Depois do Fim
14 Oráculo dos Syatis
Notas iniciais
POV MÔNICA
Confesso que não entendi o porquê de ter me incomodado tanto com a situação que se desenvolveu ante aos meus olhos naquela mesa de jantar. Em nenhum momento o Príncipe mostrou qualquer coisa parecida com interesse ao meu respeito, acredito que simplesmente deva ter entendido tudo de maneira errada.
Corri apertando o Doce bem forte em meus braços, sem me importar com os chamados da Maga e do Cas, não sabia pra onde, mas precisava me afastar o máximo que conseguisse daquela situação. Irrompi através da primeira porta destrancada que encontrei e parei em sua soleira, estupefata com a visão.
Dei alguns passos a mais e observei aquilo sobre o qual tinha tanta curiosidade naquele mundo: A noite. Fantástica! Nunca havia encontrado tantas estrelas assim, elas brilhavam espalhadas em cada canto daquele céu, tive a impressão de que ali seria possível identificar as mais diversas constelações, pena que não aprendera isso. O vento frio da noite batia em meu cabelo, bagunçando-o um pouco, a brisa esfriava meu corpo, me acalmando e deletando da minha mente qualquer tipo de pensamento ruim que pudera ter sentido.
Despertei dos devaneios quando percebi o Doce agitado, então me dei conta da presença de Maga perto de mim, ela devia ter continuado a me procurar.
— É linda, não é mesmo? – A pergunta saiu mais como uma afirmação velada com uma expressão extasiada, acredito que deva ter ficado assim mesmo.
— É perfeita! – Suspirei ainda sonhadora.
— O doutor que te deu esse bichinho fofo? Já tem nome? – Perguntou voltando a atenção para mim.
— Sim, ele me presentou. Dei o nome de Doce, gosta?
— Claro! Combina muito com a aparência dele, inclusive, me dá vontade de mordê-lo sendo tão rosa e fofo assim. – Falou querendo chegar mais perto.
— Eu hein! Sai pra lá, Maga! O Doce é um animal de estimação, não vem com essa de morder. – Afastei-o dela sorrindo.
— Tô brincando, boba. – Riu também. Estávamos numa espécie de jardim daquela casa, era amplo e com a grama bem verde, começamos a caminhar por ali explorando cada cantinho. – Mas e aí, vai me contar o porquê de ter saído daquele jeito ali atrás? – Apontou pra casa.
Fiquei em silêncio, não pelo fato de não querer contar, mas sim porque não sabia realmente o que dizer, minha cabeça estava um turbilhão e quando abri a boca o que saiu não fez o menor sentido pra mim, mas não deixava de ser verdade.
— Eu senti ciúmes do Príncipe. – Ela refletiu diante aquilo e soltou:
— Bom, mas isso ficou meio óbvio não é mesmo? O que não entendo... Er... Assim, aconteceu alguma coisa entre vocês? Não precisa responder se não quiser, amiga, mas eu e o Cas acreditamos que seus olhinhos brilhavam pelo doutor e não pela “Realeza Dominadora”. – Fez aspas nas palavras com os dedos.
— É confuso, não sei como explicar porque não sei nem interpretar o que é tudo isso. O fato é que... – Parei tentando amenizar as coisas pra mim mesma.
— Os dois? – Magali perguntou levando a mão à boca e arregalando os olhos.
— Não sei, Maga. – Respondi largando os ombros com um suspiro. – Eu nunca fui corajosa, forte, imperativa e nem nada do tipo, mas se tinha uma coisa que podia me orgulhar era quando me decidia por algo, uma vez dentro, nada me tirava e você sabe... Mas agora... Nem consigo entender o que quero.
Ela me olhou, mas não com a cara de reprovação que eu esperava, pelo contrário, apenas sorriu, me abraçou e disse:
— Eu não acredito em você. – Me assustei e abri os olhos ainda abraçada com minha melhor amiga.
— Pera lá, Maga, eu tô aqui abrindo meu coração e você me chama de mentirosa? – Soltei-me dela.
— Não, ami, calma. O que eu ia dizer era que não acredito que alguém possa ter o mesmo sentimento por duas pessoas, você pode até estar confusa, mas seu coração pertence a apenas um deles.
— Tá, mas então diga-me Ó grande sábia, como sei a quem pertence?
— Já dei a resposta, agora encontra a solução. Eu hein, folgada! Quer que eu faça todo o trabalho! – Falou rindo e nos dirigimos de volta à casa da família real.
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POV CEBOLA
Minha família recebeu com o devido respeito os Lethus em nossa casa, mas não conseguiram esconder a surpresa diante do meu pedido de casamento à Princesa. Pra falar a verdade fazia um bom tempo que eu vinha adiando essa parte oficial e com a chegada dos humanos, já esperavam que eu não fosse levar adiante o compromisso, já que antes daquele momento ainda não era obrigado a nada.
A situação era a seguinte, ninguém, exceto as famílias reais dos dois povos sabia que ocorreria uma união entre o Príncipe Cebola, eu, e a Princesa Carmen, sendo assim, o Rei Frufu não esperava qualquer obrigação da minha parte, o casamento só era dado como certo porque ele sabia que necessitávamos do seu exército. Entretanto, caso decidisse não levar o casamento à frente, sua filha não ficaria com fama de quem havia sido recusada, já que mais ninguém sabia do nosso acordo.
É claro que ele não escondia sua vontade de reunir nossos reinos, Carmen era filha única e a Rainha, sua mãe, não poderia mais dar à luz outras crianças, sendo assim, necessitava de um Rei quando morresse para governar seu povo e só aceitaria unir sua filha a um macho com sangue real e eu era o único com essa característica. Quando finalmente pedi à Carmen para ser minha, sua alegria era visível, enfim, me tinha nas mãos, pois, um pedido de casamento oficial na frente da família era impossível de ser retirado, exceto em raras ocasiões, e uma vez que uma das duas partes queria voltar atrás, havia uma única regra, única lei: Morte.
De certa forma, éramos a salvação um do outro sem possibilidades de escolha. Bom, não tínhamos, mas agora eu via uma outra solução, os três humanos finalmente caíram em nosso planeta e os Syatis agora tinham outra arma na guerra. Então, porque mesmo assim fiz o pedido?
Naquela tarde, depois que meu irmão saiu de minha sala tomei uma decisão, veria o oráculo e pediria instruções sobre como proceder, claro que sabia que ele gostaria de ver os humanos, mas ainda não estava preparado para a resposta. O caso é que alimentava esperanças de não precisar que Mônica se arriscasse, ao mesmo tempo que a queria para mim, sim, meu irmão tinha razão, desejava a essa fêmea mais do que tudo na vida e nunca torci tanto pra aquela velha múmia me dar uma boa notícia.
Tinha por volta de quatro horas até o sol se pôr totalmente, então saí de casa e fui à colina ao leste procurar minhas respostas. Ao chegar ao templo despi minhas sandálias e roupas, como pedia a tradição, coloquei as vestes que eram necessárias e invoquei pela presença do consultor de nosso reino.
Ele apareceu, como sempre, envolto em fumaça e luz, o cheiro do mofo invadiu meu nariz e tive que levar as mãos a ele para não sufocar.
— Quem vem a mim, o Grande Oráculo dos Syatis? — Perguntou em nossa língua com voz rouca.
— Corta essa! Você sabe que só eu ou àqueles que te trago é que podem invocá-lo.
— É um estraga prazer mesmo! Eu hein! Seus avôs sabiam como me respeitar e...
— E se portar diante da sua magnitude e blá blá blá. – Gesticulei com as mãos, mostrando impaciência. — Pode me ouvir ou não?
— É claro! Desde que o frouxo do seu pai te delegou as funções do reino preciso te responder e acho muito ruim, se quer saber.
— Não, não quero saber. Mas vamos ao que interessa... Humanos. Eles vieram, como você predisse.
— Ah eu sabia que esse dia chegaria! — Falou o oráculo e, embora não tivesse lábios, pude imaginar o sorriso de triunfo na cara da múmia velha. — NÃO OUSE TENTAR IMPEDÍ-LOS DE CUMPRIR MINHA PROFECIA, SEU MALUCO!
— Não esquenta. Porque acha que eu o faria? — A pergunta de um milhão de kias, nossa moeda.
— Eu posso ver... Vejo em seus olhos que tenta colocar um porém nisso... Traga-os aqui, preciso atestar qual dos três é digno de receber o poder que libertará os Syatis dessa guerra.
— Não. Me diga... Qual dos três é o liadhere? — Perguntei ansioso e amedrontado.
— Como posso saber? Nem os vi.
— Eu sei que sabe... Diga! — Novamente tive a sensação de um sorriso de escárnio em seus lábios.
— Está com medo, jovem Reizinho? Pois bem, direi. O liadhere é justo aquela que desejas não o ser. O destino tramou contra você e não há nada que possa fazer para muda-lo.
— NÃO! Ela não. – Falei em desespero, não podia ser a Mônica, isso a mataria, a guerra a mataria como fez com muitos. Mas não deixaria que fizesse a ela.
— Não interessa o que quer, a profecia irá se cumprir de uma forma ou de outra e se fosse você não tentaria impedir.
— Mas não o é. Eu sou o Príncipe e tomo as decisões por aqui. Esqueça essa profecia.
Não ouvi os argumentos que ele ladrou aos gritos, fui arrancando as vestes com fúria e coloquei as minhas. Voltei para casa com uma única certeza: Abriria mão dela para não perdê-la, contraditório, eu sei, mas preferia vê-la feliz e bem com outro ou sozinha do que carregar na consciência sua morte. Assim que decidi pedir a mão da Princesa Carmen naquele jantar.
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