Depois de todos aqueles anos vivo, todos aqueles criminosos presos, todos aqueles crimes desvendados, eu estava morto. Morto por algo sobrenatural. Algo que, se eu não tivesse visto com meus próprios olhos, não teria acreditado. Morto por um Death Note.

Eu sabia que mais cedo ou mais tarde isso aconteceria, sabia que Kira me mataria, mas não queria que isso acontecesse, e por um instante, pensei que não aconteceria.

Eu nunca tive amigos, pensei ter um, mas não tive.

Quando eu descobri que o filho de Yagami era o Kira, pra mim ele não era nada além disso, nada além de um assassino perverso. Mas eu me envolvi demais no caso, racionalmente e, para minha infelicidade, emocionalmente. Eu jamais devia tê-lo chamado para a força-tarefa.

Mas agora tarde e tudo se revelara diante dos meus olhos.

A morte era estranha. Estranha de uma forma que eu jamais poderia imaginar, nem sequer nos meus sonhos. Para mim não houve céu nem inferno, nem mesmo o julgamento. Era como se eu apenas tivesse sido transportado para um lugar vazio, longe de qualquer coisa que pudesse ser vista. Era como se tivessem me esquecido naquele lugar, naquele vazio.

Agora eu não sentia fome, mas salivava cada vez que lembrava de meus amados doces. Watari me abandonou assim que chegamos aqui, dizia que encontraria alguma forma de escapar. Tolo, mesmo sem saber como, eu tinha certeza que isso era impossível.

Não sei para onde ele foi, mas nunca mais o vi, nem ele e nem ninguém. Apenas sentei e fiquei imóvel, por muito tempo. Talvez tempo de mais.

Eu não sabia quanto tempo havia passado. Estava com os olhos fechados, pensando em tudo aquilo que vivera, desde o orfanato, até me tornar o L. Foi então que senti uma mão tocar meu ombro. Abri os olhos lentamente. Eu conhecia aquela pessoa que estava parada em minha frente.

Ele estava mais velho, mas ainda era o mesmo. Sua roupa estava manchada de sangue, o que acusava que sua morte fora muito pior que a minha. Os cabelos castanhos ainda cobriam os olhos. Nos lábios um sorriso.

–Eu sabia que um dia voltaríamos a nos ver... Light.

Eu não movi um músculo enquanto falava. Ele, por sua vez tirou a mão do meu ombro e permaneceu em pé na minha frente com os braços abertos.

–Ryuzaki, não vai dar um abraço em seu velho amigo?

Eu fechei os olhos ao ouvir aquilo. Como ele ainda podia se dizer meu amigo?

–Acho que agora você não pode me matar mais, não precisa mais me chamar de Ryuzaki, meu nome é Lawliet.

Ele pareceu pensar um pouco. Abaixou os braços.

–L, eu não queria... Eu ia desistir de tudo... Mas a Shinigami, a Remu, ela agiu antes do que eu havia previsto... Desculpe L.

Ele caiu de joelhos em minha frente. Realmente ele era bom ator, ou será que desta vez estava falando a verdade? De uma coisa eu sabia, não iria acreditar em mais nenhuma palavra de que ele dissesse. Levantei-me e comecei a andar dando-lhe as costas.

–Um dia a gente se encontra Yagami, um dia.

Ele levantou depressa. Correu e segurou meu ombro me puxando.

–Espera! Por favor, me perdoe... Não era eu, eu estava sob o controle do caderno...

Eu suspirei. Não, eu não aguentava mais.

–Sim, eu te perdôo- Nessa hora a minha calma se esvaiu e eu não pude controlar mais o tom da voz- Por ter me matado! Logo você, que eu considerava ser meu único amigo! Nunca mais fale comigo Light! Nunca mais!

Eu me livrei de sua mão e continuei a caminhar. Ele gritou.

–Espere, eu sei como sair daqui.

–Não diga asneiras.

–Eu sei sim. Há algum tempo Ryuk veio até mim. Ele me disse que havia um jeito de fugir daqui.

Eu continuava a caminhar.

–Boa sorte então.

–Eu quero que você venha comigo.

–Por que você não procura Misa? Ela deve estar por ai, leve ela.

–Por favor L, venha comigo.

Maldição! Por que ele fazia isso comigo? Droga, eu não devia ir com ele, ele era um assassino! Mas quando me dei conta estava caminhando ao seu lado. Como se perdoa alguém por ter causado a sua morte? Eu não sei, mas de alguma forma eu havia perdoado.

–Então ham... Como exatamente nós sairemos daqui?

Ele olhou para o chão, meio como se tivesse encabulado.

–Bem, é que parece que assim como existe um Death Note, existe um Life Note, mas para ele funcionar em alguém tem de ceder anos de vida para o mortal. Tipo o inverso de Death Note.

–Hum, e você acha que algum alguém vai ceder anos de vida para nós?

Era óbvio que ninguém faria isso. A não ser que...

–Ryuk fará um Shinigami escrever no caderno, pensando se o Death Note.

Sim, a mente de Light era doentia. Ele pensava em cada detalhe, em cada pedacinho. Exatamente como eu.

Notas finais
Neste capítulo as mudanças foram quase imperceptíveis, apenas alguns erros de português foram corrigidos e algumas frases reestruturadas.