Depois de Você
14 Capítulo 14 - Um gole, um golpe
Luna acordou determinada a encarar a nova fase de sua vida, até porque não se tinha como fugir ou ignorar o fato de que tudo será diferente dali adiante. Por um longo momento, se viu parada diante do espelho do seu quarto, fazendo uma autoanálise mental sobre o que via, sentia e pensava, como forma de tentar equalizar tudo. Ela passa o dedo sobre seus dentes, achando que seus caninos ficariam mais pontudos o tempo inteiro, mas tudo permanecia igual, assim como o restante de seu corpo naquele momento. E quando percebeu que sua mente começava a se embaralhar para perturbá-la, respira fundo e decide por fim parar de se observar porque estava lhe dando gatilhos.
Então ela decidiu ir até o quarto de seu pai para perturbá-lo já de manhã cedo, pois novamente ele havia estado com uma mulher durante a noite e aquilo sempre a incomodou. Não porque atrapalhavam seu sono, mas porque ela não gostava de pensar na chance de que alguém entrasse na família e por mais que ela não tivesse conhecido sua mãe, temia que alguém de alguma forma a substituísse.
—Que dia lindo lá fora! — Luna entra no quarto arregaçando a porta do quarto e as cortinas, encerrando sua entrada triunfal com uma pose diante da cama — Acho que alguém perdeu a hora de ir embora.
—Bom dia, filha…
A mulher se apressa pra sair, comentando algo com Damon rapidamente antes de ir. Ele então se senta para colocar a calça e finalmente levanta da cama, acostumado com aquela intromissão, sabendo que havia dado mancada mais uma vez.
—Foi mal, eu mandei ela ir, mas peguei no sono…
—Acho que ela esqueceu algo. — Luna ergue as algemas peluciadas do chão, usando como chantagem — Talvez eu fique com isso até você parar de trazer essas mulheres pra cá.
—Você nem sabe o que é isso, passa pra cá. — Damon ameaça a pegar de volta, mas ela recua.
—Eu não sou mais criança pai e nem mais virgem. Mas tudo bem, fica com esse negócio empesteado… — Luna joga as algemas sob a cama, com nojo.
—Você o quê?! — Damon olha para ela, assustado com o que ouvira.
—Não sou mais criança.
—Não isso, a outra coisa… Quer dizer, esquece. Não vamos ter essa conversa agora. — Ele franze a testa, constrangido com aquela informação. — Vamos conversar sobre suas aulas de hoje, Elena acabou de chegar.
—Como sabe? — Luna franze a testa curiosa, até que ela percebe que não havia se atentado a utilizar sua audição sobrenatural, então ao se concentrar, ouve a voz familiar de Elena no andar debaixo — É, ela está aqui… Hora da diversão, não é? Minha diversão porque pra você, já deu.
—Ok, mamãe. — Damon brinca, vendo-a revirar os olhos e sendo castigada com uma surra de cócegas e beliscões que a fazem cair na gargalhada e sair de sua postura severa.
Então, prestava muita atenção no que Elena dizia sobre o autocontrole e em técnicas que ajudavam a reduzir o risco de atacar alguém. Elas estavam usando sangue animal, para que Luna se sentisse menos culpada, e por incrível que pareça, essa etapa foi mais tranquila do que imaginava. Eram pequenos goles, alguns exercícios de respiração e distração durante algum tempo, até que começasse a pegar jeito.
—Você está indo muito bem. — Elena a elogia, com um sorriso sincero.
—Espero que sim. — Luna ergue as sobrancelhas sem acreditar muito — Você se acostumou rápido com isso?
—Eu tive bastante ajuda. Por isso estamos ajudando você também, porque é muito difícil passar por isso sozinha.
O celular de Luna toca, mas ela apenas olha pra tela e bloqueia a chamada, desviando o olhar e voltando sua concentração para o seu processo de autocontrole, o que chama a atenção de Elena. O nome “Kevin” não parecia ser nada, até porque ela hesitou por alguns segundos em cancelar a ligação.
—Não quis atender? — Ela observa a sua reação, que apenas engole a seco e tenta desviar o foco da conversa.
—Eu acho que por hoje está bom, né? — Luna dá um sorriso rápido e a garrafa com o sangue na mesa de centro. — Já deve estar quase na hora do pai me levar pra lutar.
—Luna… — Elena toca a perna de Luna sutilmente como forma de chamar sua atenção, atraindo o olhar apreensivo sobre o que iria perguntar — Você está realmente bem?
—Você está querendo saber como eu vou derrotar ele hoje né? Não precisa se preocupar. — Ela dá de ombros para fugir da conversa e se levanta em prontidão.
—Você é igualzinho a ele. — Elena suspira incrédula ao notar o semelhante comportamento de quem sempre quer fugir das conversas mais sérias.
—Igual a quem? — Damon chega na sala curioso ao ouvir a referência.
—Está na hora de irmos, não é? — Luna se ajeita apressada e deixa o celular no bolso de trás da calça. — Obrigada por hoje, Elena.
Eles vão até um bosque próximo a casa para treinar alguns golpes, já que ele sabia que ela precisaria saber se defender a partir de agora. É um ímã de problemas quando você se torna um sobrenatural, ainda mais sabendo que Luna era a primeira herege desde muito tempo e isso poderia causar algum caos. E Damon temia que a vida dela estivesse em risco, por isso estava ensinando golpes e claro, influenciando-a contra as regras pra torná-la mais forte.
—Você confia em mim, não é? — Ele pergunta, com uma bolsa de sangue humana em mãos, vendo Luna hesitar. — Você precisa ser forte e só o sangue animal não vai te ajudar nisso.
—Eu não sei se é uma boa ideia, você viu…
—Eu confio em você. — Ele diz olhando nos olhos dela — E será pequenos goles agora no início, justamente pra você não se descontrolar. Confia em mim.
—Por que está fazendo isso? Por que eu preciso ser forte?
—Porque as coisas podem ficar feias em breve e eu não quero te perder. — Ele quase parece suplicar com o olhar, convencendo-a.
—Se eu me descontrolar…
—Eu vou estar aqui.
Eram alguns goles e em seguida treinos de golpes, para que gastasse a energia e adrenalina que sentia ao beber do sangue humano. Era uma tática para desviar a atenção do corpo e não se perder na tentação do prazer e estava dando certo, inclusive, Luna já mostrava sinais de maior agilidade e empolgação, conseguindo derrubar Damon ao chão e o imobilizar. Ele desce de seu orgulho para pedir trégua e Luna o ajuda a levantar, debochando sobre sua vitória com superioridade, até que vê a tela de seu celular novamente mostrar a chamada insistente de Kevin. Porém, Damon é mais rápido e pega o celular, mostrando a ela.
—Devo me preocupar? — Ele estreita os olhos, desconfiado.
—Pai, devolve. Não é ninguém!
—Se não é ninguém… — E ele atende mesmo assim — Quem é você e quais suas intenções com a minha filha?
—Pai! — Ela tenta tirar o celular de suas mãos, mas ele a impede.
—Ah… senhor Salvatore? Eu… a Luna está?
—Depende do que você me responder.
—Pai! — Luna cruza os braços irritada, apenas encarando-o com indignação.
—É que ela saiu da festa e não respondeu mais as mensagens, fiquei preocupado… Ela está bem?
—Ela está ótima, não precisa se preocupar. Tenha um bom dia. — E Damon desliga. — Não me diga que sua primeira vez foi com ele, porque aí...
—O que…?! — Luna fica boquiaberta, tentando não surtar.
—Quero revanche.- Damon entrega o celular de Luna e faz uma pose de luta, chamando-a com uma das mãos com a sua expressão brincalhona — Use essa irritação pra dar o seu melhor agora.
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