O alarme tocou na segunda feira de manhã, ainda estava escuro lá fora. Eu me espreguicei e fiquei deitada na cama por alguns minutos, refletindo sobre como minha vida estava naquele momento. Eu havia passado metade do meu fim de semana estudando e a outra metade me perguntando se John havia se encontrado com Lizzy e o que eles poderiam ter feito juntos.

Mesmo John me contando que Lizzy era apenas uma amiga eu sabia que ela queria mais.

Eu sabia que ela estava nessa bagunça conosco, que eu já a conhecia de outras vidas, mas mesmo assim ela não parecia ser capaz de esconder seus pensamentos e sentimentos como John.

Talvez ela fosse um pouco como Lúcio e fizesse questão de fazer com que eu soubesse o que ela queria que eu soubesse, e eu sabia que ela não gostava de mim.

E, para ser sincera, eu também já não gostava dela. Ela queria John para ela.

Essa competição feminina era um saco, ia contra tudo o que eu acreditava.

Mas ainda sim, não conseguia evitar esse ciúmes que eu sentia de John.

Estava com medo dele olhar para ela um dia e perceber o quanto ela era bonita.

Levantei da cama rapidamente, forçando-me a sair daquele devaneio e me arrumei para a minha aula.

Cheguei alguns minutos atrasada e encontrei Roland já sentado no lugar que sempre sentamos, enquanto lia um livro. Me sentei ao seu lado e deixei minha bolsa pendurada na cadeira.

—desculpa a demora — eu disse.

—Tudo bem — ele me entregou o meu café de sempre — eu esperava que você fosse demorar um pouco mais hoje.

Olhei confusa para ele.

—Eu posso ter bebido bastante, mas lembro muito bem do seu ciúmes quando você viu John com aquela garota loira.

Senti meu rosto ficando vermelho, mas não sabia se era de vergonha ou de estar vivendo aquela raiva de novo. Roland riu da minha reação, então voltou a ler seu livro, enquanto a sala enchia aos poucos.

Dei uma olhada no livro. Ele estava lendo Lolita, meu suposto livro preferido da minha vida passada.

—Bom dia, alunos — Disse o professor, tirando-me da minha transe — Se puderem abrir no capítulo sete dos seus livros, vamos revisar o funcionamento do sistema nervoso para as provas de meio termo.

Todos pegaram seus livros e começamos a revisão. Roland deixou o livro encima da mesa. O livro parecia ter uma força magnética que atraía meus olhos a todo instante. Eu tentava prestar atenção na aula, mas aquele livro tirava minha concentração a todo momento de uma maneira que eu mal ouvia os pensamentos das outra pessoas.

Fui bebericando meu café durante toda aula, até que ela finalmente acabou.

Assim que o professor nos dispensou, todos se levantaram.

—E então, como foi acordar na casa de John? — Roland me perguntou quando saiamos da sala e andávamos pelo corredor.

Eu não sabia o que responder, apenas encarava o livro que estava na sua mão.

—foi tranquilo — eu disse e forcei um sorriso para o meu amigo — John e eu conversamos e estamos bem.

—Estão bem, tipo, estão juntos? — Meu amigo se virou e ficou de frente para mim. Mais uma vez eu encarei o livro e me esqueci completamente de falar com ele — Por que não fica com ele? — ele perguntou.

Eu revirei os olhos.

—Eu não vou chegar para ele e propor isso, eu nem saberia como...

—Mey — Meu amigo me interrompeu e sorriu — Eu quis dizer o livro — Então ele estendeu o livro para mim — Percebi que não tirou os olhos dele.

Eu peguei o livro e coloquei na minha bolsa. Naquele momento, me lembrei dos anos 70, quando Logan disse aquelas palavras. Parecia uma espécie de Deja vu.

—Ouvi falar que esse livro é muito bom — Eu disse, por fim.

—É sim — Respondeu — Acho que você vai gostar — ficamos em silêncio por alguns segundos.

—Tenho que ir. Vejo você depois da aula?

Roland fez que sim com a cabeça e cada um seguiu o seu caminho.

Eu me sentia levemente tonta só de me lembrar vagamente de Logan. As palavras eram quase as mesmas, a situação era igual.

Não sabia dizer se Roland sabia de algo ou se eu estava perdendo minha sanidade.

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Por azar, minha penúltima aula acabou mais cedo e eu me encontrei encarando a porta da sala de aula de Lúcio cinco minutos antes de precisar entrar para a aula.

A última vez que o vi foi intenso. Descobri que ele era Lukyan, descobri que eles haviam mentido para mim desde... sempre? E que eu me encontrava no campo de batalha entre ele e John.

Eu não sabia como reagir e, por algum motivo, sentia meus dedos formigando e meu coração palpitando. Decidi entrar logo na sala.

Por sorte, Lúcio não estava lá, então corri para uma cadeira isolada e fiquei lá até a sala encher.

Lúcio estava demorando. Os alunos conversavam entre si e o barulho das falas e dos pensamentos me deixavam tonta. Fechei os olhos e fingi estar cansada para ninguém falar comigo. Tinha a impressão de que a ansiedade estava me consumindo e eu não saberia como responder à tentativa de conversa de alguém.

—Desculpem o atraso — Lúcio entrou correndo na sala e eu dei um pulo na cadeira, me ajeitando. Ele foi direto deixar suas coisas em sua cadeira. — Vamos começar?

Os alunos se ajeitaram e todos foram para os seus lugares. Lúcio começou a aula sem hesitar, seus olhos nem sequer procuravam os meus.

Aquilo me deixou intrigada, então brava comigo mesma por estar intrigada. Não queria sentir nada em relação à Lúcio, mas não conseguia evitar. Durante toda a aula, ele não fez contato visual sequer uma vez. Me concentrei no conteúdo, dessa vez falando sobre os conceitos dos deuses egípcios e a relação que o povo tinha com a morte.

Fiz anotações no meu livro a medida em que a aula avançava, até que ela finalmente acabou.

—E não se esqueçam da resenha sobre os textos que passei — Ele dizia enquanto os alunos iam embora.

Guardei meu livro da aula ao lado de Lolita, demorando um bocado para que todos pudessem sair. Lúcio foi direto para a porta, sem olhar para mim.

—Ei — me apressei para alcançá-lo.

Ele parou imediatamente, mas continuou de costas para mim.

Eu não estava contando com aquela reação, geralmente ele ia atrás de mim e não eu atrás dele.

—Hum... — Eu procurei palavras, mas só conseguia pensar em uma coisa — Noiva, é?

Seus ombros relaxaram e ele lentamente se virou para mim e me lançou um sorriso, que me fez engolir seco.

—Eu sabia que você ia ficar intrigada — Ele chegou perto de mim.

Eu não me movi. Não conseguia me mover. Ele estava a centímetros de mim, eu conseguia sentir seu cheiro de lavanda. Encarei seu peito, evitando fazer contato visual. Também aproveitei para checar se alguém estava por perto, mas não ouvia nenhum pensamento próximo de nós.

Lúcio passou por mim e eu soltei o ar que não sabia que havia prendido. Me virei para ele e vi que ele estava encostado em uma mesa dos alunos, com os braços cruzados e observando cada centímetro meu. Senti um arrepio na espinha.

—Eu sei que ficamos juntos na Califórnia — eu disse, finalmente-, mas não ficamos noivos... ficamos?

Ele olhou para baixo e sorriu.

—A Califórnia — a maneira como ele dizia me transmitia um bom sentimento- Nunca vi você tão bem quanto quando estava lá.

Eu continuei olhando para ele. Eu tinha essa impressão também. Sabia que apesar de toda confusão que sempre me cercava, eu era feliz lá.

Fui até Lúcio e me apoiei ao seu lado, nossos ombros se tocando.

—Mas, não — Ele disse tão baixo que mais pareceu um sussurro- Não ficamos juntos apenas na Califórnia.

Apenas....

—Também ficamos juntos na Rússia, em Paris, no Egito...

Ele deixou as palavras pairarem. Tive a sensação de que ficamos juntos incontáveis vezes em incontáveis lugares e eu não sabia como me sentir sobre aquilo. A primeira impressão que tive de Lúcio foi que ele representava algum tipo de ameaça e eu ainda sentia aquilo. Mas então por que ficamos tantas vezes juntos? Eu podia confiar nele?

—É tudo muito confuso — sussurrei e fechei os olhos.

As pontas dos dedos de Lúcio foram para o meu rosto, colocando uma mecha de cabelo meu atrás da orelha, para que ele pudesse me ver melhor. Abri os olhos instantaneamente e olhei para ele. Ele estava tão perto que tive a sensação de que fosse me beijar.

—Eu queria tanto que você pudesse se lembrar — Ele sussurrou e seu rosto foi para perto do meu. Podia sentir seu hálito, seus lábios quase roçando os meus. Eu queria me mover, mas não sabia para onde, era quase como se meu corpo estivesse paralisado. Então ele pousou seus lábios nos meus e eu senti um choque percorrer no meu corpo e finalmente ganhei meus movimentos de volta.

Eu o empurrei para longe e saí dali.

—Nunca mais... — apontei o dedo para ele, com raiva, e não consegui terminar a frase.

Ele me continuou me olhando, mas dessa vez estava sério. Eu sentia que um sorriso queria escapar dele.

Eu não disse mais nada. Apenas saí dali o mais rápido que pude.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.