Depois da Ruína - O Fim
14 Feche Os Olhos
— Como a gente vai dar o fora daqui? — Maia pergunta, quebrando a tensão do clima. O corpo da garota na última cela começa a exalar o cheiro de morte.
Os outros presentes não conseguem responder.
— Como vocês entraram aqui? — Rico pergunta.
— Pela porta. — Levi responde, com um sorriso orgulhoso. — Longa história. A gente não vai conseguir sair por onde entrou, eles vão estar do lado de fora esperando.
O pobre garoto ainda treme, sem entender a situação. Naomi desiste de se aproximar. Coloca-se no lugar dele. Provavelmente ninguém explicara a ele como explicaram à Alex e Nic. O garoto vivera sete anos no bunker e enfim achara que ganhara na loteria com o sorteio. Tudo para o trazerem ali e o deixarem definhar até a morte. As peças do quebra cabeça devem estar difíceis de serem montadas sozinhas.
— Eu tenho uma ideia. — Cauã diz, debruçado em uma das grades. Faz um sinal para a mochila. — É a última.
A bomba.
— Não é má ideia. — Lucas ergue as sobrancelhas.
— Você tem uma bomba, moleque? — O loiro pergunta, ainda sentado no chão. — A gente pode só sair pela porta da frente. Mas…
— Mas? — Maia pergunta, ansiosa e estressada com a pausa dramática.
— Mas se esqueceram que eu conheço esse lugarzinho de merda como a palma da minha mão.
— Tem outra saída?
— Sempre tem. — Ele aponta para cima.
Automaticamente, todos olham. Os dutos de ar atravessam de lado a lado a sala. Maia os segue, rumando de volta para a outra sala.
— Eu odeio lugares apertados. — Ela sente calafrios.
— É bem menos arriscado que partir pra ofensiva. — Gael pronuncia-se, ainda fitando o corpo da garota morta, em choque.
— Naomi? — Lucas pergunta.
A própria garota havia se esquecido que as decisões ainda estão sob sua custódia.
Olha para o garoto no chão.
— Ele não vai subir por ventilação nenhuma desse jeito.
— Então… bomba? — O irmão pergunta, excitado com a ideia.
Ela olha para Rico, que não expressa opinião.
— A gente vai se dividir de novo, não vai? — Maia pergunta, voltando ao grupo.
— É, vamos. — Naomi concorda. — Precisamos chegar nos setores pra próxima parte do plano. Rico?
— Levo vocês lá. Ainda subo nisso aí. — Ele indica com a cabeça para cima.
— Ok. Quem sair pela porta vai tirar o garoto daqui. Se a Alex e o Nic tiverem sido bem sucedidos, a próxima fase é recuar. Voltem lá pra fora e encontrem a Júlia.
— Recuar? — Rico pergunta.
— Recuar pra atacar, a gente explica depois, vamos! — Levi ajuda o pai a se levantar.
— Quem vai subir? — Gael pergunta.
— Eu vou. — Naomi responde.
— Eu, obviamente. — Rico se apoia nos ombros do filho para ficar em pé.
— Parece que eu também, então. — Levi se voluntaria.
— Vai ser isso então. — Naomi diz. — Tirem ele daqui e nos vemos logo. Cuidado. — Ela acrescenta para todos, mas focando os olhos no irmão mais novo.
— Você também.
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— Não temos como nos comunicar com eles. — Diego frustra-se, olhando para o monitor do laboratório onde os amigos estão.
— Eles não têm como sair dali! — Rafael caminha de um lado para o outro, ansioso. Olham os monitores ao lado. Os soldados investem contra a porta incessantemente. — Eu vou ajudar.
— O que?! Não vai ajudar.
— Eu vou, vou sim.
— Como?
— Eu dou um jeito. — Rafael já pensara em como sair dali, só não em como ajudar os outros. Pega uma das cadeiras e coloca embaixo da entrada de ar.
— É uma péssima ideia.
— É uma ótima ideia.
— E se os caras lá de fora tiverem pensado a mesma coisa?
— Eles são estúpidos! Vai dar certo. Segura as pontas aí.
Diego acaba por concordar, puxando os cabelos da nuca, estressado.
Rafael não está disposto a mudar a sua opinião. Mergulha no duto de ar sem olhar para trás.
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Ricardo realmente aproveitara bem dos anos que vivera lá para explorar o lugar. Sabe todos os cantos onde podem se esconder.
Com sofrimento, atravessara os dutos de ar sem reclamar, seguido do filho e da garota morena. Sabia exatamente onde sair. Quando finalmente decifra sobre qual sala está em cima, abre cautelosamente a grade do duto de ventilação, sem chamar a atenção. É o primeiro a pular. Levi o segue, ainda sentindo a dor no corpo de dias atrás, e ajuda Naomi a descer.
Estão em uma saleta escura, mas vazia. A porta escancarada dá direto em um dos brancos corredores.
— Onde estamos? — A garota pergunta.
— Há um passo de subir pros setores.
— Como? — O filho pergunta.
— Elevadores.
Ele pensa em repetir a pergunta, mas abstém-se.
— Ok, não vai ser fácil sair daqui. Preciso de uma arma.
Levi tira a arma das costas sem hesitar e a entrega ao pai.
— Me dão cobertura?
Naomi concorda, mas o pai já está longe, espiando pelo batente da porta. Pisa em vidro quebrado no chão. O machado para emergências que ficava ali já fora tomado.
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Alex e Nic se situam na realidade em que se encontram.
De acordo com o mapa de Sara, estão no anfiteatro do setor B. Nenhum deles realmente ousara explorar os setores. É claro que já haviam estado em cada canto possível, mas a arquitetura do bunker é espelhada, exatamente igual. Eles nunca haviam pisado dentro do anfiteatro, preferindo gastar os créditos em bebida barata. No momento, desejam que já o tivessem visitado. Sentem-se perdidos.
— Vamos dar o fora. — Nic toma o partido.
No hall em que estão, há uma escada para cima e, ao lado dela, um corredor que se estende, escuro.
— O que sua intuição diz? — O amigo pergunta.
— Corredor.
— Certeza? — Ele brinca.
— Nic? — Ela o fuzila com os olhos pelo humor fora de hora, ainda mais por obrigá-la a tomar decisões.
— Ok, corredor.
Antes mesmo de darem o primeiro passo em direção ao corredor, o som de um alarme alto dispara, ensurdecedor. Alex o reconhece bem do dia em que Ivan viera salvá-la daquele caos. Não sabe o motivo de ter sido acionado, mas sabe que eles têm que sair de lá.
Consentem em correr. Adentram o corredor escuro às cegas.
Nicolas, seguindo na frente, estende uma das mãos em frente ao corpo, procurando qualquer obstáculo, até sentir um pano espesso à sua frente. Parece uma espécie de cortina de veludo.
Alex também a sente.
Os dois a tateiam a procura de uma abertura.
— Aqui. — Alex puxa a cortina para o lado, vendo exatamente onde se encontram. No palco. O anfiteatro estende-se para cima, com cadeiras dispostas em uma extensa rampa. Ao fundo, a luz de emergência acende-se com a placa SAÍDA.
— Ok, daqui pra frente deve ser fácil.
Nicolas atravessa o palco e o desce para a platéia com destreza, ligeiro. Alex o segue sem entender.
— Espera!
Seguir a placa de saída é a opção fácil, mas seria a mais segura?
Nem mesmo chegam a sair do teatro e a resposta os alcança.
O som de um tiro faz Alex abaixar-se ao chão instintivamente, protegendo-se. Corre a olhar Nicolas, bem a tempo de vê-lo cair à sua frente abraçando a canela, baleado, os gritos de dor misturando-se ao alarme e à atmosfera caótica.
— Nic! — O grito de terror da garota sai como lâminas rasgando-lhe o peito. Empurra o chão para se levantar, mas alguém a empurra em direção à ele novamente. Ela rapidamente gira o tronco para cima a tempo de ver o soldado que aponta a arma para sua cabeça.
Sem pensar nas consequências, chuta o homem em suas partes baixas. Ele não atira. Apenas solta um urro de dor e tomba para frente. Alex está prestes a sacar a própria arma, mas o homem é mais rápido. Com o cano da própria arma, despeja um golpe certeiro no nariz da garota, que instantaneamente sente o gosto de sangue. Atordoada, não consegue defender-se. Sente mãos agarrarem as raízes de seu cabelo e a puxarem para cima. Sob um grito de dor, colocam-na de pé, imobilizando seus braços atrás do corpo. Não importa a força que faça, não consegue desvencilhar-se.
— Achei a garota!
— Amélia quer essa aí viva.
— E quanto a esse aqui?
Alex consegue levantar os olhos para ver Nic. Imobilizado, está de peito para o chão. O que segura a arma apontada para sua cabeça está com um dos joelhos pressionando suas costas. Os olhos do garoto estão cheios de dor, olhando para a amiga.
Alex olha em volta. São quatro contra dois, armas apontadas para as próprias cabeças. Não tem chance.
— Matem.
— Não! — O grito de Alex é de cortar o coração. — Nic! — Ela debate-se, assim como o amigo, mas ele já parece ter desistido, olhando para ela com lágrimas nos olhos.
Ela chora copiosamente e debate-se das mãos que a seguram, em vão. Serve apenas para machucá-la.
Ela busca desesperadamente o olhar do amigo. Não pode perdê-lo também. Não pode perder o outro irmão. Ele segura as lágrimas, pronto para morrer. Cruza os olhos com os da amiga e diz para que só ela entenda.
— Feche os olhos. — Ela lê de seus lábios.
Em meio às lágrimas e ao gosto de sangue, ela obedece. Fecha os olhos com força. Fez tudo o que pôde. O barulho do tiro a despedaça.
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O som do tiro é sucedido por outro, bem ao lado de sua cabeça. Alex acha que está morta por um segundo, até sentir seu corpo tombar para o chão. O peso do homem que a segurava sobre ela. Sente o sangue do indivíduo em suas costas e corre a desvencilhar-se dele. Ainda em meio às lágrimas, tira a arma da bainha da cintura e aponta para a figura atrás dela.
Um mulher negra de cabelos crespos e curtos a observa, mas não há ameaça em seus olhos.
Alex imediatamente olha para Nic.
Está vivo.
Tão pasmo quanto ela. O que o segurava está tombado ao seu lado com a cabeça estourada, em uma visão que causaria pesadelos em qualquer um. O atirador em pé ao seu lado. Um garoto negro, novo, com os cabelos raspados.
A garota leva as mãos à boca e corre em sua direção, cambaleante, sem entender o que acabara de ocorrer. Nicolas a recebe de braços abertos, tentando manter-se mais controlado do que a garota. Ela vê o sangue em sua perna. O ferimento a bala na canela pulsando.
— Precisamos sair daqui, andem! — O soldado diz.
Alex olha para ele, ainda abaixada ao lado de Nic.
— Quem são vocês?
Ele não responde. Abaixa-se para ajudar Nicolas a se levantar. Coloca o braço do garoto ao redor de seu pescoço e o puxa para cima. Alex o ampara do outro lado. Nic grita com a dor na perna.
— Explico tudo depois. — A mulher segue caminho, e os três atrás a seguem, sem questionar. Eles acabaram de salvar sua vida.
Alex vê a luz do walk talk piscando. Imagina o que Rafael e Diego não passaram assistindo à cena que ocorrera. Ela o pega rapidamente e sintoniza.
— Alex! Elevadores, agora!
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