Narração por Lucas Andrade Boaventura
47 anos nas costas e nunca havia passado por nada polêmico, duro ou grande demais na minha vida. Várias formações no meu currículo e uma escola que meu pai me ajudou a montar aos 21 anos. De certa forma fui o garoto que teve tudo de mão beijada. Carro aos 18, todas as faculdades que eu queria pagas pelo meu pai, uma casa própria aos 18 também, viagens caras todo ano, uma esposa linda que tinha a mesma condição que vida que eu antes e nos casarmos aos 27, nenhum filho para atrapalhar nossos planos até os 34... Tudo nos conformes.
Aos 47 anos eu era dono da melhor escola da cidade, ganhava mais do que precisava, minha esposa trabalhava no banco como amava fazer, nosso filho na fase chata do início da adolescência ainda assim era um filho maravilhoso. Minha vida estava perfeita se não fosse por umas dores nas costas que começavam a surgir e a glicose da minha mulher alterada. Coisas comuns da vida.
Pela primeira vez na vida uma viagem da minha escola saiu fora do controle. Primeiro alunos que sumiam sem parar e me deixava desesperado, depois uma aluna que foi parar no hospital da noite pro dia. Apesar de as doenças dela não terem absolutamente nada a ver comigo ou com a escola, isso recaiu em partes sobre mim. Não é dever da escola reparar que uma aluna não come bem, vomita, etc. Mas na hora da morte dela a dor dos pais fez eles me atingirem, ainda por cima uma outra aluna foi assassinada de repente.
Estava tudo bem, festa, bagunça, coisa de adolescente. Uma aluna sumiu e foi encontrada na casa de um dos guias de viagem, morta. Obviamente isso caiu em cima de mim com todo o peso do mundo. Não só pela família dela, a minha também,a de todos os alunos,a imprensa , o governo...
—Como você não checou esse cara direito?
—Como que você leva alunos dessa idade em uma balada?
—Você deveria ser preso.
—Imagina se fosse o seu filho.
—Uma aluna sumiu e você nem notou?
A minha escola foi processada. Perdi muito dinheiro. Perdi a minha dignidade. Agora eu só queria me enfiar em um buraco e pensar em uma forma de me redimir com todos. Só me restou mesmo a minha fiel esposa e meu amado filho.
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