Depois daquele Inverno
1 Capítulo I
Notas iniciais
20 de Julho
Ele se foi há dois anos, no auge do inverno. Parece que cada parte do meu corpo ainda está assombrado pela sua partida precoce. Algumas pessoas acham que foi contraditório ele ir à óbito em um dia ensolarado — o mais raro — da estação mais gelada do ano, afinal, um dia nublado é melhor associado a tristeza. No entanto, penso que o dia foi condizente com a alma daquele garoto, brilhante, caloroso.
Nesta data que é sempre conturbada, tento fazer-me um esforço para recordar dele com amor depositado e não com lágrimas vazias e opacas, que não se conformaram. Passei a vestir meu vestido azul de alcinhas- o mesmo no qual usei quando o encontrei pela primeira vez — para fazer uma singela homenagem a ele. Faço também uma oração matinal, e peço, seja qual for o lugar que ele deva estar, olhe por todos aqueles que ele deixou e os proteja.
Quando me sinto menos melancólica e me certifico disso, vou até a casa da mãe dele para demonstrar apoio. Helena desde sempre me tratou bem, se contenta por minhas visitas semanais. Ela diz que eu sou a gota de esperança que seu filho deu de presente a ela. Gostaria de sentir o mesmo, porém, nada se compara a tudo que ele fez neste mundo.
— Margot — dizia dona Helena com seus olhos profundos. — Obrigada por sua presença. Rafael deve estar feliz por sua visita.
— Bom, eu não deixaria de vir por nada.
Desde que Rafael faleceu, a cada dia que passo na sua casa se torna cada vez mais doloroso. Foi ali que obtivemos vastas memórias, inclusive, a primeira delas.
3 anos antes
Nem sempre eu tive um cabelo 68% loiro, dentes rentes e um olho limpo, e nem sempre morei no mesmo bairro. Quando eu tinha 14 anos, morava em um bairro mediano na região oeste de Belo Horizonte, no qual majoritariamente habitavam pessoas que eram naturais do interior do Estado. Todos se conheciam, tinham suas peculiaridades e eram de certa forma unidos. Havia perdido as contas de quantas vezes frequentei o campo de areia que lá existia, e dos vários campeonatos de futebol que presenciei. Não tinha muitos amigos, mas pelo menos uma vez no dia nós nos víamos para conversar e rir.Era um lugar que eu me sentia acolhida e feliz, até que me mudei.
O novo bairro havia mais morros, casas e prédios de pessoas que aparentemente tinham excelentes condições, assim como minha rua — considerada a mais elitizada. Como eu não me encaixava nesse perfil, passei a morar no segundo quarteirão, a parte mais humilde e simples da rua. No primeiro ano, não conversava com ninguém. Chegava da escola e ia para casa e vice-versa. Algumas vezes eu ia na padaria, no mercado e no sacolão. E, todas essas vezes, eu percebia algo igual: um menino. Este normalmente eu o via passando em sua bicicleta azul, e o vento soltava seus cachos, o sol iluminava sua bela pele parda que lembrava madeira angelim pedra. Parecia que ele era bastante alegre e na maior parte do tempo usava uma blusa branca que tinha um rostinho estampado. Quando eu o via, ele virava direto numa avenida, uma pessoa muito atarefada aparentemente. No mais, eu seguia meu caminho, mas não deixava de notar a presença desse garoto.
No início dos meus 15 anos, ou seja, em meados de outubro, eu havia me estabelecido emocionalmente no bairro, acostumado com a rotina de ir quase todos os dias na minha vó, pois ela morava bem próximo de mim, e às vezes eu passava na casa dos meus tios — que moram em cima da casa da vovó- para ter a companhia deles e da minha prima, já que eu não tinha muito contato com os vizinhos. Nessa época, meu tio Christian abriu uma loja de eletrônicos e pediu para que eu o ajudasse a divulgar. Me deu uma centena de cartões de visita e pediu que eu os distribuisse uniformemente pelo bairro. Querendo ajudar meu tio, sai de casa em casa entregando os cartões, mesmo que às vezes parecia algo cansativo.
As últimas fichinhas eu deixei para entregar na rua principal, na qual se encontram os comércios e a maioria dos prédios. Passei em cada um, e no final da rua, havia a última casa e assim acabaria meu trabalho. Caminhei até lá, um pouco distraída, só pensando no banho morno que tomaria quando voltasse para casa. Repentinamente senti um vento gelado, uma dor instantânea. Assim que dei por mim eu estava no chão. Meu vestido azul estava com marcas cinzas, provavelmente adquiridas pelo tombo. Dei umas batidinhas nele, olhei se minhas pernas tinham algum machucado e por sorte só estavam um pouco sujas. Dei um breve suspiro e de repente escuto passos rápidos.
— Moça, eu te machuquei? — disse o menino do cabelo encaracolado.. — Eu realmente sinto muito, acho que os freios da bicicleta não estão bons…
Sem dizer nada, apenas balancei a cabeça. Olhei brevemente a bicicleta. Era ele, o garoto da bike azul. Pela primeira vez o vi nessa parte da rua.
Perguntas aleatórias rodearam minha mente, e eu me perguntava o motivo de estar pensando tanto sobre isso. Talvez seria curiosidade de saber o que tanto faz um garoto como ele.
— Moça eu… Ah, desculpe — ele insistia — Qual seu nome?
— Margot… — falei olhando para ele. — Acho melhor você limpar seu machucado. — apontei para seu joelho.
Ele se espantou e passou a mão nos cabelos. Em seguida deu de ombros e voltou sua atenção para mim.
— Deveria ter mais cuidado.. O máximo que aconteceu com você foi que se sujou, não é? — ele deu uma risadinha.
Sorri curto e dei tentei limpar novamente o vestido com as mãos.
— Seu rosto é muito familiar… — disse ele semicerrando o olhar.
— Quando passo nessa rua, vejo você de bicicleta.
—Ah! Agora faz mais sentido. Bom, Margot, você mora nesse mesmo bairro?
Conversamos ali por algumas horas, até me sentei no meio fio. Contei sobre a mudança, a escola que eu estudava, os ônibus que eu pegava. E o mais importante, descobri que o nome do bike boy era Rafael. Nossa conversa terminou quando o sol estava se pondo, e foi nesse momento que percebi o quanto tarde estava ficando. Caminhei até minha rua imaginando o quão bom seria se Rafael se tornasse meu amigo, para me fazer companhia. Fui dormir com um peso na mente. Possivelmente não teria uma conversa tão prolongada com ele novamente, e isso limitaria a ser apenas uma simples conhecida. Então, sem esperanças, minha mente adormeceu.
No dia seguinte, retornei a minha rotina, que começava por acordar cedo para ver as aulas e tentar chegar o mais rápido possível no ponto de ônibus, pois eram dez minutos de caminhada e eu poderia perder algum. Me organizei normalmente e sai de casa como o previsto. Chegando no ponto, me surpreendi com a silhueta presente. Era ele novamente e, provavelmente aconteceria o que eu temia: ser apenas uma conhecida. No mais, o cumprimentei normalmente e logo ele abriu um largo sorriso.
— Não sabia que pegava ônibus aqui também — disse Rafael.
Reparei na sua vestimenta, e dessa vez ele usava um uniforme escolar de um colégio próximo do meu.
— Bem, é o ponto com mais opções de ônibus que eu conheço — falei.
Pegamos o mesmo ônibus e conversamos mais até tomarmos rumos diferentes. E mais uma vez eu fui dormir pensando que isso não voltaria acontecer.
Erro meu, de fato, pois todos os dias depois daquele pegamos o mesmo ônibus de manhã e nossas conversas estavam cada vez mais vastas. Falávamos sobre tudo, desde geografia até o início do Big Bang. Com isso, ficamos tão próximos que íamos em qualquer lugar do bairro juntos. Rafael tinha se tornado meu amigo fielmente, eu até tomara coragem de compartilhar informações pessoais com ele. E quando as férias de dezembro chegaram, correspondemos por mensagens de textos. Todas as vezes que eu ia na rua principal, o enviava mensagens para ele aparecer lá com sua bicicleta azul com o objetivo de jogar conversa fora por horas outra vez.
O problema começou quando eu passei a olhar Rafael diferente. Dois meses de amizade cultivados e eu consegui confundir minha mente. Conversava com minhas amigas da escola sobre os novos sentimentos que afloraram, e elas aconselharam a tentar evidenciá-los. Entretanto, a prática era complicada. Eu enchia minha cabeça com “ele é só um amigo”, “não estrague as coisas”, “ele é o único que você conversa no bairro além da sua família” e a cada dia de Dezembro eu adiava mais, até que um dia eu decidi deixar oculto, apenas para mim.
O segundo quarteirão da minha rua é composto por um morro bem íngreme, e eu moro na última casa. Desde que me mudei, passei o ano novo em casa, pois a vista para os fogos fica incrivelmente bonita, e só de presenciar esse momento, consigo transmitir mais tranquilidade e felicidade. Não foi diferente naquele ano, passei o dia 31 em casa. Meus pais haviam ido para uma festa e voltariam só na madrugada. Eu estava sozinha naquele dia, se não fosse a presença da Lua — minha cadela — eu estaria só por inteiro, e para completar, minha casa estava sem sinal de internet. Por algum momento eu pensei em ir para casa da minha vó ou para meus tios, porém, não queria deixar a Lua sozinha, e não sabia onde estava sua coleira para sair com ela. Deixei como estava, logo meus pais estariam ali, então não me preocupei bastante. Faltando menos de dez minutos para o início do ano, eu estava no sofá deitada vendo shows da virada na televisão quando subitamente a Lua sai eufórica para a varanda. Em seguida escutei batidas no portão.
— Ah, meus pais já chegaram? — pensei alto.
Ao abrir a porta me deparei com o menino de cabelo cacheado suando em bicas. O que estaria ele fazendo ali num dia como aqueles?Acho que a pior besteira que fiz na vida foi tentar subir um morro de bicicleta — disse Rafael respirando abafado.
— Pensei que estaria na sua casa.
— A senhora poderia me dar um copo de água?
Me toquei que estava sendo mal-educada e o convidei para entrar. Conversamos como de costume e expliquei minha situação. Ele havia ficado surpreso mas logo soltou uma risada. Disse que eu era muito corajosa por passar o ano novo sem ninguém. No fundo eu estava satisfeita por ele ter se esforçado para chegar até aqui. Mas, o meu superficial achava isso um poço de ilusão e me alertava que eu poderia cair nele sem perceber.
Quando começou a contagem regressiva, Rafael segurou firme minhas mãos, pediu para que eu fechasse os olhos junto com ele e contasse no ritmo das pessoas da televisão. Fiz seu pedido e a cada segundo eu sentia meu coração pulsando forte.
No último segundo, prestes a abrir meus olhos e ficar mais contente pela chegada de um novo ano, senti pela primeira vez os lábios do Rafael, o quanto eram suaves e como me amoleci com aquilo. Abri meus olhos e fiquei imóvel, apenas piscando e tentando processar. Olhei para o sorriso de Rafael e então ele me abraçou. No meu ouvido, bem baixinho eu escutei:
— Feliz ano novo...
∞
Fale com o autor