A manhã não foi das melhores. Mandei uma mensagem para Roland avisando que não estaria na primeira aula e que ele não precisava se preocupar com o café. E por estar extra sentimental, mandei outra logo em seguida agradecendo-o por me levar café todos os dias. Resolvi ir para a biblioteca fazer algumas pesquisas; qualquer coisa que pudesse me levar a minha vida passada, mas eu tinha a sensação de estar correndo uma maratona: quanto mais eu corria, mais eu percebia que tinha muito a percorrer.

Como conhecer uma pessoa podia mudar absolutamente tudo?

Eu era quem eu era. Nunca me senti normal, talvez nem tenha me sentido sã, mas as coisas simplesmente eram do jeito que eram. Eu tinha um plano, tinha uma carreira para seguir, uma faculdade para terminar, talvez até uma família para criar. Eu sentia que tudo aquilo havia sido tirado de mim sem o meu consentimento e eu queria fazer de tudo para mudar isso.

E ao mesmo tempo havia John. Mesmo com toda aquela confusão eu sentia que queria me jogar em seus braços, me aninhar ali e esperar ele me dizer que tudo ficaria bem. Mas não ficaria e eu sabia disso. Até porque eu havia brigado com ele. Nada estava bem e eu nem sabia por onde começar para consertar algo que eu nem sabia que existia até semanas antes.

Pesquisei sobre toda a costa da Califórnia. Acabei achando blogs sobre as viagens na costa, vi fotos de Santa Barbara, Santa Monica, Carmel by the sea, Praia de Venice... todas aquelas fotos faziam com que eu me sentisse nostálgica. O único lugar que eu sabia que de fato conhecia de fato era San Diego, quando Alexy me levou lá para um passeio durante o fim de semana. Não era o trabalho dela, mas ela o fez mesmo assim, para fazer com que eu me sentisse menos deprimida e funcionou.

A Califórnia sempre me pareceu ótima, um lugar bom para estar e agora eu entendia a razão. Tinha a sensação que havia tido uma boa vida ali, mesmo que me lembrasse de poucas coisas, como café da manhã no Waffle House e tickets para jogos de carnavais nos píers.

Eu estava gostando daquela sensação, então resolvi parar por ali. Me agarrei naquele sentimento bom e continuei meu dia, fui para as outras aulas, os pensamentos das pessoas pareciam estar focados nos trabalhose e nad aulas. A medida que a aula de Lúcio se aproximava eu sentia um bolo se formando em meu estômago. Fiz um cálculo mental de quantas vezes eu ainda poderia faltar nela e optei por usar essa vez como uma dessas.

Depois de sair do meu dormitório pela manhã, ter plantado ideias na minha cabeça (e talvez até na cabeça de John) e tudo mais, eu não queria ver o rosto dele tão cedo.

Bom, pelo menos não até segunda feira. E como era sexta, mandei mensagem para Nilla e Ronnie, mas apenas Ronnie me respondeu.

~Mey:

O que tem de bom hoje a noite?

14:12

~Ronnie:

Estou procurando uma festa para ir. Topa?

14:18

Vanilla não havia nem visualizado a mensagem.

~Mey:

Eu topo qualquer coisa hoje. Estou precisando desesperadamente de um dia de folga.

14:20

~Ronnie:

Passo no seu dormitório às 9 da noite. Use roupas legais.

14:21

Tentei ligar para Vanilla, mas deu caixa postal. Me perguntei o que deveria estar acontecendo. Ela não era de me ignorar. Talvez ela, assim como eu, estivesse passando por algumas coisas esquisitas.

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As sete da noite eu tomei um banho e comecei a me arrumar para sair com Ronnie. Não sabia ao certo aonde iríamos, mas eu queria estar me sentindo bem. Então coloquei uma blusa preta de manga comprida, uma saia tubinho vermelha, uma meia fina e as minhas botas de salto e cano baixo preferidas. Também resolvi colocar um pouco de rímel e um batom para acompanhar todo o esforço. Quando o relógio acusou 21:10 Ronnie bateu a minha porta e, para a minha surpresa, ela estava com Vanilla e Roland. Vanilla continuava estranha, como se estivesse cansada e brava com alguma coisa. Roland estava ao lado dela e eu podia sentir que ele estava fazendo o maior esforço do mundo para tentar animá-la.

Assim que Vanilla posuou os olhos em mim sua expressão mudou de brava para preocupada e senti na hora o esforço que ela fez para mudar seu humor.

—Está usando sapatos confortáveis? — Ela me perguntou.

Olhei para as botas que eu estava usando.

—Eu diria que sim — Disse, confusa.

—Que bom — Ela forçou um sorriso tentando me animar — Eu estou precisando muito dançar e parece que você poderia usar uma noite de folga do drama também.

—Que drama ? — Ronnie perguntou.

—Todo o drama Ionahee/Stone.

Roland sorriu. Percebi que ele ficou animado em ver Nilla mais feliz. Senti na hora aquilo que ele estava sentindo. Ele estava se apaixonando? Eu precisava descobrir se ela se sentia assim também. Ajudar duas pessoas a ficarem juntas e esquecer o meu drama surreal por um tempo.

—Vamos? — Ronnie propôs.

—Para onde? — Perguntei.

—Você vai ver.

Ronnie foi dirigindo. Era a vez dela ficar sem beber e bancar a motorista. O caminho foi praticamente uma viagem de uma hora. Saímos da cidade de Portland e fomos dirigindo até umm bar/boate em Salem.

—Já vamos comemorar o Halloween? — Perguntei, brincando.

Apesar do nome, Salem de Oregon não era a famosa cidade da caça as bruxas. Era apenas mais uma cidade com nome repetido nos EUA. Ainda sim, parecia se encaixar perfeitamente à situação.

—Uma menina da minha aula de Latim falou que iria nesse bar hoje — Disse Ronne — Ela nos chamou para ir.

—”Nos” chamou, Veronica? — Nilla deu uma alfinetada — Não conheço ninguém da sua aula de latim.

—Claro que conhece -Ronnie estava tão concentrada na estrada tentando disfarçar sua ansiedade. Mal sabia ela que eu praticamente ouvia seu corção dando saltos — É aquela garota, Claire.

—Aquela que queria fazer exercícios de língua com você? — Perguntou Nilla — Agora ela está querendo experimentar a linguaguem corporal?

—Meu Deus — Roland sussurrou contrangido.

Eu não consegui segurar uma gargalhada. Por sorte, o carro estava escuro e ninguém poderia ver o rosto de Ronnie pegando fogo.

—Tudo bem, Vanilla — O tom da minha amiga parecia irritado, mas sabíamos que aquele era o seu tom acusatório para tentar sair de uma saia justa — Vamos ver quem vai para a segunda base mais cedo hoje.

Vanilla de repente ficou séria tentando entender aquelas palavras.

—Como assim? — Ela perguntou incrédula, o que me fez rir mais ainda — Como assim, Veronica?

Ronnie sorriu para a estrada. Roland olhava para a janela se perguntando como ele havia se colocado naquela situação. Eu queria me debruçar de rir. Aquelas alfinetadas que uma davam na outra eram hilárias. Vanilla ficou pensativa o caminho todo, como se estivesse fazendo cálculos mentais. Nunca quis tanto saber o que se passava naquela cabeça. Será que ela poderia olhar para o lado por um segundo o ver o homem que estava ao lado dela?!

Finalmente chegamos ao lugar. Havia uma fachada em neon escrito “Witch’s Hat”. Por sorte não havia nenhum segurança na porta pedindo por identificação. Talvez fosse o motivo de tantos universitários estarem ali. Ao ir em direção à entrada eu vi que no estacionamento havia um Impala 67 estacionado. Meu coração quase saiu do peito. Poderia muito bem ser uma coincidência, John não era o único homem nos EUA que tinha um Impala.

Senti um arrepio, então me apressei para entrarmos logo. O local era um tanto grande. Haviam dois andares. O térreo era uma área para o bar, mesas e bancos, com a ilumonação baixa, e o subsolo era reservado apenas para a pista de dança. Nos sentamos em dois bancos longos com uma mesa igualmente longa no meio. Ronnie e eu nos sentamos em um lado enquanto Nilla e Roland se sentaram à nossa frente. Um garçom apareceu com um sorriso no rosto para nos atender. Pedimos três tequilas e uma Cherry Coke. Logo as bebidas chegarám e brindamos. A tequila desceu ardendo, o que me fez salivar e sacodir a cabeça.

—Você devia ter trocado de lugar com alguém — Eu disse para Ronnie — Tomar alguma coisa para poder se soltar para quando Claire chegar.

Ronnie mal prestou atenção às minhas palavras. Estava o tempo todo procurando sua colega com os olhos. Pedimos mais uma rodada de tequila, enquanto nossa motorista da noite bebericava seu refrigerante.

—À sorte no amor — Vanilla levantou um brinde e todos bebemos.

—Por falar em amor — Disse Ronnie — E aquele advogado criminal que trabalhava no seu estágio?

—Quem? Daniel? — Vanilla deu de ombros — No fim das contas eu descobri que ele é inteiramente cético.

Roland arqueou as sombrancelhas. Mesmo sem ter ideia do que ela estava falando em relação ao ceticismo, ele não sabia que havia outro homem na parada.

—Cético? E desde quando isso importa para você? — Ronnie riu.

—Ah, sei la — Minha amiga deu de ombros — Acho legal quando o cara quer falar sobre energia, astrologia…

—Tipo psiquismo? — Roland perguntou.

—Tipo isso. Mas e você, Mey? E aquele cara, Ionahee?

Mordi meu lábio e olhei para baixo.

—Achei que vocês não queriam falar dos meu lances hoje.

— Lances — Ronnie riu — No plural. A Mey é a maior arrasa corações.

—Ah, é? — Perguntou Roland. — Quem mais?

—Quem mais caiu no jogo de seduções da senhorita Stone?

— Se eu não soubesse melhor, diria que o professor de antropologia dela está caidinho — Disse Ronnie — Vocês tinham que ver o dia que ele nos encontrou no Honor's. Estava com cara de adolescente apaixonado.

Nilla deixou o queixo cair.

—Lúcio Hank?

Passei uma mão pelo cabelo. Aquilo era esquisito. Se eles soubessem da história…

Bom, se eles soubessem da história, de repente poderiam me contar.

—Eu não sei não — Disse Nilla — Não sinto uma vibe boa dele.

Vibe? — Ronnie riu. — E o que você acha da vibe do Ionahhee?

—Ele parece um pouco melhor — Confessou minha amiga -Além do mais, minha vó o conhece, então eu posso confiar um pouco mais nele. Mas nada disso importa. O que importa mesmo é o que Mey sente.

Todos olharam para mim com um olhar curioso. Eu me ecolhi um pouco no banco.

—Eu queria poder saber o que John pensa — Confessei.

Vanilla mordeu os labios tentando segurar o riso. Realmente aquilo era cômico, considerando o quanto ela sabia sobre toda a situação.

—Querem saber? — Eu me levantei — Eu vou descer e dançar um pouco. Alguém se voluntaria para ir comigo?

Eles se entreolharam. Ninguém parecia estar no clima ainda. Eu precisava sair daquele banco, aproveitar a tequila e tirar toda aquela energia estagnada do meu corpo.

—Vamos esperar Claire chegar para ver a reação da Ronnie — Disse Roland, o que fez com que minha amiga corasse.

—Tudo bem — Eu sorri — Vejo vocês mais tarde.

Fui em direção à pista de dança. A escada estava no fundo do bar, então eu tive que passar por quase todo o salão. Ao chegar perto da escada, dei uma última olhada pelo local e me arrependi na hora. Em um canto do bar, apoiado na parede, estava John. E ele não estava sozinho. Uma moça loira usando salto alto e um vestido preto com um decote enorme nas costas estava apoiada de lado na parede, conversando com John. Ela segurava segurava um copo de vidro longo com alguma bebida. John estava apoiado com as costas na parede e bebia uma dose de whiskey. O rapaz estava olhando para o nada, apenas ouvindo o que a moça havia para dizer, enquanto ela sorria e olhava para ele com um olhar apaixonado. Ela disse alguma coisa e pousou uma de suas mãos no ombro do rapaz, o que fez com que ele virasse o rosto para ela. Ela disse algo sorrindo e ele respondeu com um sorriso no rosto. A mão da mulher percorreu um caminho do ombro de John em direção à sua mão, onde ficou ali, segurando-a por um minuto.

Aquilo me atingiu como uma flecha. Senti meu peito ficar pesado, meu estômago dar mil voltar. Era como se o mundo estivesse em silêncio. Minhas mãos começaram a formigar e um nó ficou entalado no meu pescoço. John parou de encará-la e tomou um gole de sua bebida. Foi nessa hora que seus olhos encontrraram os meus. Sua expressão revelou que ele estava em choque, assim como eu.