Depois do Fim
22 O Resgate
Notas iniciais
POV CEBOLA
A ansiedade invadia meus pensamentos, depois que pegamos o Kaphi da Mônica e nos despedimos dos meus pais, minha irmã e meu irmão. Foi um pouco complicado, mahma não queria me deixar ir de maneira alguma, preferia enviar todos os nossos homens, o que seria impossível, mas eu jamais deixaria de participar da busca de minha yala.
Escolhemos trinta dos melhores soldados, aqueles que usávamos para nossa guarda pessoal, depois disso viemos Cas, Maga, Doce e eu. Saímos em um veículo próprio, mas Magali vinha na frente, estava pegando jeito com a flutuação proveniente de seu poder, ela chegava a se concentrar tanto que por hora seus olhos ficavam negros e vazios, era assustador.
De tempos em tempos parávamos para Maga se concentrar na energia da Mô e indicar a direção, Doce ainda não participava, desde que saímos do reino ele ficou quieto e encolhido no meu colo.
— Temos que continuar seguindo em frente, mas creio que daqui a cerca de 600 metros devemos fazer uma curva para a direita. – Magali avisou o condutor da primeira comitiva que levava o Príncipe, três soldados, Cas e Doce, as demais seguiram atrás.
— Você tem certeza? – Perguntei e a menina apenas confirmou com o sinal das mãos.
Logo que dobraram a direita e seguiram por mais alguns quilômetros a garota cheia de energia estancou, fazendo o condutor freiar bruscamente para não bater na fêmea.
— Hey, cara, atenção com minha... Hum... Minha amiga. — Cas disse automaticamente quando o veículo quase encostou na garota, mas ficou envergonhado quando percebeu que não sabia como chamá-la.
— Desculpe, senhor. Não sabia que ela pararia assim. — O condutor pediu e fez uma reverência.
— Ei, Maga, qual é da parada? – Cas perguntou.
— Silêncio, Cas, tentando me concentrar na energia dela e acho que tá perto e a nossa esquerda, mas não consigo ter certeza!
Magali não precisou falar mais nada, como se fosse automático Doce saiu em disparada do meu colo e se embrenhou na mata. Todos saímos correndo atrás do bichinho que não parava para observar se alguém vinha atrás, quem conseguiu chegar perto e pegá-lo foi o Cas, que arrebatou o Kaphi em seus braços e todos pararam ofegantes atrás.
Peguei o bichinho que se debatia loucamente e tentei acalmá-lo, aos poucos a respiração foi desacelerando, mas dava para perceber onde queria entrar, um lugar meio escondido por árvores, folhas e plantas, logo descobrimos a entrada secreta para o que acreditamos ser, finalmente, a porta para o reino Viskha.
A empolgação causou arrepios na minha pele, sempre esperei por esse momento, se tudo desse certo com o resgate, logo poderíamos voltar e travar um combate aqui ao invés de no nosso próprio reino, como sempre acontecia e o prejuízo era nosso, vibrei com o pensamento, mas lembrei imediatamente do que nos fazia estar ali e voltei minha concentração.
Doce do jeitinho dele ia mostrando o caminho, Magali também confirmava com a energia que sentia que sim, estávamos perto, quando tínhamos andado cerca de 400 metros para dentro do túnel, virei uma esquina e dei de cara com dois soldados Viskhas, sorte que eles estavam distraídos, acho que não esperavam visitas naquele momento.
Começamos a conversar em voz baixa, confabulando como seriam nossos passos dali para frente.
— Eu vou na frente já que balas e facas não conseguem passar pelo meu escudo quando estou concentrada o suficiente. – Magali disse.
— Ah, Maga, não sei não... Porque não afogo eles com meus jatos de água? – Cas se ofereceu.
— Não, Cas, eles precisam estar distraídos, mas você entra depois, okay? – Ele acenou afirmativamente com a cabeça e o plano iniciou.
Maga contou mentalmente até dez, respirou fundo com os olhos fechados e saiu do seu esconderijo.
— Ei, bobões! Acho que esse esconderijo não é mais tão secreto assim, né mesmo? – Magali disse chamando atenção dos dois que estavam parados.
No início eles ficaram sem ação, mas logo o susto deu lugar à raiva de terem sido descobertos pela primeira vez em anos e eles atacaram com as espadas, entretanto, Magali estava muito bem preparada e usou seu escudo de energia para não permitir que fosse machucado, entretanto, seus golpes também não transpassavam sua proteção e ela não podia fazer muita coisa.
Os Viskhas assustaram-se ao perceber que estavam impotentes naquela luta e a situação para o lado deles só piorou quando o Cas apareceu, os surpreendendo ainda mais com jatos de água direto no rosto até que perderam a consciência totalmente e caíram.
— Vocês são perfeitos! – Comemorei parabenizando-os, esses já não seriam mais problema.
— Ainda bem que deu certo, mas lá dentro terão muitos mais e não sei se daremos conta! – Cas falou preocupado.
— Não se preocupa, pra isso que estamos aqui. Como eu que estou com Doce, irei atrás da Mônica, vocês cuidam dos soldados que acharem.
— O que faremos com esses? – Magali perguntou preocupada.
— É fácil. – Falei. – Você, dê um jeito nisso. — Disse para um dos meus homens.
Magali tentou impedir, mas o soldado que apontei já havia se debruçado nos Viskhas e cortado suas gargantas.
— Porque você fez isso? – Ela rosnou em minha direção.
— Maga, você deve lembrar que isso é uma guerra, eles não hesitariam de fazer o mesmo conosco. Agora vamos que não podemos perder tempo. – Encerrei a conversa, mas ela continuou balançando a cabeça em reprovação.
Nos preparamos e abri a porta, a surpresa que nós esperava ali era a pior possível. Aproximadamente cinquenta soldados esperavam na sala, acredito que tenham escutado os barulhos lá fora, mas não tentaram intervir pelo fato de não saberem o que iriam encontrar.
Doce se agitava em meus braços, tinha certeza que ele sabia em que direção encontrar sua dona, esperei a batalha começar e saí na direção que ele apontou. Não sei como tive tanta sorte, mas não topei com ninguém no meu caminho, tudo estava muito fácil.
Cheguei num corredor trancado por uma porta enorme, girei a maçaneta e gelei, minha yala estava jogada num canto, corri até ela em desespero, não sabia se estava viva ou morta, senti que meu coração parou pelo tempo que chegava até ela, soltei Doce e em instantes o bicho se aninhava na dona, fazendo barulhos estranhos, parecidos com um choro.
Consegui pegar seu pulso, estava totalmente machucado, quase em carne viva, haviam tirado os grilhões que a prendiam recentemente e deixaram a porta aberta porque provavelmente acreditavam que estava morta, por alguns segundos também acreditei e acho que morri um pouco.
— Mônica, yala, por favor, não vai... Eu vim por você. Por favor, nós vamos tirá-la daqui.
Não sentia seu pulso e meu desespero ficou cada vez maior. Estava deitada e muito magra, cheia de marcas no corpo e o rosto quase irreconhecível. Os dois olhos estavam inchados e o pior... Algum monstro costurou suas pálpebras! Eu mataria, mataria com minhas próprias mãos quem havia feito aquilo. Lágrimas invadiram meu rosto, como alguém conseguiu ser tão cruel com aquela garota tão doce e indefesa?
— Yala, vou tirar seu corpo daqui... Nem que seja a última coisa que eu faça. Sob seu corpo eu juro que matarei quem fez isso a você.
Nada podia conter minha tristeza, minha fúria, doía mais do que tudo no mundo sentir a perder da única fêmea a que me vinculei... E a culpa era minha! Nunca deveria ter deixado os humanos ficarem em Katharsis, sabia que era perigoso, a nave estava pronta, mas meu egoísmo não permitiu que deixasse que fossem.
Agora ela estava morta e não havia mais nada que pudesse fazer para mudar isso.
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