Sentada na cadeira de balanço quebrada da varanda, Naomi acende um cigarro que roubara de Levi. Com um dos pés apoiado na cadeira e o outro a empurrando pra frente e para trás, observa lá embaixo as crianças que brincam e se banham no lago.

Sente-se observada.

Do batente da porta, Cauã se aproxima. Puxa a cadeira ao lado da irmã mais velha.

Ele sorri de modo travesso vendo o cigarro em seus mãos.

— Sem chance. — Ela diz, batendo as cinzas do lado de fora da varanda.

— Qual é? Não é o meu primeiro cigarro. — Ele o rouba das mãos de Naomi, dando uma demorada tragada.

A garota o olha boquiaberta, procurando o que dizer. Se lembra de si mesma quando tinha a idade dele, cinco anos atrás. Era avessa a qualquer tipo de uso de cigarro ou álcool, mesmo que os amigos já utilizassem clandestinamente no abrigo. Mas com o passar do tempo, a morte começara a se naturalizar em sua vida, o que fez um simples tabaco parecer inofensivo em meio ao mundo em que estavam vivendo.

Não tem moral para repreender Cauã, que o devolve em suas mãos.

— O que está pensando? — O irmão pergunta.

— Nada demais.

— Eu te conheço, Na.

Ela ri, olhando para as pessoas lá embaixo.

— Queria poder só ficar aqui pra sempre. Sabe? Um território seguro, as crianças mergulhando naquele lago sujo, eu com meus amigos, você, todos… em segurança, construindo uma familiazinha agradável. Não pode me culpar por sonhar.

Cauã concorda, visualizando o cenário que ela propõe.

— Estamos há poucos passos de realizar isso, você sabe.

— É, falta só o último passo. O mais suicida.

— Acha que não conseguimos botar eles pra baixo?

— Tenho esperança, mas medo dos custos.

— Custos?

— Perdas.

Ele não responde.

Naomi parece abalada. Pensa em Gabe, em Murilo. Pensa nos conhecidos que não saíram do abrigo a tempo. E o pior, pensa nas pessoas da sala ao lado que pode perder. Pensa no irmão sentado ao lado dela.

— Posso te pedir uma coisa? — Ela pergunta, mas Cauã já entendeu onde ela quer chegar com a conversa.

— Nem vem, Na. Eu vou com vocês.

Ela respira fundo.

— Eu não posso correr o risco de te perder de novo, Cauã.

— E você acha que eu estou feliz deixando você ir também? Não me viu te proibindo em nenhum momento, viu?

— Não estou te proibindo.

— Só porque é mais velha que eu não significa que tenha que me proteger pra sempre, Na, pelo amor de Deus.

— É que… — Ela segura a emoção, esfregando os olhos com uma das mãos.

— Eu não sou mais uma criança. — A voz dele é baixa e firme. Finalmente faz com que a irmã o olhe nos olhos.

— Sei que não. Eu só não vou suportar te perder de novo.

— Não vai me perder, eu prometo. Vou estar por perto se precisar. A gente se ajuda.

Ele pega a mão dela, que encosta a cabeça na cadeira, ainda se balançando, e dá mais uma demorada tragada no cigarro, antes de ouvir os amigos a chamando para conversar.

x

A sala é grande o suficiente para suportar todos os que precisam saber como o plano será realizado. Júlia pensara em míseros detalhes. É claro que as coisas não serão exatamente iguais às planejadas e ela sabe bem disso, mas se dedicara a estudar o mapa deixado por Sara com afinco para que pensasse em todos os empecilhos.

Mais ansiosos do que seriam capazes de admitir, as outras treze pessoas naquela sala estão com a respiração entrecortada e falhada, todos os que haviam participado da conversa na escura floresta no dia anterior.

— Ok, o que vai ser? — Rafael pergunta, quebrando o silêncio tenso.

Júlia alisa as dobras do papel com as mãos.

— Vamos fazer o seguinte:

— Antes de partirmos pra ofensiva, precisamos de apoio lá de dentro. Não temos como nos comunicarmos com Rico, então estamos por conta própria. — Ela começa, vendo que prendera a atenção de todos. — Por sorte, Sara nos abençoou com isso aqui. — Aponta para o mapa.

"Vamos nos dividir. Grupo A vai fazer barulho aqui. — Ela faz um X com a ponta dos dedos em uma das extremidades do bunker. — E o grupo B vai entrar aqui. — Na outra extremidade, o desenho de uma escotilha no chão. — Se caírem na armadilha, vão deixar a escotilha vulnerável. Preciso que sejam poucas pessoas, os mais sorrateiros possíveis. Diego têm que estar entre eles".

Diego levanta os olhos para ela, intrigado.

— Por quê?

— Vou chegar lá. — Júlia continua, tentando não perder a linha de raciocínio. — A escotilha é liberada por senha, assim como todas as portas. Por sorte temos as senhas. Vamos ter que lembrar ou anotar. Ela nos dará passagem para a parte subterrânea do bunker, incrivelmente ainda maior do que os setores. E adivinhem o que têm bem do lado da escotilha?

Eles se inclinam um pouco mais para ler a letra de Sara onde Júlia aponta.

"Sala de Controle".

Diego entende seu papel.

— É aqui que você fica. E alguém pra dar cobertura. Talvez duas pessoas.

— Certo. O que vou fazer?

— Se vira pra hackear o sistema deles. Não deve ser difícil, não esperam que alguém seja capaz disso.

Diego sorri. Ele sabe que é.

— O restante do grupo B vai ficar com uma parte essencial e eu faço questão de estar junto.

Ela passa o dedo indicador da Sala de Controles até uma ala distante intitulada "Alaska".

— Mas que merda…? — Nicolas pergunta, a expressão confusa.

— Pois é. Acho que vamos ter algumas respostas aqui. Mas você não vêm com a gente, Nic. Nem Alex.

— E por que não? — Ele diz, controlando a voz para não mostrar que está frustrado.

— Por que vocês serão do grupo C. — Apontando para a outra extremidade do bunker, outra escotilha desenha-se no chão. — Esse grupo precisa ser forte, porque é aí que vão descobrir sobre nós.

Silêncio se segue. Todos simultaneamente pensam onde se encaixar.

— O grupo C vai escoltar Nic e Alex até aqui, e vão ter que se virar sozinhos. — Uma pequena sala com quadrados desenhados. — Elevadores. Espere até Diego liberar o acesso para vocês. Irão subir até os setores.

Alex respira fundo, em uma mistura de ansiedade e medo.

— O restante do grupo C terá uma missão divertida. — Com o dedo, circunda toda uma área do mapa intitulada "Centro de Pesquisas". Sorri maldosamente, e vê que os amigos a acompanham. O vírus que matara toda a humanidade anos atrás com certeza surgira de um Centro de Pesquisas. Está na hora da vingança. — Quero tudo queimando. Sem exceção.

"Vamos ter que nos comunicar de alguma maneira, mas assim que Alex e Nic estiverem dentro dos setores, precisam trazer aquele povo todo pro nosso lado. E então teremos os nossos aliados. É aqui que as portas principais vão abrir pela primeira vez em sete anos, — Ela faz um sinal para Diego, para que fique claro que a missão de abrir as portas é dele. — a nossa maioria vai entrar. Partimos pra ofensiva de fora pra dentro e de dentro pra fora com todas as forças que tivermos".

Ninguém encontra palavras para dizer. O silêncio é o sinal de consentimento que Júlia espera.

Muitas pontas ainda precisam ser ligadas, mas a porta da saleta se escancara antes que alguém possa se pronunciar sobre qualquer coisa.

Uma das crianças, um garoto de dez anos com cabelos castanhos emaranhados, irrompe correndo pela sala até chegar a Eduardo. Seu rosto está pálido e os olhos arregalados.

— O que foi, Vítor?

— Estão aqui, estão aqui!

x

Miguel, tranquilo como sempre, observava as outras crianças brincando no lago.

Vítor queria se aventurar. Os amigos Anna e Pietro e a irmã mais nova Carolina mergulhavam no lago enlameado e aproveitavam o sol. A brincadeira para eles é uma das melhores sensações que já sentiram, ainda mais para Carol, que nascera no ano da pandemia, e nunca tivera a oportunidade de mergulhar em lugar algum. A água não lhe assusta de nenhum modo.

— Vamos brincar de esconde-esconde? — O garoto pergunta. Já ele, nunca realmente gostara da água.

Pietro é o primeiro a topar. Os dois sempre foram grandes amigos, crescendo próximos, apesar de as famílias não terem ligação alguma. Brincar de esconde-esconde pelos túneis da cidade sempre fora a brincadeira favorita dos dois. Anna topava, de vez em quando. Tem a mesma idade de Miguel, treze, e Carolina sempre fora sua protegida.

— Eu vou se a gente puder levar a Carol.

— Mas ela é devagar! Vai estragar tudo.

— Não vou não! — A garotinha coloca as mãos na cintura, fazendo um bico de birra. — Quero brincar!

Vítor se arrepende de ter proposto a brincadeira ao lado da irmã, mas acaba por topar.

— Ok, então você conta!

— Tá bom!

Enquanto Carolina sai da água para se secar, os três já estão longe. Miguel segue no encalço, curioso, entrando na brincadeira sem verbalizar. Ele sabe que é ligeiro o suficiente para botar as crianças no chinelo, mas um pouco de diversão cairá bem.

Os quatro adentram o mato alto que os cobre por inteiro até chegarem à cerca. Param por um segundo. Pietro é o primeiro a pular.

— O que está fazendo?! — Anna pergunta, indignada. — Minha mãe disse que a cerca é o limite.

— Não seja estraga prazeres, Anna. Você vem ou não?

Vítor sorri, empolgado com o desafio. Anna ainda está em cima do muro.

Ela vê Miguel se aproximando deles devagar. O garoto faz um "não" com a cabeça. Desobedecer o colega é um desafio divertido, e ela esquece completamente da recomendação dos pais. Segue os dois amigos para fora da cerca. Miguel é obrigado a segui-los.

— Quem chamou o esquisito? — Pietro cochicha para Vítor, que ri copiosamente. A garotinha nunca os encontraria ali. De repente, não estavam mais brincando de esconde-esconde, e sim brincando com a sorte.

Já andavam a demorados minutos, explorando a floresta, tudo parecendo o mais aterrorizante cenário de filme para as crianças, até que Miguel escuta. Os sons que destoam-se da mata espessa próxima a eles. Ele toca o ombro de Anna, que para com seu olhar preocupado.

— Meninos? — Ela chama.

Pietro e Vítor olham despreocupadamente para ela. Não veem o perigo aproximar-se.

Da mata, uma figura humana surge ao lado dos garotos.

Com um grito, ambos correm de volta para o sítio, quando Vítor cai, tropeçando em uma pedra e esfolando os dois joelhos e mãos. Anna e Pietro já estão longe, mas Miguel esconde-se. O homem grande dá uma risada e puxa Vítor para cima pelo braço.

— Olha o que eu encontrei aqui! — Ele grita de volta para a mata. É a chance de Miguel.

Escondido atrás da árvore, pega a maior pedra que encontra aos seus pés e cerra os dedos ao redor dela. Se aproximando por trás do grandalhão, a bate com força na lateral de sua cabeça. O homem solta um grito de dor e deixa Vítor escapar por seus dedos.

Miguel o ampara e ambos seguem de volta por onde vieram, correndo, até o instante que uma mão puxa a gola da camiseta de Miguel e o arremessa ao chão. O grandalhão se mantém inteiro.

Miguel olha para Vítor. Seu olhar expressa tudo. Vítor corre o mais rápido que pode de volta para o sítio.

Debatendo-se, Miguel tenta se livrar das fortes mãos que o prendem, mas o homem apenas ri. Não têm chance contra ele.

Um a um, os soldados aparecem por entre a mata, observando a captura do outro.

— Encontrei nossa passagem.



Notas finais
quero fazer o bicho pegar mesmo to nervosa hauhauah