Desbravando Hoenn
1 Onde tudo começou!
Notas iniciais
— Olha só! – disse o garoto animado ao ver, finalmente, um oponente – É um Zigzagoon!
Goon? – o pequeno guaxinim branco e marrom, que comia tranquilamente uma fruta azulada bem comum na região, reagiu olhando para o menino de cabelos castanhos com uma cara confusa
— Está pronto, Shinx?
Shinx shinx! – respondeu o quadrúpede elétrico com sede de vitória
— Então vamos lá! – num gesto animador e imponente, apontou para o horizonte enquanto sorria com gosto e seus fios de cabelo esvoaçavam com a brisa do local – Vá pra cima dele!
O pequeno Pokémon elétrico tomou velocidade em direção ao alvo, tentando golpeá—lo com seu corpo com a famosa “Investida”. Infelizmente, foi malsucedido: Zigzagoon escapou por pouco. Logo em seguida, foi a vez do guaxinim de pelo listrado, em forma de ziguezague, atacasse seu oponente, com o mesmo movimento que tentara o primeiro. Porém, diferente de Shinx, conseguiu acertar.
— Não se dê por vencido, amigo! – ordenou – Use Faísca!
Shiiiinx – exclamou em tom não muito baixo enquanto faíscas elétricas saíam de seu corpo enquanto o mesmo rumava para o impacto contra seu oponente
— Muito bom! – elogiou seu parceiro ao ver seu inimigo deitado no chão, provavelmente se rendendo como vencido, inconsciente – Mas só para garantir... Investida, mais uma vez!
O conhecido como “Pokémon Relâmpago” fez jus ao seu apelido se movendo, a toda velocidade, com o objetivo de golpear seu contendedor. Apesar de ser jovem e ainda muito pouco treinado, tinha uma agilidade invejável, acima da média.
— Isso, Shinx! – animou—se Bryan antes mesmo do pequeno ter concluído o que desejava fazer – Acerte ele e... – interrompeu a si próprio ao ver algo, ou alguém, que não contava
— Mareep – comentou com firmeza e tranquilidade, usando sua voz misteriosa e relatividade suave – Essa vai ser fácil! Fique tranquilo!
— Craig?! O que você está fazendo aqui?
— Estou aqui fazendo o mesmo que você: treinando meus Pokémons! Ah! – fez uma falsa e cínica cara de surpresa – Espera um pouco... Você não tem nenhum!
— Rrr... – rangeu os dentes – Cale a boca! Shinx! – o Pokémon afirmou com a cabeça – Investida nele! AGORA! – aumentou, abruptamente e consideravelmente, o tom de voz
— Mareep, faça o mesmo! Mostre que você é mais forte!
A ovelha de lã de tom amarelado e, o que se pode dizer, cachorrinho azul e preto correram com rapidez pelo largo campo verde até se colidirem de frente e fazerem toda a força possível na intenção de se mostrar mais forte e empurrar o justador. Pequenas fagulhas saíam daquele intenso contato. Era, literalmente, um choque eletrizante.
— Use Faísca! – ordenou Bryan
— Choque do Trovão!
Os dois obedeceram seus respectivos “treinadores” gerando uma pequena explosão, o que fez muita poeira subir, deixando Craig e Bryan tossindo por alguns segundos. Baixado o pó, via-se ainda a mesma cena de antes, com um adendo de frações de raios que apareciam e sumiam, a cada segundo, em torno de cada um dos participantes da batalha. Contudo, enquanto Mareep permanecia com os mesmos ânimo e vigor, Shinx se mostrava claramente afetado e debilitado.
— Chame seu Shinx de volta, Bryan – sugeriu calmamente
— Não vou desistir! Shinx, dê uns passos para trás e carregue!
— Tem gente que realmente não sabe a hora de parar...
Shinx deu meia volta pisando na cabeça de seu oposto, atitude que deixou o Pokémon deveras nervoso. Assim, uma vez dada certa distância, que se podia considerar como “de segurança”, cerrou os dentes e uma esfera de energia de coloração amarela, de tom bem vivo, começou a surgir em torno dele.
— Sei que não gostou dessa pisada, Mareep!
Reeep!
— Use o Choque do Trovão mais uma vez!
A ovelha obedeceu, mas não pareceu ser muito eficaz.
— Você só se acha! – disse num tom agressivo, mostrando um sorriso irônico com seus olhos fechados – Mas só fala! Deveria saber que durante o Carregar o Poké...
— O Pokémon aumenta também – completou com um sorriso ainda mais cínico, mas com a cara bem parecida a do outro garoto, que agora já mudara sua expressão para espanto – consideravelmente sua defesa contra ataques especiais – a interrupção deixou Bryan bem nervoso – Havia me esquecido por uns instantes. Agora, Mareep, acerte—o com toda sua força!
Depois de arrastar a pata duas vezes no chão, como um Tauros partindo para cima de um taureiro, partiu, com prontidão, na direção do Pokémon que se concentrava afim de juntar energia para seu próximo movimento.
— Demorei tanto tempo para descobrir essa vantagem do ataque do Shinx!— pensou – E ele já sabia! Shinx, não há mais tempo a perder, use Faísca uma última vez, antes que o atinja!
Shiiiiiiiiinx!
Para o choque do não—treinador, a Faísca carregada de Shinx foi totalmente absorvida e armazenada no corpo elétrico e fofo da ovelha, que não parou sua corrida até acertar em cheio o, agora indefeso, alvo. O impacto fez subir uma nova, porém menor, nuvem de poeira. Abaixada a mesma, via-se o Pokémon estirado no chão, inconsciente.
— Isso não é justo, Craig!
— O que não é justo? Eu já estar desenvolvendo minha jornada enquanto você nem ao menos tem um Pokémon? O Professor Birch prefere apenas te usar como escravo para suas pesquisas! – os olhos do derrotado brilhavam devido a água em seu interior – Avisei quando era o momento de se entregar, você insistiu. Mareep é muito mais evoluído do que essa coisinha aí! – com um movimento de cabeça, apontou para Shinx com seu queixo ligeiramente pontiagudo
— Birch não me faz de escravo! E quando eu começar a MINHA jornada, eu serei um treinador muito melhor do que você!
— Esperarei pacientemente o dia em que você conseguirá me vencer – foi virando seu corpo, ficando, gradativamente, de costas para Bryan — Até lá, o meu conselho é que se mantenha longe dos meus passos – cada palavra que Craig dizia aumentava a tristeza e a ira dentro do peito do menino
O Zigzagoon que Bryan e Shinx estavam enfrentando anteriormente agora se via deitado, aparentemente ileso, na bonita campina verde. Ao ver que tudo tinha terminado, se levantou e deu meia volta, pulando para entre algumas árvores que ali havia. Com todas essas lindas e carinhosas palavras de afeto vindas do garoto de lisos cabelos amarronzados e de olhos claros, porém, castanho também, além de ver que nem do pequeno Pokémon selvagem havia dado conta, o garoto pegou Shinx no colo com cuidado, se virou e começou a correr em direção da calma e tradicional cidade de Littleroot, enquanto lágrimas e mais lágrimas escorriam de seus olhos.
— Vamos lá, Mareep – começou a andar no sentido contrário a do outro – Treinaremos mais um pouco antes de voltar para a cidade de Oldale.
Reep, ma—reep!
— Você foi ótimo.
Enquanto isso, não muito longe dali...
...Um outro garoto, com seus 15 para 16 anos, caminhava tranquilamente com a face pensativa e o pensamento muito longe. Seus cabelos não muito penteados e dispostos de um jeito único balançavam segundo a brisa leve que percorria toda a cidade de Littleroot, que não era lá muito grande. Já era um agradável fim de manhã, por volta das 11 horas e, devido a época do ano, o calor já não era grande o suficiente para incomodar um caminhar. Ele brincava com uma moeda brilhante e diferente, de bordas douradas e o centro colorido, atirando-a para cima e pegando-a novamente, uma e outra vez. Andava assoviando notas aleatórias, mas que criavam uma melodia agradável. Exalava uma aura tranquila até que...
— Ele vai ver! Ele vai pagar por isso!
— Hm? – menino acordava de seu transe e voltava a realidade – Quem disse isso? De onde vem? Eu pude jurar que...
— Aaaaaaaa – deu um grito fino e raivoso assim que acertou com pujança o jovem de cabelos loiros, tendendo para o castanho
— Ai... – coçou a cabeça – Hey... V—você está bem?
— Hey, você, olhe para onde anda! – franziu as sobrancelhas
— Espera... – simplesmente ignorava o que o garoto falava, como se apertasse o comando “mute” de um controle remoto de TV – Onde foi parar?
— Você deveria tomar mais cuidado!
— Deve ter caído em algum lugar por aqui... – murmurava enquanto vasculhava o chão em volta de si, apalpando
— Não vê que tenho um Pokémon ferido em mãos?! – o garoto gritava como se fosse o fim do mundo, sem ao menos se dar conta de que o errado era ele. Apesar de ter caído, fez questão de projetar o corpo para o lado para não machucar Shinx, que ainda estava sob seus cuidados.
— Ahá! – disse ele, já em tom normal de voz, com um pequeno e sincero sorriso – Ali está!
Então, o guri desconhecido se levantou calmamente, enquanto Bryan o encarava com um olhar de desentendido e, ao mesmo tempo, frustrado. Bateu com a mão uma vez em sua blusa preta e duas em sua calça jeans, com o intuito de limpar a terra que ficara ali ao cair, e caminhou alguns passos. Se abaixou, então, e pegou a moeda com a qual estava se distraindo há instantes.
— Me desculpe. Mesmo. Não foi minha intenção – disse ele com o maior sossego do mundo todo – Posso fazer algo para ajudar?
— Que tal me deixar voltar para o meu caminho, para a minha vida! – retrucou, depois de alguns segundos de confusão, subindo sua voz com extrema grosseria
— Olha... Meu nome é...
— Quem se importa com seu nome? Eu só preciso ir até o laboratório!
— Posso...
— Não, você não pode! E não, não sou um treinador! – disse ele antes mesmo de descobrir que caçoar não era o que o desconhecido queria; sua voz sumia a medida que se distanciava do local de origem
— Como tem gente estressada nesse mundo! – sozinho – Não me deu tempo nem de me apresentar! – ele torna a limpar sua roupa – Nem de dizer que estou indo para lá também... – ele colocou a mão no bolso de trás de sua calça e pegou novamente a moeda que caíra – Quase te perdi, hein? – olhava para ela – Não vai acontecer de novo.
De volta ao Bryan...
— Preciso chegar lá rápido— pensava – Depois daquele desastre que nem merece ser chamado de batalha, ele merece um bom tratamento e um descanso ainda melhor— mirava o horizonte e já podia ver as instalações de seu mentor – Ali atrás foi culpa minha, não é?! – conversava consigo mesmo – Fui muito arrogante com aquele sujeito... – se corou e entristeceu – E o pior é que provavelmente nunca o verei novamente para me desculpar... – apesar de ter agido por impulso, o menino não era do tipo ignorante ou mal-educado – Moro aqui em Littleroot desde que nasci e nunca o vi pela região! A propósito – se lembrou dele, através de flashbacks – que sujeito estranho...
Bryan chega, finalmente, ao laboratório do conhecido Professor Birch. A porta corrediça automática se abriu ao sentir a presença dos dois e ele logo entrou esbaforido. Olhou para a direita; para a esquerda. Não vendo sinal do Professor nas salas que se situavam nos respectivos lados e tinham suas portas completamente abertas, seguiu em frente e entrou num cômodo onde, ao olhar para um dos cantos, via-se dois sofás formando um “L” em torno de uma mesa de centro feita de vidro. Bryan, assim, se sentou e aconchegou o amigo Pokémon no assento ao lado.
— Você vai ficar bem, Shinx...
O garoto, de 13 anos, tinha lisos cabelos pretos que estavam sujos e ensebados de suor devido à correria. Seus olhos verdes estavam irritados, por causa do choro, e, onde não era verde, estavam completamente vermelhos. Não era muito alto, notavelmente mais baixo do que o estranho com quem topara, e tampouco tinha um corpo robusto. Era apenas um menino normal para sua idade, que tinha, de diferencial, uma paixão enorme pelo mundo Pokémon. Olhava para Shinx com medo, preocupação e arrependimento por ter entrado numa batalha sem nem ao menos ser o treinador responsável pelo pequeno.
— Me desculpe. Não deveria ter ordenado que o atacasse...
— Porém, Bryan – interrompeu o Professor, que havia chegado há uns instantes, mas não quis interromper o pensativo garoto – Ele não obedeceria suas ordens se não te respeitasse e te considerasse seu treinador.
— Ahn? – o garoto se virou para identificar quem havia aparecido detrás dele – Ah! É você, Professor!
— Diga o que quiser – chegou perto de Shinx para examiná-lo com maiores detalhes – Mas não vou acreditar que um Poochyena da Rota 101 fez isso a ele – repreendeu o guri com nada além de seu olhar
— E-eu... – começou a tentar se explicar, mas foi prontamente cortado
— Agora não é hora para desculpas. Vamos dar a ele o devido cuidado.
Alguns bons minutos depois...
— E foi isso que aconteceu...
— Entendo... – deu uma pausa, terminando de analisar a situação que acabara de ser relatada – Sabe, acho que o Craig tem razão em uma coisa!
— Não vá me dizer que está do lado dele, Professor! Ele chegou a te ofender indiretamente! – os olhos já começavam a se encharcar, mas ainda sem transbordar
— Não, não! – fez cara de quem percebera que o que tinha dito continha certa ambiguidade – Não me entenda mal, Bryan! Quero dizer que já passou da hora de você receber o seu primeiro Pokémon!
Os olhos do menino automaticamente secaram e um largo sorriso se abriu em seu rosto.
— S-sério? – não conseguia evitar gaguejar – O Senhor está f-falando sério?
— Sim – afirmou com tom imponente – Só tenho que esperar os outros dois que marcaram de vir pegar seus primeiros Pokémons comigo hoje também – dizia enquanto se levantava e se dirigia para sua mesa de trabalho, escorregando em sua cadeira com rodas até a gaveta de sua escrivaninha – E te entregarei um de meus Pokémons também.
— Oi, vovô!
— Leona! – disse ele levantando o rosto rapidamente em direção à garota – Minha neta! Que ótimo que você chegou! – pegou 3 Pokébolas que jaziam dentro da gaveta e as largou sobre a mesa – Estava já me perguntando quando viria pegar seu Pokémon!
Bryan fitava a garota com os olhos como um robô que rastreava cada traço de um desconhecido. A menina tinha longos cabelos ruivos que combinavam majestosamente com seus olhos negros. Trajava uma camiseta azul turquesa e uma blusa por cima de cor amarela, com detalhes sutis da cor de seus cabelos. Uma saia de tom azulado e um tênis esportivo completavam sua vestimenta. Seu sorriso era encantador e tinha traços suaves por todo o corpo.
— Esse é Bryan – estendeu o braço em direção a ele – Lembra que eu disse que um garoto me ajudava com algumas de minhas tarefas aqui no laboratório? Ele é excelente com Pokémons!
— Ah sim – sorriu – É um prazer te conhecer!
— Olá!
— Se trabalha com meu avô, tenho certeza que é boa pessoa!
— O-obrigado! – riu com vergonha
— Ah! – exclamou com felicidade ao ver que o último candidato acabava de entrar no escritório – Agora já podemos começar!
— Oi, gente!
— Você é aquele cara que... – repensou a frase – O sujeito de mais cedo!
— Sim. Bryan, não é?! Ouvi o senhor apresentando-o para a Leona, Professor.
— Parece que alguém tem boa audição.
— Muito prazer de conhecer vocês dois, meu nome é Harley – sorriu com os olhos fechados – Não deu tempo de me apresentar mais cedo – essa foi para Bryan, que se corou intensamente.
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