John fez menção de ir até a mim e foi nessa hora que eu ganhei meus movimentos de volta. Fui o mais rápido que pude para o banheiro e me tranquei em uma cabine por alguns minutos. Eu estava segurando minha respiração, fazendo a maior força do mundo para não desabar. E todo aquele papo de não querer me perder? E as noites que eu passei na casa dele? Todos aqueles segredos, dúvidas… Quem era John Ionahee?

Tantas coisas se passavam pela minha cabeça. Eu estava procurando por respostas, mas em vez disso eu só conseguia encontrar mais perguntas. Era exhaustivo.

Assim que eu recuperei um pouco do meu fôlego, saí do box e fui lavar as mãos. Aproveitei a água fria passando nos meus pulsos. Quando estava indo em direção ao papel toalha acabei esbarrando em alguém.

—Me desculpe — Eu disse sem olhar quem era.

—Não se preocupe — Disse uma moça — Por um acaso você não seria amiga da Ronnie?!

Olhei para a garota que estava conversando comigo. Ela era uma garota de olhos azuis e cabelo escuro no estilo pixie. O corte de cabelo acentuava seu rosto fino e os lábios pintados de vermelho.

—Sou, sim — Respondi.

—Eu sou Claire — Ela sorriu — Não consigo achar Ronnie por nada.

—Vem comigo, vamos encontrá-la — Eu sorri de volta.

Fiquei feliz por ter encontrado Claire. Era como se houvesse uma pausa para respirar, focar no problema de outra pessoa em vez de pensar nos meus.

Fomos em direção à mesa e eu foquei em não olhar para os lados. Não queria encontrar John, não queria vê-lo e muito menos conversar com ele. Torci para Claire não perceber que eu estava quase correndo em direção aos meus amigos.

—Olha quem eu achei — Anunciei assim que chegamos.

—Olá — Disse Claire.

Ela estava ansiosa e sem graça. Preocupada em impressionar a todos. Fiquei feliz por Ronnie, pelo menos alguém teria os sentimentos correspondidos.

Vanilla e Ronnie claramente ficaram animadas com a chegada de Claire, mas assim que Nilla pousou os olhos em mim ela percebeu que havia algo de errado.

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Depois de muito conversarmos e fazermos algumas brincadeiras bobas envolvendo bebida eu já estava ficando um pouco mais relaxada.

Eu tinha que fazer muito esforço para não olhar por cima do meu ombro para tentar achar John e, por sorte, tinha muito com o que me distrair.

Ronnie acabou saindo da mesa para dançar com Claire, Roland já estava embriagado o suficiente para fazer amizade com estranhos. Sobramos apenas Vanilla e eu, as mais sóbrias ainda na mesa.

—Quer conversar? — Ela perguntou depois que o silêncio se instaurou com a ida dos nossos amigos para outros cantos do bar.

—John está aqui — Eu disse enquanto tentava aliviar minha tensão em um guardanapo — E estava com uma loira, alta, tipo modelo.

Eu não olhava para a minha amiga. Tinha que fazer um esforço enorme para não permitir que o nó em minha garganta ganhasse força.

—Não saia daqui — Ela se levantou e foi em direção ao bar. Eu continuei encarando a mesa, brincando com um guardanapo até ela voltar. Ela voltou com dois shots com um conteúdo azul na mão — Quer ver uma coisa legal?

Fiz que sim com a cabeça.

—Certo — ela se sentou na minha frente e posicionou os shots na mesa — Você sabe as regras: Tampar com a mão e beber.

Fiquei confusa, mas não questionei. Ela olhou para mim e depois olhou para os copinhos com conteúdo alcoólico. Olhei para eles também. Uma chama se acendeu em cada copinho de uma vez só. Aquilo me deu um susto.

—Como você..?- tentei perguntar.

—Vamos! temos que beber — Ela quase gritou.

Peguei o copinho, tampei com a mão para o fogo se apagar e rapidamente o virei. Ela fez o mesmo no mesmo momento que eu.

Shots flamejantes. Não tomava um desses desde o primeiro ano da faculdade. O líquido desceu rasgando a garganta e o álcool parece ter subido direto para a cabeça.

—Como você fez isso? -Perguntei, incrédula.

—Tenho aprendido muito com a minha vó — Ela levantou o braço — Pode trazer vários desses, por favor?

O garçom nos atendeu e rapidamente trouxe mais dois shots para cada uma.

—Espere — Eu disse — Vanilla, o que está acontecendo com a gente?

—Encare isso como a puberdade — Disse ela com a maior naturalidade — Descobri com a minha vó que nós somos de uma linha de feiticeiras e parece que esses dons pulam uma geração. E eu estou praticando — Ela posicionou dois copinhos a nossa frente e os encarou — Vamos tomar outro desses antes da próxima pergunta.

Fiz que sim com a cabeça. Depois de todas as loucuras das últimas semanas, aquilo não me surpreendia.

O processo todo se repetiu mais uma vez, ela acendeu fogo, nós tampamos com as mãos e tomamos mais um shot.

—Certo -Eu disse e sacode a cabeça — E o que eu tenho a ver com tudo isso?

—Ao que entendemos até agora, você, John e sei lá mais quem estão vivendo num tipo de maldição onde eles não morrem e você volta o tempo todo.

—Por que? — Perguntei antes que ela pudesse ter alguma outra ideia e o álcool me fizesse esquecer das perguntas que eu tinha para fazer.

—Minha vó não me contou. Só me disse que vocês já se conheciam de quando ela era jovem e vocês tentaram entender tudo isso, mas não houve tempo suficiente.

—Não houve tempo porque eu morri — Encostei no banco, tentando digerir aquela informação com o álcool.

—Mas vamos esquecer isso hoje — Disse ela — Aliás, vamos esquecer isso, John e as provas do meio de semestre — Então apontou para a última dose de cada.

Tomamos a última dose. O álcool já estava fazendo meu cérebro flutuar. Vanilla tinha razão: era dia de esquecer tudo aquilo.

—Vamos — Eu a puxei e fomos para a pista de dança.

Aproveitei a batida da música para me soltar. O local escuro parecia um escape perfeito. Encontramos um Roland alcoolizado dançando de olhos fechados. Ronnie e Claire sumiram. Me juntei a Roland e Vanilla e dançamos até meus pés começarem a doer. Também tomamos mais alguns shots, alguns drinks e dançamos mais. Tudo estava quase bem, se não fosse por um zunido em minha cabeça me lembrando constantemente de John. As vozes dos pensamentos dos outros já não me incomodavam mais, não dava para diferenciar da música ou das conversas das outras pessoas.

Quando dei por mim, eu estava completamente embriagada. Me considerei com sorte por estar com Vanilla e Roland. Não fazia ideia de que horas eram o de onde estavam Claire e Ronnie.

Quando eu mal me aguentava em pé, acabei subindo e ficando nos sofás que estavam perto do bar. O mundo parecia estar girando em torno à minha volta..

—Já vamos embora, tá bom? — Vanilla disse para mim. Ela se sentou ao meu lado e eu deitei minha cabeça em seu ombro e fechei os olhos.

Ela disse qualquer coisa para Roland que eu não me dei o trabalho de compreender.

Alguém se sentou ao meu lado e tocou meu braço.

—Vem — Disse uma voz familiar.

Uma voz familiar até demais. Abri os olhos e vi John. A meia luz do bar trazia ainda mais paz para o seu rosto. Ele me olhava com calma e quase sorria para mim.

—O que você está fazendo aqui? — Perguntei. — Onde está Ronnie?

—Você se despediu dela — Disse Nilla — Ela foi embora com Claire e John disse que poderia nos levar embora.

—O que? — A confusão estava me deixando ainda mais tonta — Eu falei com ela?

—Sim — Roland deu risada — Disse que não se importava e que John poderia te levar para qualquer lugar que você não queria saber dele ou dos cabelos loiros — Ele riu. Não tinha a menor ideia do que estava falando, assim como eu — Ouch — Ele olhou para John.

John revirou os olhos.

—Eu vou levar todos vocês para casa — Disse ele, enquanto me segurava para me levantar. Eu não resisti.

—E os cabelos loiros? Não vai pegar uma carona com você também? — Fui ríspida.

—Ela está nos esperando.

Não sabia ao certo o que o tom de voz dele estava acusando.

—Seu… — Empurrei ele e me livrei de seus braços, dando alguns passos para trás para não perder tanto o equilíbrio — Como ousa?

Ajeitei meu cabelo e fui pisando duro em direção a saída. Empurrei a porta com tanta força que acabei perdendo o equilíbrio e John me seguro, me abraçou pela cintura, seus braços eram firmes para não me deixar cair. Senti meu coração bater mais rápido com aquele toque familiar. Era como se ele tivesse me segurado assim várias vezes. Eu desejei poder ficar em seu colo, sentir suas mãos em mim, mas me lembrei da moça loira e me perguntei se ele já havia segurado ela, se ela já havia sentido seu toque…

Ele foi me guiando em direção ao carro. Ao chegar lá eu vi a moça loira no banco da frente. Vanilla, Roland e eu fomos no banco de trás. Eu estava tão embriagada que não quis dizer nada. Apenas deitei no colo da minha amiga e fui dormindo o caminho todo de volta.

John deixou o rádio ligado em um volume baixo em uma estação que tocava rock clássico. Eu estava ouvindo a voz de Bob Dylan cantando Mr. Tambourine Man pelo rádio e foi a última coisa que consegui ouvir de fato. Todos no carro estavam em silêncio. Eu conseguia sentir a energia de todos, inclusive de John, mas não ouvia os pensamentos de um jeito claro, como eu costumava, talvez por conta do álcool. Eu sabia que Roland estava exausto e feliz por estar deitado no ombro direito da minha amiga, Nilla estava irritada com a presença da moça loira e com John, pois estava preocupada comigo, a moça loira estava impaciente e nervosa com a minha presença, esperava que a noite fosse terminar de um jeito diferente e que não deveriam ter tantas pessoas assim no carro, enquanto John estava fazendo o maior esforço do mundo para eu não captar nada dele.

Me levantei do colo da minha amiga e fiquei sentada.

—Está muito alto — Reclamei.

—Achei que você gostasse de Bob Dylan — Disse Nilla.

—Não — Eu coloquei os dedos nas têmporas e apoiei a cabeça nos joelhos — Vocês estão muito altos.

—Isso de novo — A loira resmungou.

—Não comece — John foi firme com ela — Já estamos chegando, Mey. Logo vai passar.

Ela resmungou de novo e eu voltei a deitar no colo da minha amiga. Logo o carro parou, John e a loira saíram do carro. Roland já deveria estar sonhando a essa altura.

—Eles estão conversando — Disse Vanilla.

Ela colocou o dedo indicador na minha têmpora e eu pude ver o que ela estava vendo. Havíamos chegado em frente de um prédio que eu assumi que fosse o prédio que ela morava.

John e a moça loira estavam na frente do carro, conversando. Ela estava gesticulando bastante com as mãos, parecia estar bem irritada, enquanto John permanecia sério. Ele fez que não com a cabeça para algo que ela disse, então ela vasculhou sua pequena bolsa em sua mão, pegou um bolinho de chaves e foi embora. John voltou para o carro.

—Onde vamos agora? — Ele perguntou.

—Para a minha casa — Disse Vanilla — Acho que Roland vai acabar dormindo por lá mesmo.

John ligou o carro e fomos para a casa de Vanilla. O caminho foi curto, eu já não estava vendo mais nada, apenas com os olhos fechados, aproveitando a ausência de pessoas indesejadas. Logo chegamos. Roland saiu resmungando, Vanilla foi logo em seguida. Assim que ela saiu do carro eu me estiquei para ficar completamente deitada no banco de trás. Antes de fechar a porta do carro, ela disse:

—Não quebre o coração da minha amiga. Porque, se você fizer isso, eu quebro você. E você sabe que eu posso.

Então ela fechou a porta do carro. John bufou com um leve riso, então foi me levando para casa.

Ao estacionar o carro, ele saiu primeiro, depois me ajudou a sair do carro. Quando eu abri os olhos, percebi que não estávamos nos dormitórios da universidade e sim na casa dele.

—O que estamos fazendo aqui? — Perguntei.

— Estamos cuidando de você — Ele disse, então me pegou no colo e fomos direto para o quarto.

Ele me deitou em sua cama, tirou meus sapatos e me cobriu com um cobertor leve. Quando fez menção de sair, eu me pronunciei.

—John, espere — Eu disse.

Ele olhou para mim por um tempo, então se sentou na cama ao meu lado. Era dificil conseguir focar nele. O álcool estava me consumindo de uma maneira que eu estava quase vendo dois dele ao mesmo tempo.

—Eu achei que eu e você… — Comecei a dizer, mas não sabia como terminar. Eu e ele, o que exatamente?

—Mey, você não achou nada de errado. — Ele dizia quase sussurrando, um tom que beirava um pedido de desculpas.

—Então quem é ela? — Choraminguei e me odiei por isso, mas eu simplesmente não tinha forças para me manter afiada, como de costume.

—Lizzy — Disse ele — Você vai se lembrar dela.

—Doeu quando eu vi vocês dois juntos — Confessei.

Ele se ajeitou ao meu lado, tirou uma mecha de cabelo do meu rosto, como já era de costume e olhou para mim.

—Eu nunca quis te machucar — Então ele beijou minha testa.

Eu segurei a mão dele.

—Fique aqui comigo — Pedi — Pelo menos até eu pegar no sono.

Ele fez que sim com a cabeça, então se ajeitou na cama. Eu me ajeitei em seu colo e, em minutos, adormeci.