Deriva
1 Capítulo 1
Escovei meus dentes com afinco e tomei um enxaguante bucal recentemente comprado. Fitei a mim mesmo. Roupas sociais nunca couberam-me bem. Contudo, há quem diga que minha aparência delgada junto a meu olhar de ermo harmoniza bem com o terno e a gravata. Não tinha muitas roupas sociais dado que o único evento recente que eu precisaria fora de um casamento qual não compareci, logo, admiti minha recusa a adquirir uma roupa de completa ordem lógica. Apesar disso, não possuo a certeza se a precaução seria o lógico e a realidade seria a dominância do meu desleixo reticente. Olhei-me no espelho, verificando as horas do relógio. Ditador. Tempo. Tempo de sair, meu terno preto de tonalidade ligeiramente mais escura que o preto de minha camisa não combina com o dia quente de verão. Os sapatos me incomodavam, ainda novos apertam demasiado e faziam sons engraçados quando andava. Já a calça era bem confortável, pertencia a meu falecido pai, e como tudo velho e nostálgico cabia bem a mim. Quando fui arranjar no dia de ontem as roupas que agora uso, uma atendente simpática e belíssima, cujo trabalho era ser simpática e atender (possivelmente sua beleza seja um fator qualificatório, mas seria uma presunção assumir ser também parte de seu trabalho), disse que combinaria a minha pessoa, e a calça que já possuía, as roupas que agora simbioticamente dominam minha persona. Era tempo.
Desci as pequenas escadas que separavam meu quarto do da vizinha, e segui descendo mais um lance, que daria ao nível da rua, onde surgem abaixo da escada outros dois quartos. Um pequeno complexo que separava o mundo em quatro partes.
O céu fazia jus ao verão. O calor trazia consigo a letargia de meu corpo, que, sendo subjugado a este mundo sem nuvens acima de si, por pouco resistia a tentação de voltar ao conforto do quarto ensombreado, do alívio que é ventilador somado a frescura do recentemente feito chá gelado. Gosto de bebidas frias, não que quentes não me agradem, mas o café pela manhã do dia quente era o início do péssimo, do gosto do ruim. Café gelado também é uma possibilidade interessante.
Meu destino não é muito longe, o trem demoraria cerca de uma hora, todavia, o suor seria um incômodo. Sigo pela rua acima onde, a uma quadra, há um Ponto de Táxi de meu uso recorrente. Se a vestimenta preta não combina com o dia quente, há de ser contrária a situação quanto às sombras. Apesar de possuírem, ao meu ver de mau ver, a mesma cor, a sombra longa que compõe a paisagem é possivelmente o mais característico do verão. Minha longa sombra poderia engolir as pequenas pedras do caminho, porém, competir com as sombras das árvores e dos planetas seria impossível, somente caso engolisse aos poucos, crescendo o suficiente para vir engolir os carros da rua, os prédios e enfim o mundo. Podia já vê-lo a distância. O ponto tinha sombras ao agrado suficiente, duas árvores enormes garantiam a proteção do sol. Uma criança junto a mãe passava do outro lado da rua, suas sombras também eram características. Parecia ser uma criança esperta, usava um pequeno boné, relativamente a ele, um boné.
Apesar da popularização recente dos aplicativos de transporte, ainda prefiro o profissionalismo dos taxistas clássicos. É um tipo de negócio que não mudou muito o seu formato, as cores e os cheiros. Há um ponto válido em apontar que o trabalhador não é o mesmo, trabalha por menos, é menos feliz, a conversa é mais fúnebre que antes, mas a mim importa sua forma acima de tudo. Esse tipo de coisa me agrada. Sentei no banco do ponto abandonado onde algumas aranhas fazem sua morada na marquise. O banco em si estava bambo, o vidro do meu lado esquerdo, quebrado, porém o mais importante, os motoristas, não estavam lá. O ar quente impedia que a espera fosse macabra demais. Não havia a neblina ou o frio, e mais importante, a solidão no calor se assemelha mais a anedota que tragédia.
É uma prática muito comum deixar os carros estacionados e ficar por perto, especialmente no calor, onde busca fugir do fogaréu que se torna o veículo. Entretanto, não havia nenhum sinal dos motoristas dos carros. Verifiquei as horas do relógio. Aliviador. Era tempo de almoço. O sumiço estava explicado. Meu estômago não me irritava, no entanto com certeza tenho fome. Não como nada desde ontem às vinte, comi somente um resto mal amado de pizza de rosbife que a vizinha me forneceu. Batatas, queria e desejo batatas. Algo gelado também seria do meu enorme agrado. Suco de acerola, quando tive pela última vez pensei o mesmo, mas há muito tempo desde que tive um copo desses, li inclusive esses dias que faz um grande bem à saúde. Olhei o relógio mais uma vez, e pela primeira vez vendo as horas. Todos esses pensamentos incrivelmente não despertam minha fome, porém sem qualquer provável relação específica entre os fatos, minhas mãos estão suadas. Fiquei mais algum tempo no banco, as pernas abertas com os cotovelos apoiados nos joelhos juntando minhas mãos ao topo e depositando minha cabeça, em flexão de descanso. O mormaço me deu um pouco de sono. Os barulhos da rua movimentada me serviram como distração perfeita. Aproveitei para descansar minha mente, depositando-a em meus olhos cerrados.
Quando o relógio me gritou dizendo que vinte minutos haviam passado pude ver dois homens vindo da esquina abaixo. Provavelmente são ambos os taxistas dos carros estacionados, logo da rua que vieram há um restaurante familiar agradável. Fui algumas vezes lá. Sua ventilação é louvável, diria que sou quase um cliente padrão apesar do preço um pouco acima do meu padrão. Quando perceberam minha presença se incomodaram o suficiente para que reparasse, como que se estivesse ali para somente interromper sua breve felicidade de quem é satisfeito. Ao início estranharam um pouco e muito provavelmente acreditam que era somente um andarilho cansado, por crença ou por lógica falha. Levava comigo somente minha boa vontade e carteira. Diriam poetas que nunca carregam objetos físicos e vestem nada além de cansaço, tragédia e resquício. Uma vez li um poema que falava disso. Sua frase final “Nada há existir sem existir previamente” vaga em minha memória vez em quando. De um ponto científico é justamente o contrário, acredito, apesar disso, a frase é a única coisa do poema que me recordo, sem contexto provavelmente perdeu seu sentido. Sei que nunca existi antes e não devo existir depois. A realidade é que muito possivelmente só existe a minha existência, e quando minha existência acaba, ora o mundo reinicia ou se acaba. Minha gravata está um pouco apertada demais, isso me leva a esses pensamentos inúteis. Graças ao suor acabei deixando meu cabelo levantado e um pouco bagunçado. Mesmo não optando pelo trem acabei suado. Espero que o ar condicionado do carro seja bom o suficiente para compensar minha escolha pouco bem fundamentada.
O taxista que estava com o carro na frente, e, portanto, o que me levará, perguntou se precisava de seus serviços e até me ofereceu a água que vinha bebendo. Era com gás, então não me contive e aceitei tomar o resto de cerca de duzentos mililitros. Não estava gelada, porém o gás na minha garganta deu-me uma expectativa de vida para esse dia, superior a qualquer outra experiência possível. Valter é seu nome, cabelos grisalhos e pele branca, tem algumas manchas na pele quais eu recomendei ir em um dermatologista para verificar, ouvindo isso, riu em uníssono com o ronronar do motor velho de seu carro. Era bem confortável, me sentei atrás por sua própria recomendação. “Um cara do seu tamanho ficaria todo troncho aqui na frente”, e riu sua risada quase característica até aquele ponto. Não é uma observação muito difícil de se realizar, mas é fato que sou alto. A última vez que medi tinha cerca de 1,88. Meu corpo alto e baixo apetite me deram alguns apelidos durante minha convivência escolar, que por acaso, foi quando me medi pela última vez. As pessoas sentem falta da escola atualmente, em festas do trabalho sempre ressaltam como eram famosos no colégio ou suas histórias incríveis de feitos atléticos, como conta um rei afastado sobre a grandeza de seu reinado. Meu ensino médio havia sido tranquilo. Verdade não foi essa antes, durante minha infância foi algo mais sério. Os coordenadores diziam que caso não fizesse amigos sentiria o adveio no futuro e que seria péssimo. Sinto falta de chegar em casa com papai a mesa esperando junto a mim pela comida de mamãe. Falta é uma palavra forte, diria nostalgia já que não aspiro por uma máquina do tempo com a qual pudesse retornar a esse tempo ou algo assim. Apesar de tudo, não vejo as consequências das quais falavam. Vivo feliz nas minhas condições.
Valter ligou o carro e disse que esperaria aquecer um pouco o motor, falei que não tinha problemas com isso. Meu conhecimento de carros é nulo, então não sei dizer se ele somente um pretexto para terminar sua conversa com o outro taxista ou de fato precisava esperar por algum tempo. Não reclamei, afinal, tinha tempo, e este era de sobra. Havia permitido que ficasse dentro do carro com o ar ligado, sorri um sorriso fervoroso quando uma temperatura baixa atingia todo o interior do veículo. Parecia ser um cara gentil. Seu porta luvas estava aberto e revelava uma foto antiga. Datava 11/2/1997, quando ainda incluíam datas nas fotos por motivos desconhecidos. Desconheço também a razão que levou a não fazerem mais isso, e, apesar de inútil, foi a proposição que me pôs a pensar por algum tempo. A foto tinha a si, com mais cabelo e uma criança ao lado, provavelmente sua filha, já que uma mulher adulta pouco ao lado, segurando uma caixa se assemelhava bastante com a criança. Não tinha Gps no carro, muito menos o encaixe para usar o celular como um. No lado do banco do passageiro tinha um livro velho e surrado de direções. Por fim, como se sua vida inteira fosse um kit clássico de taxista, o banco de Valter tinha um daqueles encostos típicos para as costas. Isso tudo me deu um algo verdadeiro, um sentimento irreconhecível de puro de prazer. Quando enfim voltou para o carro me confirmou que era um veterano no campo das estradas desta cidade. Vinte e cinco anos, foi todo esse tempo que trabalhou com isto. Vinte e cinco anos que eu imaginei em trinta segundos. Me cansei, mas ainda me agradou estar nas mãos de um especialista.
— Para onde vamos? — perguntou o taxista a pergunta natural para o passageiro.
— Rua São José 466 — declarei naturalmente, já tendo antecipado a pergunta.
Ele parou por um instante enquanto retirava seu carro da vaga soltando um ligeiro apanhado de letras em espanto – era de fato um especialista –, rapidamente completando com um perdão solene. As desculpas eram provavelmente em referência ou ao modo de aproximação alegre que teve ou até mesmo sobre a demora. Afirmei que não tinha problema, ficava agradecido com a consideração, além de que tínhamos tempo de sobra e o ar condicionado tinha sido adorável. Continuou um pouco envergonhado mesmo com minha resposta, ainda que não tivesse problema algum como expliquei.
— Meus pêsames, não é a situação mais usual — balbuciou envergonhado com todo seu profissionalismo admirável.
Ele sabia de fato exatamente onde íamos somente pelo nome da rua, me espantam suas habilidades. Afirmei mais uma vez que não tinha problemas enquanto desviava o olhar. O som das buzinas e das brigas substituíram o som de nossa conversa e do rádio. Ficamos em silêncio a viagem toda. Claro que estava em choque, mas não acredito ser algo o suficiente. Quis fumar. Entendo que essa situação não é a mais usual, o espanto dele não me assusta, também não é todo dia que vou a um funeral.
Fale com o autor