e me pegou antes que eu caísse, então me pegou em seu colo e me deitou na minha cama — Você precisa esquecer esse cara por um tempo — Ele tirou o cabelo do meu rosto com a ponta dos dedos. — Lembrar é uma tarefa difícil, mas eu sei que você é forte.
Minha visão estava ficando turva, eu queria me levantar, mas não conseguia. Tudo parecia estar rodando. Sem conseguir lutar, caí em um sono profundo.
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