Eram 18:38 da noite. Eu sei disso pois a minha primeira visão depois de cair após o primeiro tremor foi aquele relógio velho que ficava na parede, ter um senso de tempo não estava na minha lista de prioridades quando acabava de ter o primeiro terremoto no Brasil, algo que para a maioria das pessoas e dos geógrafos parecia impossível. Eu sabia que um dia o preço pela destruição da natureza seria cobrado mas não que seria tão rápido e esse foi só o primeiro de uma sequência de terremotos que ocorriam na dita cidade maravilhosa, que agora estava sendo destruída. Minha mãe felizmente sobreviveu e não se machucou gravemente, mas no meio desse caos eu perdi meu celular e não pude conferir onde e como estavam as outras pessoas que eu amava.

Entre terremotos pude conferir como estava minha melhor amiga, que felizmente morava próxima a mim, porém vê-la não foi tão divertido como costumava ser, nós duas sabíamos que aquele era possivelmente o fim de tudo, não conseguimos ter acesso à informação para saber a escala do que estava acontecendo, mas sabíamos que nosso velho bairro não resistiria muito mais, se é que podemos dizer que ele resistiu.

Em momentos de calmaria pude andar pelas ruas desse bairro que tínhamos tanto orgulho de falar que vínhamos, mesmo que às vezes ironicamente, sempre tínhamos orgulho do nosso Marechal Hermes, que sequer era uma bairro formalmente dizendo mas ainda assim, mesmo sendo tão pequeno, era gigante em amor e memórias. Ver a praça do retorno destruída, o lugar onde brinquei minha infância inteira, foi como se tivessem tirado uma parte de quem eu sou e acredito que realmente tiraram, as memórias daquele lugar onde ia com minha cadelinha para passear agora foram substituídas por um balanço caído, um buraco no centro da antiga quadra de futebol e um castelo caído.

Mas essa experiência dolorosa só estava começando, decidi me arriscar a ir além da minha rua para observar minha antiga escola e ela demolida parecia mais um esboço do que realmente era aquele lugar antes. Onde estudei até meu nono ano, onde tive meu primeiro namoradinho recíproco, onde encontrei amigos imprescindíveis para minha vida, algo que me fez querer conferir como estava meu amigo que morava naquela rua. Bati em seu portão e percebi que parte de sua casa estava destruída e rezei para qualquer Deus que ele tivesse vivo e felizmente fui ouvida, vê-lo foi como conseguir finalmente soltar o ar que havia prendido depois de ver toda essa destruição.

Sabíamos que deveríamos ser breves, mas vê-lo ali me fez olhar para minha antiga escola e pensar a sorte que tive por ter conhecido ele ali, mas ver o lugar onde nossa amizade foi construída completamente destruída foi doloroso demais. Depois de olhar para a escola olhei para ele e senti que ele sabia o que eu estava sentindo, afinal só ele poderia saber o que vivemos ali dentro, além de mim, é claro.

Ele tinha acesso ao telefone e me informou que aquele caos era global, o mundo realmente estava em uma crise generalizada, abalos sísmicos por todo o planeta, com tsunamis, erupções vulcânicas e tudo mais do que só imaginamos que aconteceria em um filme futurista e distópico, porém essa era nossa realidade agora, o mundo estava acabando e não sabíamos quanto tempo ainda nos restava, mas nos era certo que logo acabaria.

Naquele momento eu desejava qualquer Deus para me agarrar, esperava que fosse realmente o arrebatamento embora soubesse que provavelmente não seria levada, eu só pensava em todos que eu amo, todos os que perderam ou perderão sua vida. Pensei em todos os amigos que o técnico que eu tanto reclamei me trouxe e só pude ser grata ao CEFET por ter me dado a chance de conhecer pessoas tão incríveis, que me fizeram uma pessoa melhor, e naquela situação de fim de tudo, ter conhecido eles pra mim já era tudo.

Antes que continuasse naquele pensamento decido ir pra casa depois de ser avisada que um tsunami vinha na direção do Rio de Janeiro, mas pra mim esse já era o aviso do inevitável, fui caminhando como sempre fazia ao voltar do colégio ou ao ir comprar na velha padaria do Conjunto, voltei olhando cada detalhe e tentando lembrar como era aquele bairro antes, juro que nos meus pensamentos eu podia remontar cada tijolinho do que antes era aquelas ruas e agora cada esquina me cantava as mais belas canções infantis. É engraçado como não há nada que torne o seu cotidiano mais bonito do que ver ele sendo destruído por completo, a capacidade de ver a beleza até no rato só nos vem quando tudo nos é tirado — Talvez eu só precisasse de uma máquina do tempo para avisar isso para a Lispector — pensei, quase num tom engraçado.

Cheguei no meu condomínio com aquele azul desbotado, e ri ao lembrar todas as vezes que fiquei confusa ao tentar explicar pros motoristas do UBER sobre qual era a cor do prédio; Subi as escadas do meu prédio, lembrei da vez que decidi beijar em cada andar daquele prédio, lembrei do primeiro beijo apaixonado que dei ali e também do primeiro não apaixonado, ambos tiveram como pano de fundo aquelas mesmas paredes brancas amareladas pelo tempo. Olhando tudo ao redor daqueles corredores eu pensei o quanto queria repetir aqueles momentos, mesmo que a resposta a isso com certeza seria um coração partido, mas saber que não vou mais amar me deu um calafrio. Será que amei o suficiente da última vez? Cada coração partido pareceu pouco, eu devia ter amado mais, mesmo que isso me quebrasse inteira. Do que adianta estar inteira agora?

Ao entrar em casa vejo que milagrosamente minha mãe conseguiu sinal na tv, um sinal vermelho notificava que todo Rio de Janeiro ia ser destruído pela tsunami, nada seria salvo e que tínhamos somente alguns minutos, ouço um barulho na porta e é minha melhor amiga, nos sentamos no chão da sala e contamos todas as mais repetidas histórias, desde as brigas mais bobas até os momentos mais sérios da nossa amizade, compartilhamos isso com a minha mãe. Um vizinho do lado, um ex amigo também bateu na porta, pensar na nossa briga agora parece tão ridículo, tudo vai ser varrido pela imensidão do oceano, então não tem rancor a ser carregado, falo para ele sentar conosco na sala da minha casa. A casa que vivi minha vida inteira agora seria também o lugar onde eu morreria, me parece um ciclo até poético se não fosse devastadoramente trágico.

Ficamos ali conversando e sentindo o que estava por vir, é bem irônico também que passei minha vida toda com medo de tsunami e barata e agora seria morta assim e terminaria boiando com as mesmas baratas que sempre morri de medo, no final das contas acho que temos o mesmo valor existencial, um ser que eu tanto abominei agora teria um fim tão patético quanto o meu, isso faz a gente pensar sobre como o medo é circunstancial, nesse momento eu poderia entrar em uma piscina de baratas e ainda assim não chegaria nem perto do perigo que eu corro agora, e eu não sinto um pingo de medo, tudo que tinha de medo foi transformado em aceitação, não quero ser preenchida por medo nos meus últimos minutos.

Começamos a ouvir um tremor e o barulho de água se aproxima, tentamos ignorar um pouco, mas o barulho cada vez mais alto quebra a paz de todos, minha melhor amiga começa a chorar incessantemente, algo que ela nunca foi capaz de fazer tão facilmente, agora sua vergonha não tinha mais sentido. Meu ex-vizinho segurou minha mão e me pediu desculpa por tudo, a mim e à minha amiga, acho que o orgulho também não sobreviveu a tudo que acontecia. Minha mãe me deu um último abraço, ela não disse que seria o último, mas todos sabíamos que era, pude falar enfim que a amava e ela disse o mesmo.

Depois disso o som foi ficando cada vez mais alto e por um segundo passou pela minha cabeça a música “If the World was ending” e pensei na ironia de ouvir tanto uma música pensando no ideal de ter alguém ali por mim, amorosamente, sendo que o fim é frio, não tem aceitação que resista a sensação de morte eminente. Eu esboço um sorriso ao pensar nisso — If the world was ending you come over, right? — Parece uma grande piada agora, eu tinha ali duas pessoas tão importantes para mim, mas não era nem 10% de todos que eu amava, no final das contas se preocupar com amor romântico parecia algo tão idiota.

Enquanto o bagulho aumentava quase como se estivesse atrás de nós já, podíamos ouvir e sentir tremores cada vez mais intensos, ouvi também o som da campainha. Eu não tinha mais tempo para pensar eu só corri pra porta, sabendo que eu não teria tempo pra retornar até a sala, e que ao correr eu defini qual era o momento que veria pela última vez o rosto da minha mãe e da minha melhor amiga. Mas ainda assim corri, esperando quase que uma salvação, mesmo que eu achasse que minha esperança tinha sido diluída na água que sequer havia chegado, aparentemente ainda havia algum resquício irritante da menina otimista que sempre espera pelo melhor.

Ao abrir a porta, o corredor estava escuro e não pude ver quem era, só ouvia o som ofegante de uma respiração conhecida, mas ele logo deu um passo à frente e eu soube naquela hora que mesmo com o mundo acabando, o meu rosto ainda era o último que ele queria ver. E embora isso fosse clichê, era recíproco.