Desajeitada
2 Moletom azul
(despertador toca)
– Droga... Droga, já vou que saco! – disse sonolenta
Alguns minutos depois minha mãe entrou no quarto e começou a berrar:
– MARCELA, anda ou você vai perder a hora de novo e eu não vou te levar para a escola!
– Já estou indo, mais que saco. – resmunguei
Ela saiu do quarto e eu comecei a me arrumar. Não estava nem um pouco a fim de ir para o colégio e ter que encontrar aquelas mesmas pessoas de sempre, sem falar de ter que aturar a pegação logo cedo dos apaixonadinhos Pedro e Ana. Mas eu era obrigada a ir, pois já estava quase estourando de faltas e as minhas notas não estavam muito boas.
Me troquei, peguei minhas coisas e desci.
– Ei sua fedorenta – Disse meu irmão vindo atrás de mim
– Sério João? Esse é o seu melhor xingamento? – eu disse rindo
– Ah, poxa! – ele disse desanimado — É que eu ainda estou aprendendo.
(João é meu irmão mais novo, e também o favorito. Além dele tenho mais uma irmã, ela se chama Clara e têm vinte anos, a gente se dava bem, mas ai o João nasceu e ela meio que se distanciou de mim, acho que porque ela cresceu ou sei lá.).
Fui para a cozinha achando que ainda dava tempo de tomar café, mas quando olhei para o relógio, tive que sair correndo.
Subi no ônibus e nem reparei muito em quem estava lá, como de costume eu entrei e sentei no banco do fundo. Esse ônibus que eu pegava não era tão cheio, pois geralmente iam apenas alguns estudantes por conta do horário.
Quando cheguei no terminal, minha amiga Julia já estava me esperando para pegarmos outro ônibus e irmos para a escola.
– Meu deus Marcela você viu aquele menino? – ela disse
– Bom dia pra você também Julia! – eu disse
– Aham! – ela respondeu – Desde quando aquele gato pega ônibus com você?
Eu ainda sem entender de quem ela estava falando respondi:
– Quem é gato? Eu não sei de quem você esta falando criatura!
– Como assim? – ela falou – Como alguém pode pegar o mesmo ônibus que aquele Deus grego e não perceber?
Eu ri.
– Olha lá – disse ela apontando em direção a um grupo de meninos que estavam parados um pouco mais á frente – Aquele DEUS ali.
– Qual? Se você não percebeu tem vários meninos ali – falei
– Mas nenhum deles é P-E-R-F-E-I-T-O igual ele – ela disse eufórica
– QUAL MENINO DROGA? – gritei
– Aquele de moletom azul sua anta. – ela respondeu
Quando me virei para olhar o tal menino, percebi que ele estava olhando na nossa direção, tentei disfarçar, mas acho que não deu muito.
– Eu não tenho ideia de quem seja esse garoto, mas ele estava olhando pra cá – disse.
– COMO ASSIM? OLHANDO PRA CÁ? SOCORRO MEU DEUS ME SEGURA –ela disse animada
– Que lindo em dona Julia, não se esqueça de que você tem namorado, e ele não vai gostar nada de saber que você estava toda animadinha por causa de um garoto que viu no terminal – eu disse rindo
– Nossa, que chata você! –disse ela me arrastando para o ônibus que já estava quase saindo
Chegamos ao colégio e como sempre vimos à nojenta da Ana e do Pedro se pegando logo cedo. Fomos para a sala e lá a Julia contou sobre o tal menino de moletom azul para as meninas que andavam com a gente.
As três primeiras aulas eram de matemática que eu particularmente odeio, então fiquei desenhando e até cochilei um pouco. Assim que o sinal para o intervalo bateu a Julia me pediu para ir até a cantina com ela.
– Vamos logo Ma, eu estou morrendo de fome! — ela disse me puxando
– Calma – eu disse – tem bastante comida lá, pode ficar tranquila. – eu ri.
Compramos nosso lanche e voltamos para a sala. Alguns meninos de outra turma estavam lá, quando um deles se aproximou e disse:
– Ei, seu nome é Marcela né?
Eu sem entender muito bem respondi:
– É sim, por quê?
– Ah! Só pra saber mesmo. – ele disse rindo e se afastou.
Quando o menino já estava um pouco longe, Natalia, uma menina da minha sala que conversa comigo às vezes disse:
– Nossa Ma, que menino lindo.
– Realmente ele é fofinho! – eu disse rindo.
(ele era meio baixinho, tinha cabelo encaracolado e aparentemente era muito simpático).
– Como ele sabia seu nome? – Ela perguntou.
– Como você sabe que ele sabia meu nome? – eu disse rindo.
– Ué, eu ouvi ele perguntando – ela falou
– Nossa – eu disse – Não sei, também estou pensando nisso!
– Vou tentar descobrir quem ele é e depois volto pra te contar! – Ela disse se afastando.
Caramba, como aquele menino sabia meu nome? Pensei.
Provavelmente o Pedro deve ter contado para a sala toda que a gordinha idiota do terceiro ano se declarou pra ele e ele deu o fora nela. Essa é a única explicação.
Fiquei pensando nisso o resto da manhã, nem prestei atenção nas aulas o que pra mim já era normal.
Assim que a aula acabou eu e a Julia fomos andando até o terminal já que não era tão longe do colégio. Quando chegamos, lá estava ele, o menino de moletom azul para a felicidade da Julia.
Ela fez questão de esbarrar nele.
– Desculpa – disse ela sorridente.
– Não foi nada não – ele riu.
– É que a minha amiga é muito desastrada – Julia falou.
– Não tem problema – ele respondeu sorrindo.
(Por alguns segundos eu até achei o sorrisinho dele bonitinho)
Continuamos andando e sentamos em um banco perto de onde meu ônibus costumava parar.
– Não acredito que você fez isso Ju, na boa, e ainda colocou a culpa em mim – eu disse irritada.
– Para de ser chata Marcela, duvido que você não gostou de esbarrar nele – ela disse rindo
– AF! –resmunguei – Ele até que é bonito... Na verdade é MUITO bonito, mas e dai? É chato fazer essas coisas...
– A confessa que você gostou vai – ela riu.
– Ta, só um pouco – eu disse sorrindo
Conversamos um pouco sobre o menino da outra turma que sabia meu nome, até que meu ônibus chegou.
Me despedi dela, subi no ônibus e me sentei novamente no banco do fundo e para minha surpresa o tal menino também entrou no ônibus e se sentou bem do meu lado.
– Oi – ele disse
Puta merda, eu pensei. Não to acreditando que ele ta falando comigo.
– Oi – respondi.
– Seu nome é Marcela não é? –ele disse sorrindo.
– É sim, por quê? – eu disse nervosa.
– Meu nome é Guilherme – ele respondeu.
– Mas como você sabe meu nome? – falei
– Ah... Então... Você estuda na escola de um amigo meu – ele respondeu meio sem graça.
– Que amigo? – perguntei
– O Olavo do terceiro ano, conhece? – ele falou.
– Não sei quem é não... Mas ainda não entendi como você sabe meu nome! –disse.
– Ah, olha só eu desço nesse ponto –disse ele levantando.
– Mas... – eu disse enquanto ele descia
Dois pontos depois eu desci e fiquei com isso que tinha acabado de acontecer na cabeça, como esses dois meninos sabiam meu nome? Eu nem converso com ninguém da outra turma e nunca tinha visto aquele menino antes.
– Marcela, hoje eu vou ficar de plantão no hospital e preciso que você cuide do João pra mim –disse minha mãe assim que entrei em casa.
– Oi mãe – eu disse
– Oi filha – ela disse apressada – Então, a Clara vai para a casa do seu pai e eu não consegui ninguém para ficar aqui com vocês hoje, será que você pode fazer esse grande favor para a sua mãe favorita? – ela riu.
– Ta bom né, fazer o que! E só pra você saber, é a favorita porque é a única – eu disse rindo enquanto subia para o meu quarto.
Me troquei, dei uma organizada no quarto, almocei e dormi a tarde toda.
IDL
– MAAAA – disse a Julia.
– Oi Ju! – respondi sonolenta.
– Você não sabe quem me adicionou no facebook – ela falou.
– Quem? – eu disse.
– O MENINO DO MOLETOM AZUL – ela gritou.
– Sério? Então falando nele, tenho que te contar uma coisa – eu disse.
– Eu já sei que você encontrou com ele no ônibus e ele sabia seu nome – ela falou.
– COMO ASSIM? – perguntei.
– Advinha de quem ele é amigo? – ela disse animada.
– Do menino da outra turma que foi na nossa sala hoje – eu disse
– Serio? Mas ele também é amigo do Fernando – ela disse
(Fernando era o namorado da Julia que estudava em outro colégio).
– Amigo do Fernando? E como você não conhecia ele? – perguntei
– Ah, sei lá – ela riu – Enfim o Fer me contou que esse Guilherme ai falou de você pra ele.
– De mim? – respondi espantada
– Sim, parece que alguém falou pra ele que você acha ele gato e tudo mais – ela respondeu.
– MAS EU SÓ VI ESSE MENINO HOJE MEU DEUS – gritei.
– Pois é amiga, eu falei pro Fer... Fica tranquila que ele vai descobrir quem falou isso – ela disse
A conversa durou mais uns 20 minutos, ficamos tentando imaginar quem poderia ter falado isso para ele e porque o outro menino o tal de Olavo sabia meu nome.
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