Dois anos e cinco meses atrás


André sentia a alegria explodir no peito. O corpo inteiro formigava, em uma explosão de energia que não parecia capaz de deixá-lo parado.

O troféu que o time de futebol da escola ganhou naquela tarde estava apertado entre as mãos de Jonathan, que, como ele, parecia não conseguir parar de sorrir.

No banco de trás do carro dos pais de André, enquanto seguiam para a própria casa, eles riam e comentavam as melhores jogadas.

— Você mostrou que vai ser o futuro capitão com esse jogo! — Jonathan elogiou. No momento, a braçadeira de capitão estava no braço dele. Mas aquele era o último ano de Jonathan no time, e a vaga estaria aberta assim que o próximo ano letivo começasse.

— Não sei — André respondeu, tentando não criar muitas expectativas mas com uma sensação de absoluta certeza no peito. Ele seria, sim, o capitão. Eventualmente. — Ainda estou no primeiro ano, né. Acabei de entrar no time, não sei se...

— Acabou de entrar no time e já marcou o gol da vitória! — a mãe dele celebrou, no banco da frente do carro, trocando um sorriso imenso com o marido que dirigia ao seu lado. — Você foi maravilhoso!

— Foi o melhor jogo que eu já assisti! — Vicky, a irmãzinha de André, bateu palmas de animação. André deu uma risada.

— E você já assistiu algum outro jogo na sua vida?

A menina estalou a língua, em reprovação, mas logo ele e Jonathan estavam comentando sobre as melhores jogadas novamente, sobre o apoio da torcida, sobre os melhores jogadores do outro time.

— Nós vamos comprar as coisas no mercado, André — Derek, o padrasto de André disse a ele com um sorriso, assim que parou o carro em frente à grande casa deles. — Vamos fazer um churrasco para comemorar. Chame o seu pai, Jonathan. Mande ele vir direto do trabalho se precisar!

André, Jonathan e Victória desceram do carro e rumaram para a casa, ainda completamente animados.

Assim que a porta da frente se fechou, Vicky correu para o próprio quarto, gritando que precisava colocar sua camiseta do time para a festa. André riu, largando a mochila no sofá da sala, sentindo o peito ainda vibrar com a adrenalina do campo.

— Cara, que jogo! — Jonathan exclamou, jogando-se no tapete da sala. Ele puxou a mochila para perto de si e, com um sorriso travesso que André conhecia bem, abriu o zíper frontal. — Eu ia acender isso lá no campo quando o jogo acabou, mas o treinador estava bem do meu lado.

André arregalou os olhos ao ver o tubo vermelho de um sinalizador de fumaça na mão do amigo. Era o tipo de coisa que a torcida usava nas arquibancadas, proibido dentro do campo.

— Você é louco de trazer isso pra cá? Meu padrasto te mata se você acender isso dentro de casa!

— Não vou acender dentro de casa, seu idiota — Jonathan riu, levantando-se e indo em direção à porta de vidro que dava para os fundos. — Vamos acender no quintal. Pega o celular, a gente tira uma foto com o troféu na fumaça. Vai ficar épico pra colocar na página do time.

A ideia era tentadora. A euforia da vitória cegava qualquer traço de cautela. André pegou o celular e seguiu o amigo para a varanda dos fundos. A brisa de fim de tarde balançava a cortina branca da janela do quarto de Vicky, logo ali ao lado.

Jonathan tirou a tampa do sinalizador. O sorriso em seu rosto era o de um capitão invencível. Ele puxou a corda de ignição.

O som não foi um chiado leve como esperavam, mas um estalo alto, seguido de um silvo agressivo. Em vez de uma fumaça densa e controlada, uma faísca violenta disparou do tubo. O susto fez Jonathan soltar o objeto, que caiu quicando no piso da varanda. O tubo descontrolado girou, cuspindo um jato de faíscas incandescentes diretamente contra o tecido leve da cortina do quarto de Victória.

Em questão de um segundo, não eram mais faíscas. Era uma chama laranja, viva e faminta.

— Que merda é essa?! — Jonathan gritou, os olhos arregalados, a confiança evaporando de seu rosto.

— A cortina! Jonathan, a janela!

André avançou, mas o calor o repeliu como um soco. A cortina subiu em chamas até o teto em um piscar de olhos, e o fogo lambeu o papel de parede, encontrando os livros e os bichos de pelúcia na escrivaninha de Vicky logo abaixo.

— Vicky! — André gritou, a garganta já arranhando com a primeira golfada de fumaça preta que rolou para fora da janela. — Vicky, sai daí!

O som de um vidro estourando lá dentro abafou qualquer resposta. O pânico de André subiu pela espinha. Ele olhou para o lado, esperando que o capitão do seu time, o garoto mais velho e mais forte, estivesse ao seu lado para ajudar a quebrar a porta ou buscar a mangueira.

Mas Jonathan estava paralisado. O rosto antes vermelho de alegria estava pálido como o de um cadáver. Ele dava passos vacilantes para trás, os braços erguidos em um gesto inútil de defesa. O fogo refletia em seus olhos arregalados, onde agora só existia o mais puro e primitivo terror.

— Me ajuda! — André berrou, tossindo violentamente, sentindo os pulmões queimarem. — A gente tem que entrar!

— Eu... eu não...

A voz de Jonathan não passava de um fio. Ele deu mais um passo para trás, tropeçando na beirada do quintal. O som de um grito agudo de Victória rasgou o ar de dentro do quarto.

Foi o limite. O instinto de sobrevivência esmagou qualquer lealdade. Jonathan virou as costas e correu. Correu para o corredor lateral da casa, e então em direção à rua, deixando André sozinho com o som crepitante das chamas e o próprio desespero.