Estávamos sentados em cima da mesa do colégio, embora eu já tivesse estado ali em diversos momentos, senti como se estar ali com ela foi como ressignificar aquele local. Estar ali em silêncio foi agradável, porém na minha cabeça havia os mais diversos sons ensurdecedores, alguns dizendo que eu deveria estar ali, já outros me faziam pensar que eu estava errada em estar me sentindo dessa forma. Por "dessa forma" eu ainda não sabia o que eu queria dizer, mas 90% de mim queria manter dessa forma, as vezes não saber o que você está sentindo te dá uma sensação de estabilidade que a verdade jamais poderia te dar. Mas os 10% que queriam descobrir o que eu estava sentindo não ficariam satisfeitos só com uma resposta, e eu não podia me dar ao luxo de transformar nada do que eu pensava em alguma ação.
Dentre esses pensamentos, ela finalmente quebrou o silêncio, e disse o que eu mais queria ouvir: -Infelizmente ele terminou comigo- Na hora nada passou pela minha cabeça, eu só olhei pra ela e fiquei travada. Por um momento me questionei se eu ainda sabia formar uma frase, meu cérebro simplesmente não conseguia formular nada. Ao ver minha reação (ou ausência dela), ela continuou- Aparentemente ele ficou chateado com algo que eu fiz, mas ele não chegou a me falar o que houve, simplesmente tudo acabou do nada.
— Que situação merda, viu? Ele podia pelo menos ter lhe dado uma justificativa...- Disse, finalmente conseguindo pensar em algo, embora tentasse silenciar o que eu realmente estava pensando.
— Pois é... — Ela olhou então pra frente, porém não é como se ela esboçasse qualquer reação, ela parecia neutra como sempre- Mas talvez a gente não fosse dar certo mesmo.
— Acho que tudo que termina talvez não fosse pra ser, não sei- Respondi-lhe e obtive como resposta um aceno seco, seguido de mais uma vez um olhar para baixo. Talvez ela precisasse pensar ainda no que havia acontecido, e em meio ao turbilhão de pensamentos que invadiam a minha mente, me veio mais alto que todos os outros o pensamento de que eu não podia ser egoísta nessa situação. Eu precisava estar ali, precisava ser a amiga que ela precisava. Era minha função estar ali e ajudá-la como podia.
Dei-lhe um abraço, ainda de lado. Cruzei minha mão por suas costas e a enlacei em sua cintura, apoiei minha cabeça em seu ombro e só fiquei em silêncio. Esperava que com isso ela se sentisse acolhida pra passar por isso. Queria que ficasse explícito que eu estava ali por ela, como amiga, uma verdadeira amiga. Eu pude sentir que ela virou sua cabeça pro lado e olhou em direção a onde eu estava. Ela ficou olhando por alguns segundos e eu levantei, enfim. Mas esperava que a minha mensagem tivesse sido passada.
Ao levantar, olhei pra ela e ela estava olhando pra mim, me deu um meio sorriso e voltou a olhar pra frente. Eu continuava ali me forçando a pensar em qualquer outra coisa, além do que eu queria pensar. Mas felizmente meu esforço foi interrompido por um som vindo em nossa direção, era um amigo nosso. Ele chegou já falando algo bem animado e eu embora tentasse dar a atenção, eu só conseguia reparar nela rindo e colocando o cabelo atrás da orelha, é como se o que passou a menos de cinco minutos já tivesse sido superado e ela continuava ali, inabalável, engraçada e linda.
Era incrível observar seu jeitinho de viver, é como se nada já tivesse machucado ela, simplesmente uma alma pura no meio do montante de caos que vivemos cotidianamente. Enquanto eu a observava, ela então olhou diretamente pros meus olhos, que já estavam a observando. Isso me deixou bem constrangida, ainda mais em uma situação daquele tipo, eu não sabia o que estava acontecendo comigo, eu claramente não estava no meu estado normal, eu só precisava ser uma amiga normal, na verdade, acima disso, ser uma boa amiga.
Enquanto eu encarava o chão, que foi o primeiro foco pra onde pude desviar minha atenção quando notei que ela viu que eu estava olhando para ela, ela pegou a minha mão, e começou acariciá-la e continuou a conversar com nosso amigo, que pude ver que estranhou por alguns segundos, mas preferiu não falar nada. Eu fiquei olhando para minha mão por uns segundos sem entender nada, e eu queria entender algo. Eu tinha muitas dúvidas na minha cabeça naquele momento, mas não seria eu a interromper a conversa deles, muito menos para evidenciar o que ela havia feito com tanta naturalidade, porém minha cabeça simplesmente não parava de pensar nas milhões de possibilidades daquelas carícias desavisadas em um momento tão sensível.
Em dado momento, nosso amigo se retirou, se despediu de nós duas e seguiu seu rumo. E, durante todo o tempo que ele esteve ali, ela não parou de segurar minha mão, e depois dele ir embora ainda ficamos em silêncio por vários minutos. É como se eu tivesse medo de que falar sobre aquilo pudesse fazer com que tudo acabasse, e eu me sentia tão bem. Nervosa, mas sim, eu estava bem. Mas em dado momento, o silêncio foi quebrado, e claro, não foi por mim. Não tive a coragem de verbalizar minhas dúvidas, mas ela sempre foi mais corajosa que eu e interrompeu aquele silêncio. Enquanto falava olhava fixamente pra mim e eu não conseguia desviar meus olhos do dela.
O que ela disse eu guardo pra mim até hoje, íntimo, secreto e nosso. Acima de tudo nosso.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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