Depois da Ruína

30 Uma Jornada Chega Ao Fim


Todos reúnem-se no extenso recinto. Os murmúrios de pânico e desespero, choros de crianças, tudo os torna alvos fáceis.

Gael e Lucas correm pelo ambiente, costurando as pessoas, apagando todas as fontes de luz. A escuridão está do lado deles.

A luz retorna. Nas mãos de Gael, uma lanterna está estendida para Naomi.

— Estamos nessa por causa de vocês. É bom que saiamos daqui. — Ela pega a lanterna de suas mãos.

Eduardo a olha. Incrivelmente, nunca precisara tomar decisões tão difíceis.

— É com você. — O homem mais velho diz.

— Ok, — ela concorda com a cabeça, determinada. — Estão armados?

— Claro que sim. — Lucas responde, sacando a arma da bainha da calça.

— Vamos nos dividir. — Ela conta, estão em oito. — Metade tira a galera daqui, em silêncio. Metade faz barulho.

A clássica isca. Terá de funcionar.

— Eu tiro eles daqui. — Maia tira o rifle das costas. — Me dá esse prazer? — Ela sorri para Levi, como se estivessem em uma brincadeira.

— O prazer é meu. Vovô, vêm com a gente?

Eduardo concorda. Não se parece nada com um vovô, mas não é hora de ofender-se.

— Cauã, vá com eles. — Naomi ordena.

— Sem chance! Você vá com eles. Tá toda quebrada, eu sou mais rápido…

— Eu sempre fui mais rápida que você, — ela o lembra — E não estou pedindo. Discutimos depois.

Gostaria de ter tempo de contradizê-la, mas apenas olha para Lucas, o amigo mais próximo que fizera ali embaixo.

— Cuida dela?

— Você conhece a sua irmã? Ela que vai cuidar de mim, a mulher é brava.

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Lídia, com uma lanterna em mãos, corre por entre túneis em que um dia passaram os esgotos de toda uma cidade. O lugar mais repugnante da mesma, mas que permitira a sobrevivência de uma família inteira.

Rafael engole o luto mais uma vez. Toda a tristeza lentamente transforma-se em pura raiva. Não perderá o irmão em vão. A missão deles está quase no fim, ele só precisa manter Alex e a pasta em segurança.

Por precaução, tira a mochila das costas da garota e a coloca nas suas. A pressão de carregar o arquivo sai dos ombros de Alex e a deixa mais leve.

— Como decorou o caminho? — Ela pergunta para Lídia.

Olhando ao redor, vê todo o encanamento e bifurcações exatamente iguais.

— Quando se passa sete anos aqui embaixo, tem tempo de sobra pra explorar. — Ela diz, ofegante. O garoto Miguel seguindo ao seu lado.

Lídia não hesita um segundo sequer em que caminho seguir.

Em dada curva à direita, ela simplesmente para. Ao seu lado, ela ilumina uma escada vertical que se estende até uma saída.

— É aqui.

Rafael e Alex se entreolham. Não sabem exatamente onde é ali, mas a falsa segurança que o bueiro lhes dera está prestes a acabar.

Miguel sobe na frente, determinado. Rafael pensa em detê-lo e se pronunciar para sair primeiro — já que está armado — mas o garoto já está longe.

— Não se preocupe. — A ruiva diz. — Ele é esperto.

Realmente, Miguel é ligeiro. Chega sem um mísero ruído na tampa do esgoto acima de sua cabeça. Por um instante, apenas escuta o que acontece lá fora, depois abre, saindo do ambiente com facilidade. Olha ao redor para se certificar de que não correm perigo, e em seguida olha para baixo, para os três que o acompanham. Um gesto com as mãos para Lídia sugere que podem subir.

Em fila, Lídia, Rafael e Alex sobem. A garota faz questão de ser a última.

Quando finalmente chega no ambiente externo, olha ao redor com pesar no coração — exatamente ali, na estação ferroviária Zona Central, ela se despedira dos pais pela última vez, e uma estranha jornada se iniciara. O ciclo se encerra. Só Deus sabe o que virá agora.

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Reunindo toda a coragem que conseguem, os quatro que dispuseram-se a ficar para trás se entreolham, agora no vazio recinto, ouvindo ao longe os ruídos dos perseguidores que se aproximam.

Por um segundo, cogitam ser uma boa ideia apenas seguir o grupo, mas têm conhecimento de o quanto é arriscado.

Mirando o escuro sem fim, Diego, Lucas, Gael e Naomi sentem o perigo se aproximando.

— E então, qual vai ser? — A voz de Gael flutua no ar.

— Vocês nos dizem. — Naomi responde. — Quem conhece o lugar são vocês.

— Isso vai ser divertido. — Lucas comenta. A adrenalina crescendo em seu corpo o faz pular no lugar. — Vamos nos separar.

Aproveitando o escuro, Diego faz uma expressão de repreensão. Por mais eficiente que seja, coisas ruins acontecem quando se separam.

— Só precisamos ganhar tempo pra eles. — Lucas acrescenta. — Nos vemos na estação de trem?

— Demorou. A garota vem comigo. — Gael responde.

Estão em posição, apenas ouvindo os ecos dos soldados crescer ao longe.

Esperam.

Naomi engole a dor que seu corpo sente. O corte profundo no braço provoca uma queimação aguda, mas consegue suportar um pouco mais.

O que quer que os espera na estação de trem, vai ter que ser ágil. O tempo vai apertar.

— Agora.

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Os quatro se separam.

Lucas pega um bastão de metal de um encanamento desgastado, inútil, e bate com força no cano. O tilintar do som ecoa por todos os túneis. A comunicação dos soldados entre si é mais alta. Estão perto. As iscas conseguiram a atenção que queriam.

Diego segue Lucas às cegas. Lucas, por sua vez, não mede esforços para fazer barulhos descontroladamente por onde quer que passe.

Correm há demorados minutos, Diego olhando para trás o tempo inteiro. A perseguição os segue acirrada pelo escuro, mas não o suficiente para se sentir ameaçado. Como dito anteriormente pelo próprio amigo — a escuridão está do lado deles. É a clássica disputa entre gato e rato, e ele sabe quem sempre sai ganhando.

— Aguenta aí, amigo. Estamos chegando.

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Naomi espera a deixa de Gael para segui-lo no escuro. Não simpatizara com ele, mas estão no mesmo barco agora. Terão de confiar um no outro.

Gael escuta o tilintar do amigo batendo no encanamento e se dispõe a fazer o mesmo, com Naomi cobrindo sua retaguarda. A garota se pergunta se não fica óbvio demais que estão fazendo isso para atraí-los, mas os lobos famintos que os perseguem apenas seguem seus instintos primitivos.

— Merda! — Gael sussurra, frustrado, e puxa Naomi para um corredor oposto ao que eles seguiam. A garota segura um grito de protesto pelo apertão no braço.

Antes que pergunte o que o fizera parar tão bruscamente, ela escuta os passos vindo de outras direções.

— Ok, não são tão estúpidos.

Apertados em uma pequena passagem, peito com peito, olham para cima. Uma escada estende-se até a boca do esgoto lá fora.

— Consegue subir? — Ele pergunta, olhando para o braço ensanguentado da garota pela fraca luz que entra das frestas acima deles. É a primeira vez que parece se importar com um deles, mas na verdade está preocupado com a própria pele.

Ela não perde tempo respondendo. Com o corpo pedindo arrego, sobe a escada o mais rápido que pode, Gael atrás dela.

Empurra a tampa do esgoto assim que chega, a colocando para o lado devagar.

Se arrasta para a rua.

Gael fecha a saída atrás dele. A rua está deserta, a luz do sol começando a nascer distante. Estão expostos.

O sangue insiste em escorrer pelo braço da garota, por baixo da gaze tingida. Sua pressão baixando.

Gael olha dela para a rua e para a estação, tão próxima deles. Um som de metal familiar está solto no ar.

— Vamos!

Ela não entende o que o som significa, mas Gael parece saber perfeitamente.

Correndo o mais rápido que podem, adentram a estação ferroviária abandonada. A natureza invadem as escadas rolantes em uma dualidade quase poética.

Eles descem correndo. Ninguém atrás deles.

Naomi deixa o queixo cair no chão quando vê — um trem partindo da estação. O último meio de transporte que ela esperaria.

Com o alívio, seu corpo entende que pode descansar. Mas ainda não pode.

Gael corre na frente, subindo no trem, na última porta do último vagão.

Do mesmo lugar, uma feição familiar a aguarda. Levi estende o braço.

A garota aceita sua mão sem pestanejar. Quando içada para dentro, se permite cair no chão. Vê todas as pessoas daquele abrigo dispostas pelo trem, inclusive os amigos. Eduardo, na frente, guia a máquina.

Ele olha para trás o suficiente para ver Gael e Naomi entrarem no trem.

Sorri.

Uma jornada chega ao fim, enquanto outra se inicia.



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continuação! leiam as notas ♥

Notas finais
FIM DA PARTE 1 AAAAA eu já tenho o link da parte dois ai meu deus sou muito legal e to deixando lá o cap 1 já nao vou me estender muito na historia ja sei onde termina mas eu nao ia continuar aqui com 30 caps já, senao iam me xingar hehe espero MUITO que acompanhem, tá sendo sensacional pra mim me apegar aos personagens. obrigada por chegarem até aqui ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!