A maresia batia em meu rosto com um leve gosto salgado que fazia os meus olhos arderem. Um borbulhar de conversas planava sobre meus ouvidos, cujas vozes eram um mix de gravidade e agudeza. Em minha frente, um homem de barba longa e branca, sem nenhum cabelo na reluzente careca morena, se debruçava sobre mim. A voz dele, que não era nem grave nem aguda, conversava comigo como se fosse um amigo de longa data, enquanto colocava uma compressa de água fria em minha cabeça.

—Garoto, como foi que você parou aqui?

Não me esforcei para responder, mesmo assim, não senti minha voz sair pela minha boca. O homem passava uma espécie de óleo nas minhas orelhas e no meio de meu peito, que estava sem roupa alguma e com uma cicatriz vermelha, exatamente no lugar onde a lança havia me atingido.

Ele e outro homem me carregaram até um quarto, cuja decoração era horrorosa, toda composta de peles de animais e cabeças empalhadas nas paredes. Eu sentia em meu corpo, da mesma forma como eu sempre senti, um sentimento de dor que me perfurava por dentro, arrancando cada centímetro do fio da minha vida.

Eu queria me levantar, contudo, meu corpo estava estático e nada se movia. Eu forçava a cabeça para cima e para os lados e era o máximo que eu conseguia. Eu via a movimentação por baixo da fresta da porta, de pés e gritos do lado de fora.

O homem que cuidou de mim entrou novamente. Ele estava com um balde numa mão e uma bandeja na outra, com um pão e uma maçã.

—Garoto, você precisa comer isso. Convenci o capitão para deixá-lo ficar um pouco aqui conosco, mas terá que partir assim que atracarmos em algum porto.

Nisso, uma forte pancada do lado de fora atraiu a atenção de todos, inclusive do homem que cuidava de mim. Não pareceu grande coisa do lado de dentro do quarto até eu ver um corpo todo ensanguentado se arrastando até a porta. Parecia um garoto de minha idade, porém era irreconhecível por causa do sangue.

Repentinamente, meu corpo voltou à vida e eu me levantei. Mesmo sabendo do perigo, corri para o lado de fora e me deparei com bolas de canhão para todos os lados, destruindo os mastros e as paredes, os canhões revidando os tiros ou voando com o impacto das bolas.

Muitos tripulantes corriam para o andar inferior, onde se encontravam mais canhões, que estavam preparados para a batalha que se seguia. Um homem forte e alto segurou o meu braço e me levou até um palanque ao fundo. Lá estavam dois homens feridos. Ele não dizia nada, apenas resmungava. Demorei a entender o que ele queria que eu fizesse. Sua língua era cortada e seus dedos eram tortos.

Ele apontava incessantemente ao timão do navio. Como uma ideia para um livro, entendi o pedido dele e coloquei as duas mãos no timão, pronto para guiar aquele navio até a morte, ou a vida, o que era mais favorável para mim e para os outros naquele momento.

O navio adversário, com uma bandeira roxa hasteada bem no alto, se aproximava da gente com muita velocidade, pronto para colidir. A carcaça do navio era feita de um metal brilhante, que nem a salinidade parecia ter força para corroer.

Segurando uma corda presa no topo do mastro principal, havia um homem barbado, com uma cara fechada, desejando sangue em suas mãos. Ele gritava como um louco lá de cima, o que me amedrontava um pouco. A voz dele era muito familiar, mas eu sabia que ele estava morto, eu o havia matado, um tempo atrás, naquela guerra sem fim.

Em segundos, o navio inimigo perfurou o navio em que eu me encontrava. Tentei ao máximo desviar o navio, contudo, o estrago seria maior, se meus rápidos cálculos estivessem certos. O homem, lá de cima, saltou sobre o convés e, com uma espada, começou a matar a tripulação do navio.

Assim que eu pensei em sair do timão, o homem com a língua cortada me impediu. Eu tentei novamente e ele me empurrou. Quando fui questioná-lo, ele não se importou. Nisso, ele partiu para cima do homem que, como o vento, açoitou o homem forte com a espada e o cortou em dois.

Eu larguei o timão e me coloquei em batalha. Perto de mim, havia uma espada e um revólver, ambos ensopados de sangue. Eu os peguei e comecei a atirar no homem, contudo, ele era mais rápido, parecia um ninja. Seus movimentos detonavam os meus em segundos. Quando as balas terminaram, eu parti para o conflito corpo a corpo.

Como o timão estava desgovernado, o navio começou a virar sozinho, indo para mais fundo do que eu esperava. O navio inimigo parecia não ter sofrido com o impacto. Eu encarei o homem, que me encarou de volta, ambos com os mesmos olhares de ódio e sede de luta que tínhamos há uns tempos antes.

Nossas espadas rangiam aos poucos e meu corpo ardia em dor, sem explicação alguma.

—Você não me venceu antes e nem me vencerá.

—Pode apostar que você está errado!

Eu chutei o meio de seu peito, o que o surpreendeu um pouco. Ele esboçou um sorriso de satisfação. Ele começou a me circundar e eu seguia os seus passos.

—Você é diferente, isso eu percebo. Agora entendo um pouco porque ele te escolheu.

—Quem me escolheu?

—Ainda não é tempo de você saber quem é ele. O Destino ainda quer testá-lo bastante.

Eu, sem muita paciência, parti para cima dele e tentei perfurar seu corpo com a espada, mas era inútil. Ele era mais forte e mais rápido, como um... Ninja.

Muitas memórias começaram a voltar para meu corpo, para minha cabeça. Meus desejos, minhas dores, as pessoas que eu salvei, as pessoas que eu perdi, aqueles que eu matei, aqueles que eu deixei de matar. Será que esse era o meu destino?

—Você está em dúvida, eu sei como é isso e a dúvida é o que o alimenta. Quanto mais dúvidas você tem, mais forte ele fica, pois por mais tempo ele viverá.

—Quem é ele?

—Você ainda é jovem e não sabe o que te espera.

Eu corri até ele e enfiei a espada no meio de seu peito.

—Isso é desnecessário. – Ele pegou uma pequena esfera de ferro e arremessou para o andar de baixo, pela abertura do alçapão.

Ele me pegou pelo pescoço e me atirou para fora do navio, porém, enquanto estava no ar, uma explosão me impulsionou para mais longe. Assim que eu caí na água, fui parar um pouco abaixo da água, vi uma luz cair sobre mim.

"Será que esse seria o meu fim?"

Outra explosão, mais forte que a anterior e mais vermelha, devido às chamas, fez um impulso que me jogou para mais fundo ainda. Agora, não tinha mais como volta.