—Você não acha que a Nilla tem estado estranho ultimamente? — Ronnie perguntou enquanto se deitava ao meu lado na minha cama.

Eu podia sentir a sua tensão, seus pensamentos estavam todos acelerados com mil perguntas para quais ela não tinha uma única resposta. Tínhamos isso em comum.

— É, eu acho — Respondi ainda olhando para o teto — Deve ser alguma coisa com a vó dela.

Lembrei dos seus olhos se tornando violeta quando estávamos tomando café da manhã. Desde então ela parecia diferente, mais atenta as coisas, mas ainda sim estava mais radiante do que nunca.

— Mas ela está feliz, não está? — Minha amiga se levantou e olhou para mim,com algum tipo de esperança — Será que ela conseguiu algum encontro com aquele advogado criminal?

— Daniel? — Eu ri e me levantei junto — Eu acho que não. Ela não pensa nele desde que voltou de férias.

— Pensa? Ela te disse alguma coisa?

Cuidado com as palavras, Mey, pensei comigo mesma. Então respirei fundo para tentar pensar melhor.

— Vamos visitar a família dela amanhã. — Comentei, ignorando a pergunta da minha amiga — Ainda acho que a vó dela deve saber de alguma coisa.

Ronnie aceitou a proposta e saiu do meu dormitório. Eu peguei no sono muito rápido, não tive nenhum sonho ou imagem estranha durante toda a noite, mas mesmo assim eu acordei cansada no domingo de manhã. Me arrumei com pressa, amarrei meu cabelo em um rabo de cavalo, coloquei uma blusa de manga comprida dos Beatles e encontrei Ronnie para irmos até a casa de Vanilla.

Chegando lá eu vi um carro conhecido, um impala 67. Assim que tocamos a campainha de casa quem veio nos atender foi John.

— O que você está fazendo aqui? — Perguntei assim que ele abriu a porta.
— Bom dia para você também — Ele sorriu — Oi, Ronnie.

Minha amiga apenas acenou com a mão e deu um sorriso sem graça. Ela estava com vergonha da minha atitude. Eu continuei olhando para ele com um certo ar de acusação.

— Eu já te disse, Hope e eu nos conhecemos do hospital, somos amigos, lembra? — Ele olhou no fundo dos meus olhos. Tive que fazer força para não sentir aquele choque percorrendo meu corpo — Vocês vão entrar? Hope estava querendo falar com você, Mey.

Ele abriu a porta e nós entramos.

— Ah, eu sabia — Disse a vó de Nilla.

Ela continuava graciosa, como sempre. Seus cabelos longos eram todos brancos e ela usava uma roupa rosa claro. Ela poderia parecer uma fada anciã ou uma bruxa do bem.

— Oi, Hope — Eu disse e a abracei.

— Eu sabia que John ia te atrair até aqui — Ela sussurrou e beijou me rosto — Eu estava com saudades das minhas outras meninas.

Logo em seguida ela deu um abraço e um beijo em Ronnie também.

— Bom, acho que já deu a minha hora — Disse John — Bom domingo para vocês.

Olhei para ele de longe e dei um aceno com a mão da maneira mais informal possível. Não tinha vergonha de admitir para mim mesma que era bom tratá-lo da mesma maneira que ele estava me tratando. Depois de me beijar, cuidar de mim e fazer tudo aquilo, voltou a fingir que eu não existia. Eu poderia jogar esse jogo também. Ele não parecia magoado, parecia estar se divertindo com a minha teimosia também. Ronnie continuava envergonhada, ela estava pensando que algum de nós deveria deixar esse jogo de lado, já que claramente havia uma tensão no ar, mas ela não dizia nada, nem para mim e muito menos para ele.

Ele sabe o seu segredo, ouvi Hope dizer nos meus pensamentos.

Olhei para ela incrédula. Ela havia falado comigo na minha cabeça?

— Meu deus, vocês duas — Vanilla apareceu na sala de estar — Por que diabos apareceram aqui tão cedo?

Vanilla coçou os olhos e logo que ela terminou eu pude ver a cor deles. Mais violeta do que nunca. Ronnie não parecia ter reparado.

— Por que vocês duas não fazem um café? — Sugeriu Hope — Eu gostaria de conversar com Mey sobre um certo rapaz.

— Certo, vovó — Vanilla sorriu e pegou Ronnie pelo pulso — Vamos.

Hope se sentou na cadeira de balanço dela e eu me sentei no sofá ao seu lado, podendo olhar nos seus olhos.

— O que foi que você disse para mim antes? — Eu perguntei.

— Eu não disse nada — Ela sorriu.

Eu bufei e sorri de volta. Claro, mais um jogo.

— Mas eu pensei e você soube — Ela terminou.

Senti meu coração pular para a garganta e algumas hipóteses passaram pela minha cabeça. A primeira delas era que todo o estado de Oregon estava passando por algum tipo de surto psicótico e agora todo mundo estava estranho, a segunda era que Hope estava ficando com algum tipo de demência e eu sempre fui maluca, então estávamos as duas misturando as coisas e a terceira era de que ela realmente sabia de alguma coisa.

— Eu estava te esperando, Mey — Ela disse e pegou um álbum de fotografias que havia encima da mesa de centro — Você e John sempre se atraem, é inevitável.

— Do que a senhora está falando?

Ela olhou para mim e nesse momento eu percebi que seus olhos não eram azuis e sim violeta. Um arrepio percorreu minha espinha.

— Você pode perceber agora — Ela abriu o álbum — Minha Vanilla também está passando por essa mudança, mas ela já está encontrando o seu caminho. Você precisa encontrar o seu, Mey Anabelle.

— E como a senhora sugere que eu faça isso?

Ela deu uma breve risada enquanto passava a mão pelo álbum.

— Pergunte a John.

Nilla e Ronnie chegaram com algumas xícaras grandes e um bule cheio de café quente. Elas nos serviram e nós três nos sentamos.

— Esse é aquele seu álbum de fotos, Vovó? — Minha amiga perguntou enquanto olhava as fotos com atenção — Olhe só — Ela apontou para uma foto — Essa não é você quando resolveu fugir com a minha mãe e meu tio para a praia?

Hope sorriu para as fotos.

— Os anos setenta foram os melhores — A senhora disse com um brilho em seu olhar — Foi quando eu encontrei os meus melhores amigos, como vocês três.

— Eu adoro essa foto — Minha amiga pegou uma foto do álbum e admirou-a — Qual era o nome dessa sua amiga, vovó? — Ela mostrou a foto para Hope — Ela é igualzinha a Mey.

— Essa era Mary Anne — Hope sorriu para a foto.

— Deixe-me ver — Disse Ronnie e logo pegou a foto — Meu Deus, Mey! É idêntica a você — Ela riu, então me passou a foto.

Eu peguei a foto e olhei com atenção. Era realmente igual a mim. Me lembrei da imagem que Lucio havia imaginado, pois era extremamente parecida.

Na foto a garota parecia ter mais ou menos a minha idade, tinha os cabelos da mesma cor dos meus, mas as pontas eram loiras. Ela estava abraçada com Hope e seus dois filhos. Os quatro estavam na frente da praia, ao por do sol.

— Carmel by the sea — Disse Hope, tirando-me do meu transe — É um lugar lindo, vocês deveriam usar as ferias para conhecer.

Parecia que alguém havia dado uma paulada na minha cabeça, mas logo a tontura passou e eu senti meu corpo pesado. Era como se uma lembrança de alguém houvesse invadido a minha mente como um flashback. Eu lembrava daquela foto, lembrava de como ela tinha sido tirada. Lembrava do som das gaivotas demandando comida das pessoas, do ar gelado de novembro e de como as crianças estavam felizes e animadas em terem passado o dia na praia.

Era como se eu houvesse perdido o meu equilíbrio e dei alguns passos para trás.

— Mey, o que foi? — Ronnie perguntou.

— Ela está bem, querida — Disse Hope — Deve ser estranho mesmo ver uma foto de alguém que se parece muito com você.

Olhei nos olhos de Hope.

Fale com John, Ela pensou para mim.

— Me desculpem — Eu disse — Eu acho.. — Gaguejei ao tentar encontrar palavras — Eu acho que preciso ir.

— Eu te levo — Disse Ronnie.

— Não — Eu disse logo em seguida — Fique aqui com elas, por favor.

Minha amiga me olhou preocupada, enquanto Vanilla e Hope sorriam uma para a outra.

— Eu vou ficar bem — Disse para a minha amiga — Eu prometo.

Saí da casa delas a pé e usei o caminho para pensar. Já sabia exatamente onde eu precisava ir e sabia também que podia usar o tempo para pensar. Aquilo era possível? Eu já conhecia Hope de outras vidas? Aquela realmente era eu?

Acabei com mais perguntas do que eu tinha no início, mas dessa vez eu teria uma resposta para elas. Um calafrio se instalou no meu corpo e não passava por nada. Era como se meu corpo estivesse febril, como se de repente eu estivesse mais fraca, conseguia sentir meus músculos doendo sem motivo aparente, realmente como se eu estivesse doente. Mas eu sabia que eu não estava, então continuei minha longa caminhada.

Já eram quase duas da tarde quando eu cheguei na casa de John. Bati na porta freneticamente, o carro dele estava na garagem então eu sabia que ele estava lá. Ele abriu a porta e não parecia surpreso. Assim que ele abriu a porta eu senti aquele calafrio diminuir.

— O que mais você sabe sobre mim? — Fui direta e, de certo modo, invasiva.

— Eu sei que você adora aparecer sem ser chamada.

— Ha-ha — Dei a risada mais falsa e cínica que pude. senti um pouco daqueles calafrios e me encolhi um pouco. Ele percebeu.

— Venha — Ele abriu a porta e me deu passagem — Entre, você parece estar com frio.

Entrei na casa dele e fui direto para a escada em direção ao quarto. Ele me seguiu como se soubesse exatamente as minhas intenções. Eu fui até o quadro com fotos e o mapa múndi e tirei a foto que havia visto dias atrás e mostrei para ele.

— O que? — Ele deu de ombros, querendo forçar um tédio.

— Eu quero respostas — Eu disse.

— Então faça as perguntas, não vou conseguir adivinhar.

Cerrei os olhos para ele, então peguei a foto e olhei bem para ela, tentando forçar alguma memória. Então eu disse as primeiras coisas que vieram em mente.

— Monterrey, Califórnia, 1975 — Eu comecei — Próximo ao píer que tinha vários restaurantes e na frente de todos eles haviam amostras grátis de sopa de batatas, onde várias pessoas acabavam comendo só aquilo em vez de realmente entrarem nos restaurantes. Também havia um senhor que vendia algodão doce de duas cores, azul e rosa.

Pisquei e percebi que haviam lágrimas nos meus olhos. Limpei com a manga da blusa e dei a foto para John. Ele olhou bastante para ela por um tempo, para ele e a menina que ele estava abraçando. Era a mesma moça que estava na foto de Hope com as crianças.

— Essa sou eu? — Olhei para ele.

John apenas respirou fundo e depois olhou para mim.

Você sempre me pega, ele pensou.

Eu poderia jurar que, em um momento assim, eu ficaria surpresa. John era sempre tão silencioso e ele havia pensado isso para mim. Mas eu não fiquei. Era exatamente isso o que eu esperava.

— O que você disse? — Indaguei.

— Eu não disse nada — Ele continuou olhando sério para mim.

— Mas você pensou.

Ele deixou um sorriso escapar dos seus lábios, então se aproximou. Ficou muito próximo, tão próximo que eu podia sentir sua respiração no meu rosto. Mais uma vez ele pegou uma mecha de cabelo meu e colocou atrás da minha orelha.

— Você pode ler pensamentos, Mey? — Ele sussurrou.

— Você está surpreso, John?

Ele continuou com aquele sorriso.

E eu não pude me aguentar. Puxei-o pela camiseta e o beijei, dessa vez eu me entreguei. Ele me puxou de volta e me deu um beijo longo. Abri minha boca e deixei sua língua encostar na minha, ele me segurava com firmeza pela cintura enquanto eu passava as mãos no seu cabelo. Então eu dei alguns passos para trás até cairmos na cama. Ele ficou por cima de mim, suas mãos subiam pela minha cintura, seus dedos tocando a minha pele. Eu o abracei com as pernas e continuei beijando-o. Todo aquele desejo de semanas finalmente estava tomando conta de nós dois. Em minutos as nossas roupas estavam jogadas no chão enquanto eu me entregava completamente para ele.